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Curadoria

Fecho clássico

O encerramento da temporada Abriu o Fuzz que Guilherme Held fez na última segunda-feira de abril no Centro da Terra, como nas segundas anteriores, foi completamente imprevisível, mas de uma forma muito particular. Ao receber Edgard Scandurra (que trouxe sua guitarra da Casio como arma secreta), a nova dupla preferiu trabalhar com trechos específicos de improvisos pautados por alguma regra do que simplesmente tornar a noite num extenso fluxo de consciência elétrica sem intervalo. A formalidade do maior guitar hero paulistano – ele mesmo um cátedro da história da música gravada na segunda metade do século passado – fez Held segurar os ímpetos e voar em céus pré-estabelecidos, mostrando que audição, disciplina e contenção são partes tão importantes na música improvisada quanto sair tocando como se não houvesse amanhã. Combinando algumas regrinhas nos intervalos (“blues…” ou “em si”, murmurava Ed, dando pistas dos rumos a seguir), os dois encerraram a noite improvisando sobre dois temas clássicos, um deles puxado pelo público, que exigiu o único bis da temporada, que encerrou com os dois circulando ao redor do andamento de “The Burn of the Midnight Lamp” de Jimi Hendrix e voltando ao palco para caminhar pelo deserto inóspito que Link Wray desenhou com a sequência de acordes de sua imortal “Rumble”. Um encerramento clássico para uma temporada de celebração a um instrumento clássico, que mais uma vez contou com o laser de Paulinho Fluxuz, mais geométrico que das outras noites.

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Duas instâncias do novo indie rock paulistano passearam pelo Inferninho Trabalho Sujo nesta quinta-feira, no Picles. A noite começou com Isabella Sartorato subindo pela segunda vez no palco da festa e a evolução desde a primeira apresentação, em novembro do ano passado, quando fez seu primeiro show autoral da vida, pode ser traduzida pelo fato de que ela não só está lançando seu primeiro single (a grudenta “Os Meninos”, com a qual encerrou o show) como deixou de assinar com seu próprio nome, batizando a banda que a acompanha (formada, nesta ocasião, pelo baterista João Vítor Aredes, pelo baixista Fran Nogueira e pelo guitarrista João Di Pierro), com o nome que seus amigos se referem a ela, Isinha. E além da presença de palco que ela vai afiando aos poucos e de sua exímia condução musical do grupo através de seu instrumento (que ela domina), ela vai mostrando as pérolas pop que atravessam seu repertório e misturam indie rock, rock pesado com nu metal e música pop sem que isso soe indigesto como a descrição. A salada musical pode ser resumida pelas versões que ela escolheu para tocar no bis, quando deixou a guitarra de lado para cantar “Territorial Pissings” do Nirvana e “Meiga e Abusada” da Anitta.

Depois foi a vez da Celacanto voltar ao palco do Picles mais uma vez para comemorar o aniversário de seu disco de estreia, Não Tem Nada Pra Ver Aqui, e é muito bom ver como a banda formada por Miguel Lian (guitarra e vocal), Eduardo Barquinho (guitarra e acordeão), Matheus Costa (baixo) e Giovanni Lenti (bateria) está cada vez mais entrosada e como estão perdendo o pudor de tocar alto, o que abre uma nova dimensão para a amplitude musical de suas canções. Com o público cantando várias músicas junto, o quarteto ainda mostrou algumas músicas novas que estão trabalhando para um lançamento futuro, mas que ainda não está em seu horizonte prático. Showzão.

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O próximo Inferninho Trabalho Sujo vai acontecer no Picles e ainda demora um tempo pra acontecer, mas já deixa anota aí na agenda porque dia 23 de abril vamos reunir a banda de indie-prog Celacanto com o trabalho indie pop de Isabella Sartorato, que deve ter novidades até a semana do show. Os ingressos já estão à venda e se você já reservar o seu online e chegar antes das 21h30 não paga pra entrar! Depois dos shows, eu e Francesca incendiamos a pista do sobrado mais freestyle daquele canteiro de obras chamado Pinheiros. Os ingressos já estão à venda. Vamos!

Quando Guilherme Held e Kiko Dinucci subiram ao palco do Centro da Terra apenas com seus instrumentos, todos os presentes sabiam que íamos, como nas segundas anteriores de sua temporada Abriu o Fuzz (quando recebeu Fernando Catatau e Lúcio Maia para duelos da mesma natureza), mergulhar no universo da guitarra elétrica sob os auspícios de dois magos das seis cordas. O encontro, porém, foi muito além dos timbres, solos e riffs característicos no manejo daquele instrumentos, quando os dois usaram suas guitarras para explorar os limites e possibilidades da eletricidade sonora, usando a guitarra mais como um cajado sobrenatural do que condutor de melodias e indutor de harmonias e ritmos. Enquanto Kiko enfiava objetos entre as cordas – tocando-a até com um arco de viola – e trabalhava com texturas fantasmagóricas e bordoadas rítmicas, Held repetia loops de notas sequenciais que acelerava ou desacelerava de acordo com as vibrações sísmicas no palco. Na maior parte do show as guitarras não soavam como guitarras, refletindo a reverberação elétrica dos efeitos e texturas manipulados pelos dois, mas em alguns momentos soava como uma conversa alienígena, uma linguagem robótica testando as fronteiras de possibilidades entre a música, a física e a matemática. A ausência do laser de Paulinho Fluxuz, que não pode participar desta única apresentação da temporada, deixou a iluminação mais estática e pensativa, reforçando a transposição sonora da dupla. Tá doido!

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Terça-feira histórica no Centro da Terra, quando Kiko Dinucci mostrou, didaticamente, como chegou ao seu terceiro álbum Medusa sem que este nem tenha sido lançado. Tocando o disco ainda inédito na ordem, ele foi, sozinho no palco apenas com sua guitarra, dois amplificadores e pedais, mostrando as músicas ao vivo numa espécie de audição (que ele também odeia e se refere como “maldição”) enquanto entre as canções falava do processo criativo deste Medusa, que incluiu seu reencontro com a guitarra, uma nova curiosidade em relação ao shoegaze e ao dreampop, a inspiração inicial de Noel Rosa, a presença fantasmagórica dos Cocteau Twins, Dinosaur Jr., My Bloody Valentine e Sonic Youth na microfonia da guitarra solitária, registros em fita analógica, parcerias com Maria Beraldo, Negro Leo, Sophia Chablau, Gustavo Infante e Cadu Tenório tudo sob a direção musical – agora com firma reconhecida em público – de Juçara Marçal. Com vultos tão diferentes quanto Laura Palmer, Alexandre Frota e Claudia Raia pairando sobre a cama de eletricidade sonora e canções que sempre falam de amor – e dos lados improváveis e invertidos deste -, encerrou o show com sua primeira incursão ao território de Roberto Carlos, uma balada rock com uma segunda parte instrumental noise que acaba por sintetizar mais uma obra-prima que Kiko está prestes a por no mundo. Medusa sai no segundo semestre, mas pra quem foi nesta terça não tem como tirar o disco da cabeça.

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Imensa satisfação de receber, nesta terça-feira, Kiko Dinucci mais uma vez no palco do Centro da Terra, desta vez para descortinar pela primeira vez em público apenas músicas inéditas. Na apresentação Pré-Medusa, que antecipa seu terceiro disco solo – batizado apenas de Medusa e previsto para o segundo semestre deste ano -, ele não apenas mostra as canções do novo trabalho, como fala do processo de criação delas, em seu reencontro com a guitarra elétrica. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão esgotados.

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Timbres e beats

Em mais uma incursão sonora ao cerne da guitarra na temporada Abriu o Fuzz que Guilherme Held está fazendo no Centro da Terra, a noite desta segunda assistiu não só a um encontro de dois samurais de seus instrumentos como a primeira vez em que Held dividiu o palco com Lúcio Maia, que admira desde que o conheceu nos primórdios da Nação Zumbi, ainda como ouvinte, nos anos 90. Os dois se conheceram nos bastidores da vida há anos, ficaram amigos mas nunca haviam tocado juntos, falha essa que foi corrigida na segunda noite da temporada de Held no teatro, quando, mais uma vez sob os lasers implacáveis – dessa vez geométricos – do Paulinho Fluxuz, entrelaçaram timbres, riffs e solos muitas vezes a partir de beats que Lúcio ia soltando no meio do derretimento musical que os dois proporcionavam juntos, misturando rock psicodélico com jazz, música ambient com rock progressivo e pitadas de música caribenha, africana e latina, além da banda do groove musical brasileiro. Uma viagem.

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Vai De Banda!

Um momento mágico aconteceu nesta terça-feira no Centro da Terra quando quatro novos talentos da composição brasileira entrelaçaram suas canções num espetáculo que pode batizar esse encontro coletivamente. João Menezes, Marina Nemesio, Tori e Ítallo França já atuam há tempos na música mas estão desabrochando suas carreiras individuais nesse instante: Ítallo lançou seu disco solo em 2023 (Tarde no Walkiria), Tori estreou ano passado (com seu Areia e Voz) e tanto João quanto Nemesio estão fechando suas estreias solo possivelmente para esse ano. Mas reuniram-se para tocar seus repertórios como se fossem um grupo (ou, como o título da noite anunciava, “De Banda”) e fizeram uma apresentação que não só desvenda pérolas de cada um deles, como tem os outros três como acompanhamento musical luxuoso. Todos compõem, cantam e tocam violão, mas alternam-se por outros instrumentos – João, Marina e Tori por vezes tocam percussão (quase sempre discreta), enquanto João e Ítallo alternam seus violões entre baixos e guitarras, além do conjunto de vozes que, quando soam juntas, chega perto do céu. A noite mostrou que não só os quatro são obstinados no ofício da composição e esmeram-se por orquestrar letra e música para caminhos além dos clichês da música popular, sempre tratando suas pequenas obras como ourives hiperfocados em sua artesania. E entre as canções, brincam entre si e com o público, contam causos e repassam ideias de como começar as canções, deixando o tom sério de suas canções um pouco mais informal, caseiro e familiar, flutuando entre o drama e a brincadeira ao mesmo tempo em que retomam uma tradição de laços de composição nordestina que gerou obras coletivas célebres, como a série Cantoria e os shows do Grande Encontro. Encerraram a noite com a única música que compuseram juntos e estão prontos para ir. Vai De Banda!

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Nesta primeira terça-feira de abrimos recebemos quatro novos autores que se unem no palco como se fossem uma banda. Ou será que são uma banda? O espetáculo De Banda reúne os alagoanos Ítallo França, Marina Nemesio e João Menezes e a sergipana Tori para celebrar seus próprios repertórios individuais ao mesmo tempo em que experimentam trabalhar conjuntamente. A apresentação surgiu quase de súbito, quando, depois de passar por suas cidades-natal no fim do ano passado, Tori, Marina e Ítallo se encontraram em trio e fizeram apresentações em Maceió, Recife e Aracaju. Deu tão certo que, ao voltar para São Paulo (onde residem atualmente), convidaram um terceiro alagoano (João) para juntar-se ao time e entre violões e percussões, eles mostram este espetáculo pela primeira vez na cidade. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda pelo site do Centro da Terra.

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Conexão elétrica

Essa temporada que o Guilherme Held deu início no Centro da Terra nesta segunda-feira promete. Em encontros semanais com compadres de instrumento e velhos camaradas das trincheiras da música, o ás de Araçatuba convidou alguns dos maiores guitarristas brasileiros da atualidade para dividir noites em dupla, sempre mergulhando juntos nas probabilidades esotéricas e matemáticas das seis cordas, sempre plugadas em inúmeros pedais. O mês ainda conta com duplas com Lúcio Maia, Kiko Dinucci e Edgard Scandurra, mas só a abertura, quando ele dividiu o palco com Fernando Catatau, já funcionou como uma amostra absurda do que acontecerá nas próximas segundas. Presos dentro da distorção elétrica um do outro, os dois guitarristas se entregaram a ecos de microfonia, solos esparsos, riffs em dupla e efeitos especiais em que seus timbres se confundiam num amálgama de som alto por vezes hipnótico, outras agressivo – atrelado às sempre psicodélicas luzes de Paulinho Fluxus, usando seu laser como um sensor sísmico. Absurdo!

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