
Sempre acompanhei o trabalho dos Garotas Suecas à distância, sem muito afinco, mas com alguma admiração. A banda nunca havia me chamado atenção por suas composições e sim por manter uma atitude firme e coerente em relação ao seu próprio tamanho e espaço. Nunca forçaram a barra para correr atrás do hype da vez, não precisaram de polêmicas para chamar atenção, sempre mantiveram-se fiéis à equação tropicalista que os pariu, de tratar samba, funk e rock como se fossem uma mesma linguagem, mais do que primos distantes. Seu Escaldante Banda, de 2010, não tinha nenhum hit instantâneo ou música de destaque e chamava mais atenção por soar completo como álbum, mais do que um apanhado de canções.
Três anos depois, eles surgem com este Feras Míticas.

E é nítido que o corpo deste novo disco é resultado da constância de um trabalho e da paixão pela própria musicalidade. Os Garotas ainda seguem seu credo musical à risca, mas ao contrário dos Mutantes, inspiração direta e talvez a influência mais nítida no trabalho do grupo, não desequilibrou para um dos gêneros à medida em que foi amadurecendo. Enquanto os irmãos Dias Baptista e Rita Lee foram evoluindo musicalmente, aos poucos foram deixando os ritmos dançantes em segundo plano, enfatizando sua sonoridade no rock (ênfase que, no fim da carreira, expulsou Rita para fora da banda e transformou o ícone tropicalista em uma banda prog), os Garotas Suecas aprofundam-se nas diferentes áreas. Mas em vez de compor um disco pra cima e sorridente, como a junção do funk com o samba parece presumir, fizeram um disco mais sossegado e contemplativo. “Bucolismo”, que a banda liberou para colocar no Soundcloud do Trabalho Sujo, talvez seja a melhor síntese deste nova fase da banda – que, ao contrário do que julgam pela própria letra, não é nada estranha – e sim fértil.
O disco (bem como seu antecessor) pode ser baixado inteirinho no site da banda, pode ser ouvido aí embaixo, junto com os clipes da “irresistível “A Nuvem”, gravada com a Lurdez da Luz e da infame mas grudenta “Eu Avisei Você (Eu Vou Sorrir Pra Quem é Gente Boa)”.

Usos inusitados da GoPro:

Um dos filmes mais misteriosos do mundo chama-se O Dia em que o Palhaço Chorou, que Jerry Lewis fez em 1972 e nunca lançou. Seu autor era um peso pesado na Hollywood do início dos anos 70, mas seus filmes mais recentes pareciam fazer sucesso apenas por surfar na onda do humor que começou a fazer ainda em dupla com Dean Martin. The Day the Clown Cried foi sua tentativa de livrar-se do estereótipo de vez, fazendo um filme sério e denso, cuja história acompanhava os dias do palhaço Helmut Doork, que, ao ser aprisionado em um campo de concentração nazista, passa a usar seu talento para entreter e levar as crianças judias para morrer nas câmaras de gás – um conceito chocante por definição, imagine o impacto destas imagens.
O fato é que algo aconteceu e Jerry Lewis engavetou o filme para sempre. E no início do mês passado, um trecho do filme em boa definição apareceu na internet (revelando, inclusive, o casal Serge Gainsbourg e Jane Birkin maravilhados ao assistir as gravações pessoalmente):
O trecho do filme fez Chris Nashawaty, da Entertainment Weekly, resgatar uma conversa que teve com o próprio Lewis em 2009, na oportunidade em que ele mais falou sobre O Dia em que o Palhaço Chorou. Ao ser perguntado se o cancelamento teria sido por causa de alguma possível afronta aos judeus, Jerry respondeu:
Os judeus? Oh, eles amariam o filme. Viajei por dezoito meses de Stuttgart para Belsen e para Auschwitz. Eu estava organizando minha equipe e me trouxeram um cara chamado Rolf, que era o cara que puxava a porra da alavanca na câmara de gás. E eu disse que a única possibilidade de eu chegar perto dele, muito menos de entrevistá-lo, seria se ele entendesse que estou preocupado com a precisão do filme e que eu precisaria da informação. Mas eu disse ao meu gerente de produção que não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Depois de seis semanas de boas meditações, eu falei com o cara. A pergunta que ninguém poderia responder, que as vítimas não poderiam responder, era: onde eles ficavam quando estavam esperando pelos que ficavam à sua frente, nas câmaras de gás? Quão longa era espera? Eles esperavam de pé? Havia um quarto adjacente? Eles estavam sentados? De quanto tempo estamos falando? A tortura aqui era a espera! E eles não poderiam suportar o som, os gritos. Eu conseguiria tirar a informação deste homem? Eu queria usar uma máscara para que ele não soubesse quem era eu. Quando ele chegou no escritório e sentou-se, pensei, “este pobre ser humano”. Estava sentado ali, ficamos até às nove da noite e quando terminamos de conversar, eu estava… desfeito. Ele me deu o fundo de sua alma! Ele queria penitência. Eu fiquei olhando para sua mão direita. Eu ia perguntar com qual mão ele fez aquilo, mas não consegui.
E segue o mistério.

Sob o comando de Danilo Cabral, a Noite Trabalho Sujo desta sexta recebe mais uma vez a presença da incrível Manu Barem, que traz na manga seu leque de pérolas pop prontinhas para deixar a pista em polvorosa, equilibrando com os hits do Danilo, que vão do rock clássico aos grooves pesados, passando por indie rock e música moderna. E quem abre a pista é o grande André Palugan, que traz algumas surpresas entre seus já clássicos hits dos anos 90.
O rumo para hoje pode ser encontrado tanto na página do evento no Facebook quanto no site do Alberta. E para quem quiser mandar nome para a lista de desconto, é só enviar pelo email noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h dessa sexta. Hoje promete!

Eles acabaram de postar no Feice – e você consegue identificar quem é quem?

Esse A.M. só melhora a cada nova audição, é impressionante… Soa como música de cabaré, blues revisitado, R&B do século 21, Black Sabbath, timbres de country music, stoner rock, rock californiano dos anos 70, gangsta rap, mas sem nunca deixar de soar essencialmente inglês. Faz o rock voltar a fazer sentido em pleno 2013, com letras que passeiam na chuva, de madrugada, depois de tomar um pé na bunda e encher a cara do que estiver à mão. Se eu fosse o Alex Turner não saía debaixo da sombra do Josh Homme, essa reverência já tinha sido formidável em Humbug, agora em A.M. atinge uma maturidade impressionante – e colocar os Monkeys nesse rumo talvez tenha sido a melhor coisa que o dono do Queens of the Stone Age fez em sua carreira.

Atualização: Taí a primeira música do disco novo do Bixiga, “Retirantes”. O disco já está em pré-venda.

Saiu o resultado da ação que escolheu um novo artista para tocar no palco Sunset do Rock in Rio. O vencedor foi o maranhense Phill Veras. O rapaz é uma grata surpresa que reúne o novo pop praticado pela geração influenciada pelos Los Hermanos com referências do indie rock, MPB e uma pitada de reggae – é um perfeito companheiro de geração de novos nomes como Silva, Kika, Tibério Azul e Cícero.
Dá pra ouvir mais dele aqui.

