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Jornalismo

O argentino Jorge Mario Bergoglio despediu-se deste plano nesta segunda-feira e sua biografia se mistura com o momento em que a igreja católica parece ter perdido a importância política que já a tornou uma das principais forças do mundo. Mas em vez de apertar o cinto e radicalizar para um lado mais conservador da religião, o autodenominado Papa Francisco preferiu recuperar valores cristãos tão pouco em voga neste novo século e sempre estendeu a mão para os necessitados e os mais fracos, reforçando que a missão de Jesus Cristo era mais humanitária que evangelizadora. Resta saber se seu sucessor vai entender esse legado ou se vai preferir se associar à onda fascista que insiste em impor-se à força (como a própria igreja fez por muitos séculos), mas o fato é que ele já não é um personagem tão importante quanto seus antecessores…

Segunda-feira é aniversário dele, mas, como já havia sido especulado, foi Robert Smith quem deu um presente para os fãs do Cure ao anunciar neste dia 21 de abril Mixes of a Lost World, disco triplo com remixes feitos por dezenas de produtores diferentes para as músicas do álbum mais recente da banda, a parede de melancolia Songs of a Lost World, lançado no ano passado. O novo capítulo do disco de 2024 (já em pré-venda) será lançado em formatos duplo e triplo no dia 13 de junho e a banda já mostrou dois remixes pesados feitos por gigantes da eletrônica de épocas diferentes, os produtores Paul Oakenfold (que retrabalha “I Can Never Say Goodbye”) e Four Tet (que vai na veia da primeira faixa do disco, “Alone”). Além destes também estarão presentes nomes como Chino Moreno (dos Deftones), Mura Masa, Mogwai, Twilight Sad, Orbital, Daniel Avery, 65daysofstatic e Trentemøller, entre vários outros nomes menos conhecidos. Smith comentou que começou a receber remixes não-solicitados de diferentes produtores logo após o natal e percebeu que poderia fazer alguma coisa com os remixes que vinha recebendo. Não custa lembrar que ele já vinha falando sobre um segundo disco (e talvez um terceiro!) saindo do processo de Songs of a Lost World ANTES do natal, então pode ser que esse disco de remixes seja apenas um aquecimento para o(s) próximo(s) discos do Cure.

Ouça os primeiros singles e veja a relação de todos os remixes abaixo: Continue

A sina dos Buarque de Hollanda, desde o patriarca Sérgio, autor do clássico da sociologia brasileira Raízes do Brasil, talvez seja viver à sombra do sobrenome, algo que foi desviado pela primogênita Heloísa Maria Buarque ao adotar o apelido artístico e Miúcha, encurtado pela irmã Ana que preferiu apenas o último sobrenome da família e superado pelo único filho homem, Chico, que transformou-se no novo dono do nome familiar para si. Já a caçula Cristina Buarque, que morreu neste domingo vítima de um câncer, ignorava a fama e preferia fazer música, vivendo à parte do mundo das colunas sociais frequentadas pelos irmãos e preferindo cuidar de suas rodas de samba, sua grande paixão. Sambista de corpo e alma – e “avessa aos holofotes”, como escreveu o filho Zeca Ferreira, ao anunciar a morte da mãe em sua conta no Instagram -, era também uma grande teórica do gênero musical pátrio, pinçando pérolas do repertório brasileiro por toda sua discografia.

Sempre que Negro Leo se propõe a levar um disco para o palco, seu desafio não é simplesmente soar parecido ou reproduzir os fonogramas com a força da música tocada ao vivo, mas transformar uma obra sonora em um espetáculo vivo em que a participação do público possa ser menos que passiva e a interação entre audiência e artista capture a essência conceitual da peça musical registrada em disco. E assim foi feito quando levou o ótimo Rela – seu primeiro disco pós-pandêmico – para o palco do Sesc Pompeia neste sábado. Disco eletrônico composto sobre bases rítmicas do boi maranhense (de sua terra-natal – apesar de carioquíssimo, Leo nasceu na pequena Pindaré-Mirim, no estado mais nortista do nordeste brasileiro), Rela trata das novas formas de lidar com o amor e o sexo a partir da interação humana feita pelas plataformas digitais. Se apenas transposto para o palco, essa faixa sonora bebe tanto no trap, no R&B e na música eletrônica experimental, mas não limita-se ao som, indo desde o figurino do artista (blazer de lantejoulas sobre o torso nu) às paisagens geradas por inteligência artificial nos telões. E por mais que a presença dos produtores musicais Vasconcelos Sentimento, Eduardo Manso, Lcuas Pires e do diretor do show e técnico de som da noite Renato Godoy tenham sido cruciais para mexer com o público, a chave da noite era o próprio corpo de Leo, entregue a uma performance em escala gigantesca. Logo na segunda música, ele já havia se jogado na plateia e aberto uma roda no meio do povo para puxar pessoas aleatórias (ou não) para dançar a dois no meio do público, trouxe sua companheira Ava Rocha para dominá-lo e chicoteá-lo no palco, puxou primeiro uma coreografia no fundo do palco (convidando todos para “o maior flash mob que o Sesc Pompeia já viu”), depois um trenzinho que fez todos circularem pela comemoria para terminar rastejando pelo chão até o backstage. Uma aparição intensa e um espetáculo pós-moderno que não bastasse transpor a sensação de bailão do disco de uma forma extrassonora, ainda terminou trazendo Twin Peaks para o norte do Brasil, transformando o tema da série de David Lynch em um pagodão eletrônico e colocando a própria Laura Palmer (mais uma vez uma criação de inteligência artificial) dançando como se fosse uma bailarina de música pop nordestina, num remix inacreditável para a mais inesquecível melodia de Angelo Badalamenti rebatizada como “Davi do Lins”. Um devaneio físico coletivo memorável.

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Vem com a Clairo

Já a apresentação de Clairo no segundo fim de semana do festival Coachella foi idêntica à primeira, à exceção da participação do político Bernie Sanders. Mas isso não é um problema, uma vez que seu show está cada vez mais redondo e ela cada vez mais à vontade frente às multidões, não deixando que a larga escala interfira na atmosfera intimista de seu disco Charm, base de suas atuais apresentações ao vivo. Mas a transmissão online do festival proporcionou um momento inusitada e magicamente sincronizado, quando transmitiu a apresentação da boy band de k-pop Enhypen quando Clairo cantava seu hit “Bags”, causando uma breve pane mental em quem assistia o show ao vivo pela web provavelmente elucidada com um sorriso.

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Viva o verão!

Em sua aparição no segundo fim de semana do festival Coachella, nos Estados Unidos, Charli XCX repetiu o show da semana passada, só que com menos atrações – saíram Lorde, Billie Eilish e Troyan Sivan para a entrada de Addison Rae (que acabou de lançar seu novo single, “Headphones On”) como participação em “Von Dutch”. Mas a principal diferença ficou para o final, quando ela voltou a falar – pelos telões – sobre um fim iminente para seu verão Brat saudando seus pares – tanto da música quanto do cinema (não esqueça que ela está fazendo um filme com o estúdio A24 e teve seu Letterboxd revelado no fim do ano passado) – que estão prestes a lançar novos trabalhos, evocando um verão dedicado a Addison Rae, PinkPantheress, Haim, Pulp, Aidan Zamari, Yung Lean, Ethel Cain, David Cronenberg, Kali Uchis, Perfume Genius, Sean Price Williams, Rosalia, Ari Aster, Kogonada, Caroline Polachek, Paul Thomas Anderson, Joachim Trier, These New Puritans, Hailey Benton Gates, Turnstile, A$AP Rocky, Darren Aronofsky, Blood Orange, Bon Iver e Celine Song. Ela ao mesmo tempo deu uma das chaves da fórmula de seu sucesso do ano passado (dedicando uma estação inteira a um álbum – e podendo esticá-la se desse certo) quanto acenou para possíveis colaborações em projetos futuros. Muito gênia.

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Meu camarada Carlos Albuquerque, o bom e velho Calbuque, está na equipe da recém-lançada edição brasileira da clássica revista norte-americana Esquire, que chega impressa ao Brasil em edições especiais. E no primeiro número, ele organizou uma enquete com um júri da pesada incluindo jornalistas, executivos da indústria e artistas (este que vos escreve incluso) para descobrir quais são os 20 discos mais importantes desde 2020 até hoje e o resultado (que pode ser visto abaixo) está nas bancas com um texto de apresentação do próprio Calbuque.

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Como quem nao quer nada, o Cure soltou, nessa sexta-feira, um tweet com três imagens: duas fotos com um iPod contendo nomes de músicas de seu disco mais recente, o excelente Songs of a Lost World, grafados como se fossem arquivos de gravação (transformando nomes de músicas em siglas e anotando as diferenças entre os arquivos de áudio), e com suas costas com um adesivo escrito CURE MOALW, que levou muitos fãs a tentar decifrar a segunda palavra como outra sigla, fazendo referência ao disco lançado no fim do ano passado, mas com uma mudança na primeira palavra. O que tudo leva a crer é que o M no início da sigla seja de Mixes of a Lost World, em que o grupo relê canções do disco de 2024 em novas versões. Fãs mais devotos conseguiram inclusive captura uma tela na busca do Google que mostrava que um disco com esse nome já estava à venda na versão online da loja Fnac, indicando inclusive que o álbum teria TRÊS VOLUMES. A terceira imagem do tweet trazia uma imagem colorida como um mosaico eletrônico de baixa resolução ao som ambient que mistura texturas digitais e cordas, o que reforça que o projeto seja um disco de remixes – ou que pelo menos vá para essa praia, tão cara à própria carreira do Cure. E como fez antes do lançamento do disco do ano passado, o tweet em questão anunciava uma data em algoritmos romanos: IV-XXI-MMXXV, o que apontaria para o dia 21 de abril deste ano, que também coincide com o aniversário do líder da banda, Robert Smith. O próprio Smith não disfarça ao contar em entrevistas desde o ano passado que já tem material não apenas para um novo álbum, mas para inclusive um terceiro, que avançaria ainda mais nesta seara da ambient music e do noise. Que venha!

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Paul McCartney descobriu mais fotos que fez com sua Pentax 35 mm no auge da Beatlemania, entre dezembro de 1963 e fevereiro de 1964 e elas serão exibidas pela primeira vez em uma exposição que abre no próximo fim de semana na galeria norte-americana Gagosian, em Los Angeles. Rearview Mirror: Photographs, December 1963–February 1964 reúne 36 fotos inéditas e abre logo após ele ter lançado o livro e a exposição itinerante Eyes Of The Storm, em 2023, que também traz fotos feitas pelo beatle naquele mesmo período. A exposição fica em cartaz até junho e não há previsão que torne-se outro livro ou que irá para outra galeria – até agora.

Veja algumas fotos abaixo, bem como um vídeo feito pela galeria que mostra o beatle comentando (e autografando) suas fotos, ampliadas em tamanhos que ele nunca havia imaginado: Continue

Já está no ar o registro em vídeo do festival Cecília Viva, que aconteceu no Cine Joia em fevereiro deste ano, reunindo shows de artistas como Boogarins, Crizin da Z.O., Kiko Dinucci, Test, DJ Nuts e a primeira apresentação ao vivo das Rakta desde a pandemia para arrecadar grana para ressuscitar a Associação Cecília, clássico ninho de projetos experimentais musicais em São Paulo que sucumbiu à violência paulistana no começo do ano passado. O filme, feito pela dupla Azideia Filmes (formada por Carlos Motta e Priscilla Fernandes), reúne os melhores momentos dessa histórica noite e capta bem o espírito de agradecimento espalhado entre público e artistas (além de várias aparições minhas no canto, sempre filmando tudo). E não é o último evento: a Associação promete novos eventos de diferentes portes ainda esse ano, o próximo deles acontecendo no dia 15 de maio no Porta, com atrações que serão reveladas em breve.

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