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O pessoal do caderno Aliás, do Estadão, me pediu para escrever sobre essa nova rede social, Ello – e o texto vem a seguir. Quem quiser me adicionar lá é só seguir no http://ello.co/matias (o @trabalhosujo ainda está em construção), onde estou postando links e gif animados.

O elo que faltava?
Surge uma nova rede social na semana em que o Orkut sai de cena. Mas é cedo para dizer se o Facebook será superado

Mais uma vez estamos nos perguntando “mas pra que serve isso?” e “agora que estou aqui, o que faço?”. Desta vez quem puxa as questões é uma rede social que começou a fazer barulho na mesma semana em que o Google desligou os aparelhos de sua – e nossa – primeira rede social, o Orkut. A Ello foi lançada em março e só havia sido percebida, como sempre, por alguns poucos tecnófilos, novidadeiros e gente de comunicação. Mas, com o fim de setembro, tornou-se a nova aposta da internet para “derrubar” o Facebook.

Em termos de interface, o Ello não traz particularmente nenhuma novidade. Na verdade, o site diminui uma série de recursos que outras redes sociais criaram e foram apropriados uns pelos outros: o Twitter criou a hashtag que depois foi apropriada pelo Facebook; o conceito de RT (retweet) é praticamente a ideia que dá origem ao Tumblr e também foi incorporado pelo Facebook, com o botão “compartilhar”. A contagem de RTs é decorrente da contagem de likes da rede de Mark Zuckerberg e essas duas redes sociais assumiram o papel de repositório de fotos e vídeos, que já vinha sendo ocupado pelo Flickr e pelo YouTube, sites que assimilaram todos os conceitos das redes sociais e se tornaram, eles mesmos, outras redes desse tipo. A natureza aberta da internet permite esse excesso de clones e apropriações específicas de funções sem que necessariamente isso resulte em processos por plágio.

O Ello não tem nada disso. Sua interface é espartana, quase um rascunho digital do que poderia ser um site mais “aconchegante” ou “arrojado”, dependendo do lado que for a direção de arte. Ello é cru, minimalista, não permite republicações nem hashtags surtem efeito. Divide seus contatos entre “amigos” e “ruído” e permite gif animados (como o Google +), mas seu “salto de fé” vem embutido na última parte de seu slogan, que resume o site como simple, beautiful, ad-free (simples, bonito e sem anúncios).

“Ello não vende anúncios. Nem vendemos dados sobre você para terceiros”, explica o site em seu manifesto (https://ello.co/wtf/post/about-ello): “Virtualmente todas as redes sociais são geridas por publicitários. Nos bastidores eles empregam exércitos de vendedores de anúncios e mineradores de dados para registrar todo movimento que você faz. Dados sobre você então são leiloados para anunciantes e para corretores de dados. Você é o produto que está sendo vendido e comprado.”

Embora esse não seja o motivo da recente explosão de popularidade da nova rede social, é sem dúvida o seu maior apelo. Muito já foi escrito e investigado sobre a falta de ética ou de pudores das redes sociais em relação à possibilidade de transformar nossas pegadas digitais em fórmulas para personalizar propaganda. O Facebook teve de mudar seus termos de uso diversas vezes após ser acusada de se apropriar de diferentes níveis de privacidade de seus usuários.

A onipresença da rede de Mark Zuckerberg é assustadora e muitos a vêm deixando por causa disso. Embora cada vez mais gente encontre oportunidades, inclusive de negócios, graças ao Facebook, a forma como ele se embrenhou em diferentes camadas de nossas vidas é preocupante. O mesmo ocorre com o Google, outra máquina de invasão da privacidade alheia. Os dois sites estabeleceram-se durante a década passada, cresceram graças a investimentos e publicidade e hoje fazem parte do dia a dia de parte gigantesca da população do planeta. Entretanto, o futuro do Facebook é mais incerto que o do Google justamente por operar em apenas um campo – o da rede social. Por maior que seja sua atuação, ela é pequena se pensarmos no conjunto de operações sob a marca Google – que compra empresas de robótica e engenharia genética, tem todo o mundo (e a Lua!) mapeado digitalmente, tem o sistema operacional (o Android) e o navegador da web (o Chrome) mais populares do planeta, o maior repositório de vídeos existente (o YouTube), o tradutor online mais usado da internet – e a lista poderia continuar, sem exagero, por algumas páginas. Tudo isso converge para a publicidade e compensa o fato de todas tentativas de rede social lançada pelo site – o recém-falecido Orkut, os descontinuados Google Wave e Google Buzz, a enorme cidade fantasma chamada Google Plus – terem dado errado.

As duas empresas antecipam um futuro totalitário em que o Big Brother de George Orwell não é um ditador onisciente, mas um conjunto de distrações mais próximo do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, descrito magistralmente pelo norte-americano Dave Eggers em um dos melhores livros de 2014, The Circle, que será lançado este mês no Brasil.

O Facebook, no entanto, corre para entrar também no celular, o computador pessoal do início deste século. Melhorou bastante seu aplicativo, comprou hits populares (Instagram e Whatsapp, embora tenha sido esnobado pelo SnapChat), empurrou goela abaixo um outro aplicativo para trocar mensagens e fica pedindo o tempo todo seu número de telefone celular por motivos “de segurança”. Sua onipresença segue firme nos celulares, mas e se a onda dos “computadores vestíveis” pegar? Os óculos do Google, os relógios da Apple e da Samsung já estão nas ruas – e o Facebook vai ter que correr para se adaptar, de novo.

Enquanto isso as pessoas vão ficando fartas de terem todos seus conhecidos numa mesma plataforma, de misturar colegas de trabalho, familiares, amigos íntimos e conhecidos numa mesma caixa de comentários, de tanto post patrocinado. O Facebook também consegue extrair o pior das pessoas e tornou-se, para umas três ou quatro gerações diferentes, uma mistura de blog com caixa de comentários de sites de notícias, todo mundo resmungando seus piores argumentos, remoendo rancores, querendo sair no tapa com desconhecidos, desafazendo amizades até na vida offline.

O sucesso do Ello veio disso, do fato de o Facebook exigir que as pessoas escrevam o próprio nome no campo, como um formulário burocrático em vez de uma reinvenção pessoal. Drag queens de São Francisco, nos EUA, queriam vestir seu personagem em vez de usar a identidade de batismo. E migraram para o Ello como protesto. O resultado foi um efeito dominó – e um novo excesso de pessoas fez muita gente migrar para esse novo lugar digital. São Francisco é a meca do movimento gay e do mundo digital; e o sucesso do Ello entre essas duas comunidades o fez explodir no resto do mundo, inclusive no Brasil (afinal já é conhecida nossa tradição de “invadir geral” no mundo online).

Se o Ello é o novo Facebook só o tempo dirá. Pois já vimos esse filme em vários formatos: o Friendster nos EUA e o Orkut no Brasil foram substituídos pelo MySpace e depois pelo Facebook, com o Twitter entre os dois últimos e o Pinterest, o Instagram e o Tumblr e o… Uns vieram e ficaram, outros sumiram, alguns são usados por grupos menores para finalidades específicas… Só vamos saber se vão dar certo se houver gente suficiente. Afinal, as perguntas do início de qualquer rede social (“mas pra que serve isso?” e “agora que estou aqui, o que faço?”) são as perguntas que fizemos ao entrar na internet pela primeira vez e, em última instância, dizem respeito à vida, afinal.

E só tem um jeito de descobrir o que vai acontecer depois…

Quase humano

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Sim, esse sujeito é feito de computação gráfica!

Ed é uma criação do animador australiano Chris Jones, que passou anos fazendo, na unha e sozinho, o curta The Passenger. Em seu site ele explica melhor as etapas do processo.

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Inevitável falar do disco novo de Thom Yorke na minha coluna no Brainstorm9, afinal, mais uma vez voltamos a questionar o sentido de cobrar por algo que todo mundo pode ter de graça?

A natureza da rede
O Radiohead expande seus experimentos ao lançar um disco solo de Thom Yorke via torrent pago

Falei pra ficar de olho no Radiohead.

No início de setembro o grupo lançou a atualização do aplicativo PolyFauna, que comentei numa coluna anterior. Há três semanas, o vocalista da banda Thom Yorke twittou uma imagem de um vinil branco, causando furor na enorme base de fãs do Radiohead sobre a possibilidade do grupo estar realmente voltando – e de já ter um disco prontinho e prensado.

Na semana seguinte ele twittou que estava no segundo dia de gravação do próximo disco da banda, ao mesmo tempo em que causou dúvidas sobre qual seria aquele vinil branco que havia publicado anteriormente.

Eis que na sexta passada ele anunciou a novidade – que estaria lançando seu novo disco solo, o segundo produzido por Nigel Godrich, seu parceiro tanto como produtor do Radiohead quanto na banda Atoms for Peace, que ainda conta com Flea, o baixista dos Red Hot Chili Peppers, na formação.

Tomorrow’s Modern Boxes, no entanto, não é só um disco. Foi anunciado abruptamente não só como uma continuação do trabalho solo de Thom Yorke, mas, principalmente, como um experimento. No site do Radiohead um texto explica que o lançamento não é apenas um novo disco. É um experimento.

“Como um experimento estamos usando uma nova versão do BitTorrent para distribuir o novo disco de Thom Yorke.

Os arquivos Torrent devem ser pagos para se ter acesso a alguns arquivos.

Os arquivos podem ser qualquer coisa, mas neste caso eles são um “álbum”.

É um experimento para ver se as mecânicas do sistema são algo que o público em geral pode se envolver.

Se funcionar bem pode ser uma forma eficaz de permitir o controle do comércio via internet de volta às pessoas que criam o trabalho.

Permitindo que elas possam fazer tanto música, vídeo ou qualquer tipo de conteúdo digital para elas mesmos colocar à venda.

Ultrapassando os autodenominados seguranças na porta de entrada.

Se funcionar qualquer um pode fazer como nós fizemos.

O mecanismo torrent não requer nenhum servidor para fazer upload ou custos de hospedagem ou esse papo-furado de “nuvem”.

É uma vitrine de loja embutível e autocontinda…

A rede não apenas carrega o tráfico de dados, ela também hospeda os arquivos. Os arquivos estão na / são a rede.”

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Em outras palavras, Thom Yorke lançou o primeiro torrent pago da história da música. Embora atualizações via torrent sejam comuns no mundo dos games, esta é a primeira vez que um artista de tal grandeza utiliza um formato amplamente difundido mas pouco comercializado.

O torrent, para quem não conhece, é a continuação da horizontalização da distribuição de conteúdo digital que começou com o Napster, em 1999. Naquela época, o programa permitia que qualquer computador pudesse funcionar como servidor e qualquer um poderia baixar músicas – ou qualquer outro tipo de arquivo – direto do computador de outras pessoas, seja um vizinho de porta ou alguém do outro lado do planeta.

Essa mudança de lógica subverteu completamente o parâmetro dos downloads digitais na última década do século passado. Antes era preciso encontrar um servidor em que você pudesse hospedar os arquivos que queria distribuir para o público – e naquele tempo pré-Dropbox, pré-Google Drive, pré-”nuvem” e pré-banda larga isso não era fácil de se fazer. Se criar um site para publicar conteúdo em texto ainda era uma tarefa complicada (que veio ser simplificada quando a PyraLabs de Evan Williams inventou o Blogger e popularizou o conceito de blogs), fazer o mesmo com arquivos em áudio era trabalho para poucos nerds que manjavam de internet e programação de computadores (atividades que ainda não haviam se misturado).

O Napster permitiu que todo mundo pudesse baixar conteúdo de todo mundo, sem que fosse preciso se pendurar num servidor principal – traduziu para os downloads o próprio conceito da internet. Mas ainda era preciso esperar um download acabar para o próximo começar e a solução para isso foi a criação da tecnologia torrent – um tipo de arquivo que picota em milhares de pedaços o conteúdo digital e distribui esses pedaços entre as pessoas que estão o compartilhando.

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Isso quer dizer que você não precisa esperar todo um arquivo baixar para começar a permitir que ele seja baixado por outra pessoa, a partir da sua máquina. Se um pedacinho de um disco ou filme já está em seu HD, ele já pode ser baixado. O programa de torrent avisa quando todos os pedaços forem baixados e o download estiver completo.

O formato torrent é o motor do Pirate Bay, o maior site de downloads ilegais do mundo. Sua brecha jurídica é que ele não está permitindo o download dos filmes em si – apenas de um arquivo que permite que várias pessoas baixem um arquivo de outra pessoa. Quanto mais gente baixando, melhor a qualidade da conexão e mais rápido chega o download – ao mesmo tempo que torna-se mais difícil descobrir quem é o pirata original.

Filmes, séries, softwares, discos, livros e videogames são baixados às toneladas diariamente por milhões de pessoas no mundo inteiro – de graça. O desafio lançado por Thom Yorke é meio parecido com quando a banda perguntou ao público quanto ele queria pagar pelo disco In Rainbows, de 2007. A evolução vem em duas partes: a primeira permite o download gratuito de algumas faixas do disco, que funcionam como um aperitivo, e a segunda vem com a utilização do formato torrent.

Essa é a mudança interessante de paradigma. Por mais que os torrents sejam populares, o Radiohead acredita que eles podem ser populares inclusive para conseguir que o público pague por conteúdo digital – e não apenas música. Se o experimento do segundo disco de Thom Yorke der certo, tudo indica que o Radiohead tentará utilizar esse mesmo formato para seu próximo disco (e seus próximos clipes? Seus próximos aplicativos?) e abrirá, mais uma vez, uma nova trilha para artistas de toda sorte tentar buscar novo contato com seu público. A banda sabe que está falando também com gente que nunca baixou um torrent na vida e fez questão de explicar o passo a passo no site do BitTorrent.

Em uma semana de lançamento, o disco foi baixado um milhão de vezes, entre as versões paga e gratuita. Quem vende um milhão de discos em 2014?

Mas há um conceito bem mais interessante do que simplesmente como comercializar conteúdo na internet escondido no final do manifesto, na parte em que diz que os arquivos “são/estão na rede”. É uma reflexão interessante que não diz respeito apenas à natureza da internet para além das simples conexões estruturais (afinal, para que serviria a rede se não existissem pessoas?) como também sobre o futuro da rede, que pode misturar forma e conteúdo cada vez mais, mudando, inclusive, os rumos da arte, do comportamento e da cultura. E, portanto, do que é ser humano.

4:20

cubo

Hoje é dia de luto na internet brasileira e eu já escrevi meu réquiem pro Orkut. Se você ainda não salvou seus pertences do fim do Orkut, corra, hoje é o último dia.

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Sdds Orkut.

u2

Na minha coluna para o Brainstorm9 dessa semana, eu falei da inusitada forma como o U2 lançou seu novo disco, Songs of Innocence.

Satisfação Instantânea?
A Apple e o disco do U2 que apareceu no seu computador

Todos rimos quando, no início do mês, a Apple anunciou que daria para todos seus clientes o novo disco do U2 de graça. A princípio o riso era mais um desabafo mau humorado em relação à transformação destas duas marcas – Apple e U2. As duas começaram desbravando novas fronteiras em seus territórios e décadas depois se tornaram o contrário do pregavam antes.

A Apple de Tim Cook é o U2 do século 21: previsível, insosso, preocupado com os tempos modernos mas completamente convencional. Seu novo relógio de pulso não conseguiu instigar nossa curiosidade como Steve Jobs bem temperava qualquer mudancinha em sua linha linha de produtos, todos saudados como o Próximo Passo em Direção à Melhor Perfeição Possível. Sem Jobs, o Apple Watch parece o comunicador de pulso do Dick Tracy, um pequeno trambolho quadrado no pulso.

Já o fulgor carismático de Steve Jobs morreu no U2 lá pelo fim do século passado, quando saíram de um limão prateado na turnê do disco Pop. Na turnê deste disco, de 1997, a banda se autoironizava ao decorar seu palco com um único arco dourado do McDonald’s, assumindo de vez uma versão corporativa de si mesma que no início daquela década (entre suas obras-primas Achtung Baby, de 1991, e Zooropa, de 1993) era só mais uma persona da banda de Bono.

É exatamente neste período em que Bono começa a se descolar do U2, misturando-se entre políticos internacionais como uma espécie de aval artístico que qualquer projeto social ou ambiental – governamental ou não – precisava para ajudar no marketing. Se o U2 virou uma caricatura sonora de si mesmo, Bono encarnou um estereótipo deformado do terceiro setor, investidor de startups e defensor dos animais, presente em qualquer encontro cívico ou esportivo como “o cara da música”.

Nos anos Bush, Bono representava a visão neocon daquilo que deveria ser a esquerda, uma chatice conveniente, mas facilmente descartável. Sua chatice politicamente correta atingiu níveis monumentais e ofuscou qualquer tentativa de sua banda de sair do mesmo lugar (não foram muitas, convenhamos).

Aí os dois se juntam para lançar dar, de graça, o novo disco do U2, Songs of Innocence, para quem quer que já tenha comprado qualquer tipo de conteúdo através da loja online da Apple.

Mas, espera aí, música de graça? Vamos (re)ver o momento em que Bono e Tim Cook conversam sobre o novo anúncio

Bono: Há rumores que o U2 não fez nenhum disco nos últimos cinco anos, mas isso é não é verdade. Nós fizemos alguns discos, só não os lançamos. Estamos fazendo isso o tempo todo. É o que fazemos. Assim, queríamos esperar até que tivéssemos um que fosse tão bom quanto nossos melhores trabalhos – tão bom quanto o melhor que já fizemos.
Tim Cook: Você sabe que nós nos sentimos da mesma forma sobre nossos produtos.
Bono: Nós somos o sangue em suas máquinas oh mestre zen do hardware e software Tim Cook. Olha, na semana passada nós terminamos nosso disco, chama-se Songs of Innocence. Estamos bem animados. A questão agora, mestre zen, é como nós conseguimos atingir o maior público possível ,pois é isso que nossa banda faz?
Tim Cook: Nós somos os primeiros no mundo a ver isso?
Bono: Sim.
Tim Cook: É um white label?
Bono: É isso aí um white label. E a dúvida é que acho que você pode nos ajudar – como conseguimos chegar ao maior número de pessoas possível?
Tim Cook: Bem, temos o iTunes.
Bono: Acho que você tem mais de meio bilhão de usuários no iTunes. Você pode fazer isso chegar neles?
Tim Cook: Claro que sim.
Bono: Você conseguiria, em cinco segundos, apenas apertando um botão “send” mágico da Apple, fazer isso?
Tim Cook: Se dermos o disco de graça…
Bono: Mas antes você vai ter que pagar. Porque nós não estamos nessa de música de graça por aqui.
Tim Cook: Já ouvi dizer que sou um bom negociador.
Bono: Você consideraria dar Songs of Innocence de graça para mais de meio bilhão de pessoas em cinco segundos a partir de agora?
Tim Cook: Sim, podemos. Apertamos um botão e demorará um pouco mais para ir para toda a internet. Mas isso pode começar em cinco segundos.
Bono: Deixa eu ver se entendi, o novo disco do U2 Songs of Innocence irá chegar de graça para meio bilhão de pessoas nos próximos cinco segundos. 5, 4, 3, 2, 1. Uau! Isso é que satisfação instantânea.

Bono parece estar sendo irônico, mas não está. Ele não está dando música de graça para os clientes da Apple. Depois do anúncio soubemos que a música não veio assim de graça – a Apple havia comprado os MP3 da banda para colocá-los no software loja iTunes para seus mais de 500 milhões de clientes em 119 países. Quanto custou? Cem milhões de dólares. Motivos de sobra para o U2 rir sozinho.

Mesmo que, logo em seguida ao anúncio, continuassem rindo deles. Jovens querendo saber quem hackeou seus aparelhos e enfiou músicas de um tal U2 em seu sistema operacional. Na outra ponta, velhos fãs da Apple que não suportam a banda irlandesa devido ao excesso de Bono das últimas décadas que se viram, de repente, com aquela banda chata no meio de sua seleção de artistas cuidadosamente escolhida. A reação foi tamanha que a própria Apple criou um site que permitia deletar o disco de seu sistema operacional.

Sobravam motivos para considerar o anúncio do U2 com a Apple um erro de marketing, como alguns disseram. Até que as vendas começaram.

Vendas? Mas o disco não veio de graça?

Sim, mas os inúmeros fãs da Apple ou do U2 que não sairam reclamando dos dois nas redes sociais não acharam má ideia aquele novo disco da banda de surpresa em seus sistemas operacionais. Uns não conheciam a banda, outros nem lembravam dela. Bastou Songs of Innocence aparecer de graça para que muitos começassem a fuçar o catálogo passado do grupo.

E na primeira semana após o anúncio, nada menos que 24 títulos da banda voltaram ao Top 200 do próprio iTunes – estes foram comprados em vez de baixados de graça. Os discos The Joshua Tree (1987), Achtung Baby (1991), War (1983) e duas coletâneas de singles, Uma delas, U218, chegou ao top 10 no iTunes em 46 países.

Apple e U2 podem não ser mais os líderes de inovação e contestação que já foram no passado, mas a convergência das duas marcas abriu um mercado de ressurreição de catálogo que já vem sendo explorado em box-sets de CD, reedições em vinil, playlists de programa de streaming. A banda irlandesa e a empresa norte-americana deram um passo a mais nesse mercado – e talvez começaremos a receber mais “discos de graça” sem que queiramos em nossos aparelhos.

Será que estamos vendo o nascimento de um novo tipo de spam?

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Em 2008, James Houston botou velhos computadores para tocar Radiohead, vocês devem se lembrar:

Agora ele foi além no mesmo conceito e está compondo suas próprias músicas.

Muito bom.

supermario

Claro que foi inspirado nesse clipe fantástico:

Microsoft WTF

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Quando Google e Facebook estavam começando a ofuscar de vez o reinado da Microsoft, no fim da década passada, a empresa de Seattle chamou o diretor Brad Abrahams para criar vídeos que estimulassem novos talentos do mundo digital a procurá-la em vez de bandear para os lados de Zuckerberg ou de Brin e Page. A solução? Usar ironia para atrair novos candidatos. Chamar o resultado de constrangedor é um elogio, como dá pra ver por esses dois vídeos desenterrados pelo blog Animal.

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A Bia me pediu pra escrever um depoimento pra matéria que ela fez sobre o fim do Orkut no YouPix e, quando mal percebi, havia escrito um texto inteiro – que ele publicou em separado e eu republico a seguir:

Minha história sobre o Orkut: Alexandre Matias

Se eu pudesse salvar uma só coisa do meu Orkut, o que seria?“, me vi repetindo para mim mesmo a pergunta que a Bia Granja me fez ao abrir meu velho profile. Tirando o azul calcinha e o logo rosa, o Orkut em 2014 é bem diferente daquele que comecei a frequentar há dez anos e que larguei entre 2008 e 2009. Entrei em comunidades idiotas que criei por puro ócio, reli todos os meus testimonials, visitei álbuns que nem minha memória lembrava, passeei por scraps de um passado que parece mais remoto do que ele realmente é. E, enquanto isso, fui teletransportado pela memória por um período de transição da minha vida que foi muito turbulento, produtivo e intenso.

A era Orkut (2004-2009) foi bem importante pra mim, pois coincidiu diferentes fases: o período em que me mudei pra São Paulo, o fim do meu primeiro casamento, a época em que comecei a me dedicar à cobertura de tecnologia e quando comecei a trabalhar como frila. O Orkut foi uma pauta que acompanhei desde o início e fui um dos primeiros usuários do Brasil (tanto que muitos “testimonials” me rotulam como “sócio do Orkut” ou coisas do tipo – quem dera…). Participei do Mídia Tática Brasil, quando John Perry Barlow e Richard Barbrook se conheceram na Casa das Rosas na Avenida Paulista e muitos dos que estavam naquele evento foram convidados pelo próprio Barlow para entrar naquele tal site novo que ninguém sabia pra que servia.

Eu entendi logo: era uma ótima ferramenta para encontrar personagens e descobrir assuntos para matérias que fazia para a revista Info e para o falecido caderno de Informática da Folha de S. Paulo, além de, claro, reencontrar amigos de um passado distante e conhecer pessoalmente gente que só conhecia no mundo online. Lembro que durante a primeira vinda dos Pixies ao Brasil em 2004, em Curitiba, popularizei a expressão “Orkut funciona” quando reconhecia pessoalmente rostos que só conhecia em fotos.

Foi uma época em que eu viajava muito pelo Brasil (sdds Rio de Janeiro 2002-2005), também porque comecei a trabalhar no Trama Universitário, projeto da gravadora Trama que vislumbrava um circuito cultural universitário no Brasil (antes de “universitário” virar sinônimo de “música pra pegar mulher”, que fase). Eu não tinha celular nem laptop, usava basicamente desktops alheios em lan houses ou em business centers de hotéis (duas entidades em vias de extinção) e o Orkut era uma espécie de “memória em nuvem”, funcionando pra várias coisas também em níveis locais, como descobrir um lugar legal para almoçar no Recife ou saber quem eram os estudantes que estavam organizando protestos contra o aumento de ônibus em Florianópolis e Salvador.

O final deste período misturou um monte de coisas: um acidente de carro que foi determinante na minha vida (aquele momento “para tudo!” existencial), a criação da minha primeira festa (Gente Bonita Clima de Paquera, que terminou em 2011), a fundação do meu podcast (o Vida Fodona, criado no carnaval de 2006 no Recife, ao lado do meu saudoso irmão Fred Leal) e a minha ida para o Estadão, onde fui editar o Link. Esta fase também terminou quando comecei a namorar a Mariana, minha atual esposa, que me ajudou a por minha vida nos trilhos.

Poderia escolher álbuns de fotos, comunidades (o Vida Fodona começou como uma comunidade minha no Orkut), testimonials, a enxurrada de scraps que recebi de alagoanos depois que um texto que escrevi para a Trama Virtual sobre um festival em Maceió foi entendido como um “manifesto de preconceito paulistano contra o nordeste” (justo eu, brasiliense filho de cearenses!), mas quando fui procurar o que escolher pra levar comigo, achei tão simbólico que meu último testimonial fosse o da Mariana, com um singelo “S2” que copiamos de diálogos de adolescentes em lan houses e usávamos como um código óbvio, como se marcasse o fim daquela fase.
E começasse outra muito melhor. 🙂

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