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Jornalismo

Embora sempre referido como jornalista, Cid Moreira, que morreu nesta quinta-feira, era só um locutor. Sua voz retumbante foi uma das inúmeras a ganhar território nacional graças à supremacia cultural da TV Globo durante a ditadura militar e quase sempre funcionava como a voz do status quo, dando com seu grave timbre a versão oficial para acontecimentos cotidianos. Unanimidade em seu tempo à frente do Jornal Nacional, deixou a bancada do programa para ler a Bíblia em outra emissora, o que diz muito sobre seu papel histórico. Prefiro lembrá-lo quando seu patrão teve de curvar-se a Leonel Brizola e o obrigou judicialmente a ler em voz alta aquilo que boa parte do país sabia ou suspeitava. Assista abaixo: Continue

E pelo visto o disco de remixes de Brat, o disco-acontecimento de 2024, é o passo global que Charli XCX precisava dar pra aumentar a expectativa sobre sua turnê. Nos últimos dias uma série de cartazes, outdoors e pôsteres foram espalhados em diferentes cidades do mundo sempre puxando algum artista importante local para o formato texto sem formatação e fundo verde-limão que caracteriza a direção de arte do projeto-objeto da estrela inglesa. Em seu país de origem surgiram teasers que indicavam os nomes do grupo The 1975 (em Manchester, cidade-natal da banda), da one-girl-band Japanese House e do produtor Jon Hopkins (ambos em Londres, onde eles nasceram), nos EUA surgiram referências ao cantor folk Bon Iver (no estado de Wincosin, onde este nasceu) e da cantora Tinashe (na região de Pasadena, na Califórnia, onde ela nasceu) e na Suécia apareceram referência aos rappers locais Bladee e Yung Lean (em aparições em Estocolmo, onde os dois nasceram), além de pôsteres com os nomes da cantora Chapell Roan e do vocalista do Limp Bizkit Fred Durst, mas especula-se que estes dois poderiam ter sido forjados por fãs ou empresários dos artistas, para aproveitar o hype do ano. Os fãs ainda lembraram do caminhão que anunciava o nome de Ke$ha em Nova York há algum tempo, além de tentar acertar outros possíveis convidados ao listar as Haim, Addison Rae, Rosalía, Kim Petras, Caroline Polachek e até Rebecca Black (!!!). Tem muita limonada pra sair desse verde-limão ainda, diz aí…

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Não dá pra ficar parado…

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A banda mais barulhenta de Seattle volta ao Brasil depois de 11 anos: é o que promete o André Barcinski, que publicou um vídeo do grupo Mudhoney anunciando quatro shows no país e um na Argentina, que devem acontecer em março do ano que vem. E segundo o próprio Barcinski, que está trazendo ótimos shows para o Brasil ao lado do Leandro “Emo” Carbonato, da Powerline, na próxima quarta-feira eles anunciam as datas, os locais e quando começam a venda dos ingressos. Que notícia boa!

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Paul McCartney novamente volta ao nosso continente e decidiu começar a perna 2024 de sua turnê fazendo história, ao tocar, pela primeira vez ao vivo, a música que lançou no ano passado ao lado de Ringo Starr como “a última música dos Beatles”, ao reunir gravações póstumas de John Lennon e George Harrison. “Now and Then” foi a única surpresa no setlist que apresentou nesta terça-feira em Montevidéu, no Uruguai, na primeira das nove apresentações que faz na América do Sul neste mês, quando também passa pela Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Brasil – as datas no país acontecem nos dias 15 e 16 (em São Paulo) e no dia 19 (em Florianópolis). Depois, Paul segue com sua turnê pela Costa Rica, México, França, Espanha e Inglaterra, quando encerra o ano em duas apresentações na Arena O2, em Londres, nos dias 18 e 19 de dezembro. Assista à primeira apresentação ao vivo de “Now and Then” abaixo: Continue

Triste coincidência o fato de um dos fundadores do Trio Mocotó, o grande cuiqueiro Fritz Escovão, nascido Luiz Carlos de Souza Muniz, morrer poucos meses após a morte de seu substituto no grupo, o mestre Skowa. Um ás na cuíca, era peça fundamental no trio que acompanhou Jorge Ben no início dos anos 70 ao lado de seus compadres Nereu Gargalo e João Parahyba e que seguiu fazendo história mesmo após Ben ter mudado de fase. O grupo surgiu em uma das encarnações do bar Jogral, em São Paulo, e desde 1970, firmou-se como uma das principais usinas sonoras brasileiras, acompanhando artistas como Chico Buarque, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Cartola em suas passagens pela cidade. O suíngue levanta-defunto característico do trio logo faria turnês em todo o país e no exterior, eternizando seus sucessos em álbuns imortais como Muita zorra (1971), Trio Mocotó (1973) e Trio Mocotó (1977), além de tocar ao lado de Ben nos eternos Força bruta (1970) e Negro é lindo (1971). Um dos maiores nomes do samba-rock, o trio desfez-se no meio daquela década e ressurgiu no início deste século, com o disco chamado Samba-Rock, lançado em 2001, mas Fritz, alegando motivos de saúde, deixou a banda naquele momento, que seguiu com o recém-falecido Skowa em seu lugar. Um mestre que se vai.

Densa e hipnótica. Assim foi a apresentação que Fernando Catatau e Isadora Stevani fizeram neste primeiro dia de outubro no Centro da Terra, quando reuniram suas ferramentas para criar uma instalação em movimento chamada Outra Dimensão. A descrição do que acontecia no palco – em que o guitarrista desdobrava seu instrumento com auxílio de sintetizadores e pedais para ter sua sonoridade traduzida em movimento pelas imagens em movimento reativas da artista visual – parece simples mas criava um espaço imaginário único, em que coordenadas cartesianas fluidas buscavam firmar alguma referência no que chegava em forma de som, conduzindo o público a um transe que por vezes era idílico e onírico e em outras era pesado e incômodo, sem nunca perder sua natureza abstrata, mesmo quando a guitarra soava apenas como uma guitarra. Um encontro artístico a dois ao mesmo tempo introspectivo e expansivo, este mapa de um não-território me pareceu apenas o primeiro passo numa parceria que pode abrir ainda mais fronteiras a cada nova apresentação. Por isso, que venham outras!

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Começamos o outubro de música no Centro da Terra abrindo um portal para o encontro de linguagens, quando o músico e produtor Fernando Catatau e sua companheira, a artista plástica Isadora Stevani, misturam som em imagem num espetáculo inédito concebido especialmente para o teatro, que batizaram de Outra Dimensão. Nesta realidade não-existente, os dois dialogam sobre a experiência do tempo, a percepção da realidade e os mistérios da existência em uma noite que une texturas sonoras elétricas e eletrônicas a visuais de diferentes naturezas que convergem-se no mesmo espaço imaginário. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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Gole final

Lindo o encerramento da temporada que o Gole Seco fez às segundas de setembro no Centro da Terra, quando puderam aprofundar suas diferentes personalidades musicais em espetáculos solo em que sempre contavam com a presença das outras três para um momento dedicado ao grupo vocal. A quinta apresentação – num mês com cinco segundas-feiras – trouxe o grupo mostrando novos arranjos em cima do repertório de seu primeiro disco, além das contribuições que cada uma trouxe para o grupo em suas apresentações individuais, funcionando como um balanço e compilação de melhores momentos da temporada. Assim, Loreta Colucci sugeriu “Derramou” de Alessandra Leão, única composição da noite que contou com um instrumento além das vozes, quando a própria Loreta puxou o violão; Giu de Castro pinçou sua parceria com o poeta alemão pré-romântico Goethe em “Distante Amor”; Niwa chamou Björk com as paisagens emocionais de “Jóga” e Nathalie Alvim fez todos chorar com os “Soluços” de Jards Macalé. Entre estas, brincaram e envolveram o público com exercícios, jogos e malabarismos vocais que ao mesmo tempo que eram uma deixa para exibir seus talentos no gogó, também tocaram a todos com uma sensibilidade à flor da pele, realçada pela bela luz de Letícia Nanni, que iluminou magistralmente as cinco noites. Foi demais!

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Kris Kristofferson, que morreu neste sábado, revolucionou a música country sem criar alarde – mesmo porque este papel é um tanto contraditório para um gênero tradicionalmente conservador. Ele já merecia um lugar na história do gênero ao entrar pela porta dos fundos do gênero no final dos anos 60, quando quis chamar atenção de seus ídolos, como quando tentou abordar Bob Dylan quando era faxineiro na gravadora Columbia, ou quando apareceu na casa de Johnny Cash com um helicóptero, quando frilava como piloto no mesmo período. Tais abordagens surtiram efeito e logo ele trazia referências da contracultura sessentista ao centro musical do conservadorismo nos EUA, falando de alcoolismo, sexo fora do casamento e mensagens contra a guerra do Vietnã na época em que o country era a trilha sonora do status quo político daquele país. Alimentou o movimento que mais tarde ficou conhecido como “country fora-da-lei” e musicalmente trouxe elementos do folk hippie para aquele universo musical. Autor de músicas que tornaram-se conhecida nas vozes de outros cantores (como “Help Me Make It Through the Night”, “Sunday Mornin’ Comin’ Down” e “Me and Bobby McGee”, ele também firmou carreira como ator no cinema ao estrelar filmes como Pat Garrett & Billy the Kid (de Sam Peckinpah), Alice Não Mora Mais Aqui (de Scorsese) e Nasce uma Estrela (de Frank Pierson), este último lhe garantiu o Globo de Ouro de melhor ator em 1976. Nos anos 80, criou o grupo Highwaymen ao lado de Johnny Cash, Waylon Jennings e Willie Nelson e sempre esteve ao lado das causas progressistas, mesmo seguindo firme como um ídolo country.