Trabalho Sujo - Home

Digital

Bem bom esse curta israelense da dupla Eran May-raz e Daniel Lazo sobre a onipresença do digital em nossas rotinas.


A última encarnação do Link que comandei (em sentido horário a partir da esquerda): eu, Camilo, Thiago, Murilo, Vinícius, Carol, Filipe e Tati. sdds glr :~

Minha coluna de despedida da edição do Link. A coluna segue no caderno, toda segunda, mas desde a sexta-feira passada eu não frequento mais os corredores do sexto andar do prédio ocre perto da ponte do Limão na Marginal Tietê. Foi foda – saio com dorzinha no peito por perder determinadas convivências diárias, mas com a sensação de dever cumprido. Depois eu escrevo mais sobre isso…

Jornalismo, tecnologia, web e o que eu tenho a ver com isso
Sou feliz de trabalhar com quem trabalhei

Foi num jornal diário que comecei minha carreira e tomei gosto pelo jornalismo. A redação em que diferentes egos e perspectivas conversam e se chocam é um ambiente fantástico, circo-hospício seríssimo. Os assuntos mais pedestres trombam com as Grandes Questões da Humanidade, tudo correndo contra o relógio do fechamento, segundos contados para terminar o texto, chegar a foto, tratar a imagem, exportar a arte, pensar na página.

A primeira redação em que trabalhei tinha acabado de aposentar as máquinas de escrever e as trocado por PCs, mas não havia e-mail nem internet. Filmes eram revelados. Fumava-se na redação. Parece Mad Men, mas era 1994.

Lembro do primeiro PC com acesso à internet na redação, abandonado na sala de produção, ao lado dos computadores com matérias das agências de notícias, faxes e até uma máquina de telex. Eu era o único jornalista que me dedicava mais do que meia hora online, fuçando sites, listas de discussão e e-zines, antes de ter acesso à web em casa. Não à toa instiguei o próprio jornal a ter sua própria página na rede, ainda em 1996.

Mudei para a redação do jornal concorrente e tornei-me editor do caderno de cultura no mesmo ano em que o Napster popularizou o MP3. Foi quando percebi que internet não era só tecnologia – era cultura. Que baixar MP3 era o primeiro indício da transformação que o meio digital trazia. Não era só uma forma nova de “consumir cultura”, mas uma nova camada de experiência que atravessaria nosso cotidiano em breve.

E aconteceu: vieram os blogs, o Google cresceu, depois o YouTube, as redes sociais e o celular passou a acessar a internet. Passei por outras redações e cheguei a esta do Estadão no mesmo ano em que Steve Jobs mostrou seu iPhone. Novamente num jornal diário, mas o digital se impunha: fatos podiam ser checados online, fontes e personagens podiam ser descobertos em redes sociais, repórteres mandavam informações por celulares, todo mundo tinha e-mail, uma parte (pequena) da redação tinha blog. Ainda havia a máquina de fax e não era possível fumar no computador, mas ainda havia o fumódromo.

Quando comecei no Link, ainda editor-assistente, era relativamente fácil separar quem cobria que área no caderno. Mas os assuntos se misturaram e, ao ser promovido a editor em 2009, implodimos essas barreiras. Como passamos a escrever tanto para um caderno semanal quanto para um site diário – em vez de separar quem é do impresso com quem é do online. A mesma equipe também assumia o caderno em outras plataformas, que experimentou com as redes sociais antes do próprio jornal ter suas contas. Falamos do Twitter, do Marco Civil, do Facebook, da pirataria política e de impressão 3D antes de esses assuntos entrarem na pauta brasileira.

Mas a melhor coisa nestes cinco anos e meio de Link, que terminam nesta edição (estou deixando o Estadão esta semana) foi estar junto a pessoas ótimas, amigos dispostos a encarar desafios e a aprender, sempre de bom humor. Pessoalmente é a principal dívida que tenho com o jornal: ter trabalhado com pessoas tão fodas que vocês conhecem pelo nome e sobrenome, mas que me refiro como amigos – Filipe, Tati, Camilo, Murilo, Carol, Vinícius, Thiago, Helô, Carla, Rafa, Fernando, Ana, Fred, Rodrigo, Bruno, Ju, Lucas, Gustavo, Marcus. Juntos, transformamos não apenas o suplemento de tecnologia em um caderno central para o jornal como aceleramos a mudança na cobertura de tecnologia no Brasil. Além de termos aprendido e nos divertido muito, neste processo.

Quis o destino que meu último Link viesse na mesma semana em que o primeiro jornal que trabalhei acabou; o Diário do Povo, de Campinas, parou de circular no primeiro domingo deste mês. Mas isso não significa que o impresso irá acabar – estamos começando a ver uma transformação bem interessante no que diz respeito ao jornalismo, à tecnologia e, claro, à cultura humana. Vamos ver o que virá.

Saio da redação, mas sigo nestas páginas. A Impressão Digital segue aqui, toda segunda. Foi muito bom, aprendi muito. E não se esqueçam: só melhora.

4:20

E na minha coluna dessa edição do Link, peguei o gancho da idade do XXYYXX pra comentar, na transversal, um assunto que o Bruno havia falado na coluna dele no Globo.

A geração pós-digital quer apenas fazer – e está fazendo
Nada está pronto; tudo está sendo feito

Marcel Everett completou 17 anos no mês passado. Morador da cidade de Orlando, na Flórida, ele produz música desde 2010, mas ainda em seu quarto. Influenciado por rappers como Ja Rule e R. Kelly, ele aos poucos foi lapidando bases e beats, desacelerando as batidas por minuto, trabalhando texturas e ambiências. No fim do ano passado assumiu um pseudônimo cifrado – XXYYXX – e uma imagem para representá-lo (o olho na pirâmide tão conhecido dos teóricos da conspiração).

Suas músicas logo começaram a correr a internet, principalmente via YouTube, até que em abril deste ano o diretor Jeff Vash, de 22 anos, do Texas, resolveu fazer um vídeo para ilustrar o clima etéreo e sem gravidade das camadas sonoras produzidas por XXYYXX. O vídeo mostra belas mulheres soltando fumaça em câmera lenta após tragar cigarros, primeiro de rosto descoberto, depois usando máscaras de bicho e aos poucos ajudou a disseminar online a música do adolescente, até que, desde o início do semestre, sua popularidade começou a crescer mais rápido do que o normal. Logo estava sendo convidado para fazer apresentações ao vivo, discotecar, dar entrevistas, muitas vezes confundindo o entrevistador. Numa delas, à revista norte-americana Vice, disse ser o cabeça da sociedade secreta Illuminati.

Uma brincadeira. Afinal, Everett tem só 17 anos e, se não fosse a internet, talvez ainda estivesse no seu quarto destrinchando camadas de som, picotando trechos de músicas alheias, acelerando vocais e desacelerando batidas. Em pouco tempo, deixaria a brincadeira de lado ou a tornaria apenas um hobby, para logo pensar em um trabalho “de verdade”, como um de seus pais deve dizer.

Já vimos esse filme durante toda a década passada. Adolescentes que, se não fosse a web, ficariam trancados no quarto, fazendo música, escrevendo, editando vídeos, tirando fotos. Alguns deles hoje têm mais de 20 anos e transformaram seu hobby em sustento. Mais do que isso: estão vivendo plenamente de suas criações, uma situação que causa inveja a muitos de gerações anteriores.

Afinal, quantos hobbys deixaram de virar carreira pois era hora de entrar em uma universidade? Quantos sonhos não foram deixados para trás pois era preciso ter uma profissão? Quantas invenções não foram abandonadas depois que muitos adultos disseram que isso era perda de tempo?

Quem tem o referencial analógico entra em parafuso ao colidir com essa geração, criando “crises” que só fazem sentido para quem viveu no século passado. Perguntam-se sobre o fim do popstar, preocupam-se em relação à falência da indústria, lamentam o fim de profissões com séculos de existência.

Mas para quem nasceu na última década do século passado estes questionamentos são secundários. Esse problema é geracional e já passamos por situações parecidas antes disso. A geração dos meus pais, por exemplo, nascida após a Segunda Guerra Mundial não consegue enxergar uma pessoa que muda de emprego várias vezes como bem sucedida. Para eles, o sucesso profissional estava associado à entrega pessoal e devotada à uma única empresa. Hoje, pode perguntar para qualquer profissional da área de Recursos Humanos, uma pessoa que passa mais de uma década num mesmo emprego é alguém sem iniciativa, passivo, estagnado.

O mesmo acontece em relação à geração pós-digital. Eles não estão preocupados com o futuro próximo porque sabem que ele está constantemente em movimento. Apegar-se a uma única profissão ou habilidade pode ser aprisionador – ou, pior, determinar a própria obsolescência. Estes novos adolescentes querem simplesmente fazer. Não querem esperar que alguém diga o que eles devem fazer. E as ferramentas digitais lhes dão liberdade plena para isso.

Se o XXYYXX vai ser um popstar ou sumir em pastas de MP3 pelo mundo, não importa. O que importa é que ele está fazendo o que quer hoje. E, continuando assim, fará o que quiser pelo resto da vida. A realidade pós-digital nos lembra que a vida é um eterno aprendizado. Nada está pronto. Tudo está sendo feito.

Nessa edição do Link também comentei sobre o anúncio da venda da Lucasfilm para a Disney na semana passada…

‘Tenho um mau pressentimento’
Disney compra a Lucasfilm e produzirá os novos Guerra nas Estrelas, mas não é uma boa notícia para os fãs da saga

“É hora de passar Guerra nas Estrelas para uma nova geração de cineastas”, comemorou na terça-feira George Lucas, o criador da saga que reinventou o cinema nos anos 70. Assim ele anunciava a venda de sua empresa Lucasfilm à Walt Disney Company por US$ 4,05 bilhões. O anúncio deixou fãs pilhados – afinal, além da transação bilionária, havia outra novidade: a Disney vai produzir mais uma trilogia de filmes com os personagens de Lucas.

Isso mesmo: mais três novos filmes de Guerra nas Estrelas vêm aí. O Episódio VII já foi agendado para 2015.

Não é uma notícia qualquer. Os fãs de Guerra nas Estrelas sabem que Lucas havia cogitado, ainda nos anos 70, a possibilidade de sua saga se estender para além dos três filmes que fez à época. As duas novas trilogias cercariam a original: uma contaria a história de como Anakin Skywalker virou Darth Vader, a outra contaria como Luke Skywalker tornaria-se mestre de um novo cavaleiro Jedi, como ele foi de Obi-Wan Kenobi e Yoda.

Os três primeiros filmes foram realizados na virada do milênio e foram motivo de frustração para a maioria dos fãs da saga. Se muitos já reclamavam do excesso de fofura do último filme da trilogia original (os ursinhos Ewoks foram criados apenas para virar brinquedos), nos Episódios I, II e III, George Lucas extrapolou as possibilidades e adoçou ainda mais a saga de capa e espada que se passava em uma galáxia muito distante – críticas que podem ser sintetizadas na criação do personagem infantilóide Jar Jar Binks. Elas foram tão pesadas que o próprio Lucas abandonou a ideia de fazer outros três filmes – até a Disney se dispor ela mesma a bancar tudo.

O anúncio da semana passada deu início a uma onda de preocupação online sobre os três filmes no futuro: se, sob a batuta do criador a série já tinha desandado, o que poderia acontecer sob o domínio da força de Mickey?

A própria Disney ironizou essas preocupações, reeditando um vídeo que havia feito no ano passado, quando inaugurou o brinquedo de Guerra nas Estrelas em seu parque californiano. No original, Darth Vader e dois stormtroopers se perdiam no parque de diversões, andando no carrossel, comendo pipoca. Na reedição, o vídeo era idêntico, à exceção do início (que perguntava “Darth Vader, agora que você é parte da família Disney, o que vai fazer?”) e o fim (que originalmente mostrava o vilão entrando no brinquedo de Guerra nas Estrelas, cena cortada na nova edição). A brincadeira faz sentido, pois um dos investimentos da Disney em relação à Lucasfilm será em parques temáticos.

Os fãs temem o pior, mas algumas especulações indicam que a nova trilogia possa ser melhor que a anterior. Lucas não conseguiu realizar seu sonho de dirigir um filme sem atores, que achava que conseguiria fazer nos anos 90. Continuou insistindo, principalmente na série Guerras Clônicas, totalmente feita em computação gráfica. Não custa lembrar que a Disney também é dona da Pixar – e já há rumores que um dos diretores do estúdio, Brad Bird, estaria envolvido no filme de 2015 (além de Damon Lindelof, roteirista da série Lost, da emissora ABC, que também é da Disney).

Outra boa nova é que Lucas já teria se encontrado com os atores Mark Hammill e Carrie Fischer (Luke e Leia na primeira trilogia) para convidá-los a participar dos novos filmes.

Copyright. A má notícia é que a Disney é uma das principais defensoras do modelo mais restritivo de direitos autorais.

Enquanto George Lucas incentiva os fãs a fazer filmes, animações e paródias com suas marcas (ele inclusive organiza a premiação anual Star Wars Fan Movie Challenge), a Disney é uma das principais responsáveis por estender o tempo de duração para uma obra cair em domínio público, a ponto da legislação norte-americana que aumentava o tempo de proteção a uma obra para 95 anos, em 1998, ter sido apelidado de Projeto de Lei para a Proteção de Mickey.

Se por um lado os fãs podem comemorar novos filmes, por outro, só podem lamentar que outros tantos novos filmes (feitos por fãs) não verão a luz do dia porque provavelmente receberão cartas da Disney com ameaças de processo. É complicado.

#HashtagÉArte

Ainda na edição dessa segunda no Link, traduzi um texto da Julia Turner, da Slate, sobre como a hashtag é mais do que uma métrica de popularidade no Twitter, mas algo que está entre um gênero literário e uma ferramenta de retórica. Um trecho:

Acadêmicos não dão muita atenção à linguística do formato. Estudos tendem a concentrar-se na teoria de rede, na difusão da informação e na adoção das tendências. Assim, é provável que uma hashtag que não é replicada por mais de uma pessoa e, portanto não se espalha, será considerada um fracasso pelos cientistas da computação.

Da mesma forma, estudiosos debruçam-se sobre identificação de sentimentos – se você pode ensinar uma máquina a identificar sarcasmo ou outras emoções em tweets. A academia já produziu diversos estudos sobre a forma como o Twitter é usado em conferências acadêmicas. Mas estes mesmos estudiosos não pararam para observar as hashtags como um fenômeno literário. Desta forma, os melhores exemplos do hashtaguismo criativo – os exemplos mais singulares de brilho linguístico – são frequentemente pérolas que passam despercebidas.

Por isso precisamos lutar para nutrir esta forma de arte incipiente.

O texto inteiro você lê lá no Link.

Na minha coluna da edição desta semana do Link falei sobre o último encontro de Steve Jobs e Bill Gates para mostrar que a lógica das duas empresas rivais não é tão diferente assim…

O futuro das duas empresas que inventaram o presente
Jobs e Gates criaram uma indústria que não existia

No dia 30 de maio de 2007, na cidade de Carlsbad, na Califórnia, o jornalista norte-americano Walter Mossberg, uma das principais referências do jornalismo de tecnologia do mundo, recebeu os dois maiores nomes da história da computação dos últimos 30 anos para um encontro há muito esperado. Bill Gates e Steve Jobs compareceram à conferência D5, organizada por Mossberg a partir de sua plataforma All Things Digital, do jornal Wall Street Journal, para um encontro que seria naturalmente histórico. Faziam anos que os dois não compareciam a um mesmo evento simultaneamente e agora estavam novamente juntos para uma sabatina em conjunto.

Os dois começaram trabalhando juntos, nerds idealistas que viam a possibilidade de transformar o computador – um aparelho que antes ocupava salas inteiras – em um aparelho presente na casa da maioria das pessoas. Era uma utopia tecnófila e pouco provável para os principais futuristas daquele tempo, mas Gates e Jobs insistiram tanto que fundaram duas empresas que determinaram nosso estilo de vida nas últimas três décadas. Juntas, Microsoft e Apple dominaram um mercado que não existia, movimentaram bilhões de dólares, criaram uma indústria literalmente do nada e – ao mesmo tempo – eram rivais, cada uma defendendo uma lógica da computação pessoal, uma estética.

Por isso era natural que se esperasse que o encontro pudesse ser um espetáculo de farpas e alfinetadas por sobre um clima tenso e pesado.

Não foi o que aconteceu. Foi justamente o contrário. Os dois, claro, ironizaram as empresas um do outro – além de brincar com a própria reputação pessoal e de suas empresas. Foi quase um reencontro de turma de classe, com os dois lembrando os primeiros dias de trabalho ao mesmo tempo em que projetavam previsões para um futuro próximo, especificamente aquele que aconteceria em cinco anos.

A conferência foi em 2007, cinco anos depois estamos em 2012. Vale lembrar agora o que os dois projetaram para o nosso presente.

Um deles disse que achava que não teríamos apenas um dispositivo para acessar a internet. “Acho que teremos uma grande tela portátil que nos fará ler dramaticamente mais. Eu acredito muito no formato do tablet. Você terá um aparelho com teclado e algumas ferramentas para isso. E você também terá outro aparelho que cabe em seu bolso, em que você terá toda a noção de inúmeras funções que podem ser postas ali. Você sabe, localização, mídia, telefonia. A tecnologia nos permite colocar cada vez mais coisas ali, mas você deve afiná-los para que as pessoas tenham uma ideia sobre o que esperar. Por isso há muita experimentação neste aparelho de bolso. Mas acho que estes são fatores naturais e teremos uma evolução da máquina portátil.”

O outro completou: “Você sabe que houve a era da produtividade, com processadores de texto, planilhas eletrônicas e tudo aquilo que fazia toda a indústria se mover. E isso se estabilizou por um tempo e estava começando a ficar velho quando veio a internet e todo mundo precisava de computadores mais poderosos para acessar a internet. Vieram os navegadores e, com eles, toda a era da internet. Foi quando surgiu essa noção de que o computador pessoal – chame de hub digital ou de centro multimídia da casa – começou a decolar graças a câmeras digitais e pelo compartilhamento das coisas via internet. E assim o computador renasceu como o hub de sua vida digital. E dá para ver que há algo novo começando de novo. Não está exatamente claro sobre o que é isso, mas o computador vai funcionar com outros serviços online e coisas do tipo. E, claro, computadores vão se tornar ainda mais móveis. Por isso acho que o computador pessoal deverá continuar existindo.”

A primeira fala é de Bill Gates. A segunda é de Steve Jobs. Se parece que seria o contrário, é porque os dois, na verdade, fazem parte do mesmo negócio. Se opõem, mas estão juntos.

Cinco anos depois, Jobs está morto e Gates não faz mais previsões sobre o futuro, longe da empresa que fundou. Apple subiu ao topo da cadeia tecnológica e vive seu melhor momento enquanto a ainda gigante Microsoft dá seu passo mais radical (o Windows 8) para se manter importante. Passou, inclusive, a produzir hardware, como a Apple.

O encontro virou piada na internet anos mais tarde num quadrinho em que os dois magnatas brincam com o fato de serem ricaços (veja um exemplo nesta página). Não há rusga, não há briga. Há dois nerds milionários rindo para além de uma rivalidade de butique. Juntos, eles mudaram o mundo. Resta saber se suas empresas o mudarão ainda mais.

E a minha coluna nessa edição do Link foi a continuação da coluna da semana passada

Só melhora: o otimismo é a mola mestra de nossa evolução
A ficção científica não previu o celular

Engraçado ver como um assunto repercute. Na coluna da semana passada, me referi a um texto do comediante norte-americano Louis C.K. para comentar como passamos o tempo todo reclamando e não percebemos como a época em que vivemos é fantástica. Muitos aplaudiram, outros contestaram e a discussão ficou dividida entre os que consideraram o texto deslumbrado e os que se identificaram com meu otimismo. E, claro, muitos apenas reclamaram, uns com argumentos, outros só por prazer.

E, no meio da repercussão, um link me foi enviado quatro vezes. Ele remetia ao site do escritor inglês Warren Ellis, autor de quadrinhos que já são clássicos modernos, como Transmetropolitan, Authority e Frequência Global (todos lançados no Brasil). Ellis usa os quadrinhos como veículo para discutir temas que ainda são ficção científica, mas que ele trata como realidade iminente, justamente pela onipresença da tecnologia em nossos dias (como robótica, inteligência artificial, transferência de consciência, a fusão homem-máquina).

O texto, chamado Como ver o futuro, foi apresentado durante a conferência de ficção científica Improving Reality, que foi realizada no início do mês passado na Inglaterra. Ele começava o texto explicando que a obsessão tecnocêntrica de nossos dias tem nos deixado apáticos em relação aos avanços do presente e, desta forma, desiludidos em relação a qualquer tipo de futuro melhor.

E, em dado momento, cita uma das principais passagens do pensador maior da era digital, Marshall McLuhan: “Olhamos para o presente pelo espelho retrovisor. Marchamos de ré para o futuro. Devido à invisibilidade de qualquer tipo de ambiente durante este período de inovação, o homem só passa a perceber conscientemente o ambiente que veio anteriormente. Em outras palavras, um ambiente só se torna inteiramente visível quando é substituído por um novo ambiente. Assim, estamos sempre um passo atrás de nossa visão do mundo. O presente é sempre invisível porque ele é o próprio ambiente em que vivemos e assim acaba saturando todo nosso campo de atenção de forma implacável. É por isso que vivemos no dia de ontem.”

Isso foi escrito em 1969. E Warren Ellis destrincha o tema no texto: “Você não consegue ver o presente propriamente pelo retrovisor. Ele está à sua frente. Bem aqui.”

E descreve o nosso presente fantástico e invisível: “Exatamente agora, há seis pessoas morando no espaço. Há pessoas imprimindo protótipos de órgãos humanos e pessoas imprimindo tecidos compostos por nanofios que vão misturar a carne humana com o sistema elétrico humano. Já fotografamos a sombra de um único átomo. Temos pernas mecânicas controladas por ondas cerebrais.”

Ele continua: “Nos últimos dez anos, descobrimos duas espécies desconhecidas ao ser humano. Conseguimos fotografar erupções na superfície do Sol, aterrissagens em Marte e até mesmo na lua de Titã. Isso parece sem graça para você? É porque está acontecendo agora, neste exato momento. Olhe as horas no seu relógio, pois este é o presente e essas coisas estão acontecendo. O telefone celular mais simples é, na verdade, um dispositivo de comunicação que envergonharia toda a ficção científica, todos os rádios no pulso e comunicadores portáteis. O Capitão Kirk tinha de sintonizar seu comunicador, que não conseguia mandar mensagens de texto, nem tirar fotos em que ele poderia colocar um filtro Polaroid por cima. A ficção científica não antecipou a chegada do telefone celular.”

Mais uma citação para encerrar a coluna dessa semana (mas não o assunto). O escritor de ficção científica inglês Arthur C. Clarke repetia que “toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Imagine nossos avós no começo do século passado, antecipando a nossa rotina do século 21. Mais do que comemorar feitos fantásticos, eles ficariam espantados a nos ver vivendo como… magos.

O otimismo é a mola mestra de nossa evolução, e não o pessimismo. Digo e repito meu mantra: só melhora.

Peguei um velho papo do Louis CK como gancho pra falar da nossa insatisfação em relação à tecnologia na minha coluna da edição de hoje do Link.

Tudo é tão incrível, e ninguém está feliz
Reclamamos muito sem pensar no passado

A cada momento que o olho brilha graças aos avanços da tecnologia moderna, dois resmungos competem com o deslumbre: um deles lamenta que as coisas não são tão boas quanto no passado, o outro se inquieta com as falhas do recém-chegado. Muito já foi dito e escrito sobre a natureza insatisfeita do ser humano, mas vivemos numa época de ouro para a humanidade. Ela pode não ser a mais incrível da história, mas é, sem dúvida, aquela em que o maior número de pessoas vive bem e pode fazer o que quer. Mais do que isso: elas podem fazer coisas que nem sequer imaginariam fazer apenas alguns anos antes.

E nem estou falando das virtudes sempre exaltadas pela pauta do Link. Me refiro apenas a fatos triviais.

Estamos em contato com amigos e conhecidos o tempo todo. Hoje conversamos em vídeo pelo celular. É possível fazer compras, pagar contas e trabalhar ao mesmo tempo, sem que uma ação atrapalhe a outra. A maioria das perguntas que você pode fazer – tirando as existenciais – pode ser respondida em alguns cliques. Só o clichê do “computador de bolso” propagado na era do smartphone já justificaria tanto deslumbre: seu celular é um localizador de GPS, um tocador de mídia (música, vídeos, fotos), uma câmera que filma e tira fotos, um dispositivo de acesso à internet, um videogame portátil.

Mas, enquanto a foto não carrega, o mapa não aparece, o vídeo não sobe ou o game muda de fase, reclamamos da conexão, do aparelho, da rede, do software. Isso sem citar aqueles que esbravejam “antigamente é que era bom” e se esquecem das filas no banco, do tempo perdido para se achar um lugar, de impostos feitos em planilhas de papel, das as poucas fontes para descobrir música nova, como rádio e lojas de disco.

Sempre que vejo as pessoas confrontadas nesse dilema egoísta, minha memória me leva inevitavelmente a um texto, repetido em apresentações ao vivo e programas de TV do comediante norte-americano Louis C.K., que ficou conhecido com o título que usei nesta coluna.

“Tudo é incrível e ninguém está feliz”, começava. “Em minha vida, as mudanças que aconteceram no mundo foram incríveis. Quando eu era criança, o telefone em casa era de disco. Você tinha de ir onde ele estava e tinha que discá-lo. Você já parou para pensar como era primitivo? Você está produzindo faíscas em um telefone!”

Ele continuava falando do saudoso passado de que uns ainda fingem sentir saudade: “Se você quisesse dinheiro, você tinha de ir ao banco, que só ficava aberto por algumas horas. Você tinha de pegar uma fila, escrever um cheque para você mesmo feito um idiota e quando o dinheiro acabava você não tinha mais o que fazer. Acabou.”

“Estamos vivendo num mundo incrível e ele está sendo desperdiçado na geração mais rasa de idiotas mimados que não se importam porque é assim que as coisas são agora”, reclamava. “Estava num avião outro dia e tinha internet. E isso é o avanço mais recente que eu conheço: internet rápida no avião. Estou ali no avião e posso pegar um laptop, entrar na internet, que é rápida o suficiente para assistir a vídeos no YouTube. É incrível. E aí de repente a conexão falha, alguém da companhia aérea pede desculpas pela internet não estar funcionando e um cara do meu lado começa a reclamar que isso é uma merda!”

E conclui dizendo que nem sequer percebemos a maravilha que é voar, essa tecnologia de pouco mais de um século. “Alguém reclama que teve de ficar esperando a decolagem por 40 minutos. É mesmo?”, pergunta Louie. “E o que aconteceu logo em seguida? Você voou pelos céus como um pássaro? Você atravessou as nuvens, algo que era impossível? Você teve o prazer de participar do milagre do voo humano e depois pousou maciamente sobre pneus enormes que você nem consegue imaginar como foram parar o céu? Você está sentado em uma cadeira no céu. Você é um mito grego neste exato momento.”

Reclamamos muito e temos pouca consciência do nosso próprio contexto – e isso não diz respeito apenas à tecnologia. Mas graças a ela isso tem mudado.

Volto ao assunto em outras colunas.

É do ano passado, mas tá valendo:

Essa mulher é demais.