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Entrevista

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Quem vê o sorriso e o carisma de Pablo Miyazawa não faz ideia de que, além de um dos principais nomes da história do jornalismo que cobre videogames no Brasil e de ter ajudado a criar a versão brasileira da Rolling Stone, ele é um dos principais jornalistas que cobre cultura pop no país. Conheço-o há quase vinte anos e pude acompanhar sua ascensão de perto, feliz de ver que, mesmo com sua importância, ele não perde suas principais qualidades: a transparência, a humildade, a vontade de aprender e a curiosidade sobre quaisquer novidades que aparecerem. Chamei-o para falar de sua trajetória e puxar uma discussão sobre cultura e jornalismo que, pelo jeito, vai longe.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além do Pablo, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, Ana Frango Elétrico, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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“Pra mim é tipo o nosso Incesticide, eu inclusive quis chamar de AustIncesticide”, ri o guitarrista Benke Ferraz sobre o recém-lançado disco de sobras que não entraram em seus dois discos mais recentes, Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida, ambos compostos e gravados em uma casa em Austin, no Texas, nas três temporadas entre 2016 e 2018 quando o grupo goiano passou pelos Estados Unidos nos anos passados. A referência à coletânea de músicas soltas que o Nirvana tinha espalhadas e que foram reunidas após o sucesso de Nevermind não faz jus à Manchaca – Volume 1, que ao mesmo tempo em que reúne sobras, demos, ensaios e versões cruas de músicas dos dois discos (além de outras pérolas, como a versão “João 3 Filhos” que Dinho mandou para Ava Rocha eternizar em seu Transa), reforça a importância do período nos EUA para o amadurecimento do grupo como banda. O disco tem esse título tanto porque a casa em que moravam e ensaiavam nos EUA ficava numa rua que tinha este nome (que quer dizer “atrás de” em um idioma nativo norte-americano) e acaba sintetizando uma era na história da banda, principalmente porque esta era foi encerrada abruptamente pela atual pandemia. E não é volume 1 à toa, o guitarrista promete que o 2 sai até novembro. Bati um papo com Benke sobre como esse novo trabalho reflete a maturidade da banda e a importância destes dois discos – e deste material que está vindo à tona agora, que mistura jam sesions, demos, versões caseiras e outtakes.

Quando vocês pensaram em transformar esse material num disco só? Foi antes ou depois da quarentena?
Bem antes. Na verdade estamos devendo o Manchaca desde o natal para o fãs que nos acompanham assiduamente.
Queríamos lançar exclusivo no Bandcamp, sem mexer muito no que estava largado dessas sobras. Só soltar mesmo uma parte daquele material, não queria nem masterizar. Mas quando apresentamos essa primeira versão para o selo OAR, eles sentiram que valia a pena dar um tempo pra aparar algumas arestas e também lançar oficialmente nas plataformas – tinha ficado para abril a princípio, antecipando a turnê que faríamos em maio pela Europa. Nesse tempo fomos melhorando a mix de algumas músicas – e também cavando mais fundo nos arquivos perdidos ali nos HDs, perdendo o pudor de usar algumas canções que julgávamos fazer parte de um próximo disco de estúdio. Enfim, a idéia vem de antes, mas tomou essa forma de arrematar a narrativa dos anos de gravação no Texas com o passar da quarentena.

Vocês lembram por que escolheram essa casa como lugar para ficar em Austin?
Foi tudo um esquema meio clássico de produção, onde não decidimos muito detalhes, só tentamos arquitetar o cenário ideal para produzir algo em meio as turnês longas que teríamos pelos EUA. Um dos sócios da OAR, o selo que lançou todos discos dessa “era Manchaca”, é dono do Space, estúdio onde gravamos em 2017 e 2018 e essa casa ficava ao lado do estúdio, estava recém desabitada e era perfeita. A idéia era usarmos o estúdio nessa primeira ida em 2016, mas acabamos preferindo montar os equipamentos que havíamos alugado pela casa mesmo e mal fomos ao estúdio.

Manchaca só reforça que Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida são parte de um mesmo processo e período. Conte como vocês chegaram a essa sonoridade e como vocês dividiram entre esses dois discos?
Antes mesmo de pensar no processo e no que estávamos vivendo naquele momento, tem o fato de que com as gravações na Manchaca temos os primeiros registros do Ynaiã em estúdio conosco, depois de quase dois anos de estrada, começando em 2016 por esse processo caseiro, onde eu fazia toda engenharia e produzia as sessões. Algumas canções já tinham arranjos com banda, mas a maioria estava pra ser arranjada ali na casa mesmo – então o ritmo era bem espaçado e disperso… Não havia aquela rotina que o prazo de um estúdio te impõe. Gravávamos as guias com um violão ou guitarra, Ynaiã improvisava pelas músicas, eu buscaria ali os loops de bateria legais. Pras canções que pediam mais essa liga de banda poderia rolar deles gravarem juntos, acho que “Foimal” “Corredor Polonês” rolou a base toda com Dinho, Fefel e Yna, mas eu mesmo não acho que cheguei a tocar um take ao vivo ali na casa, só nos improvisos mesmo (como “ASMR Manchaca”).
Ai no ano seguinte, fomos para o SXSW pela segunda vez, e depois do festival – ou antes, hehe – passamos duas semanas no Space, ensaiando de segunda a quinta e gravando de sexta a domingo. Ali estávamos em um estúdio profissional, com um engenheiro profissional, Tim Gerron, que elevou bastante o nível da captação e também abriu as possibilidades pra explorarmos o que desenvolvemos ali na casa, mas dessa vez com todos focados em tocar simplesmente. O processo de lapidar os arranjos, com um engenheiro competente do outro lado da sala, fez a gente poder ter um registro da banda tocando de maneira livre e com uma potência. Sem nos limitar também a ter que trabalhar só com o que foi feito ao vivo, ele podia editar e rearranjar questões estruturais das canções conosco, sem afetar ali as sonoridades orgânicas, uma vez que as performances estavam bem gravadas e tocadas.

Manchaca também revela o processo de criação das músicas, mas vocês veem como um making of, um extra dos dois discos, ou ele é mais do que só uma coletânea?
Com Manchaca percebi que gostamos mesmo de nos esquivar dessas definições, né… Ao mesmo tempo que acho massa demais poder falar que minha banda tem uma coletânea temática, não uma coletânea qualquer de “greatest hits”, hehe. Inventamos um tema, amarramos os pontos e jogamos pro mundo. Assim como foi o Lá Vem a Morte, sendo lançado inicialmente como um “EP longo” e depois se firmou naturalmente, reinvidicando um lugar como terceiro disco de estúdio. O mesmo com o Sombrou, que traz com o nome uma provocação meio escapista e também chegou sem saber se era o terceiro ou quarto disco de estúdio.

Ele também retrata o período de consolidação da banda como quarteto. Quanto tempo vocês tocavam por dia? O quanto vocês tocavam e improvisavam e o quanto trabalhavam na pós-produção, outra característica deste período da banda?
O período da casa, como falei antes, foi bem disperso. A gente tava vindo de turnês bem gratificantes, mas muito cansativas – começamos uma turnê abrindo pro Andrew Bird por casas clássicas dos EUA e eu fui pego por algo tipo zika vírus – não fui pro medico la com medo de ser quarentenado – no segundo show da turnê. Tive febres, dores nas juntas e toquei sentado boa parte desse primeiro mês – o Dinho chegou nessa turnê com diagnóstico de um cisto na garganta. Então a coisa toda de ficarmos na casa tinha um ar de “rehab” também, ter a oportunidade de nos recuperar fisicamente depois de, sei la, 60 shows seguidos ali. A convivência entre nós é sempre boa, mas também pegava pesado ali a saudade de casa, aquela depressão potencializada pela maconha transgênica dos gringos, hehe.
Então não consigo dizer exatamente, tinha dias que não faríamos absolutamente nada, até porque comigo guiando o processo de produção as coisas ficavam muito a cargo dessa pós, né… Muitas vezes era abstrato pro Ynaiã o que seria usado daquilo que ele tocava acompanhando uma guitarrinha que Dinho gravou, etc. Mas também havia noites onde fazíamos improvisos infinitos também, gravando três horas de tocada livre. Em uma dessas saiu a faixa “Manchaca” que encerra o Desvio Onírico, a mesma onde Dinho começou a puxar os versos cantando “Sombra ou Dúvida / Sombrou Dúvida”.

O que vocês têm feito neste período de quarentena?
Tentamos manter um contato constante, até porque a manutenção das finanças é bem delicada num período sem shows, mas felizmente tudo se controlado. Venho mixando/produzindo cada vez mais, mas agora com toda essa movimentação para o Manchaca, já estou me sentindo sobrecarregado, hehe. Quanto aos meus sócios: Dinho não para de compor e de criar bons laços pela música, só durante a quarentena saiu parcerias dele com Tagore, Betina, Kalouv, capaz que esqueci alguma. Fefel vai lançar um disco top com a Alejandra Luciani, num projeto fresquinho ai, chamado Carabobina e o Ynaiã acabou de se mudar pro Rio, voltando pra perto da família e estando mais próximo de conseguir alguma boquinha ali no Projac, pode ser que comece a tocar com a Iza também.

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Autora do melhor disco brasileiro de 2019, a carioca Ana Frango Elétrico está só começando – e com dois discos festejados, um livro no forno e uma reputação em construção, tanto no Brasil quanto no exterior, ela começa a repensar os próximos passos da carreira, depois de um período de reclusão criativa no início da quarentena. Aproveitei a deixa para conversar com ela sobre processo criativo, sobre assumir as produções de seus trabalhos e sobre como foram estes primeiros anos de sua carreira, como foco maior no sensacional Little Electric Chicken Heart, que agora está virando vinil. E ela aproveita para falar de novidades que vêm por aí – e mais rápido do que a gente possa pensar.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além da Ana, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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Um Sonic Youth aqui, um Belchior ali, um Plato Dvorak com Frank Jorge acolá, um Alceu Valença mais adiante… A disparidade de autores reunidos no primeiro disco de versões lançado por Pedro Bonifrate nesta quinta-feira dissipa-se quando enfileirados na ótima surpresa que é este Diversionismo: versões & fantasias (2004-2020). “Volta e meia pensava em juntar essas versões que fiz por aí e que achei que ficaram legais, inventivas em relação às gravações originais, num álbum só pra elas”, me explica por email, falando de um disco que inevitavelmente soa folk e psicodélico, derretido e solar como a maioria de seus trabalhos, seja em carreira solo, seja à frente do falecido grupo Supercordas.

“Engraçado é que a maioria dessas versões foram encomendadas pra tributos de artistas que certamente não seriam meus primeiros escolhidos se eu fosse pensar em que versões fazer por mim mesmo”, continua quando pergunto sobre as músicas escolhidas para o disco. “Por exemplo, eu acho que se ouvi um disco inteiro do The Fall foi uma ou duas vezes no máximo”, Bonifrate lembra da versão que fez para o tributo ao grupo inglês de Mark E. Smith, proposto pelo dono do selo Midsummer Madness, Rodrigo Lariú. “Ele me passou algumas sugestões e “Psykick Dancehall” me chamou atenção pela letra que achei muito bonita, então foi quase como musicar uma poesia”. Bonifrate também lembra desta maravilhosa versão, que soa como um encontro de Neil Young com George Harrison, como marco para definir o rumo deste disco. “Eu realmente gostei muito de como ficou, o Lariú também, mas ainda ficaria pequeno pra ter um álbum cheio”, relembra.

Diversionismo só começou a ganhar uma cara a partir da quarentena de 2020. “Durante o isolamento tive vontade de fazer com ‘Home of the Brave’, do Spiritualized, o que eu já tinha feito ao vivo uma vez ou outra e isso já inteiraria uns 30 minutos e achei que estava de bom tamanho. Já estava organizando o material pro disco quando o Pedro Montenegro pediu um cover de qualquer música brasileira pro programa dele na Soho Radio de Londres, o BarKino. Então fiz ‘Íris’ do Alceu pra ele e a coisa ficou ainda mais redonda”.

E entre um Sonic Youth quase indígena (“100%” como se fosse “My Wild Love” dos Doors), um Belchior renascido no Magical Mystery Tour (com uma lisérgica “Hora do Almoço”, gravada no disco-tributo organizado pelo Scream & Yell) e uma “Happiness is a Warm Gun” tocada num saloon, ainda há espaço para um afrossamba! “O tributo aos Afro-Sambas d’A Escotilha me pegou totalmente de surpresa, eu podia escolher quase qualquer faixa e não me via fazendo nenhuma, é tão tipo não-a-minha-onda que não visualizei”, lembra Pedro. “Mas no final ouvi o ‘Lamento de Exu’ e pensei ‘ah isso é bem abstrato, consigo fazer algo com isso’. Depois ouvi a versão de 1990 do Baden Powell sozinho e ela sim me encheu de ideias, e acabei fazendo uma das gravações minhas de que mais gosto.”

“Acho que essa aleatoriedade dos convites ditou a onda dessa compilação, as leituras me parecem improváveis em tantos aspectos, e acho isso ótimo”, prossegue. “Só a do Spiritualized, a do Alceu Valença e a dos Beatles partiram de uma vontade própria de fazer aquelas canções especificamente.” Quando pergunto se alguma ficou de fora, ele força a memória. “Se ficou, foi outra do Spiritualized que foi a primeira coisa que eu fiz quando tive um gravador de fita de 4 pistas na minha frente lá pra 1998, mas não consegui encontrar no meio de tantas fitas, e acho que hoje deve soar bastante tosca, até pros meus padrões”, confessa.

Ainda mais isolado devido à quarentena, ele segue no meio do mato em sua cidade-musa Paraty. “Olha, não posso dizer que estamos na pior. Moramos perto da natureza, temos duas crianças na casa que dão muito trabalho mas muita alegria também, e por enquanto temos esse ‘privilégio’ do isolamento social – que nada mais é do que um direito que só é garantido a poucos no Brasil. É doido como dá trabalho ficar em casa, tanta coisa pra fazer, pra limpar, pra secar, pra esfregar, pra martelar, pra rastelar e eu já me pergunto como é que eu conseguia existir trabalhando de 8h-17h antes disso”, confessa.

Quando fala na primeira pessoa do plural, refere-se a ele e à esposa, Thalita Silva, que cada vez mais participa do trabalho de Pedro, cantando desta vez em três canções, além de aparecer na capa do disco. “Na real ela já estava na capa do Museu de Arte Moderna (2013) e gravou uns vocais pra última faixa, ‘Canção de Pelúcia’. Volta e meia ela grava umas vozes, teve ‘Rock da Paçoca’ do Toca do Cosmos EP (2014), ‘Rã’ do Lady Remédios (2017), e na ‘Parte VI’ do Mundo Encoberto (2019) ela não só canta solo como toca caixa, meio que de um jeito como se toca a Caixa do Divino, do Maranhão, porque ela toca num grupo de caixa daqui de Paraty há alguns anos. Ela tem uma musicalidade muito intuitiva e uma voz muito bonita e aerada, que sempre cai bem.”

Mas nem só de versões vive o velho supercorda em 2020 e já anuncia mais um disco solo, o primeiro desde que seu antigo grupo acabou. “Um novo álbum como Bonifrate já está quase pronto, com canções próprias e inéditas”, revela. “O Diogo Valentino está terminando de mixar aí em São Paulo e deve sair nos próximos meses. Fora isso, vamos tentando ficar vivos e sãos pra encarar esse mundo esquisito que vem logo depois da curva.”

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Que internet você quer? Esse questionamento já acompanha minha querida amiga Dani Arrais há alguns anos e tornou-se um dos motes de seu trabalho – e da sua vida. Blogueira desde os tempos em que isso não era pejorativo, ela transformou seu Don’t Touch My Moleskine em mola-mestra de seu trabalho e aos poucos descobriu outra forma de se conectar às pessoas. Convidada desta semana do meu programa semanal Bom Saber, puxo a questão online para discutir outros temas, amplificados pela quarentena: nossa relação com o trabalho, com o dinheiro, com as pessoas mais próximas e com as celebridades, com o jornalismo, com a arte e com o mercado. Um papo que, se deixasse, ficava até amanhã.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além da Dani, já conversei com Bruno Torturra, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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Te convido a um passeio pela biografia do jovem mestre Tatá Aeroplano comentada por ele mesmo. O cantor e compositor paulista já passou por inúmeras bandas e cenas, da pista de dança ao retropicalismo passando pela psicodelia e pela música folk, sempre reunindo histórias e amigos, equilibrando-se entre a loucura e a lucidez enquanto amadurece a própria musicalidade a olhos vistos. Convidei-o para essa conversa que foi longe e passa por Tom Zé, Júpiter Maçã, pelo D-Edge e pela Serrinha, sempre com o astral pra cima característico do mister.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além do Tatá, já conversei com Bruno Torturra, Negro Leo, Janara Lopes, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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Quem lembra do Eduardo Fernandes entrega a idade: um dos primeiros habitantes deste planeta online que vivemos hoje, Eduf sempre misturou contracultura, tecnologia e cultura pop para questionar os passos que damos neste novo ambiente eletrônico, seja reunindo cabeças no saudoso Fraude.org ou dando dicas nerd em seu blog Macgiver. Mas há mais de dez anos, ele saiu de São Paulo e se embrenhou num templo budista no interior do Rio Grande do Sul e o papo oscila entre as transformações comportamentais deste novo século, desbravar o mundo interior e a nova rotina mundial durante a pandemia.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do Clube Trabalho Sujo (quer saber como colaborar? Manda um alô no trabalhosujoporemail@gmail.com). Além do Eduf, já conversei com Bruno Torturra, Negro Leo, Janara Lopes, João Paulo Cuenca, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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Em uma entrevista a convite do programa Radar Sonoro, do Sesc Pinheiros, pude conversar em vídeo com o vocalista do Mombojó, Felipe S., sobre como seu projeto mais recente, Deságua, foi impactado pela quarentena – e aproveitamos para falar como ele vem atravessando este período.

Foto: Erika Garrido

Foto: Erika Garrida

“É uma aglutinação de linguagens, o que sempre resulta em novidade, não é? A situação não permite previsões, tédio e invenção andam de mãos dadas e nos puxam”, me explica por email Tulipa Ruiz quando lhe pergunto se Tulipa Noire, que ela apresenta neste sábado às 21h (mais informações aqui), é uma evolução do conceito de shows transmitidos pela internet. O concerto acontece na Casa de Francisca e é o primeiro show dirigido pela cineasta Laís Bodanzky, diretora do filme Bicho de Sete Cabeças, que foi convidada pelo capo da mágica casa, Rubens Amatto, para assumir a curadoria de cinema do local em tempos de pandemia, elevando as lives a outro patamar.

A cantora conta que estava esperando o momento certo para trabalhar neste formato. “Nossa proximidade com o Rubão e a Casa de Francisca é antiga e sabíamos que a qualquer momento ia acontecer alguma coisa entre a gente nesse momento live. Quando o nome da Laís entrou na jogada, tudo ficou mais saboroso. Vivo com a Tulipa Noire, o filme do Delon, marcado na alma. A associação era inevitável, noir-noire-cinema-Laís. Mesmo assim uma associação solar – o filme original era colorido!”, conta, fazendo referência ao filme que inspirou seu pai, o mestre guitarrista Luiz Chagas, a batizá-la com este nome.

Pouquíssimas pessoas estarão presentes no evento, apenas a cantora, seu irmão Gustavo Ruiz no violão, a diretora Laís e a fotógrafa Thaís Taverna. A única certeza é que será em preto e branco. Tulipa nem sabe o que fará com o show depois de ele ter acontecido. “É algo a ser pensar. Será meu primeiro registro cinematográfico. Vou decupar essa ideia”, conta.

Pergunto como ela está atravessando a quarentena e ela tasca que “como a maioria das pessoas que tem a oportunidade de ficar em suas casas, esse negócio de ‘tempo livre’ é bobagem. Nunca estive tão ocupada em minha vida, nem que seja para não fazer nada ou dormir. Isso te ocupa muito”. Ela também menciona lives que a emocionaram: “Várias, a começar pelo João Donato que introduziu muita vida na dele; Teresa Cristina, maravilhosa; o Gil, divino; o Curumim e a Anelis fazem umas aqui na esquina de casa, mas que parecem vindas da Lua. “

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O trio instrumental paulistano de jazz rock Atønito lança nesta sexta-feira seu segundo disco, Aqui, e antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo o clipe de uma faixa que mostra a disposição do grupo para trilhar novos rumos: “Sentido”, com clipe assinado pelo casal Francisco Porto e Luiza Queiroz, traz Luiza Lian como convidada e é a primeira faixa cantada da história do trio formado por Cuca Ferreira no sax barítono, Rô Fonseca no baixo e synth e Loco Sosa na bateria e synth. “Eu havia conhecido a Luiza por conta do Música de Selvagem, e havia ficado absolutamente impressionado com sua energia, potência, capacidade de improvisação, características que normalmente se encontram em grandes instrumentistas”, lembra Cuca, em entrevista por email. Incluir vocal num trabalho que levanta a bandeira do instrumental não foi por oportunidade: “O Atønito é um grupo instrumental e como tal valorizamos a livre interpretação da nossa música”, continua o saxofonista. “Mas nesse disco tínhamos uma mensagem que havia sido escrita em palavras antes do próprio som.”

Ele se aprofunda nessa questão: “O Atønito nasceu em 2016, naquele que acreditávamos ser um dos piores momentos da nossa história, ano da concretização do golpe”, explica Cuca, lembrando que voltaram a pensar em novo disco depois das eleições para presidente. “quando nos juntamos pra começar a trabalhar pro segundo disco, decidimos que dedicaríamos nossa música para refletir e atacar os caminhos que nosso país havia tomado, marcado pelo crescimento do fundamentalismo religioso e pela tentativa de destruição da identidade nacional, que vinha sendo tão arduamente construída. Após algumas conversas iniciais, coloquei esses pensamentos em um texto, que funcionou como uma espécie de roteiro, de narrativa, a partir da qual compusemos e criamos as músicas que viraram o disco” – o texto citado está no final deste post.

“Nesse texto, concluíamos que o problema fundamental vem da nossa incapacidade de resolver o conflito entre indivíduo e espécie, nossa incapacidade de encontrar equilíbrio entre necessidades e desejos coletivos e individuais. Somos cada vez mais empurrados para um confinamento solitário digital, desconectando-nos da percepção que só a coletividade garante a existência dos indivíduos. Fizemos o disco para debater isso. Ou seja, um disco instrumental, mas cuja inspiração veio da palavra”, conclui o líder da banda, lembrando que o disco já havia sido gravado antes de entrarmos em quarentena. “A quarentena afetou o lançamento, que estava previsto para maio. E nos fez questionar o quanto ainda fazia sentido, mas revisitamos nossos pensamentos originais e percebemos que as questões que nos motivaram só ganharam mais força. Do ponto de vista do nosso discurso, a quarentena só deu mais significado ao que queríamos dizer.”

“Luiza é a única convidada do disco, mas gosto de dizer que para esse disco tivemos entre nós três um processo criativo muito mais coletivo”, relembra. “No primeiro disco, as composições partiram praticamente de ideias minhas. Em Aqui não, tudo foi criado e executado coletivamente, ou seja com muito mais participação do Ro Fonseca e do Loco Sosa”, segue Cuca, lembrando de como Luiza registrou sua parte: “Ela foi pro estúdio, discutimos o texto e ela acabou por dar palavras finais à letra. E a melodia ela criou em poucos takes já valendo.”

Sobre lançar um disco durante a pandemia, tudo é experimentação, mas já está mexendo até na formação do grupo. “Eu particularmente sempre fui do ao vivo e é muito complicado não poder contar com esse caminho para manter o projeto ativo, mas o caminho que encontramos até agora foi esse, de trazer a arte visual para junto da música. Já havíamos feito isso com o Paulinho Fluxus, que é praticamente um quarto integrante do Atønito nos nossos shows. Os clipes que estamos fazendo são uma forma de fazer isso virtualmente. É como se agora a banda fosse baixo, sax, bateria e câmera. Esse disco tem 10 músicas, cinco já viraram imagem. Nos próximos meses teremos mais dois que já estão sendo criados.”

Atønito – Disco 2
AT / NITO
ATONITO
ATˆNITO
ATXNITO
Atønito nasceu e desenvolveu seu som a partir de um momento histórico marcado pela frustração,
pelo pessimismo e pela incredulidade.
Era 2016.
Com a tomada do poder por um grupo que não havia sido eleito, o Brasil soltava o freio e descia
de costas uma ladeira que vinha subindo a duras penas havia pelo menos 2 décadas.
Durante 20 anos, acreditamos que tínhamos encontrado nosso trilho, que aos poucos o futuro do
“país do futuro” chegava. Vivíamos sob a perspectiva da melhora, do otimismo, da confiança.
Para uma geração como a nossa, que nasceu no auge da ditadura militar e ficou adulta nas
décadas perdidas de 80/90, era a certeza de que construíamos um país com personalidade
própria, que finalmente começávamos a tirar o nariz da lama, como gerações anteriores não
haviam sequer imaginado.
Mas o Brasil provou que estávamos errados.
A completa falta de capacidade de manter o país no trilho seguida pelo completo atropelo aos
princípios que formam um Estado fez com que tudo que havia sido construído começasse a erodir
rapidamente.
É sob esse sentimento de perda, de desespero, de angústia, de incredulidade que nasce o
primeiro disco do Atønito.
Um disco do Grito. Expressão musical da raiva, dessa rasteira que tomamos do país. Do ódio que
é ter que dar a razão aos que sempre disseram que “o Brasil é isso aí mesmo”.
Isso foi no agora distante ano de 2017.
De lá pra cá as coisas pioraram muito.
O desastre saiu do plano institucional para o plano humano. Voltamos atrás não mais 20 anos de
desenvolvimento do país, mas séculos de conquistas e conclusões da espécie.
Celebra-se a ignorância. Escolhe-se o “olho por olho” como valor válido. Princípios que nortearam
a evolução da humanidade desde o século 16 agora passam a ser desprezados. Não se acredita
mais na busca do conhecimento, na busca da liberdade, na busca da convivência harmônica.
E o Brasil passa a trilhar um novo caminho, busca um novo modelo, que aparenta ser uma
espécie de mistura entre Porto Rico e Irã; por um lado mergulhando em uma subserviência
incondicional e sem nenhum orgulho próprio ao pior dos EUA, ao mesmo tempo que se apoia na
perpetuação da ignorância da populacão controlada pelo fundamentalismo religioso de pastores
da pior espécie.
Como reagir artisticamente a tudo isso? Como conseguir uma expressão artística – que pressupõe
sentimentos e sensibilidade – que reflita esse novo momento histórico?

Descemos.
Do Grito fomos à Implosão.
A jornada agora é em busca do problema fundamental e essencial, chegar no “pré-sal” do que
vemos na superfície; fonte de todos os conflitos atuais:
A relação entre o indivíduo e a coletividade.
Entre o individual e o coletivo.
Entre o ser único e sua espécie.
Por um lado, a associação coletiva nos fez a espécie dominante no planeta. Por outro, implica em
consciência e aceitação de limitações individuais.
Ao longo da história humana, a nossa organização coletiva propiciou o desenvolvimento da
espécie. Mais recentemente, conforme esse desenvolvimento se exacerbou, se transformou na
própria ameaça à existência humana.
Esse é o conflito fundamental.
E é a inspiração e provocação para esse trabalho.
O disco discorre sobre a relação entre o homem e seu ambiente. Como a associação coletiva
propiciou o domínio desse ambiente, e como essa associação coletiva se transformou em fonte de
tensão insustentável para os indivíduos que a formam.
Como existir como indivíduo num modelo que é totalmente dependente da associação coletiva
para a própria subsistência dos seus indivíduos.
Que paradoxalmente dedica cada vez menos espaço físico para seus indivíduos, pressionando
para uma proximidade física cada vez maior, ao mesmo tempo que empurra para o isolamento
atraindo para o confinamento digital, que mais paradoxalmente ainda legitima a existência
individual a partir da validação coletiva.
Reflexões e lembretes sobre cada música:
1. UNO (Vinheta Manifesto)
Da tensão inerente ao uníssono. Um som formado por três.
Somos um? One love? Somos mesmo a mesma energia que vibra em uníssono? Quando
passamos a ser muitos? E mesmo sendo muitos continuamos sendo apenas um?
2.
Quando éramos menores que nosso ambiente.
Quando surge a vida humana? Quando nos percebemos como indivíduo? Quando nos
percebemos como espécie?
Quando tínhamos mais recursos que necessidades?
Quando percebemos que o ambiente podia ser hostil? Quando percebemos que individualmente
éramos inferiores ao ambiente?
A melodia era maior, fica menor e acaba diminuta.
Manifestações de vida que começam a eclodir e aos poucos vão se reconhecendo.
3.

Quando percebemos que a espécie tinha mais chances se seus indivíduos se organizassem
coletivamente. Começam as conquistas. A vida melhora. O coletivo prova ser melhor que o
indivíduo. A vida coletiva se prova melhor que a vida individual.
A construção da vida social.
A crença num futuro mais positivo a partir das conquistas coletivas.
4.
Trabalho.
Competição.
O interesse coletivo impõe novas regras à sobrevivência do indivíduo.
A velocidade aumenta, na mesma proporção que a consciência diminui.
5.
Começamos a buscar subterfúgios.
Válvulas de escape. Auto-alienação.
Felicidade artificial, plástico, vaidade, consumismo, “mascando clichê”, terra da fantasia do
pinochio, tá tudo aqui.
6.
“Tá tudo ótimo”
Essa música é uma homenagem direta ao principal artista do movimento “Realismo Cínico”, que
apareceu na China nos anos 90. Uma tentativa de transformar em música os quadros de Yue
Minjun, o “pintor das gargalhadas”, que melhor traduziu o conceito de realismo cínico. A angústia
por trás da gargalhada.
Qual o limite entre a gargalhada e o choro.
O clichê do palhaço desiludido e triste.
7.
A gargalhada quebrou o verniz. Cai o cenário e vemos a realidade atrás.
Vemos a prisão que vivemos. Celas cada vez menores. O indivíduo reduzido ao seu mínimo
espaço.
Fazendas humanas do Matrix. Marcel Marceau. Paredes se fechando, tipo cena de seriado de
ação antigo.

8.
Só nos resta o mergulho interior. Reflexão.
Há uma luz no fim do túnel?
Há um túnel no fim da luz?

9.
Seguimos! Vai dar trabalho. Ladeira acima. Sensação que sobe, sobe e nunca chega.
Areia, cimento, tijolo.
Cenas de trabalhos forçados.

Texto para o último trecho da última música:
Mas não faz sentido.
Por que evitar de cruzar o olhar
Evitar de dirigir a palavra
fingir que não escuta
Se tudo que eu preciso para viver
foi feito pelo outro
tudo que eu como
tudo que eu visto
passou por tantas outras mãos antes de chegar às minhas
por que agir como se só eu existisse
como se aquela pessoa que está ao alcance do meu braço
simplesmente não estivesse ali
então agora é assim?
só existe o outro se for desse jeito?
Reificado
Coisificado
desmontado
desintegrado
fragmentado
em
giga
mega
kilo
bytes
de
bits
binários
Binários.
não mais bípedes
mas binários
só sim ou não
noite ou dia
par ou ímpar
certo ou errado
zero ou um
Binários como os bits
que reconstituídos
nos dão propósito
nos justificam
e nos validam
em forma de um polegar levantado
ou de um coração estilizado