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O buraco do fim do mundo

“Esse sentimento de que o mundo tá indo pro buraco”, a sensação de desesperança transmitida pela segunda apresentação da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. está fazendo no Centro da Terra poderia ser resumido a um questionamento ainda maior, posto logo já no primeiro movimento, quando o próprio Crizin arrematava: “Será que nesse buraco cabe o mundo?”. Recebendo a dupla Deafkids nesta segunda-feira, mais uma vez o grupo de funk apocalíptico transformou o palco do teatro em um alarme estridente sobre o fim do mundo iminente que toma conta do nosso dia-a-dia. Como na primeira apresentação da temporada (quando o grupo apresentou-se ao lado de Kiko Dinucci), esta nova noite viu o casamento das duas guitarras presentes criar uma parede de microfonia grossa que espremia o público contra a parede mental dos próprios cérebros, mas como tanto Douglas Leal quanto Mariano Sarine desdobram-se na percussão (elemento também crucial para o grupo do Rio de Janeiro), esta névoa elétrica sempre vinha aterrada de atabaques e tambores prontos para deixar todos em alerta. Pesado e aterrador como sempre, mas sem perder a seriedade ou o senso de emergência.

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Percurso sinuoso e fluido

O coletivo Enchante fez sua estreia no Centro da Terra nesta terça-feira, abrindo a noite batizada de Sombras N’Água com uma enxurrada de ruídos em que Sue, Anna Vis, Mari Crestani e Gylez – e a convidada Valentina Facury – já chocaram o público de saída, para depois entrar num percurso mais sinuoso e fluido, deixando o improviso dos instrumentos estabelecer o ritmo do resto da noite, depois do apavoro inicial. A partir dali, samples e efeitos eletrônicos, voz, guitarra, sax, percussão e viola seguiram caminhos próximos mas com interferência mínima e pontual, naqueles belos momentos do improviso em que a escuta é tão importante quanto a ação, trabalhando com espaços vazios e momentos de tensão sonora que eram tão volumosos quanto expansivos.

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Enchante: Sombras N’Água

O recém–formado coletivo Enchante, formado por artistas queer da cena paulistana que trabalham com a improvisação livre, sobe ao palco do Centro da Terra pela primeira nesta terça-feira, quando apresentam o espetáculo Sombras N’Água. Formado por Sue (guitarra e sampler), Anna Vis (voz e sampler), Mari Crestani (sax alto e contrabaixo) e Gylez (viola elétrica), o grupo trabalha com o risco da performance ao vivo e para esta apresentação convida a percussionista Valentina Facury. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Os pés no abismo

A temporada Acontecimento, que o trio fluminense Crizin da Z.O. começou nesta segunda-feira no Centro da Terra, desceu os primeiros degraus em direção a um desconhecido sônico em que novos experimentos sonoros, citações de faixas de seu disco Acelero (de 2024) e porções musicais trazidas pelos convidados formam uma nova realidade. Quem abriu o caminho da temporada foi Kiko Dinucci que mais uma vez trouxe sua guitarra elétrica para ser desconstruída naquele palco, acompanhando movimento semelhante ao que fez o guitarrista do trio, Marcelo Fiedler. Só que cada um vinha de um rumo: Kiko do punk e Marcelo do metal, aos poucos amalgamando seus ruídos elétricos em uma parede de microfonia e distorção em que o MC Cris Onofre soltava seus impropérios apocalípticos enquanto distorcia a própria voz e disparava bases e o percussionista Danilo Machado vinha com o molho mínimo e convincente pra abrasileirar ainda mais aquele barulho todo, seja nas congas ou apenas no pandeiro. Em dois momentos, Kiko puxou duas de suas armas mais pesadas: “Veneno”, arrebatamento em forma de briga de rua que compôs com Ogi e fez Crizin decorar toda a letra, e um de seus hinos, a hipnótica “Crack pra Ninar”, que embalou o final dessa primeira noite, deixando o grupo pronto para o salto, com os pés pendurados à beira de um abismo.

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Crizin da Z.O.: Acontecimento

Enorme satisfação em receber mais uma vez no Centro da Terra o trio fluminense Crizin da Z.O., que ocupa as segundas-feiras de maio com temporada Acontecimento, em que utiliza o palco do teatro como um espaço-tempo imprevisível. E assim Cris Onofre, Marcelo Fiedler e Danilo Machado convidam diferentes artistas para criar nestes instantes e a cada segunda-feira recebem novos parceiros. A primeira,a dia 4, vem com Kiko Dinucci abrindo caminhos. Depois, dia 11, recebem a dupla Deaf Kids. No dia 18 é a vez de receberem os produtores MNTH, Lcuas Pires e Mbé e encerram estes acontecimentos com a presença de Juçara Marçal no dia 25, sempre misturando funk carioca com elementos de vanguarda, noise e eletrônica. As apresentações começam pontualmente a partir das 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Enfim, palco

Fez-se palco! Heloiza Abdalla finalmente materializou seu livro de poemas Ana Flor da Água da Terra em espetáculo nesta terça-feira, no Centro da Terra, quando completou 20 anos desde que começou a escrevê-lo e dez de sua publicação. Com o auxílio luxuoso – e discreto – de bons camaradas como Sandra-X (voz e efeitos), Breno Kruse (violão e guitarra), Romulo Alexis (trompete), Chicão (piano) e Diogo Cardoso (luz), ela fundiu poesia, música, dança e cinema numa apresentação que ganhou seu próprio corpo – e ainda deixou uma palhinha de seu próximo livro ao improvisar um bis com o sexto poema de Sala Azul Vermelha.

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Heloiza Abdalla: Ana Flor da Água da Terra

Imensa satisfação proporcionar à Heloiza Abdalla a transformação de seu livro Ana Flor da Água da Terra em espetáculo musical no aniversário de dez anos de sua publicação. Ela transforma os poemas desta obra em um improviso livre contínuo que conta com as participações de Sandra-X (voz e efeitos), Breno Kruse (violão e guitarra), Romulo Alexis (trompete) e Chicão (piano), além de iluminação feita pelo poeta Diogo Cardoso. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda pelo site do Centro da Terra.

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Fecho clássico

O encerramento da temporada Abriu o Fuzz que Guilherme Held fez na última segunda-feira de abril no Centro da Terra, como nas segundas anteriores, foi completamente imprevisível, mas de uma forma muito particular. Ao receber Edgard Scandurra (que trouxe sua guitarra da Casio como arma secreta), a nova dupla preferiu trabalhar com trechos específicos de improvisos pautados por alguma regra do que simplesmente tornar a noite num extenso fluxo de consciência elétrica sem intervalo. A formalidade do maior guitar hero paulistano – ele mesmo um cátedro da história da música gravada na segunda metade do século passado – fez Held segurar os ímpetos e voar em céus pré-estabelecidos, mostrando que audição, disciplina e contenção são partes tão importantes na música improvisada quanto sair tocando como se não houvesse amanhã. Combinando algumas regrinhas nos intervalos (“blues…” ou “em si”, murmurava Ed, dando pistas dos rumos a seguir), os dois encerraram a noite improvisando sobre dois temas clássicos, um deles puxado pelo público, que exigiu o único bis da temporada, que encerrou com os dois circulando ao redor do andamento de “The Burn of the Midnight Lamp” de Jimi Hendrix e voltando ao palco para caminhar pelo deserto inóspito que Link Wray desenhou com a sequência de acordes de sua imortal “Rumble”. Um encerramento clássico para uma temporada de celebração a um instrumento clássico, que mais uma vez contou com o laser de Paulinho Fluxuz, mais geométrico que das outras noites.

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Entre a música, a física e a matemática

Quando Guilherme Held e Kiko Dinucci subiram ao palco do Centro da Terra apenas com seus instrumentos, todos os presentes sabiam que íamos, como nas segundas anteriores de sua temporada Abriu o Fuzz (quando recebeu Fernando Catatau e Lúcio Maia para duelos da mesma natureza), mergulhar no universo da guitarra elétrica sob os auspícios de dois magos das seis cordas. O encontro, porém, foi muito além dos timbres, solos e riffs característicos no manejo daquele instrumentos, quando os dois usaram suas guitarras para explorar os limites e possibilidades da eletricidade sonora, usando a guitarra mais como um cajado sobrenatural do que condutor de melodias e indutor de harmonias e ritmos. Enquanto Kiko enfiava objetos entre as cordas – tocando-a até com um arco de viola – e trabalhava com texturas fantasmagóricas e bordoadas rítmicas, Held repetia loops de notas sequenciais que acelerava ou desacelerava de acordo com as vibrações sísmicas no palco. Na maior parte do show as guitarras não soavam como guitarras, refletindo a reverberação elétrica dos efeitos e texturas manipulados pelos dois, mas em alguns momentos soava como uma conversa alienígena, uma linguagem robótica testando as fronteiras de possibilidades entre a música, a física e a matemática. A ausência do laser de Paulinho Fluxuz, que não pode participar desta única apresentação da temporada, deixou a iluminação mais estática e pensativa, reforçando a transposição sonora da dupla. Tá doido!

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Amor fantasmagórico

Terça-feira histórica no Centro da Terra, quando Kiko Dinucci mostrou, didaticamente, como chegou ao seu terceiro álbum Medusa sem que este nem tenha sido lançado. Tocando o disco ainda inédito na ordem, ele foi, sozinho no palco apenas com sua guitarra, dois amplificadores e pedais, mostrando as músicas ao vivo numa espécie de audição (que ele também odeia e se refere como “maldição”) enquanto entre as canções falava do processo criativo deste Medusa, que incluiu seu reencontro com a guitarra, uma nova curiosidade em relação ao shoegaze e ao dreampop, a inspiração inicial de Noel Rosa, a presença fantasmagórica dos Cocteau Twins, Dinosaur Jr., My Bloody Valentine e Sonic Youth na microfonia da guitarra solitária, registros em fita analógica, parcerias com Maria Beraldo, Negro Leo, Sophia Chablau, Gustavo Infante e Cadu Tenório tudo sob a direção musical – agora com firma reconhecida em público – de Juçara Marçal. Com vultos tão diferentes quanto Laura Palmer, Alexandre Frota e Claudia Raia pairando sobre a cama de eletricidade sonora e canções que sempre falam de amor – e dos lados improváveis e invertidos deste -, encerrou o show com sua primeira incursão ao território de Roberto Carlos, uma balada rock com uma segunda parte instrumental noise que acaba por sintetizar mais uma obra-prima que Kiko está prestes a por no mundo. Medusa sai no segundo semestre, mas pra quem foi nesta terça não tem como tirar o disco da cabeça.

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