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US$ 10 mil pelo Álbum Branco A0000001

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The Beatles – o primeiro disco duplo da carreira dos Beatles e o primeiro álbum lançado pelo grupo em seu próprio selo, a Apple – é o disco mais polêmico do grupo inglês. Foi lançado após seu primeiro fracasso de crítica e público: o filme psicodélico Magical Mystery Tour, exibido pela BBC no natal de 1967, não foi entendido por quem assistiu e foi considerado caótico, amador e mais uma prova que os Beatles não iam bem. Seu empresário Brian Epstein havia acabado de morrer logo após o lançamento do mítico Sgt. Pepper’s e havia uma nuvem negra no horizonte do grupo (que culminou com o fim da banda, poucos anos depois). Ao apresentar-se em quatro lados de vinil (com um deles – o último – contando com a longa e caótica colagem sonora chamada “Revolution #9”), o grupo criou um debate que se discorre até hoje, sobre o excesso de gordura em álbuns duplos, e pintou o autorretrato do próprio esfacelamento como unidade, perceptível por todas as faixas do disco.

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O diagnóstico seria mais preciso ainda ao levar em conta que o título original do disco seria A Doll’s House (em homenagem à peça do dramaturgo norueguês Herink Ibsen, que questiona as regras do casamento tradicional e termina – spoiler, hehe – com a esposa saindo de casa para “descobrir a si mesma”) até sua capa final e definitiva, de uma única cor – o branco. O minimalismo se refletiria também no título escolhido – apenas The Beatles – escrito em autorrelevo na capa de papelão ao lado de uma numeração em série, que começaria no código A0000001.

Com o tempo, a numeração da capa foi abandonada nas reedições posteriores (nos anos 90 uma versão em CD retomou essa referência) e sempre imaginara-se que os primeiros números desta série fossem os discos que passaram para a coleção dos próprios Beatles. Até parece. Ficou na mão de um executivo de gravadora, que vendeu à loja Let it Be Records, de São Francisco, no início dos anos 70. Ele mudou de mãos em abril de 1989, quando a loja o vendeu para David Mincks, em uma carta escrita pelo dono da loja, Clifford J. Yamasaki, que dizia:

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“This is to certify that ___ purchased Beatles ‘White Album’ number: A0000001 in mint condition on this date. It is one of approximately two dozen copies given out as early promotional items to the Beatles and top Capitol Records executives. I purchased said copy from one of the above executives in the early 1970’s. Said executive was head of the classical division at Capitol Records. The ‘White Album’ number A0000001 was shown at a Beatles Convention one time only. ‘White Album’ copies with this number A0000001 were never sealed with records or sold to the public. I certify that all of the above is true and correct.”

Agora o próprio Mincks põe a cópia à venda num site de leilões online com o lance inicial saindo de 10 mil dólares. Quem quiser fazer alguma proposta, faça aqui.

Vi essa notícia no Dangerous Minds, que ainda desenterrou essa entrevista com o artista plástico Richard Hamilton, responsável pela criação da capa que ele chama de “uma das primeiras capas conceituais de disco”, veja abaixo:

 

Storm Thorgerson (1944-2013)

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Mais do que o capista do Pink Floyd ou o comandante do estúdio Hypgnosis, Storm Thorgerson deve ser lembrado como um visionário da associação da música com o design. Ele não apenas escolheu a capa de disco como sua emblemática tela, como não se furtou a transitar por diferentes gêneros e artistas, deixando suas distinções estéticas em segundo plano para criar fotografias surrealistas que brincava com a expectativa do público em relação à imagem da banda ou músico. Suas primeiras capas para Peter Gabriel são implacáveis, seu trabalho com o Led Zeppelin transcende a epicidade do som do grupo para um universo quase zen, os Wings de Paul McCartney tornam-se plásticos e um disco do Black Sabbath exibe pornografia robô. Além de, claro, seu trabalho com o Pink Floyd, uma parceria entre música e som indissociável à identidade da banda. A cada novo disco lançado por Gilmour, Mason, Wright e Waters, Thorgerson paria tirava uma série de imagens para o sons e sensações friamente capturadas por uma psicodelia no limite do normal, um surrealismo com um pé em Salvador Dali e outro em Norman Rockwell, um Man Ray techicolor. A vaca no campo, o close na orelha, o porco na fábrica, o aperto de mãos em chamas – são imagens que transcendem a música da banda e viraram ícones de uma década. Mas seu trabalho não parou nos anos 70 e ele continuou trabalhando com artistas completamente diferentes como Biff Clyro, Muse, Mars Volta, Ween e Audioslave. Morreu vítima de câncer. Abaixo, uma pequena amostra de seu trabalho.

 

A capa de Ziggy Stardust

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E já que o assunto Bowie voltou à baila, já viram os outtakes da capa de Ziggy Stardust? O excelente site Retronaut publicou uma compilação delas e, aí embaixo, separei outras tantas. Vale também passar pelo ThingLink, que publicou uma série de referências em hyperlink na capa do disco. Aproveitei e separei outros dois posts antigos sobre o ídolo: outra série de outtakes, desta vez da capa de “Heroes“, e a obra-prima Dave, que a dupla belga Soulwax lançou no final do ano passado.