Para além do palco

A experiência Ava Rocha ao vivo sempre transcende o palco e não foi diferente nesta quinta-feira, quando ela mostrou mais uma vez seu suntuoso Nektar, desta vez no palco da Casa Natura Musical. A interação entre a cantora e compositora carioca com seu público é cada vez mais intensa – e ela desceu duas vezes para cantar no meio do povo, depois de entregar maçãs e bebida para os fãs embevecidos que estavam grudados na beira do palco. E amparada por uma banda (quase) sem guitarras, formada por Chicão Montorfano, Vini Furquim, Gabriel “Bubu” Mayall, Charles Tixier e Yandara Pimentel, ela não apenas passou pelo repertório do novo álbum, como visitou hits dos discos anteriores (incendiando os fãs com “Lilith” e “Joana Dark” ou a seduzindo em “Você Não Vai Passar” e “Transeunte Coração”) e outros sucessos populares que já incorporou ao novo show, como “Conselho” do grupo Revelação e “Todo Mundo Vai Sofrer” de Marília Mendonça. Ava no meio do povo é bom demais.

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Celebrassom!

Qualquer apresentação de Hermeto Pascoal é um choque fulminante de energia musical capaz de ligar qualquer ser vivo e conectá-lo ao mergulho sônico que convulsiona no palco. O bruxo rege tudo com seu magnetismo e todos os integrantes de sua banda não tiram o olho dele quando ele assume os teclados. Por vezes, senta-se apenas para apreciar seus músicos tocarem – e o entrosamento de Jota P., André Marques, Itiberê Zwarg, Ajurinã Zwarg e do filho Fabio Pascoal é de uma conexão única, que, à medida em que o show vai passando, vai sugando o público. Hermeto, lógico, é o principal foco de atração em toda Casa Natura Musical, onde aconteceu o show desta quinta-feira, e vai regendo tanto seu conjunto quanto o público como uma criança molda um boneco com argila, apenas brincando. Pede para os músicos solarem, mudarem o andamento ou o timbre do instrumento enquanto faz a audiência repetir frases musicais simples que vão se tornando cada vez mais complexas. O grupo ainda contou com a presença do trompetista Luís Gabriel, que apimentou ainda mais a parte final da noite. Uma celebração musical que mais tarde o próprio me corrigiria – “celebrassom!”, inventou a palavra para mostrar que as duas coisas – a festa e a música – são uma coisa só. Pura magia.

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Dois pernambucanos em Minas Gerais

Que maravilha esse tributo que os pernambucanos Zé Manoel e Amaro Freitas estão fazendo ao Clube da Esquina e que aconteceu nessa sexta-feira na Casa Natura. Em alguns momentos os dois dividem o piano, mas em grande parte do show os dois conduzem sua veneração a esta sagrada igreja mineira de som cada um em seu plano – um no canto, outro no piano. Zé assume seu lado crooner e canta lindamente quase todo o show, acompanhado do piano forte de Amaro, tornado delicado graças ao disco homenageado. O público acompanhou tudo quase em silêncio, sussurrando os hits mais conhecidos, a não ser quando eram instigados por um dos dois a soltar a voz ou bater palmas (ou quando Amaro sacava o celular no meio do show para filmar o público cantando junto). Uma noite de chorar.

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Música que cura

Mais um banho de axé que é esse show que o Russo Passapusso formou ao lado da sua dupla de ídolos Antonio Carlos e Jocafi aconteceu nessa sexta-feira, na Casa Natura Musical, que ainda contou com a presença de Karina Buhr em duas canções. Não bastasse o encontro mágico deste trio, que, mais uma vez, usa o recurso cênico da mesa de boteco para recuperar as energias dos veteranos da música baiana, a banda formada para acompanhar esse encontro é inacreditável: Curumin, Zé Nigro, Lucas Martins, Saulo Duarte, Maurício Badé, Edy Trombone, Estefane Santos e o maestro Ubiratan Marques, além da participação do ator Luiz Carlos Bahia. No final da noite, o vocalista baiano emendou duas faixas de seu primeiro disco solo (a faixa-título “Paraíso da Miragem” e “Paraquedas”) e transformou tudo em vibração curativa junto ao público que era exatamente o que ele estava precisando, num final emocionante. É o melhor show brasileiro atualmente, se passar por perto, não deixe passar – que a alma sai nova em folha.
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Unidos por João Gilberto

Apesar de ambos serem octagenários, Jards Macalé e João Donato, que apresentaram-se nessa quinta-feira na Casa Natura Musical, são de gerações diferentes. Gravaram juntos há quase dois anos o sensacional Síntese do Lance completamente entrosados, mas os oito anos que os separam eram uma era geológica quando começaram na música – Jards ainda estava aprendendo a tocar seu violão quando Donato já se esbaldava na vida noturna carioca com seu piano. O ponto em comum, relembrado pelos dois, era João Gilberto: um dos primeiros ídolos de Jards tocava nos mesmos palcos que também se apresentava o tecladista acreano quando nem bossa nova existia e a aura do velho baiano pairava sobre a apresentação que fizeram juntos – num momento central do show, literalmente, quando Jards invocou o fantasma de João quando telefonou para seu velho número e recebeu uma canção postumamente (“Um Abraço do João”) seguido de uma canção de Donato que teve sua letra escrita por João (“Minha Saudade”). O entrosamento dos dois músicos era patente, mas a idade faz com que os dois não atravessem toda a apresentação juntos, fazendo sets solo ao lado dos músicos que os acompanhavam (o baixista Guto Wirtii, o baterista Renato Massa Calmon, o trumpetista José Arimatéia e o trombonista Marco Aurélio Tiquinho). Mas o bom mesmo era quando Jards e Donato estavam no palco ao mesmo tempo, celebrando uma música brasileira que ajudaram a transformar. Foi foda.

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Uma amizade e dois discos soberbos

Muito feliz de ter presenciado o encontro de duas facetas de dois dos maiores nomes da música brasileira contemporânea numa mesma noite, quando Kiko Dinucci e Juçara Marçal encontraram-se, nesta quinta-feira, no palco da Casa Natura Musical para apresentar, pela primeira vez em São Paulo, seus respectivos Rastilho e Delta Estácio Blues em uma sessão dupla de tirar o fôlego. A noite começou com Kiko chamando as cantoras que reuniu para acompanhá-lo na versão ao vivo do melhor disco brasileiro de 2020 – além da própria Juçara, as sensacionais Dulce Monteiro, Maraísa e Gracinha Menezes – e, como sempre elas encantaram o público e adoçaram o toque ríspido e percussivo de Kiko em seu instrumento. Depois, sozinho no palco, segurou a audiência que lotava a casa tocando várias canções apenas com seu violão de cordas de nylon e a empolgação fez com que ele quase quebrasse o instrumento – mas foi só um susto. Chamou primeiro Juçara para acompanhá-lo em outras canções e, finalmente, encerrou a apresentação com a premonitória faixa que batiza seu disco, puxando o coro kamikaze “vamos explodir” pouco antes de entrar na cantoria balsâmica que encerra o disco – e o espetáculo.

Pouco depois da apresentação de Kiko Dinucci na Casa Natura Musical nesta quinta-feira, foi a vez de Juçara Marçal assumir o comando, deixando Kiko, produtor do melhor disco brasileiro de 2021, como coadjuvante e braço direito. Ancorados por uma cozinha pesada e precisa – os baixos de Marcelo Cabral e os beats de Alana Ananias -, os dois ressurgiam no palco com outro figurino e outra direção – em vez de vozes e um único violão, instrumentos elétricos, sintetizadores e a única voz, de Juçara, claro, distorcida por ela mesma com vários efeitos e pedais de distorção. A versão ao vivo de Delta Estácio Blues segue sendo o melhor show no Brasil atualmente e é impressionante como a cada nova apresentação, eles aumentam ainda mais os decibéis – a dobradinha entre “La Femme à Barbe” e “Oi Cats” (em que Juçara enfiou até um “oi sumido”) subiu com uma parede de ruído avassaladora e se o show já tinha cara de pós-punk, neste momento entraram no modo Sonic Youth. Duas apresentações distintas que selam uma amizade que deu origem a dois discos soberbos e complementares: enquanto Kiko olha para o passado para tentar antever o futuro, Juçara não tira os olhos do futuro, sem pensar em olhar para trás. Noite incrível.

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Domingo suspenso

O Estado de Suspensão aconteceu num domingo maravilhoso, que abriu com o transe noise puxado pelo grande Marcelo Cabral. Ao lado de Guilherme Held e de Maria Beraldo, ele visitou seu Motor em formato elétrico, começando os trabalhos na Casa Natura Musical com uma parede de ruído em que equilibrava suas delicadas canções.

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Trabalho Sujo apresenta: Estado de Suspensão

Quase sempre a música nos leva para outras dimensões, mas em alguns casos ela apenas nos suspende a realidade para que consigamos ver o mundo a partir de novos pontos de vista. Em Estado de Suspensão, minha primeira parceria com a Casa Natura Musical, proponho o encontro de quatro artistas que expandem nossas consciências a partir de desdobramentos musicais em quatro apresentações distintas, que também se conectam entre si. O encontro acontece num domingo, dia 3 de julho, a partir das 16h20. São quatro artistas que buscam diferentes searas estéticas, mas que contam com pontos em comum – incluindo integrantes de suas formações. Cada um deles nos abre uma janela sensorial diferente a partir de suas assinaturas musicais e estão em momentos de transição, tateando novos repertórios a partir deste momento que estamos atravessando atualmente. O baixista, produtor e arranjador Marcelo Cabral, o guitarrista e produtor Guilherme Held, a produtora, musicisita, cantora e compositora Maria Beraldo e o cantor e compositor Negro Leo mostram diferentes facetas de seus trabalhos. Cabral busca os limites entre seus dois discos solo, Motor e Naunyn, Held coloca seu primeiro disco solo Corpo Nós em movimento pela primeira vez em São Paulo, Beraldo burila o sucessor de seu festejado Cavala enquanto Leo passeia por seus diferentes discos solo. Os shows ainda terão participações de alguns dos principais músicos em atividade atualmente, como Sérgio Machado, Chicão Montorfano, Dustan Gallas, Gabriel Balleste, Pedro Dantas e Iara Rennó, que participarão em diferentes momentos destas quatro apresentações, que serão costuradas pela discotecagem da socióloga e jornalista Pérola Mathias, do site Poro Aberto. A arte do poster é da Aline Paes e os ingressos já estão à venda neste link.

Don L é um conceito

Don L @ Casa Natura Musical (7.5.2022)

É impressionante a força de Don L, que se apresentou neste sábado na Casa Natura Musical – e não estou falando só do indivíduo, do rapper, do poeta, do artista. Don L já é um conceito que transcende a estética e a arte e parte para a política e para a ação direta, sem esquecer as duas primeiras constantes. É um conceito tão preciso e potente que todos rimam tudo junto, repetindo suas frases como versos de um hino. E é importante frisar isso: apesar do clima de celebração, a apresentação de L nunca cede à metáfora divina e por mais que possa lê-la de uma forma mística e até religiosa, pela forma como ele prende seu público apenas com as palavras, ele reforça o papel político, cidadão e humano, enfileirando hinos pátrios de um país em construção. Praticamente sem dirigir-se ao público fora de suas canções (o que ele precisa dizer está em suas letras), ele magnetiza a pequena massa sem precisar subir o tom e ela está entregue à sua presença – tanto que puxa o coro de “lutar, criar, poder popular” sem que ele precise lembrá-los. Bem-vindos à Élewood…

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Ana Frango Elétrico em ponto de bala

Ana Frango Elétrico @ Casa Natura Musical (5.5.2022)

Ana Frango Elétrico despediu-se ontem de seu Little Electric Chicken Heart na @casanaturamusical com um show inacreditável – casa lotada e todo mundo cantando todas as músicas junto! Só o fato de reunir aquela banda já seria um acontecimento (cadê o disco, Guilherme Lírio? Nem te vi depois Vovô BebÇe!) – como foi um acontecimento assisti-los tocando a íntegra do segundo disco da Ana quase ipsis literis, como se pudéssemos assistir a um Pet Sounds ao vivo – um Pet Sounds retropicalista, diga -, com pitadas do primeiro disco, Mormaço Queima. No bis ela voltou tocando “Debaixo do Pano” da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, o punk mcdonalds “Picles” e o groove disco do single que compôs com Ava Rocha, a irresistível “Mulher Homem Bicho”. Showzaço! E o disco novo está vindo aí…

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