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Curadoria

Do mesmo jeito que começou sua homenagem à música feita por Paulo Leminski no Centro da Terra em fevereiro do ano passado, a curitibana Bruna Lucchesi volta mais uma vez ao palco do Sumaré para dar início a uma nova fase de sua carreira – ao mesmo tempo em que despede-se da anterior. Por isso Quem Faz Amor Faz de Tudo lembra o título da homenagem ao poeta paranaense que começou como show e culminou com o disco Quem Faz Amor Faz Barulho, mas desta vez ela prefere expandir a intesecção da poesia com a música para novos autores, passeando por poetas musicais como Patti Smith e Bob Dylan ao mesmo tempo em que mostra composições próprias nesta nova fase que batizou de Faz de Tudo. Nesta terça ela vem acompanhada de Vitor Wutzki (guitarra), Ivan Gomes (baixo) e Bianca Godoi (bateria). O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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Conforto no ruído

Em dado momento de sua terceira apresentação no Centro da Terra deste mês, Jair Naves explicou como aquela temporada lhe ajudava a sair da famigerada zona de conforto ao se autoprovocar a visitar instantes diferentes de sua carreira com parceiros de diferentes fases da vida, visitando velhas canções como quem visita cicatrizes e tatuagens em seu próprio corpo – como havia mencionado na semana passada. Mas referia-se à saída não só por revisitar seu repertório de outros anos como a faze-lo com outras formações musicais, reforçando inclusive laços pessoais com os músicos que lhe acompanharam e citava a formação ali no palco desta terceira noite como sendo sua atual zona de conforto, reforçando que amava poucas pessoas no mundo mais do que o trio formado por Gustavo Nunes, Lucas Melo e Renato Ribeiro. Sozinhos os três são uma usina sônica em forma de power trio, um Crazy Horse misturado com Joy Division que reúne os pré-requisitos básicos de uma banda de pós-punk (guitarra ruidosa, baixo melódico e marcado, bateria mântrica) com traços típicos de uma banda de rock clássico e referências musicais ao indie rock norte-americano e brasileiro, além da força noise e hardcore, que fazem as canções de Jair – meio Nick Cave, meio Ian Curtis – crescerem ainda mais em tensão, tanto lírica quanto musical, extravasando também em sua performance, seja apenas ao microfone, nos teclados, na guitarra ou no violão – todos tocados nesta segunda. E apesar de ter visitado mais músicas de seu disco mais recente (o libelo antibolsonarista Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo, de 2022), com o próprio Jair abrindo o show no teclado com a épica “Breu”, cujo crescendo pautou o resto da apresentação, ele também remoeu músicas de seu primeiro disco (as duas partes de Araguari e “De Branquidão Hospitalar”), duas de Trov​õ​es A Me Atingir (de 2015, “Resvala” e “5/4 (Trovões Vêm Me Atingir)”) e fechou a noite com uma das melhores faixas de Rente (2019, que acho seu melhor disco), “Sonhos Se Formam Sem o Meu Consentimento”, sempre deixando a emoção e um desejo de vingança transbordar no palco, cuja quantidade de ruído elétrico compensou as duas noites anteriores, que só não foram introspectivas por picos de impetuosidade do próprio Jair. Talvez tenha sido o melhor show que vi dele.

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Mais um Inferninho Trabalho Sujo na Porta e comecei a vislumbrar outra transformação da festa a partir do que aconteceu nessa sexta-feira. Reuni dois artistas distintos com propostas diferentes mas que juntos trouxeram uma atmosfera diferente da que venho construindo neste último ano e meio abrindo espaço para artistas iniciantes, criando uma atmosfera mais introspectiva e plácida do que o ritmo intenso e abrasivo característico dos outros inferninhos. Assim, apesar de tecnicamente lidar com duas atrações que davam seus primeiros passos, o clima da noite não era propriamente jovem. Sim, Fernando Catatau e Isa Stevani estão aí há um tempo com seus trabalhos pessoais, mas a junção do trabalho dois, no espetáculo batizado de Outra Dimensão, é novíssimo e estava na terceira apresentação. E Francisca Barreto, apesar de ter acabado de entrar em seus vinte anos, já rodou o planeta tocando com Demian Rice e está desenvolvendo uma maturidade artística própria que vai além do que sua quantidade de shows autorais – aquele era apenas seu segundo, mas não parecia. Tocando mais uma vez com Bianca Godoi e Victor Kroner, ela convidou Valentim Frateschi para o lugar da viola de Thales Hashiguti, que não pode tocar nessa sexta, abrindo uma nova dimensão para além de seu primeiro show, realizado no Centro da Terra há algumas semanas. Com a banda toda de pé, ela criou uma correia para seu próprio violoncelo tocando ela mesma de pé e apresentou-se com mais confiança e dinâmica que na outra ocasião, dando preferência ao próprio repertório – tocando músicas lindas que ainda não têm nome – e deixando as versões para momentos pontuais do show, quando tocou “Habana” de seu professor de cello Yaniel Matos (que deverá ser seu primeiro single, produzido por Kroner), a maravilhosa versão para “Teardrop” do Massive Attack (quando deixa sua voz resplandecer como deve ser) e “Ponta de Areia” de Milton Nascimento (esta última só em seu instrumento e a pedidos do público). Uma apresentação mais concisa, sem participações especiais e mais direto ao ponto que a primeira, mostrando com ela aos poucos vai tomando conta do próprio voo.

Depois foi a vez de Fernando Catatau e Isa Stevani mostrar mais uma vez seu espetáculo Outra Dimensão, que realizam juntos: enquanto Isa projeta imagens tridimensionais que vão se desintegrando e reestruturando em movimento, Fernando faz sua guitarra rugir provocando reações nas imagens exibidas por Isa. E assim o público da Porta, onde foi realizada mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo, ia aos poucos entrando em paisagens silenciosas que hora pareciam estar numa gruta, num planeta inóspito, no espaço sideral ou numa floresta, imagens abstratas que ganhavam novas camadas com os movimentos propostos pelo som das duas guitarras tocadas por Catatau, que também cantarolou no final da apresentação, causando momentos de reflexão, meditação e transe entre o ruído e o silêncio, reforçando a sensação que o Inferninho na Porta abre uma outra categoria de festa. Uma que, quando discotequei, não pedia apenas música para dançar, mas abria espaços para misturar The Cure com Boards of Canada com instrumentais do BaianaSystem, Big Star e Tulipa Ruiz. Alguma coisa está acontecendo…

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Mais Inferninho Trabalho Sujo essa semana? Outra vez na Porta? Sim, numa programação relâmpago reuni duas apresentações novíssimas para celebrar a parceria com esta que é uma das melhores novas casas de show de São Paulo. A noite começa com a segunda apresentação autoral de Francisca Barreto, que desta vez juntou-se a Bianca Godoi e Victor Kroner para mergulhar em canções lindíssimas com sua voz e violoncelo formidáveis. Depois é a vez de Fernando Catatau e Isa Stevani apresentarem a composição audiovisual Outra Dimensão, performance em que imagens digitais geradas em 3D reagem de forma generativa ao som de guitarras e samplers em tempo real. E além das duas apresentações, também discoteco antes, entre e depois dos shows. A Porta fica na rua Horácio Lane, 95, entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena, em frente ao cemitério, e abre a partir das 19h. Os ingressos já estão à venda neste link – e comprando antes sai mais barato.

Nesta quinta-feira o Inferninho Trabalho Sujo atingiu um novo patamar. Em nossa terceira edição no Cineclube Cortina, batemos nosso recorde de público ao mesmo tempo em que apresentamos um artista que foge do padrão de um artista iniciante – apesar de sê-lo. Em vez de mais de um show por noite, uma única apresentação, inspirada num único disco, mostrando que mesmo que as pessoas no palco ainda estejam na casa dos vinte anos isso não se traduz apenas em urgência, intensidade ou carisma, elementos intrínsecos do início de qualquer carreira artística. Claro que o coletivo Maria Esmeralda tinha tudo isso, mas ao apresentar pela terceira vez a história de seu disco no palco, reforçam os elementos daquilo que chamam “nova ternura” no disco, algo que é sensível e responsável ao mesmo tempo, equilibrando diferentes metades para que possamos driblar esse futuro espartano que teima em se avizinhar. E ao espalharem-se mais uma vez pela sala de estar que montam em seu palco, o inacreditável Thalin, VCR Slim, Pirlo, Cravinhos (de novo esmerilhando na guitarra e no violão) e Langelo reuniram mais uma vez parte das participações do disco, celebrando-o ao lado dos grandes Doncesão, Servo, Quiriku, Rubi, Matheus Coringa e Marília Medalha (mais uma vez em uma gravação), que ajudaram a temperar ainda mais a noite épica, mostrando que um dos melhores discos de 2024 também é um dos melhores espetáculos do ano. Baita orgulho de dar esse palco pra eles, afinal é essa nova geração que vai tomar conta daqui a pouco – ou como eles mesmos dizem: “Ainda há tempo de fazer algo mudar!”

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E o Inferninho Trabalho Sujo tem o prazer de apresentar o disco Maria Esmeralda ao vivo como parte das comemorações dos 29 anos do Trabalho Sujo no próximo mês. A oportunidade única de ver ao vivo em 2024, em São Paulo, a obra-prima feita por Thalin, Cravinhos, Pirlo, VCR Slim e Iloveyoulangelo acontece na edição do dia 14 de novembro no Cineclube Cortina. Corre que os ingressos são limitados e se você ficar de fora dessa, vai saber quando é o próximo…A festa é a primeira atração das comemorações dos 29 anos do Trabalho Sujo, que acontece no mês que vem. Os ingressos são limitados e já estão à venda aqui.

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Sem embaraço

Desembaraçou! Sempre é bom ver um artista desabrochar e nesta terça-feira tivemos mais uma oportunidade no Centro da Terra de ver outra carreira musical tomando corpo naquele palco pela primeira vez. Quando Leon Gurfein me falou que queria soltar seu canto profissionalmente no palco, minha intuição disse que seu senso estético espalharia-se facilmente para a música. Há uma década convivendo com artistas de diferentes portes pelos bastidores (Leon faz cabelo, maquiagem e produção visual para nomes como Ava Rocha, Liniker, Tulipa Ruiz e Johnny Hooker, entre outros), ele mostrou sua familiaridade com o palco a partir de sua paixão pela música, que começou pela coleção de discos do pai nas proximidades daquele mesmo teatro, como fez questão de contar nos vários momentos em que conversou com o público e transformava o palco em seu salão e num divã ao mesmo tempo. A apresentação começou com uma cama ambient proposta por sua banda, que Leon batizou de Las Gatas Embarazadas, e Helena Cruz (guitarra, baixo e synthbass), Lauiz (teclas e MPC) e M7i9 (sintetizador, flauta, guitarra e saxofone) emudeceram a plateia por longos minutos, deixando a expectativa palpável para que a estrela da noite entrasse e cantasse suas próprias músicas – parte delas em espanhol – e versões, duas delas divididas com Manu Julian, que subiu ao palco para cantar duetos com Leon em versões em castelhano para “Little Trouble Girl” do Sonic Youth e em português para a clássica “Sea of Love”. Leon encerrou a noite misturando músicas de Ava Rocha, d’O Terno, Portishead e Luiza Lian a “Lágrimas Negras” e “Jorge da Capadócia”, como se invocasse proteção de seus orixãs pessoais da música para aquele momento, antes de cantar mais uma canção própria para fechar a noite. Ele nem esperou sair do palco para anunciar o bis, quando voltou à primeira música da noite acompanhado de um coral estelar formado por Manu, Lorena Pipa, Thiago Pethit, Laura Lavieri, Luiza Lian e Ana Frango Elétrico, espalhando a catarse que claramente sentia para o resto do teatro. Agora já está no mundo!

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Que satisfação poder não apenas anunciar que o primeiro show da carreira musical de Leon Gurfein acontece no Centro da Terra, como também comemorar que a sessão de estreia já está esgotada. Depois de anos fazendo cabelo, maquiagem e produção visual de artistas como Luiza Lian, Liniker, Tulipa Ruiz e Johnny Hooker, ele agora solta sua voz e sua produção audiovisual no espetáculo Leon y Las Gatas Embarazadas, quando, ao lado de uma banda composta por Helena Cruz (baixo), Lauiz (teclas e MPC) e M7i9 (sintetizadores e saxofone), passeia por um prólogo visual seguido de momentos autorais e versões inusitadas para músicas alheias. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão esgotados.

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“Músicas são como tatuagens”, Jair Naves comentou no meio do seu segundo show da temporada que está fazendo às segundas-feiras no Centro da Terra, ao subir no palco do teatro ao lado de seu velho comparsa Renato Ribeiro para burilar velhas canções como quem acaricia uma cicatriz para lembrar da dor original ou mergulha no próprio inconsciente para encarar um trauma adormecido. “Quando a gente foi passando por esse repertório eu me lembro exatamente quem eu era quando fiz essas músicas, o que eu tava vivendo, o que tava me afligindo, por quem eu estava apaixonado e obviamente se você tem muitas tatuagens, você gosta mais de umas do que de outras, mas hoje escolhi minhas melhores”, comentou enquanto tocava mais violão que na primeira noite, quando preferiu cantar sem tocar nenhum instrumento, e acompanhado apenas pela guitarra delicada de Renato, passeando por canções de seu repertório ou que nunca tinha tocado ao vivo ou que há muito não encarava nos palcos. Nisso, pinçou pérolas como “Silenciosa” (de seu disco de estreia, Araguari, de 2010), a faixa-título de seu disco de 2011, Um Passo por Vez, várias de seu E Você Se Sente numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas de 2012 (“Poucas Palavras Bastam”, “Vida Com V Maiúsculo, Vida Com V Minúsculo”, “Guilhotinesco”, “No Fim da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas” e “Eu Sonho Acordado”, que conectou com o filme Ainda Estou Aqui para falar sobre a ditadura militar brasileira), uma de Trovões a Me Atingir de 2015 (“Um Trem Descarrilhado”), duas do Rente de 2019 (“Veementemente” e “Gira” esta tocada com Renato ao metalofone) e uma de Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo de 2022 (“A Luz Que Só Você Irradia”), além de cantar só no gogó a novíssima “Névoas”, de onde tirou o verso que batiza a temporada (“O Significado se Desfaz no Som”) e em que fez um comentário sobre um comentário que leu na internet sobre a música. Apesar da delicadeza da apresentação ter sido ainda mais intensa que a da primeira, ele conseguiu convencer o público a cantar junto e deixou emoções desaguar enquanto cutucava as próprias feridas. Uma noite especial.

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Pé na Porta

Mais um Inferninho Trabalho Sujo neste sábado, num lugar em que já tínhamos realizado uma apresentação – mas agora no novo endereço. A nova Porta, que saiu da Vila Madalena rumo à divisa do antigo bairro com o bairro de Pinheiros, em frente ao cemitério, está num espaço mais amplo, com direito inclusive a um mezanino, o que torna o ambiente, que antes era aconchegante, em um salão espaçoso e ao mesmo tempo acolhedor. E quem começou os trabalhos neste sábado foi a Schlop da cantora e compositora Isabella Pontes, que agora fechou uma nova formação, com sua líder na guitarra e vocais sendo acompanhada de Lucia Esteves na guitarra, Alexandre Lopes no baixo e Antônio Valoto na bateria. E assim passaram pelas composições dos dois discos já lançados (Canções de Amor para o Fim do Mundo, do ano passado, e Senhoras e Senhores, Cachorros e Madames, deste ano), além de tocar o recém-lançado single “Julia Butterfly” e uma versão para “Gold Soundz”, do Pavement, esta tocada como gorros de Papai Noel (como no clipe da banda) e com a participação da entourage da banda Miragem, com Camilla Loreiro na guitarra e Mariana Nogueira e Thais Neres nos vocais, com Bella apresentando-as como as minas que fizeram um moshpit durante “Grounded”, do show que a banda norte-americana fez no Brasil esse ano. Orgulho indie!

Depois foi a vez da banda Miragem subir ao palco da Porta e encarar um desafio: tocar seu disco de estréia Muitos Caminhos Prum Lindo Delírio, lançado no mês passado, na íntegra e com as músicas na mesma ordem de apresentação do álbum, incluindo músicas que nunca tocaram ao vivo. O quarteto é liderado pela multitarefa Camilla Loureira – que reveza-se entre o teclado e a guitarra, além de fazer os vocais, assinar as composições, as artes e a animação do clipe da banda -, ainda conta com a segunda guitarra de Gustavo Esparça, o baixo de Rafael Biondo e a bateria de Lucas Soares e está quase incluindo a videomaker Mariana Nogueira como tecladista efetiva e tem esse som indefinível por misturar música pop com rock progressivo e guitarras pós-punk, como se cada integrante puxasse a sonoridade para um lado diferente, causando um impacto ao mesmo tempo estranho e familiar. Depois da Miragem segui discotecando até o fim da festa, que foi ótima – tanto que já estamos cogitando outra… pra essa semana?! Aguarde e confie.

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