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Natureza rocker

Depois de uma apresentação sensível e flertando com o silêncio, a percussionista Nath Calan foi para o outro extremo de sua versão no palco. A sutileza do concerto Música Cênica do Princípio ao Fim ficou na semana passada, abrindo espaço para a força de sua bateria e de sua presença de palco ao lado dos compadres Carlos Gadelha (guitarra) e Eristhal (contrabaixo). No espetáculo As Canções Que Toquei Por Aí ela assumiu sua natureza rocker para cantar músicas de Itamar Assumpção, Porcas Borboletas, Stela do Patrocínio, Maurício Pereira, Danislau TB, Malu Maria e Peri Pane, estes três presentes em participações surpresas, entre elas o próprio filho de Nath, o pequeno Benício, que cantou em uma música e dançou em outra. Pura energia!

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Bruma cósmica

Na segunda noite de sua temporada Ficções Compartilhadas no Centro da Terra, Paula Rebellato optou por trabalhar num território conhecido, o do improviso livre, ao lado de três músicos com quem já esteve nestas incursões em várias outras ocasiões. Mas em vez de trabalhar numa certa zona de conforto, ela embrenhou-se por caminhos menos espasmódicos que funcionam como caminhos já traçados neste cenário e optou pela sutileza, abrindo trilhas menos óbvias para que o trumpete de Rômulo Alexis, o baixo e os eletrônicos de Berna e a bateria de Cacá Amaral buscassem refúgios inusitados, transformando o que poderia ser uma massa de som extática em uma bruma cósmica que parecia fazer os quatro flutuar, hipnotizando o público presente até o silêncio final.

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Entre o ritmo e o verbo

Quando Nath Calan me explicou a ideia que estava propondo para a primeira das duas apresentações no Centro da Terra seria um concerto de música cênica, apresentando obras que a aproximaram desta escola musical, mencionou os trabalhos que equiparavam timbres de percussão com fonemas, gestos com unidades de ritmo e como isso misturava-se com textos, que também apresentaria enquanto desdobrava em seus instrumentos de percussão: um vibrafone, uma percuteria, uma bateria e o próprio corpo. Mas o impacto dos dez primeiros minutos, quando quase em silêncio, atravessou as duas obras que a trouxeram para este universo (“Silence”, do músico e cineasta belga Thierry de Mey, que gritava sem som que “o silêncio deve ser”, e “?Corporael”, do trombonista e compositor francês Vinko Globokar) e suspendeu até a respiração de todos os presentes, que embarcaram em sua proposta num arrebatamento cênico promovido apenas por uma artista e seu próprio corpo, numa apresentação que estava entre a performance e as artes cênicas, mas transpirava música. E dali em diante, Nath estava com o jogo ganho, percorrendo outros momentos igualmente mágicos, como “Toucher”, também de Globokar, em que um texto da peça Vida de Galileu, de Bertolt Brecht, era lido em francês enquanto cada um de seus fonemas era associado a um timbre respectivo entre os muitos tambores à sua mão. Ao vibrafone, percutiu “A Última Curva”, de Martin Herraiz, para depois percorrer o texto “Lisboa Revisitada”, de Fernando Pessoa, acompanhado do solo de bateria escrito por Moisés Bernardes, voltar ao vibrafone para mostrar sua “Um Pouco de Stela”, escrita a partir de textos de Stela do Patrocínio, e mostrar um texto que leu num livro infantil para seu filho e que transformou-se em “Terra”, tocada enquanto percutia uma cabaça e batia em garrafas e formões pendurados à sua frente. E encerrou a apresentação com dois momentos pessoais. Primeiro ao musicar o texto “Subalternidades do Atlântico Sul”, escrito por seu companheiro Danislau TB (também integrante do Porcas Borboletas, que está voltando!), e depois ao mostrar seu próprio texto musicado em percussão, “Falo”, que puxou mais uma vez à bateria. Uma noite mágica.

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Nath Calan: Música Cênica do Princípio ao Fim + As Canções Que Toquei Por Aí

Enorme satisfação de materializar no palco do Centro da Terra não apenas uma, mas duas apresentações solo da sensacional percussionista e baterista Nath Calan, que dividiu seu convite em duas noites distintas. Na primeira delas, neste dia 10, ela mostra sua desenvoltura na área que domina, a percussão cênica, apresentando um concerto que também funciona como um bê-a-bá para quem quiser entender como este tipo de instrumento conversa com o palco do teatro na noite que batizou de Música Cênica do Princípio Ao Fim. Na próxima terça, dia 17, ela abraça sua alma pop ao cantar canções – tocando bateria – de artistas com quem já acompanhou no palco, indo de Maurício Pereira a Porcas Borboletas, passando por Crianceiras, Malu Maria e Fernanda Takai, na noite que chamou de As Canções Que Toquei Por Aí, quando toca com Carlos Gadelha (guitarra) e Eristhal (contrabaixo). Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Força e firmeza

Paula Rebellato começou sua temporada com um show maiúsculo. Convidando Mari Crestani e Thiago França para acompanhá-la em uma noite em que mostraria novas canções, ela preferiu preparar o território musical lentamente chamando primeiro os dois convidados a uma levada de percussão circular para lentamente trazer seus instrumentos aos holofotes, pilotados por Mau Schramm: enquanto Mari desembainhava seu saxofone, Thiago fazia o mesmo e ainda trazia uma flauta como contraponto, enquanto Paula regia tudo com seu teclado e efeitos que disparava inclusive sampleando os outros dois músicos. Uma lenta parede de drone foi sendo construída camada a camada, tudo para o momento final da noite, quando, depois de uma hora de improvisos, Paula soltou a voz, grave, sem efeitos ou alterações de timbres, em canções gélidas e quentes ao mesmo tempo, como se uma lufada de vento polar pudesse carregar a memória táctil do sol. A melodia etérea surgiu logo depois que adicionou ecos em sua voz e nos saxes, deixando as notas suspensas como ondas de rádio sobre uma paisagem sem interferência humana, não importa se deserto, floresta, tundra, geleira ou mar. Foi uma noite que deixou claro que seu domínio do palco vai além da intensidade da performance, dos efeitos eletro-eletrônicos e do mero improviso. Paula pisa com força e firmeza em um território que sabe que sempre pertenceu. Essa temporada Ficções Compartilhadas promete.

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Paula Rebellato: Ficções Compartilhadas

Imenso prazer em receber mais uma vez Paula Rebellato no palco do Centro da Terra, desta vez para encarar uma temporada para chamar de sua. Em Ficções Compartilhadas ela convida comparsas e cúmplices para visitar diferentes partes de sua personalidade artística, à medida em que vai talhando sua carreira solo. A jornada começa nesta segunda-feira, dia 9, quando ela convida dois saxofonistas – ninguém menos que Mari Crestani e Thiago França- para apresentar novas composições. Na próxima segunda, dia 16, ela parte para o improviso com velhos camaradas como Bernardo Pacheco, Cacá Amaral e Romulo Alexis. No dia 23 é a vez de vararmos o Madrugada, projeto de krautrock que ela montou com Otto Dardenne, Raphael Carapia e Yann Dardenne, para encerrar essa viagem com um verdade tour-de-force: a recriação, no palco, da obra-prima Desertshore, talvez o disco mais belo da alemã Nico, que visita ao lado de João Lucas Ribeiro, Mari Crestani e Paulo Beto. Os espetáculos começam sempre às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link.

Transe poético-interestelar

Paulo Beto conduziu o público para anos-luz sem sair do palco do Centro da Terra. De costas para a plateia, regendo sua pequena orquestra acústica ao mesmo tempo em que pilotava seus sintetizadores e sequenciadores, ele partiu dos textos poéticos que o cientista Carl Sagan fez sobre o espaço sideral e o lugar de nosso planeta para a sua série de TV dos anos 70 chamada Cosmos e a partir de imagens concebidas pelo videoartista Jodele Larcher, que nos atiravam às galáxias, conduziu uma viagem sensorial ao lado de sua Anvil FX Orchestra, quando contou com suas camaradas Bibiana Graeff (entre p piano, o acordeão e as teclas do glockenspiels), Livia Cianciulli (com seus saxes e flautas) e Eloíse Elipse (pilotando um theremin) para sintetizar o som do espaço enquanto Rodrigo Carneiro e Tatiana Meyer liam o texto de Sagan, misturando tudo num amálgama de poesia, cacofonia, transe sonoro e visual que hipnotizou todos os presentes. Estes ainda puderam participar do grand finale, ao disparar sons de seus telefones celulares a partir de QR-Codes coloridos que foram espalhados no público antes da apresentação – a cada tonalidade estourada na tela, um link abria uma série de sons que conversavam com a música que estava sendo feita no palco. Uma noite inacreditável.

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Anvil FX Orchestra: Cosmos

O maestro eletrônico Paulo Beto resolveu fazer uma viagem interestelar à moda antiga e transformou sua banda Anvil FX em uma orquestra para uma apresentação única, nesta terça-feira, no Centro da Terra. Rebatizado de Anvil FX Orchestra, seu grupo revisita a clássica obra Cosmos, do astrônomo Carl Sagan, em uma homenagem multimídia em que textos do livro e seriado que marcaram os anos 70 lidos com uma trilha pensada para a viagem audiovisual programada para esta noite. Sua orquestra é composta por ele mesmo, que pilota sintetizadores, sequenciadores e controla loops; Bibiana Graeff, que canta, toca piano, acordeão e glockenspiel; Livia Maria que também canta e toca saxes e flautas; e Tatiana Meyer, que narra textos. Além dos quatro, o espetáculo também conta com a voz de Rodrigo Carneiro também narrando os textos e as imagens projetadas pelo lendário videoartista Jodele Larcher. Vai ser uma viagem. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Onda lenta

Lê Almeida antecipou seu próximo disco, I Feel in the Sky, em uma apresentação hipnótica abrindo os trabalhos de outubro no Centro da Terra. Em sua versão solo, ele manteve os compadres de Oruã na formação – como Bigú Medine (agora disparando efeitos), João Casaes (nos teclados) e Phill Fernandes (na bateria) – mas convidou a baixista Melanie Radford e o baterista Cacá Amaral para fazer o público decolar em câmera lenta a partir de células musicais repetidas circularmente pela banda, enquanto ele cantarolava suas canções sobre uma base que conversava tanto com o krautrock quanto com o afrobeat – e tudo num ritmo vagaroso e hipnótico, barulhento e doce na mesma medida. Em dado momento do show, ele ainda chamou mais gente pra sua gira, convocando Ana Zumpano para a percussão e Otto Dardenne e Alejandra Luciani como vocais de apoio e fez um bis com uma música que havia sido composta no dia anterior. Só delírio.

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Centro da Terra: Outubro de 2023

Vamos à segunda metade do semestre, o que nos leva à fase final deste forte 2023, que nos trouxe tantos pensamentos e emoções sempre de forma intensa. E como neste outubro temos cinco segundas-feiras, a primeira delas (dia 2), foge da temporada e é uma apresentação única, em que o herói indie Lê Almeida revela em primeira mão, no palco, o disco que lançará este mês, I Feel in the Sky, que o aproxima de uma sonoridade jazz e espiritual. No dia seguinte, na terça-feira (dia 3), o músico e pesquisador Paulo Beto transforma sua banda eletrônica em uma orquestra e sob o título de Anvil FX Orchestra visita a obra Cosmos, de Carl Sagan, num espetáculo audiovisual que contará com as participações do vocalista Rodrigo Carneiro e do videoartista Jodele Larcher. Na segunda segunda-feira do mês começa a temporada de outubro, quando a cantora, compositora e musicista Paula Rebellato atravessa quatro segundas-feiras em suas Ficções Compartilhadas. Na primeira delas (dia 9), ela reúne-se aos saxofonistas Mari Crestani e Thiago França para mostrar suas novas composições. ERm sua segunda data (dia 16), ela dedica-se ao improviso com os velhos compadres Bernardo Pacheco, Cacá Amaral e Romulo Alexis. Depois (dia 23), ela mostra a avalanche kraut de seu Madrugada (ao lado de Otto Dardenne, Raphael Carapia e Yann Dardenne), para finalizar a temporada (dia 30) revisitando o clássico Desertshore da Nico ao lado de João Lucas Ribeiro, Mari Crestani e Paulo Beto. Haja coração! As duas terças seguintes ficam por conta da percussionista Nath Calan, que divide suas apresentações em duas partes: na primeira faz (dia 10), sozinha, sua apresentação de percussão cênica, área que se especializou, mostrando diferentes abordagens para seus instrumentos em cena em canções e temas de peças das quais fez parte. Na segunda (dia 17), entrega-se à música pop, cantando canções de artistas com quem já tocou bateria, de Fernanda Takai a Maurício Pereira, passando por Porcas Borboletas, Malu Maria, entre outros, acompanhada do guitarrista Carlos Gadelha e do baixista Eristhal. Na terça seguinte (dia 24), a cantora e compositora Manuella Julian, que apresenta-se como Manu Julian à frente de grupos como Pelados, Pequeno Cidadão e Fernê, começa a mostrar sua carreira solo, em canções inéditas e versões para músicas já conhecidas, com a guitarra de Thales Castanheira. E encerrando o mês na última terça-feira de outubro (dia 31), Maurício Pereira sobe ao palco do Centro da Terra mais uma vez acompanhado de seu compadre Tonho Penhasco, revisitando o repertório de seu disco mais recente, Micro, à luz de novidades que vem preparando para esta apresentação. Os espetáculos começam pontualmente sempre às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link.