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Curadoria

Ave Santa Sangre!

Paulo Beto começou maravilhosamente sua temporada Selva de Pedra, em que comemora seu quarto de século em São Paulo, nesta segunda-feira no Centro da Terra, quando abriu sua safra de shows com um projeto ainda inédito, chamado Santa Sangre, em que, pilotando como sempre seus synths, cria camas sintéticas e instrumentais para solos de dois monstros em seus instrumentos: o guitarrista e violeiro Marco Nalesso, que fica num inusitado meio termo entre Adrian Belew e Ivan Vilela, que por vezes tocava sua viola caipira (ou caiçara, como corrigiu o próprio PB) com arco, e o saxofonista e flautista Paulo Casale, este conduzindo os outros dois a paragens aparentemente desérticas (mas com vida que se embrenha nos detalhes), primeiro com um pífano, depois com um sax. A noite foi encerrada com uma incursão que John Lennon fez ao Tibet com os Beatles quando o trio recebeu a mestra guitarrista Lucinha Turnbull como convidada do final da apresentação, visitando “Tomorrow Never Knows” num transe de mais de quinze minutos, com Mari Crestani fazendo luz pela primeira vez – e brilhando. Só sabe quem viveu.

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Que prazer receber nas quatro vezes em abril a celebração de 25 anos de São Paulo que o mestre Paulo Beto completa neste 2025. O mineiro criador do projeto Anvil FX chegou há um quarto de século na cidade e nos próximos quatro começos de semana comemora este aniversário com comparsas, cúmplices e camaradas de diversas frentes musicais, transformando cada apresentação em um mergulho em uma de suas facetas artísticas. Na primeira noite ele convida Marco Nalesso, Nivaldo Campopiano, Paulo Casale e Lucinha Turnbull para realizar o projeto Santa Sangre no palco do teatro. Na segunda seguinte, dia 14, ele traz Miguel Barella, Tatá Aeroplano, Edgard Scandurra e Luiz Thunderbird em mais uma mutação de seu grupo Zeroum. Depois, dia 22 (que cai numa terça, porque a segunda anterior é feriado e o teatro não abre), ele traz sua Church of Synth ao lado de Arthur Joly e Tatiana Meyer para encerrar no dia 28 com o Anvil Opake que conduz ao lado de Fausto Fawcett, Tatiana Meyer, Bibiana Graeff, Apolonia Alexandrina, Mari Crestani e Silvia Tape. Os espetáculos acontecem sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Bandas de MPB

O fim de semana fechou com mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo no Redoma, quando reuni duas novas bandas paulistanas que acrescentam o teclado à formação baixo, guitarra e bateria para passear por um repertório que conversa com a história da música brasileira recente – bandas de MPB! A Devolta ao Léu, que começou os trabalhos da noite, começa ali na virada dos anos 50 para os 60, puxando elementos de samba jazz e bossa nova com música pop brasileira. Desfalcados de um de seus fundadores (o guitarrista Eduardo Rodrigues, que estava fora de São Paulo), o quarteto chamou o baixista Roberth Nelson da banda Saravá para o palco e o baixista original do grupo, Leo Bergamini, assumiu a guitarra nesta apresentação. Completam o grupo a vocalista e tecladista Bru Cecci, com sua voz pequena e precisa como os timbres de seu teclado, e o baterista virtuose Rafa Sarmento, fazendo um pequeno showcase de um determinado período de nossa MPB e trazendo-o para este século, tocando um repertório inteirinho autoral. Promissor.

Depois foi a vez da já conhecida Orfeu Menino, liderada pela vocalista Luíza Villa, fazer um show quase inteirinho autoral – uma evolução considerável de repertório que a banda se impôs há menos de um ano, apresentando músicas novas a cada novo show. O entrosamento dos músicos segue intacto e impressionante, mantendo as viradas surpreendentes do baterista Tommy Coelho, a presença – marcada por seu vocal – do teclado de Pedro Abujamra, o groove melódico do baixo de João Ferrari e agora o brilho soul funk brasileiro da guitarra do novato João Vaz. O grupo começou a apresentação vestindo máscaras, que achei que fossem tirar na versão que fazem para “Cara Cara” de Gilberto Gil (“tira essa máscara, cara cara, quero ver você”), mas eles não só não tocaram essa música como limitaram-se a apenas duas versões alheias nesse show: “Pega Rapaz” da Rita Lee nos anos 80 e “Tudo Joia”, que trouxeram no bis – quando tocaram com o guitarrista mineiro Arthur Scarpini, a primeira participação especiais que o grupo tem em seus shows e este encerrou com “Pega Mal” – e lembro que quando os conheci, quando Luíza veio me propor seu show em homenagem à Joni Mitchell há pouco mais de um ano, esta era sua única música autoral. Tá evoluindo bem…

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Este fim de semana tem mais um Inferninho Trabalho Sujo no Redoma, em pleno domingo! Desta vez, a festa reúne duas bandas novatas que bebem na fonte da música brasileira dos anos 60 e 70 para fazer música deste século. A Devolta ao Léu, formada por Bru Cecci (teclado e voz) Eduardo Rodrigues (guitarra), Rafa Sarmento (bateria) e Leo Bergamini (baixo), está dando seus primeiros passos com influências de rock experimental e artistas brasileiros como Itamar Assumpção, Clube da Esquina e Erasmo Carlos, enquanto a Orfeu Menino, formada por Luíza Villa (voz), João Vaz (guitarra), Pedro Abujamra (teclado), João Ferrari (baixo) e Tommy Coelho (bateria), passa por Marcos Valle, João Donato, Edu Lobo, João Bosco e Joyce, rejuvenescendo o espírito do jazz brasileiro para o século 21. E quando as bandas não estiverem no palco, sou eu quem deixa o som rolar – e os ingressos já estão à venda neste link!

Hipnose ruidosa

Na segunda edição do Inferninho Trabalho Sujo na Casa de Francisca, duas bandas da pequena gravadora paulistana em ascensão Selóki Records tomaram conta do clássico templo da música brasileira em São Paulo, ao trazer duas camadas de hipnose ruidosa que espalharam uma tensão noise inédita em seu Porão. A noite começou com a aparição da Madre de Luiza Pereira, grupo em que a ex-vocalista da banda Inky dissolve suas tensões pessoais e exerce sua paixão pela microfonia melódica acompanhada de um trio demolidor, formado por Desirée Marantes (na segunda guitarra), Theo Charbel (no baixo e vocais) e Martin Simonovich (na bateria). Mostrando músicas de seu disco de estreia, Vazio Obsceno, Luiza surfou em câmera lenta na névoa elétrica de sua banda, deixando o clima da noite no ponto para a segunda atração da sexta.

Depois foi a vez dos cinco Madrugada fechar mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo em sua estreia na Casa de Francisca. Paula Rebellato, Otto e Yann Dardenne, Raphael Carapia e Cacá Amaral promoveram mais uma vez seu ritual kraut, partindo da repetição mecânica num loop quadrado – mas em constante movimento pela banda ter dois bateristas, Yann e Cacá! -, que arredonda com a marcação quase funky do baixo minimalista de Otto, que também estabelece balizas vocais para o ritmo e as expansões sensoriais promovidas pelos dois sócios do Porta: de um lado Paula repete frases nos synths enquanto roga juras de libertação, do outro Rapha faz sua guitarra rugir em abstrato ao enterrá-la constantemente em seu amplificador. A massa sonora do quinteto rapidamente tomou conta do ambiente, dragando todas as atenções para aquela missa profana que celebrava a força de uma tempestade, entre relâmpagos e trovões. Absurdo.

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Mais uma vez o Inferninho Trabalho Sujo chega ao Porão da Casa de Francisca, desta vez dia 4 de abril, sexta em que reunimos dois shows intensos e elétricos da nova geração de bandas desta década, começando a noite com a nova versão do grupo Madre, liderado por Luiza Pereira, que agora conta com Desirée Marantes na segunda guitarra, e seguindo com o mantra circular e tribal do quinteto Madrugada, com duas baterias e muita fé no krautrock. E enquanto as bandas não estiverem no palco, a discotecagem, como sempre, fica comigo, que mantenho o clima elétrico da noite. Os ingressos já estão à venda neste link. Vamos?

A cada nova pedalada a Bike adentra numa espiral de groove hipnótico e repetição que transforma cada novo disco em uma imersão em mantras psicodélicos sempre mais herméticos e crípticos, segredos musicais revelados a partir das chaves melódicas que alicerçam suas músicas, sejam elas riffs, grooves, linhas de baixo, refrães, sempre trabalhando no território estruturado da canção. Mas o salto dado pelo grupo no que deverá ser seu sexto álbum extrapola justamente este limite e foi isso que o quarteto paulista apresentou nesta terça-feira, no Centro da Terra, num espetáculo batizado de Noise Meditations que, como revelou o grupo ao final do show, será também o nome do próximo disco. E a característica deste novo conjunto de músicas é que a Bike deixa para trás o circuito fechado das canções, preferindo reforçar a natureza circular de seus temas em faixas extensas e etéreas, que misturam tanto os timbres do noise e dreampop com um niilismo drone e uma placidez ambient, que transmuta sua psicodelia, erguendo icebergs de som. A nova formação do grupo inclui o guitarrista do Applegate, Gil Mosolino, assumindo o baixo da banda, enquanto as guitarras e vocais de Julito Cavalcante e Diego Xavier se entrelaçam cantando letras em loop, enquanto o baterista Daniel Fumega expande sua área de atuação para além do ritmo do rock psicodélico, acrescentando elementos com o motorik kraut e um groove latino que transmuta a sonoridade da banda para uma estratosfera sonora nunca experimentada pelo grupo, sempre conectando os temas uns aos outros, sem espaço para intervalos ou conversa com o público. Uma ousadia recompensada no palco.

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Começamos a programação de música de abril no Centro da Terra com uma banda que já passou pelo palco do teatro (uma vez dividindo o palco com Tagore e outra com Guilherme Held), desta vez tocando material inédito e sem convidados. A clássica banda psicodélica paulista Bike está preparando seu novo álbum e transforma esta apresentação em um laboratória para experimentar músicas novas, trazendo um repertório inédito – e em formação – no show que batizaram de Noise Meditations, quando também apresentam sua nova formação. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados no site do Centro da Terra.

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Missão cumprida

Quando convidei os Fonsecas para assumir uma temporada no Centro da Terra, o ar de nervosismo dos quatro era idêntico ao de excitação e a cada nova conversa sobre o assunto era evidente que eles estavam dispostos a aproveitar as quatro segundas-feiras como uma experiência para exercitar sua dinâmica criativa em grupo e começar a trilhar os rumos para um segundo álbum, que até o ano passado estava no campo das ideias. A forma como dividiram as quatro noites foi crucial para que pudessem exercitar esse músculo rumo à segunda parte de sua carreira, fazendo a primeira apresentação dedicada ao primeiro disco (Estranho pra Vizinha, do ano passado), a segunda só com versões de outros compositores (todos deste século), a terceira trabalhando sua musicalidade sem canções, só no improviso, para culminar na apresentação feita no último dia do mês em que sacaram 40 minutos de músicas que nunca foram gravadas e, salvo poucas exceções, nunca tinham sido tocadas em público. E a forma como apresentaram esse novo momento foi muito bem trabalhada, começando com momentos solos de três de seus integrantes: primeiro veio o baixista Valentim Frateschi, depois o guitarrista Caio Colasante e finalmente o vocalista Felipe Távora, todos tocando uma composição própria sonhos ao violão, isolados entre si, até que o baterista Thalin começa o que parecia ser um início de solo que descamba na primeira canção, ligando então a máquina dos Fonsecas. Mostrando mais força, intensidade e vibração a cada nova canção, o repertório da noite deixou ainda mais evidente as influências do grupo, como os jogos rítmicos de palavra de Itamar Assumpção e de outros assíduos do Lira Paulistana, a informalidade textual do rock brasileiro dos anos 80, o clima urbano das canções de Jards Macalé, uma bagagem nítida de rock clássico e o fato de todos seus integrantes serem músicos absurdos e se conhecerem musicalmente como se fossem um mesmo organismo. Tanto que o consenso geral entre vários que estavam no público em comentários após o show era que o segundo disco já estava pronto, só precisava gravar. E é importante frisar que o conjunto de canções que mostraram nesta segunda-feira (meu show favorito da temporada Quem Vê, Pensa) é muito superior ao ótimo repertório do disco de estreia, o que torna nítida a evolução da banda nestes últimos anos. E ao tocarem só os quatro no palco, sem participações especiais ou músicos convidados, eles ainda reforçam a unidade que formam quando tocam juntos. Muito bom.

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Março está quase indo, por isso eis as atrações musicais de abril no Centro da Terra. Quem toma conta das segundas-feiras no teatro é o mestre mineiro Paulo Beto, que debruça seu projeto pessoal Anvil FX por quatro noites para celebrar seus 25 anos em São Paulo em noites que trarão diferentes parcerias: no dia 7 ele convida Marco Nalesso, Nivaldo Campopiano, Paulo Casale e Lucinha Turnbull para seu projeto Santa Sangre; no dia 14 ele chama Miguel Barella, Tatá Aeroplano, Edgard Scandurra e Luis Thunderbird para uma noite com seu projeto Zeroum; no dia 22 (uma terça, pois dia 21 é feriado) ele recebe Arthur Joly e Tatiana Meyer para sua Church of Synth e dia 28 faz sua versão Anvil Opake ao lado de Fausto Fawcett, Tatiana Meyer, Bibiana Graeff, Apolonia Alexandrina, Mari Crestani e Silvia Tape. As terças-feiras de abril começam com o espetáculo Noise Meditations, quando o grupo psicodélico Bike experimenta pela primeira vez ao vivo os temas que comporão seu próximo álbum. No dia 8 é a vez do grupo prog-indie Celacanto apresentar Falta Tempo, espetáculo em que mostra seu primeiro disco na íntegra antes do lançamento, que acontece ainda em abril. No dia 15, Maurício Tagliari, Victoria do Santos e Xeina Barros dividem uma noite chamada Na Linha Guia, em que apresentam canções criadas ritmicamente a partir de claves da musicalidade sagrada afro-brasileira, fruto de uma pós-graduaçao de Tagliari e preâmbulo de um futuro trabalho em que o musico, produtor e compositor mostra parcerias com mulheres musicistas. A programação de música do teatro em abril encerra no dia 29, quando o guitarrista pernambucano Lello Bezerra, conhecido por ter tocado na banda de Siba e pelas incursões de improviso livre, mostra seu próximo álbum, este baseado em canções. Os espetáculos acontecem sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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