
“O fato de morarmos há bastante tempo em cidades e estados diferentes acabou por nos fazer criar raízes diversas com outros parceiros mais frequentes e próximos” – assim uma das duplas mais importantes (e longevas) da música brasileira anunciou sua separação neste sábado, num post em suas redes sociais. Juntos há 53 anos (se contarmos os quatro anos iniciais em que a dupla era um trio, com a presença do saudoso Zé Rodrix), o carioca Luiz Carlos Pereira de Sá e o baiano Guttemberg Nery Guarabyra se tornaram um dos principais expoentes de um gênero dos anos 70 conhecido como rock rural, que bebia tanto nas tradições sertanejas do país quanto na genealogia do rock tanto brasileiras quanto estrangeiras dos anos 60 e 70, assinando canções que são clássicos do cancioneiro popular brasileiro, como “Dona” (eternizada pelo grupo Roupa Nova), “Espanhola” (consagrada por Flávio Venturini) e “Verdades e Mentiras”, uma das canções que a dupla compôs para a trilha sonora da novela Roque Santeiro (além do tema do protagonista da saga, vivido por José Wilker). Em seu post de despedida, a dupla no entanto reforça que cumprirá os quatro shows já marcados, em São Paulo (dia 31 de maio), São Bernardo do Campo (dia 14 de junho), Belo Horizonte (dia 12 de julho) e Itajaí (dia 25 de setembro). Eu não duvido nada que o anúncio do fim da dupla possa inclusive aumentar seu número de shows nos próximos meses. Tomara: afinal eles merecem uma despedida em grande escala e o público também poderá vê-los antes de partirem para os chamados novos desafios.
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Arnaldo Antunes apresentou seu Novo Mundo em São Paulo neste fim de semana, quando esteve na choperia do Sesc Pompeia acompanhado de quase a mesma bandaça que o ajudou a erigir seu novo disco – além de Kiko Dinucci na guitarra, Vitor Araújo nos teclados e synths e Betão Aguiar no baixo, o novo grupo tinha Curumin na bateria (em vez do produtor do álbum, Pupillo) e Chico Salem ao violão e guitarras. Mas talvez por ter visto o primeiro dos três shows do fim de semana, na sexta-feira, tenha pego um momento em que eles ainda estavam tateando o novo show, o que fez a noite aquecer do meio pro fim. Com o foco no repertório do novo álbum (mas sem participações especiais – podiam ter chamado Ana Frango Elétrico ou Vandall para participar de uma das músicas), Arnaldo também passeou por outros momentos de sua carreira, visitando tanto Titãs (“O Pulso” e “Comida”, que apareceu no bis) quanto Tribalistas (quando engatou “Já Sei Namorar” logo no começo e “Passe em Casa” antes de terminar a primeira parte) quanto hits de sua carreira solo, mas o show engrenou bonito quando pinçou uma nova (“Tire Seu Passado da Frente”) e emendou com uma versão para o reggaeinho “Cultura”, que, ao deixar na mão dessa banda, virou uma dubzeira cabulosa e o primeiro grande momento desse grupo cinco estrelas soando como uma unidade em si, em vez de mera cama sonora para as canções de Arnaldo. Autor e banda ainda estão se reconhecendo no palco e é inevitável que aos poucos todos soarão como uma só força, mesmo com os holofotes voltados para o poeta.
#arnaldoantunes #sesscpompeia #trabalhosujo2025shows 069

“Uma das melhores homenagens que tive na minha vida”, confessou emocionado Paulinho da Viola ao receber, no Recife, a presença do boneco carnavalesco gigante de Olinda feito em sua homenagem. O “Paulozão da Viola” foi feito por Guilherme Paz, escultor da Embaixada dos Bonecos Gigantes de Recife e foi uma surpresa para o cantor carioca que o escultor combinou com a esposa do homenageado, Lila Rabello. Paulinho chorou ao ver a célebre homenagem, que aconteceu quando sua turnê Quando o Samba Chama passou pelo teatro Classic Hall, na sexta passada.
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Depois de uma estreia de tirar o fòlego em 2023 (com nada menos que o show que João Gilberto fez na inauguração do Sesc Vila Mariana, em 1998), a coleção Relicário, que reúne gravações ao vivo realizados em apresentações musicais nas unidades paulistanas do Serviço Social do Comércio, vem reunindo uma coleção de joias de diferentes épocas e escolas musicais que além de fazer jus ao seu título, também são amostras da importância que o serviço tem na cultura brasileira da virada do século 20 para o século 21. E depois de números com Dona Ivone Lara (também no Vila Mariana, em 1999), João Bosco, Renato Teixeira (ambos em shows próprios no Consolação, em 1978), Adoniran Barbosa (também no Consolação, em 1980) e Zélia Duncan (no Sesc Pompeia, em 1997), o Selo Sesc traz não apenas um registro de um grande nome da música brasileira, mas um momento anterior ao nascimento fonográfico desse ícone, quando ouvimos Arrigo Barnabé reger sua banda com a ópera dodecafônica que lançou sua carreira meses antes de ela ser lançada em disco, provando que sua maturidade musical havia começado antes mesmo de sua discografia. Relicário: Arrigo Barnabé & Banda Sabor de Veneno (ao vivo no Sesc 1980) traz Clara Crocodilo tocada quase idêntica no dia 29 de junho de 1980 no Sesc Consolação, quase um semestre antes de seu lançamento em novembro daquele mesmo ano. A principal mudança é a faixa de abertura, a quase instrumental “Lástima”, que não entrou no disco, substituída por “Acapulco Drive-In”, algumas mudanças na letra de “Diversões Eletrônicas” e a ausência do trombonista Ronei Stella, o responsável pelo figurino da banda, que vestia-se de presidiários a partir de um bloco de carnaval que o músico conseguiu com amigos. O resto da obra é idêntica tanto ao disco lançado em seguida, quanto às apresentações que Arrigo faz até hoje, provando que a saga que assiste a desilusão de um office-boy na cidade grande transformar-se em um monstro mutante inventado num laboratório foi visionária ao antever um futuro alegórico muito parecido com o mundo em que vivemos hoje, sua narrativa picotada que mistura quadrinhos e rádio-jornal muito próxima ao excesso de informações que vivemos via redes sociais. A banda Sabor de Veneno reunida para este show era praticamente a mesma que gravou o disco. Além de Arrigo no vocal principal e no piano, a banda ainda tinha Bozo Barretti (sintetizador e teclados), Chico Guedes (sax tenor), Felix Wagner (clarinete), Gilson Gibson (guitarra), Mané Silveira (sax soprano), o irmão de Arrigo, Paulo Barnabé (bateria), Regina Porto (piano elétrico), Rogério Benatti (percussão), Suzana Salles e Vânia Bastos (vozes), Tavinho Fialho (baixo) e Ubaldo Versolato (sax alto). As únicas ausências que não estão neste show e só apenas no disco são os vocais convidados de Tetê Espíndola, Eliana Estevão, Passoca e Gilberto Mifune, o clarinete de Marcelo Galberti e o cello de Mario Manga. O disco é uma joia irrepreensível, que mostra tanto a importância do Sesc para a realização de apresentações deste tipo quanto a genialidade precoce do autor paranaense, com uma obra intacta como se tivesse sido composta 45 anos depois, em 2025. Muito foda.
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Fiona Apple tem andado muito agitada (pros seus padrões) nos últimos meses. Há cinco anos sem lançar nada novo (quando pegou todo mundo de surpresa com o arrebatador Fetch the Bolt Cutters em plena primeira temporada da pandemia), ela tem soltado sua voz em diferentes gravações de autores diferentes. Agora é a vez de ouvi-la cantando o mestre Neil Young, pérola registrada a partir da coletânea Heart Of Gold: The Songs Of Neil Young Volume I, da qual já havia comentado ao falar das participações de Courtney Barnett e Eddie Vedder, e que ainda traz as presenças de Sharon Van Etten, Doobie Brothers com Allison Russell, Lumineers, entre outros. O tributo foi lançado nessa sexta, trazendo a versão que Fiona fez para a imortal faixa que batiza a compilação, sem mexer em nada nos arranjos, apenas trazendo cordas, baixo e bateria para acompanhá-la na voz e piano, sempre impecáveis. Fiona vem se mexendo mais do que o comum há um ano, quando gravou uma música com os Iron & Wine e no final do ano passado participou do tributo ao baterista e compositor Don Heffington. Este ano participou de uma música do disco novo dos Waterboys e agora vem com essa linda versão para o bardo canadense. Sei que é cedo pra tentar se empolgar com um possível disco novo, mas os sinais estão aí… Fiona quer falar.
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Apesar da chuva, do frio e da quinta-feira, tivemos uma edição quente do Inferninho Trabalho Sujo no Picles com duas catarses lideradas por um homem só. A priimeira aconteceu na volta ensandecida de Monch Monch para o Brasil. Depois de uma temporada em Portugal, o frontman endiabrado Lucas Monch reuniu seu bando mais uma vez para tirar a poeira de músicas antigas e mostrar algumas novas que estarão em seu próximo disco, programado para sair ainda este semestre. O furacão elétrico de noise, rock e loucura contou com participações espontâneas, incluindo sax free jazz e gaita (esta tocada por ninguém menos que o tangolo mango Felipe Vaqueiro), e hits instantâneos como “Merda” e “Jeff Bezos Me Paga Um Pão de Queijo”. Como ele mesmo diz: “AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!”
Depois foi a vez de Jair Naves fazer sua estreia (!) no Picles e apesar do tom grave e sério que começou sua apresentação (tocando violão), logo logo o cantor e compositor entrou no clima da noite e se jogou pra cima do público, transformando seu show naquela missa catártica e elétrica que quem acompanha sua carreira bem conhece. O público cantava de cor suas letras densas e quilométricas enquanto ele aproveitou para comemorar a inusitada (atrasada e obviamente festejável) prisão de Fernando Collor, pedindo pra que ela abrisse caminho pra que seu xará também chegasse à cadeia. Uma noite e tanto!
#inferninhotrabalhosujo #jairnaves #monchmonch #picles #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2025shows 067 e 068

O próximo Inferninho Trabalho Sujo acontece numa quinta-feira, dia 24 de abril, no clássico Picles, quando reunimos dois bardos de gerações diferentes que se entregam para o público em catarses apoteóticas. Abrindo a noite temos o jovem Lucas Monch, que, depois de uma temporada em Portugal, reúne um monte de gente boa para colocar seu projeto solo pela segunda vez no palco do clássico sobrado de Pinheiros. Depois é a vez do mestre Jair Naves trazer suas baladas intensas e rock cru para adensar ainda mais a noite, que vira uma pista de dança logo em seguida, quando eu e a Fran entramos com os hits que transformam a noite em uma pista de dança interminaável. Oa ingressos já estão à venda – e se liga que agilizando essa compra até um dia antes da festa, dá pra deixar seu nome numa lista que permite a entrada de graça antes das 21h. Vamo nessa!

Ícone queer da música brasileira, Edy Star – que foi o primeiro artista do país a assumir-se publicamente como homossexual, em 1973 – morreu nesta quinta-feira, após complicações devidas a um acidente doméstico. Baiano de Juazeiro, Edivaldo Souza tornou-se Edy Souza quando começou a carreira artística, ao mudar-se para Salvador, primeiro para trabalhar como artista plástico e aos poucos envolvendo-se com a música. Frequentava núcleos distintos da cidade ainda nos anos 60, como a cena rock liderada por Raul Seixas – ainda chamado de Raulzito à época – e a cena do Teatro Vila Velha, influenciada pela bossa nova, que reunia os baianos mais conhecidos da música brasileira (Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Tom Zé), mas não era próximo de nenhum destes grupos (embora seja coautor da primeira canção de Gil lançada em compacto, “Procissão”). Tornou-se apresentador de TV na capital baiana ainda naquela década, quando além de trazer todos estes para apresentações no estúdio, também trouxe futuras celebridades da década seguinte, como Pepeu Gomes e Moraes Moreira. Morou um tempo no Recife, quando conheceu e trabalhou com Geraldo Azevedo e Naná Vasconcellos, mas mudou-se para o Rio de Janeiro a convite de Raul, depois de ser demitido da emissora em que trabalhava. No Rio começou a trabalhar sua carreira musical, primeiro no disco conceitual imaginado por Raul Seixas que o reuniu a outros novatos como Sérgio Sampaio e Míriam Batucada. Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 foi lançado em 1971 e consagrou sua mudança de nome, quando assumiu-se Edy Star e passou a brincar com sua androginia em público. O disco foi recolhido pela gravadora e sua carreira musical só começou de verdade anos depois, quando começou a fazer shows em cabarés na decadente Praça Mauá, no centro do Rio. Suas apresentações fizeram tanto sucesso que ele passou a ser chamado para festas da alta sociedade carioca, quando veio o convite para gravar seu primeiro disco, Sweet Edy (1974), com canções compostas apenas para ele por nomes como Roberto e Erasmo Carlos, Caetano, Gil, Moraes e Luiz Galvão, Jorge Mautner, Getúlio Côrtes, Leno e Raul. Este sucesso o fez ser convidado para a edição brasileira do musical Rocky Horror Picture Show no ano seguinte, quando interpretou o cientista não-binário Frank-N-Furter, abrasileirando o musical com referências ao teatro de revista e chanchadas. Seguiu sua carreira erraticamente até o início dos anos 90, quando mudou-se para a Espanha. Voltou para o Brasil há pouco mais de dez anos, quando foi redescoberto e adotado por uma nova geração, voltando a fazer shows e a gravar discos (como
Cabaré Star, produzido por Zeca Baleiro, em 2017, com participações de Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Ângela Maria, Felipe Catto e Emílio Santiago). Seu trabalho mais recente é Meu Amigo Sérgio Sampaio, um tributo ao capixaba kavernista lançado em 2023, um ano antes do lançamento do documentário Antes Que Me Esqueçam, Meu Nome é Edy Star, de Fernando Moraes. Edy havia acabado de gravar um disco em homenagem a outro compadre kavernista, Raul Seixas, que conta com a participação de Edson Cordeiro. Embora não haja nenhuma notícia sobre este disco após seu falecimento, é provável que seu primeiro disco póstumo seja lançado em breve.

Depois da Lorde, as Haim também resolveram adiantar o lançamento de seu novo single e o grave “Down to Be Wrong”, que sairia na sexta, foi disparado já nesta quinta-feira – e é a música mais interessante deste bloco de três músicas que as irmãs lançaram para aquecer antes do disco novo, cujo título foi revelado em um show que as irmãs fizeram em Los Angeles nesta quarta, quando também revelaram mais uma música nova (a balada blues “Blood on the Streets”, que contou com a participação da novata onipresente Addison Rae). O quarto disco da banda será chamado de I Quit, teve sua capa (acima) fotografada pelo amigo diretor Paul Thomas Anderson e será lançado no dia 20 de junho. Ouça as músicas novas abaixo: Continue
