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Quando Maurício Pereira encontrou Odair José

A quarta-feira teve dose dupla quando saí do Centro da Terra rumo à Casa de Francisca ver mais uma vez Maurício Pereira mergulhar na surpresa com seu parça Daniel Szafran. Mais uma vez o já mitológico disco de 1998 percorreu as paredes do Palacete Tereza Toledo Lara como muitas vezes passeou pelas da antiga Francisca, na Zé Maria Lisboa, que fez o bardo paulistano lembrar de como a redescoberta do disco no velho endereço do tradicional palco da cidade foi crucial para reestruturar sua própria carreira. Bom de duplas (começou numa incrível com André Abujamra e hoje toca outra sensacional, com Tonho Penhasco), a que Maurício criou com Szafran é luxo só, com o pianista dividindo lindamente os vocais com o autor, que sempre tempera suas canções com seu sax soprano. Nessa pequena temporada, convidou Juçara Marçal num dia e ninguém menos que outro bardo da canção, este goiano, Odair José, para dividir o palco e tive o privilégio de assistir a esse encontro. Além das músicas de seu disco, Pereirão ainda dividiu três músicas com o convidado: sua “Truques com Facas” e duas dele, “Nunca Mais” (do ousado O Filho de Maria e José, ópera rock que fez durante a ditadura miliar) e o hino “Vou Tirar Você Desse Lugar”, este puxado no bis da apresentação, que ainda contou com participação surpresa da própria Juçara, que, como nós, apenas emocionava-se com Maurício no público e que foi puxada à fogueira do nada para fazer “Pan y Leche” com citações a canções clássicas da música brasileira improvisadas na hora. Que noite!

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Comemorar o livramento

Qualquer apresentação ao vivo da Espetacular Charanga do França é aquele jorro de energia vital que faz até o proverbial defunto levantar-se do caixão. Mas neste primeiro dia de dezembro de 2023 na Casa de Francisca, a alta vibração foi ainda mais intensa, especialmente depois do discurso de abertura feito por seu maestro, Thiago França, que ajudou a acordar a consciência de como finalmente desentalamos essa época de morte que atravessamos nos últimos anos e, como ele mesmo pôs, “comemorar o livramento” dessa época tão depret. E tome sambas clássicos, axé music, Britney Spears, pagodeira, “Eva” e todo o repertório de hits alheios em versões carnavalescas que não deixaram ninguém parado. Foi de lavar a alma.

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Com a Charanga do França na Casa de Francisca

E nessa sexta repito a noitada com o Thiago mas em outras condições de temperatura e pressão: ele finalmente lança o disco de sua Espetacular Charanga do França nesta sexta e sábado na Casa de Francisca e me chamou para discotecar na primeira dessas apresentações. Partimos de um extremo de noitada paulistana para o outro mas com a mesma eficácia – e se você não dormir no ponto ainda consegue pegar um dos últimos ingressos pra essa apresentação neste link. Toco antes e depois do show com a incumbência de transformar aquela tradicional discotecagem pós-show em uma baladinha de fato.

Missa de São João

Laura Lavieri e Cacá Machado transformaram a reverência a um álbum clássico da história da música em um ritual religioso ao redor da voz e do violão do maior artista de nossa cultura. João Gilberto foi alçado ao estado de santo numa apresentação de muito rigor e paixão, enfileirando as músicas de seu clássico homônimo lançado há meio século umas nas outras de forma a suspender a tensão (e a respiração) dos presentes neste sábado na Casa de Francisca. Não se ouvia tilintar de copos ou talheres, o que é comum mesmo durante as apresentações mais intimistas no Palacete Tereza Toledo Lara. Ao invocar o espírito de João Gilberto ao unir canções-símbolo de seu repertório (“Águas de Março”, “Avarandado”, “Eu Quero Um Samba”, “É Preciso Perdoar”, “Na Baixa do Sapateiro”e “Eu Vim da Bahia”) a idiossincrasias ímpares deste disco (“Undiú”, “Valsa” e “Izaura”), os dois celebraram o formato que João consagrou e transformou na base de nossa música. O espetáculo Melhor do Que O Silêncio ainda teve o luxo da percussão detalhista e perfeccionista de Igor Caracas, que, mesmo em sua percuteria, centralizava o ritmo no cesto de vime tocado com vassourinhas à sua frente, tocando timbres diferentes de forma quase sempre discreta, roubando a cena apenas quando veio para a frente do palco e tocou folhas secas na faixa que abre o disco, a imortal “Águas de Março”. Não é porque estou envolvido nesse espetáculo que não vou dizer que foi um dos shows mais bonitos que vi em muito tempo.

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Metá Metá em casa

E por falar em Casa de Francisca, foi bom ver o Metá Metá nesta quinta-feira mais uma vez em um de seus territórios habituais. O trio formado por Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci é essa usina acústica de energia vital e vê-los repetindo seu repertório em condições ideais de temperatura e pressão é sempre revigorante. Além de passear pelas canções de sua trilogia imbatível de discos, os três ainda passearam por faixas inéditas (mas já conhecidas de quem frequenta seus shows), uma das músicas que fizeram para o balé do grupo Corpo e até uma pinçada do repertório do Duo Moviola, que Kiko mantinha (mantém? Tomara) com Douglas Germano. Sempre um descarrego, uma aula, uma festa.

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Cacá Machado + Laura Lavieri: “Um samba feito só pra mim”

É neste sábado a estreia do espetáculo Melhor do que o Silêncio, em que Cacá Machado e Laura Lavieri reúnem-se para celebrar o repertório de um dos principais discos de João Gilberto, seu “álbum branco”, gravado em 1973. A apresentação acontece na Casa de Francisca, no dia 11 de novembro, e conta com a participação do percussionista Igor Caracas. No vídeo, os três mostram a versão que fizeram para “Eu Quero um Samba” de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, que abre o lado B do vinil. Assino a direção executiva do espetáculo, que ainda conta com a direção de arte de Amanda Dafoe e a produção do Guto Ruocco, da Circus. Os ingressos estão quase no fim e podem ser comprados neste link.

Assista a um trecho abaixo:  

Cacá Machado + Laura Lavieri: Melhor do que o Silêncio

Bonito ver como um projeto toma forma: acabam de abrir as vendas para o espetáculo Melhor do que o Silêncio, que leva Laura Lavieri e Cacá Machado a um disco central na obra de João Gilberto, o fundamental álbum branco de 1973, batizado apenas com seu nome, que completa meio século neste 2023. Gravado em Nova York apenas com voz e violão e pela revolucionária produtora Wendy Carlos (que havia assinado a trilha sonora de Laranja Mecânica com seu nome de batismo, Walter, e transicionava exatamente naquele momento, assinando o projeto como W. Carlos), o disco é a síntese da excelência musical do maior nome da nossa cultura, reduzido ao minimalismo extremo das cordas vocais e seu instrumento, acompanhado apenas da esposa Miúcha em uma canção e de uma cesta de lixo tocada pelo baterista Sonny Carr. Em Melhor que o Silêncio, reuni Cacá e Laura para recriar essa obra-prima nos palcos e a primeira apresentação acontece na Casa de Francisca, dia 11 de novembro, com a participação do percussionista Igor Caracas. Assino a direção executiva do espetáculo, que ainda a direção de arte de Amanda Dafoe e a produção do Guto Ruocco, da Circus. Os ingressos já podem ser comprados a partir deste link.

Toda a intensidade de Ava Rocha

Às vésperas de lançar o sucessor de seu Trança, Ava Rocha apresentou-se pela segunda vez acompanhada apenas de piano nesta quarta-feira na Casa de Francisca. Ao seu lado, mais uma vez, o mestre Chicão Montorfano, que ia da sutil delicadeza quase impressionista ao improviso extremo fazendo um par perfeito para os devaneios em forma de canção interpretados pela cantora carioca. Ava subiu ao palco toda de couro preto e entre suas próprias canções (“Você Não Vai Passar”, “Dorival”, “Assumpção”, “Mar ao Fundo”, “Hermética”, “Boca do Céu”, “Doce é o Amor” e as ainda inéditas em disco “Um Sonho” e “Felicidade Ébria”) soltou seu lado intérprete visitando clássicos brasileiros e internacionais: passeou por “Besame Mucho”, Capinam e Jards Macalé (“Movimento dos Barcos”), Tim Maia (“Lamento”), Edu Lobo (“Pra Dizer Adeus”), Bola de Nieve (“Déjame Recordar”), Cat Power (“Where’s My Love”) e Caetano Veloso (“Força Estranha”), sempre conduzindo o público com sua voz e seu corpo, entregue à sua tradicional intensidade cênica. Entre o sublime, o mundano e o êxtase, Ava cuspia pétalas e erguia o próprio chapéu do chão com o pé, equilibrando-se entre cadeiras e brincava com água e vinho, sem deixar que tais gestos tirassem o fôlego e o sentimento das canções, numa apresentação de lavar a alma.

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Alessandra Leão analógica e digital

Tava devendo. Sei do Acesa de Alessandra Leão desde quando ele ainda era uma ideia, naquele longíquo tempo pré-pandemia. O projeto ganhou vida, virou show e eu ainda não tinha conseguido assisti-lo ao vivo – e finalmente saldei minha dívida nesta quinta-feira, quando pude ver esse híbrido de tradição com modernidade no palco da Casa de Francisca. Disparando samples de gravações que fez no sertão nordestino e manipulando timbres com pedais de distorção, Alessandra veio amparada por um trio digital de peso: Kastrup entre as percussões acústicas e MPC, Zé Nigro nos teclados e Marcelo Cabral no synth bass. E como se não bastasse a intensa roda eletrônica que armou no palco da Francisca, ainda chamou duas entidades para acompanhá-la – e tanto Dani Nega quanto Ava Rocha se esbaldaram ao lado da dona da festa. Que noite!

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Metá Metá para lavar a alma

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De lavar a alma a apresentação dos três Metá Metá neste fim de semana na Casa de Francisca. É claro que a falta de presença e calor humanos não torna a experiência completa, mas foi revigorante poder assistir ao reencontro de Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci no já clássico palco depois destes quase sete meses de quarentena, uma entidade se recompondo e nos recompondo ao mesmo tempo, ainda que à distância. Repassaram seu repertório em diferentes ambientes da casa, começando pela cozinha até chegar no salão central, onde a câmera de Heitor Dhalia, que dirigiu a apresentação a convite da casa enfileirou os três cada um num plano, tratando a questão do isolamento social quase como uma opção estética, além em termos de saúde. E diferente da live cinematográfica e em preto e branco que Tulipa e seu irmão Gustavo Ruiz fizeram na Francisca no início de agosto, a apresentação do Metá Metá apresentava o local como o conhecemos, luzes indiretas que iluminavam o piso, as paredes, os móveis, o teto e o assoalho como se pudéssemos nos reencontrar com o grupo num sonho. Se a ausência de palmas entre as músicas criava uma lacuna tensa entre as canções, ela era preenchida pelo vigor e pela energia dos três, claramente felizes de voltar a fazer músicas juntos, mesmo que nessas condições bizarras. Foi de cair o queixo, como quase sempre são os shows do trio. A Casa de Francisca descolou esse trechinho de “Let’s Play That” aqui pro Trabalho Sujo – um dos ápices do show – pra você ficar com vontade…

O show vai estar disponível online na semana que vem e tanto ele quanto os outros shows da série Até o Fim, Cantar, título dado para a série de cinelves que a Casa de Francisca tem feito podem ser vistos no site deles – mas não é gratuito, tem que pagar pra ver. E esse, especificamente, vale muito.