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Benzina + Tartamudo – As Ondas Estão no Ar

, por Alexandre Matias

Lembro quando encontrei, no embarque do aeroporto de Congonhas, meus conterrâneos Tartamudo, a dupla formada por Zepedro Gollo e Wilton Rossi e eles me contaram que estavam finalizando um disco feito com o mestre Edgard Scandurra, ressuscitando sua versão Benzina, codinome que o guitarrista usa em suas incursões eletrônicas, que estava parada há um tempão. Depois, eles me convidaram para escrever o texto de apresentação deste novo disco, chamado As Ondas Estão no Ar, que está sendo lançado nesta sexta-feira, e publico abaixo o release que escrevi para o projeto conjunto:

Benzina + Tartamudo – As Ondas Estão no Ar
Projeto eletrônico de Edgard Scandurra renasce em parceria com a dupla pós-punk brasiliense, em um disco gravado entre Brasília e São Paulo que conta com participações de Fausto Fawcett, João Parahyba e Silvia Tape

O som de uma guitarra surge no horizonte quase como um holofote rasgando a noite, passeando num vai e volta como um disco voador, até que outra guitarra, base, começa a marcar o ritmo e dar uma nova textura para o cenário, preparando o terreno para a entrada dos synths e dos beats digitais. Assim é o início As Ondas Estão no Ar, encontro de dois artistas brasileiros que transitam entre o rock e a música eletrônica que se aproximaram como professor e alunos mas logo entenderam-se como pares de uma mesma paisagem sonora – que soa tão alienígena quanto brasileira.

Quando a dupla brasiliense Tartamudo – formada pelos multiinstrumentistas Zepedro Gollo e Wilton Rossi – convidou o paulistano Edgard Scandurra para reler uma canção da Gang 90 & Absurdettes em seu disco de estreia (A Loop is a Loop is a Loop, de 2022) não sabiam que estavam começando uma parceria que evoluiria para um disco, ressuscitando uma faceta que o guitarrista do Ira! havia deixado em estado de hibernação, o projeto eletrônico Benzina aka Scandurra, que ampliou seu espectro musical para além do rock na virada do século.

O álbum As Ondas Estão No Ar conecta duas tradições musicais diferentes, ambas impactadas por duas revoluções musicais distintas, mas parentes, que se espalharam no início dos anos 80 e dez anos depois. Há uma conexão entre a reconstrução do rock depois da reviravolta causada pelo punk – puxada por bandas tão diferentes quanto Joy Division, The Cure, Gang of Four, A Certain Ratio, Wire, Bauhaus, Mission of Burma, The Fall e Public Image Ltd. – encontrou-se com a colisão da música eletrônica com o rock inglês, personificado na cena de Manchester que viu nascer grupos como Stone Roses, Happy Mondays e Inspiral Carpets, entre outros.

E esta conexão foi sentida tanto em São Paulo quanto em Brasília, nos anos 80 e 90, por estes dois personagens a ponto de convergir suas biografias neste As Ondas Estão no Ar, que ainda inclui participações dos paulistanos Sílvia Tape (que hoje toca nas Mercenárias de Sandra Coutinho) e João Parahyba (percussionista do lendário Trio Mocotó) e do carioca Fausto Fawcett.

A admiração da dupla Tartamudo por Scandurra vem de décadas, quando os dois começaram a conhecer o trabalho do guitarrista ainda como integrante de uma das principais bandas brasileiras dos anos 80, mas não só. “Me lembro claramente das performances cheias de energia do Edgard no Ira! e a figura dele sempre me fascinou muito”, lembra Wilton. “Os primeiros dois discos da banda foram bem importantes na minha formação musical. Ouvia o Vivendo e não aprendendo em cassete nas viagens de carro com a família – e ainda tenho essa fita! – e a imagem de um guitarrista canhoto, como eu, com aquela expressividade toda e aqueles riffs fascinantes me acompanhava desde antes que eu decidisse tocar guitarra.”

“Me lembro de assistir a um show do Scandurra com o Arnaldo Antunes e ele fazia uma coisa que era tirar o plugue da guitarra e tocar o plugue com efeitos e isso pirou minha cabeça”, continua Zepedro, explicando que o trabalho solo de Edgard como Benzina está tanto na raiz do Tartamudo quanto em seu trabalho como compositor de trilhas sonoras para o cinema. “Além disso, o Edgard cultiva uma aura de gentleman que é muito justificada”, completa Wilton. “É mesmo o mod tropical.”

O primeiro contato entre os dois núcleos aconteceu pela internet, quando Scandurra anunciou a venda de uma guitarra (uma Wurlitzer de 12 cordas) durante o 2020 pandêmico, quando foi acionado por Wilton, que quis comprá-la. A conexão seguiu para além da venda do instrumento e o convite para tocar na música da Gang 90, “Convite Ao Prazer” (que também conta com a vocalista da Gang, Taciana Barros, como convidada), veio em seguida.

O contato continuou em um show solo que Scandurra fez em Brasília que contou com a participação do Tartamudo e acendeu na dupla a possibilidade de uma parceria com o projeto eletrônico de Edgard. Lançado originalmente em 1996, Benzina aka Scandurra seria apenas um disco em que o guitarrista exploraria seu primeiro contato com a música eletrônica, mas logo seguiu como uma carreira paralela ao Ira!, que ainda teve um disco chamado Dream Pop (2003), um disco de remixes (no ano seguinte) e outro chamado Amor Incondicional (2006).

“Nos anos 90, o rock vivia numa decadência incrível, não de números ou de vendas, mas de qualidade”, lembra Scandurra. “Um universo machista pra cacete e isso me incomodava muito, quando descubro, de repente, a cena da música eletrônica, extremamente tolerante, buscando novidades. E o que eu achava mais legal das festas era que tocavam músicas e a maioria das pessoas não conhecia nada, enquanto o rock trabalhava com aquela coisa afetiva da música que você reconhece. Tanto que os shows são esse grande coral de pessoas cantando o tempo todo e você tem que se esforçar pra ouvir o artista cantando, enquanto a música eletrônica vinha na contramão, a novidade era o diferente, o white label, como se falava.”

Scandurra continua explicando que quanto mais se envolvia com música eletrônica, mais ela não só fazia sentido como retomava sua paixão pela música quando começou a tocar guitarra. “É um desenvolvimento do pós-punk, casas como o Hell’s e o Lov.e eram, nos anos 90, o que outras casas, como o Napalm, o Madama Satã e o Rose Bombom eram nos anos 80. As casas de música eletrônica não eram lugares estranhos pra mim, tudo me parecia muito familiar.”

O que conversa diretamente com a Brasília em que o Tartamudo surgiu. Uma cidade que entrou no mapa da música brasileira exatamente na mesma década em que a banda de Scandurra apareceu, com a tríade clássica Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude bebendo das mesmas cenas punk e pós-punk, fazendo com que essa sonoridade impregnasse nas bandas que começavam a surgir na cidade. Mas nos anos 90, o pop candango começou a ganhar novos contornos (graças a bandas como Raimundos, Little Quail e Maskavo Roots), distanciando o som da cidade daquela sonoridade oitentista que, como aconteceu em São Paulo, como explicado por Edgard, também migrou para a incipiente cena eletrônica que surgia em Brasília naquela década.

“Seguimos o mesmo norte em termos musicais”, detalha Wilton. “Pra mim, especificamente, foi fácil conectar as guitarras angulares do Gang of Four e do PIL e os riffs do B-52’s característicos do Tartamudo com o estilo do Edgard e toda nossa base tem referências eletrônicas: a batida motorik do krautrock, o groove de Madchester, a soul music e o amálgama musical do trip hop, o ambient ácido de Aphex Twin e as paisagens sonoras de Brian Eno”. “A música eletrônica foi um passo à frente do pós-punk”, continua Scandurra. “Não é à toa que Manchester se deu tão bem com essa cena, porque já vinha lá de Joy Division, já vinha lá de outros caras, essa ligação alternativa, underground, psicodélica, que acabou desaguando no eletrônico, no techno e nas suas vertentes.”

Com o show que Edgard fez em Brasília, a dupla sugeriu uma temporada na capital federal. “Conversamos sobre a decisão de partir de material que ele já tinha”, lembra Wilton. “Ele trouxe uma das antigas grooveboxes que usava no Benzina e foi curioso perceber como era a forma que ele trabalhava anos antes, porque a tecnologia mudou muito. Algumas ideias foram elaboradas a partir dessas bases e outras surgiam em longas jams, como normalmente fazemos. Quando uma ideia soava boa, ela era gravada, tratada e transformada em loop. E as guitarras do Edgard saíam com muita facilidade, pois ele é muito intuitivo. Lembro de ficarmos vinte minutos tocando uma base e ele improvisando, elaborando frases musicais. É incrível, como músico limitado que sou, ver de perto como ele trabalha com tanta fluidez.”

“Ficamos uma semana tocando e gravando, com os equipamentos todos montados à nossa disposição, foi bem espontâneo e produtivo”, completa Zepedro. “Vale um aposto sobre o método de produção do Tartamudo, cujas características o Scandurra se adaptou muito bem, porque nós não compomos, arranjamos, gravamos e mixamos nessa ordem, vamos compondo e gravando partes das músicas para depois arranjar e mixar.” Scandurra se adaptou com Brasília a ponto de passear pela cidade de bicicleta. “Pegava a bicicleta do Wilton emprestada e ia por aqueles prédios bacanas, baixinhos e lindos, lá de Brasília, foi muito legal”.

A segunda fase do disco foi feita em São Paulo, quando Edgard sugeriu a participação de alguns nomes para que o disco não soasse só instrumental. “É uma tradição dos discos do Benzina, 70% instrumental e 30% músicas cantadas e achei interessante, para o meu projeto, chamar a Sílvia Tape, minha companheira, com quem já tenho uma afinidade musical muito grande, tocando, ouvindo as músicas. Quando voltei de Brasília, ouvindo a cópia de monitor que eu tinha das músicas no celular na sala de casa, ela desenvolveu a letra de ‘Ondas Estão no Ar’ e começou a cantar em cima da música”.

Outra participação foi de Fausto Fawcett, convidado para gravar uma (a claustrofóbica “Insetos nos Corações”) e que acabou fazendo duas músicas, uma delas completamente diferente do tipo de música que ele faz normalmente. “‘Fora do Radar’ é uma música solar, de praia, de casal, divertida e até romântica, achei muito legal que ele topou esse desafio”. Fechando o time de participações veio o percussionista João Parahyba, clássico integrante do Trio Mocotó, que dividiu palco e estúdio com Jorge Ben ainda nos anos 70, que Edgard conhecia pela conexão com o saudoso produtor sérvio Suba – apelido de Mitar Subotić, que ajudou a injetar música eletrônica no pop brasileiro dos anos 90 até sua morte precoce em 1999. “Ele chegou para gravar uma música e acabou fazendo quase todas, botou a maior pilha e levou o som pra um lugar inesperado”, lembra Zepedro.

Agora que o disco chega ao mundo é hora de levá-lo para o palco, quando o grupo começa a transformá-lo em apresentação ao vivo no mesmo formato que o gravaram, usando suas linhas eletrônicas e melodias originais como bases para improvisos de guitarras e sintetizadores. O entendimento e entrosamento musical que deu origem ao disco tem todos os elementos para funcionar bem no palco, refletindo o ar descontraído que o novo trio demonstra na capa do disco, quando parece que a diferença etária e de criação desaparece e começam a soar como uma coisa só.

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