Você já deve ter visto esse meme aí em cima, mas eu não sabia que era uma paródia de Justin Bieber feita por uma fã com muita presença de espírito (de porco), olhaê:
Nesta edição do Link, escrevi sobre a tal Gina Indelicada…
Gina Indelicada e os novos dilemas de um novo século
Menos direito autoral e originalidade e sim marketing pessoal
Os diálogos são curtos e aparecem no chat do Facebook. As conversas usam a informalidade típica da web, usando ‘q’, ‘vc’ e palavras sem acentuação. A imagem da pessoa é um avatar com um rosto conhecido. Identificada por Gina, ela é questionada por um usuário: “Gina, dá uma dica pras meninas q procuram um menino romantico, sensivel, atento, amoroso, bonito…” E responde: “Olha, a dica é que esse tipo de menino tbm está a procura de meninos”.
O rosto de Gina é o de uma loira de beleza publicitária clássica bastante conhecida por brasileiros ao adornar a caixa de palitos da marca que leva seu nome. Mas, online, virou a Gina Indelicada, uma página no Facebook disposta a responder perguntas com gracinhas e grosserias. Ela foi criada em 14 de agosto e na sexta-feira já se aproximava dos 2 milhões de fãs.
Seu criador, o mineiro Henrique Lopes – que assina Ricck Lopes –, de 19 anos, se tornou uma celebridade-relâmpago. Seu nome ganhou mais destaque depois de a fábrica de palitos da Gina original manifestar surpresa com o sucesso inusitado de sua garota-propaganda. Especulou-se a possibilidade de processo, mas logo a empresa disse que consideraria falar com o rapaz para pensar na estratégia digital da marca.
O contato entre uma empresa de 65 anos e um garoto de 19 logo foi notado. Ricck foi entrevistado tanto pela revista norte-americana Forbes em seu site quanto pelo humorista Danilo Gentilli no programa Agora é Tarde.
Ricck aparenta um bad boy dos anos 50, jeans, jaqueta, barba por fazer, topetão, e fala como um publicitário monótono. Diz mais de uma vez que Gina Indelicada é o resultado de pesquisas que faz na internet e que seu sucesso não é puro acaso. “Como estou no início da minha faculdade e, logicamente, da minha carreira, eu preciso ter cases (pronuncia-se “queises”) pra que isso me dê credibilidade”, disse ele a Gentilli, monocordicamente, como se estivesse recitando um texto decorado, numa fala sem graça e previsível.
A seu favor, Ricck tem outros “queises” no currículo: o perfil no Twitter @VouConfessarQue (onde se apresenta como “o segundo Twitter mais retuitado do mundo, perdendo só pro Justin”) e a página no Facebook Muito Tédio, que tem quase 800 mil fãs. O sucesso de Gina Indelicada é um passo natural nessa escalada.
Mas logo vieram críticas sobre a originalidade das piadas grosseiras de Gina No Facebook, a página Gina Kibadora Indelicada lista tweets de pessoas desconhecidas que escreveram as mesmas respostas atravessadas da personagem (a frase citada no início do texto é uma delas). “Kibar”, na internet, é copiar sem dar a autoria, e tem origem nas acusações contra as piadas de Antonio Tabet, do Kibe Loco, que assume piadas alheias com a marca de seu site.
Ricck se desculpou no Twitter usando a pior das justificativas. “Eu contratei uma pessoa e ela fez isso. A maioria sem eu saber. Eu cuidei da parte de criação e estratégia”, escreveu. A discussão sobre autoria e humor não é nova. Falamos do tema no Link em junho, na reportagem “Piada tem dono?”, da repórter Tatiana de Mello Dias. Mas, se a marca de palitos tivesse contratado os préstimos de Ricck, assumiria a derrapada?
Pois no fim das contas, a questão em relação a esse caso é menos de direito autoral e originalidade e mais sobre marketing pessoal e oportunidade de trabalho, podendo ser resumida num curto momento da entrevista de Ricck a Gentilli: “Depois cê dá as dicas pro meu Facebook?”, sugere Gentilli, 500 mil fãs em sua página oficial. “É nóis!”, responde Ricck, sorrindo.
E na edição dessa semana do Link, totalmente capitaneada pelo Filipe, dediquei minha coluna à minha rede social favorita atualmente.
Considerações sobre meu novo brinquedo favorito, o Instagram
Mesmo alienante, app é refúgio do presente
Desde o fim do ano passado tenho me interessado cada vez mais pelo Instagram. Apostei que o aplicativo-rede social será a próxima onda digital a ser aderida por todos neste 2012. Isso antes de a versão para Android ter sido lançada – e, portanto, antes de ter me tornado usuário da rede. E são vários os motivos que tornam o Instagram tão promissor.
Para começar, o aplicativo tem pouquíssimos recursos. É simples entendê-lo e usá-lo. Além dos filtros de imagem, seu primeiro atrativo e diferencial, o app só permite gostar e comentar as fotos. Basta pressionar a tela duas vezes para avisar ao dono da imagem que você gostou dela. É ainda mais simples do que curtir no Facebook via celular porque você pode pressionar em qualquer lugar da foto – em vez acertar exatamente no link “like”. E, por ser usado principalmente no celular, o Instagram não é tão convidativo a comentários e discussões alongadas.
A interface de navegação é simples, exigindo apenas o polegar para acompanhar as atualizações. Não é preciso acertar botões com precisão ou digitar no teclado. A facilidade de navegação torna a utilização do Instagram quase lúdica. É tão fácil quanto brincar. Por isso gosto de dizer que o Insta é meu brinquedo portátil favorito atualmente.
A comunicação que prioriza a imagem causa uma mudança drástica em relação às demais redes sociais. Uma vez que ele é mais subjetivo, pouco importam as notícias ou o que aconteceu nos últimos minutos – ou até mesmo horas. Os assuntos mais comentados são secundários e os temas das imagens quase sempre partem para o cotidiano, o trivial, o doméstico, o singelo.
Por isso a abundância de fotos de crianças, animais domésticos, paisagens, horizontes, viagens, pratos de comida, livros, discos, programas de TV, passeios, detalhes de casa ou do ambiente de trabalho. Isso nos afasta um pouco da enxurrada de informações das outras redes – e de uma certa angústia com o fluxo sem fim de notícias e links.
No Instagram, o ponto de vista é a primeira pessoa – e não a terceira. Por isso é mais comum vermos imagens pelos olhos de quem as tirou do que ver a própria pessoa. E as fotos dos outros funcionam como janelas em que podemos ver os cantos da cidade e do mundo, em imagens que não vão sair no jornal no dia seguinte. Para alguns, a desconexão com o presente noticioso pode parecer alienante. Para outros é um refúgio contra o acúmulo de pessimismo e novidades que brotam sem parar.
Junte tudo isso ao fato de que ele foi pensado para o celular e temos outro motivo de seu sucesso. Qualquer sala de espera é uma oportunidade para ver o que os amigos ou conhecidos andam observando. Qualquer cena mais simpática pode ser registrada facilmente e compartilhada. E o aplicativo permite que as imagens sejam reproduzidas em outras redes sociais, como Tumblr, Twitter, Facebook, Foursquare e Flickr.
Todos esses motivos dão algumas ideias do que deve acontecer com as redes sociais num futuro próximo. Elas precisam ser mais fáceis de usar. E entupir um serviço com muitos recursos pode deixá-lo ruim, além de pesado. Elas não precisam ser abrangentes e onipresentes. Podem se dedicar a trechos específicos das vidas de cada um. E vão para além do texto, permitindo novas formas de comunicação.
Alguns meses depois de ter sido vendida para o Facebook, dá para entender o interesse da maior rede social do mundo. Primeiro, o aplicativo é mais confortável do que o app do próprio Feice (embora muitos tenham elogiado a nova versão para iOS, lançada semana passada). Segundo, as fotos estão se tornando cada vez mais a língua franca da internet. E, finalmente, se o Instagram continuasse crescendo, poderia se tornar um rival sério para o Facebook.
Resta saber o que acontecerá entre 2012 e 2013. O Instagram vai se integrar cada vez mais ao Facebook ou o Facebook vai ficar cada vez mais parecido com o Instagram? Ambas opções são possíveis – embora uma anule a outra – e podem determinar o futuro não só do Facebook mas do ambiente digital móvel em que vamos habitar.
Já tinha tocado nesse assunto e voltei a insistir em como as eleições podem acelerar o cansaço em relação ao Facebook, no Brasil, na minha coluna desta edição do Link…
As eleições podem acelerar a desimportância do Facebook
Um ou dois temas monopolizam o feed
Alguns amigos e conhecidos meus abandonaram o Facebook. Cada um por um motivo diferente ou específico.
Não chega a ser uma onda como a de orkuticídios que começou quando a primeira rede social de sucesso no Brasil se popularizou demais (antecipando o termo “orkutização” que já abordei em colunas passadas). Mas são insatisfações diferentes que fazem muita gente deletar a própria conta ou abandoná-la.
Há quem não confie no fato de um único site centralizar tantas informações sobre tanta gente. Há quem se sinta incomodado com o incessante clima de oba-oba do site – curtições, fotos sorridentes, paisagens, viagens, festas. Há quem discorde das políticas de privacidade da rede social. Ou quem não goste do aplicativo do Feice para o celular. Ou quem cansou do humor nonsense ou das discussões intermináveis. Ou dos perfis falsos. Ou quem não quer manter toda sua vida em um único ambiente, permitindo que parentes, colegas de trabalho e amigos de infância se encontrem num mesmo lugar. Ou de gente que se aproveita do conforto da rede social para destilar ódio, inveja ou preconceitos de toda a ordem. Há quem também não goste de ser tratado como produto ou do excesso de publicidade na rede (que, na minha opinião, é o que vai acabar com o Facebook – não matando, mas o tornando desimportante).
Uma coisa é praticamente consenso inclusive entre os que resolvem continuar no Facebook: existe uma monótona rotina relacionada a um ou dois temas que acabam dominando o feed em uma rede de quase um bilhão de pessoas. Na semana passada, o Facebook anunciou que está às vésperas de atingir essa quantidade de usuários (foram 955 milhões em junho, segundo o instituto de pesquisa norte-americano Nielsen).
Você sabe. Basta entrar na rede social para ver um link que foi postado por dois ou três amigos. Dependendo do teor da notícia, é fácil prever que durante o resto do dia (e da semana), esse link será compartilhado por mais um tanto de outros usuários da rede. Tanto faz se é um vídeo, uma notícia, uma foto ou um tweet redirecionado.
O desdobramento desta primeira etapa são discussões intermináveis em que dois ou três usuários da rede – e amigos seus que, na maioria dos casos, só vão se cruzar porque são seus amigos – monopolizam o debate, deixando a discussão em segundo plano e partindo para ataques pessoais grotescos. Lá pelo trigésimo comentário o tema original da discussão já era. Assistimos a um ataque verborrágico de gente disposta a mudar o ponto de vista alheio a partir de uma discussão pela internet.
E nesta terça-feira começa o horário eleitoral em todo o Brasil e, com ele, efetivamente, as eleições de 2012. Isso significa que não bastasse ter de aturar todo o tipo de gente implorando por seus votos em cartazes, jingles, carros de som, faixas e pichações, ainda vamos ter o desprazer de ver amigos e conhecidos nossos – uns mais prezados que outros – transformando-se em cabos eleitorais amalucados, debatendo questões secundárias ou risíveis para justificar suas preferências políticas.
Idealmente, o Facebook seria uma arena perfeita para um debate político civilizado. Mas, se nem mesmo na televisão os principais candidatos conseguem manter a compostura, o que podemos esperar de eleitores que perdem as estribeiras para tentar aparecer ou convencer o outro de que seu ponto de vista é o melhor?
Por isso, vejo quatro opções desenrolando-se nos próximos meses. Na primeira, continua-se no Facebook e recebe-se uma enxurrada de santinhos digitais, todos eles lutando pela sua atenção, aos berros. Noutra, continua-se usando a rede, mas aprendendo a utilizar os recursos apresentados pela repórter Anna Carolina Papp na matéria nesta edição do Link – usando as ferramentas que a própria rede social oferece para conter a avalanche de opiniões alheias. Numa terceira, simplesmente deixa-se de usar o Facebook enquanto a eleição não termina. E na quarta, finalmente, abandona-se a rede social de vez.
Algo me diz que a última opção vai ser cada vez mais popular…
Na edição desta segunda do Link, falei sobre um dos principais dilemas do século digital.
A internet e a encruzilhada entre o consumidor e o cidadão
O mercado nos distrai de interesses reais
Duas matérias nesta edição do Link abordam assuntos aparentemente distintos: a matéria de capa, assinada por Tatiana de Mello Dias e Murilo Roncolato, fala dos problemas que usuários da telefonia móvel no Brasil têm com a péssima qualidade dos serviços das operadoras no País – que a revista inglesa Economist cogitou ser o equivalente do governo Dilma ao apagão elétrico do governo Fernando Henrique Cardoso. Outra matéria, do repórter norte-americano Farhad Manjoo, conta a assustadora história de como o repórter da revista Wired Mat Hanon, em quinze minutos, perdeu o controle sobre todas as suas contas digitais graças ao ataque de um hacker amador.
As duas situações parecem apenas descrições de problemas modernos, que não existiam há quinze anos. Mas, na verdade, são desdobramentos ágeis de uma tendência que atravessou todo o século 20 e foi reforçada nas últimas décadas até ganhar força e velocidade graças aos meios digitais: a lenta transformação do cidadão – e de seus direitos – em mero consumidor.
Isso é bem preocupante. Afinal, todos os direitos do cidadão, uma das principais provas da evolução da humanidade, são substituídos pelos direitos de quem tem dinheiro para pagar pelas coisas. Esta mercantilização da cidadania foi acelerada com o movimento que aconteceu logo depois da criação da World Wide Web, que completou 21 anos há uma semana. O engenheiro inglês Tim Berners-Lee criou o padrão que permitia acessar à internet (que existe desde os anos 60) sem a necessidade de digitar comandos ou de conhecer sites específicos, o que abriu espaço para o surgimento dos programas da navegação gráficos, primeiro com o Netscape e depois com o Internet Explorer. Foi a partir daí que a internet deixou de ser uma rede de contatos entre acadêmicos e entusiastas da tecnologia para ganhar o mundo.
E na metade dos anos 90, houve o primeiro salto de popularidade da rede, quando a maioria das pessoas descobriu que existia “um negócio chamado internet”. E, neste mesmo momento, empresas entraram online, ajudando a batizar essa primeira safra de “o início da internet comercial”.
A partir disso, a popularização da rede quase sempre esteve associada à criação de novas empresas ou como empresas que existiam antes deste momento souberam aproveitar-se desta nova realidade. E, como empresas fazem, entraram nessa para ganhar dinheiro. Até mesmo empresas que não cobram pela utilização de seus recursos – como o Google e o Facebook, por exemplo –, acabam cobrando outro tipo de moeda de seus consumidores: seus próprios dados pessoais. Ecoa na rede um novo ditado que é muito preciso: “Quando você não paga por nenhuma mercadoria, a mercadoria é você”.
Governos e instituições não-comerciais levaram mais tempo para entender a nova realidade e alguns ainda tateiam no escuro. Mas, como as empresas e a lógica comercial dominaram a internet nos seus primeiros dias de maior popularidade, questões de cidadania ficam em segundo plano em relação a questões de mercado.
(E antes que algum neoludita venha reclamar que isso “só poderia acontecer por causa dos computadores e da internet”, lembre-se que o sistema financeiro sabe muito mais sobre cada um de nós – e bancos estão aí há muito mais tempo.)
Por isso a atenção que damos, no Link, a temas como privacidade, à criação de novas leis, à forma como governos e empresas lidam com a inevitável inclusão digital, o futuro dos direitos autorais. Questões políticas que podem parecer tediosas e complicadas, ainda mais se comparadas a tweets engraçadinhos, computadores elegantes, smartphones encantadores, serviços online práticos e úteis.
Temas que podem não ter o apelo sedutor da internet comercial, mas que devem ser acompanhadas de perto, para que a política – e a noção de cidadania – não caia por terra de vez como já acontece na vida offline. Ninguém disse que iria ser fácil…
Falo hoje sobre jornalismo cultural e internet no curso Jornalismo e Indústria Musical que está sendo ministrado no Espaço Revista Cult, na Vila Madalena. O curso é pago, tem outras aulas (a primeira foi ontem) e não sei se ainda há vagas, mas vai que rola…











