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Dissecando o Álbum Branco

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O cinquentenário do disco mais conturbado dos Beatles vai ser comemorado com o lançamento de uma edição deluxe de um dos discos duplos mais clássicos da história. Lançado em novembro de 1968, o disco flagra a fragmentação da maior banda de todos os tempos em registros secos e diretos, sem as firulas e detalhes dos dois álbuns anteriores. A capa espartana e o título direto – The Beatles, álbum branco é um apelido – são algumas pistas de que as coisas não andavam bem dentro do núcleo-duro da banda. Também pudera: sofreram o primeiro fracasso (com o filme Magical Mystery Tour), perderam o empresário Brian Epstein de forma violenta, criaram uma gravadora que não dava dinheiro – e marcava os dez anos em que os três fundadores da banda (John, Paul e George) conviviam continuamente. O peso bateu em Ringo, o primeiro beatle a sair dos Beatles, que ficou fora do grupo por uma semana durante as gravações do álbum.

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O novo Álbum Branco vem em vários formatos: disco duplo em vinil, disco triplo em CD e uma caixa com seis CDs e um blu-ray – e um livro com fotos da época da gravação e textos sobre o período. Mas entre as pérolas que a nova edição traz, temos a íntegra das fitas que o grupo gravou na casa de George Harrison em Esher, talvez a última vez que os Beatles se sentiram como um grupo. Lá, gravaram uma série de demos de músicas que se tornariam o Álbum Branco ou que iriam usar em suas futuras carreira solo. Estas faixas estão reunidas em um único disco, chamado de Esher Demos, seguindo a ordem do disco. Além destas gravações, também há dois discos com versões alternativas para todas as faixas do álbum, reunindo 50 canções. Como, por exemplo, esta versão acústica para uma das melhores músicas de George, “While My Guitar Gently Weeps”.

Eis a relação das faixas dos seis CDs – mais informações na própria página dos Beatles.

CD 1
“Back In The U.S.S.R.”
“Dear Prudence”
“Glass Onion”
“Ob-La-Di Ob-La-Da”
“Wild Honey Pie”
“The Continuing Story Of Bungalow Bill”
“While My Guitar Gently Weeps”
“Happiness Is A Warm Gun”
“Martha My Dear”
“I’m So Tired”
“Blackbird”
“Piggies”
“Rocky Racoon”
“Don’t Pass Me By”
“Why Don’t We Do It In The Road?”
“I Will”
“Julia”

CD 2
“Birthday”
“Yer Blues”
“Mother Nature’s Son”
“Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey”
“Sexy Sadie”
“Helter Skelter”
“Long, Long, Long”
“Revolution 1”
“Honey Pie”
“Savoy Truffle”
“Cry Baby Cry”
“Revolution 9”
“Good Night”

CD 3
“Back In The U.S.S.R. (Esher Demo)”
“Dear Prudence (Esher Demo)”
“Glass Onion”
“Ob-La-Di Ob-La-Da (Esher Demo)”
“The Continuing Story Of Bungalow Bill (Esher Demo)”
“While My Guitar Gently Weeps (Esher Demo)”
“Happiness Is A Warm Gun (Esher Demo)”
“I’m So Tired (Esher Demo)”
“Blackbird (Esher Demo)”
“Piggies (Esher Demo)”
“Rocky Raccoon (Esher Demo)”
“Julia (Esher Demo)”
“Yer Blues (Esher Demo)”
“Mother Nature’s Son (Esher Demo)”
“Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey (Esher Demo)”
“Sexy Sadie (Esher Demo)”
“Revolution (Esher Demo)”
“Honey Pie (Esher Demo)”
“Cry Baby Cry (Esher Demo)”
“Sour Milk Sea (Esher Demo)”
“Junk (Esher Demo)”
“Child Of Nature (Esher Demo)”
“Circles (Esher Demo)”
“Mean Mr Mustard (Esher Demo)”
“Polythene Pam (Esher Demo)”
“Not Guilty (Esher Demo)”
“What’s The New Mary Jane (Esher Demo)”

CD 4
“Revolution 1 (Take 18)”
“A Beginning (Take 4)/Don’t Pass Me By (Take 7)”
“Blackbird (Take 28)”
“Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey (Unnumbered Rehearsal)”
“Good Night (Unnumbered Rehearsal)”
“Good Night (Take 10 With A Guitar Part From Take 7)”
“Good Night (Take 22)”
“Ob-La-Di Ob-La-Da”
“Revolution (Unnumbered Rehearsal)”
“Revolution (Take 14 Instrumental Backing Track)”
“Cry Baby Cry (Unnumbered Rehearsal)”
“Helter Skelter (First Version Take 2)”

CD 5
“Sexy Sadie (Take 3)”
“While My Guitar Gently Weeps (Acoustic Version Take 2)”
“Hey Jude (Take 1)”
“St Louis Blues (Studio Jam)”
“Not Guilty (Take 102)”
“Mother Nature’s Son (Take 15)”
“Yer Blues (Take 5 With Guide Vocal)”
“What’s The New Mary Jane (Take 1)”
“Rocky Raccoon (Take 8)”
“Back In The U.S.S.R. (Take 5 Instrumental Backing Track)”
“Dear Prudence (Vocal, Guitar & Drums)”
“Let It Be (Unnumbered Rehearsal)”
“While My Guitar Gently Weeps (Third Version Take 27)”
“You’re So Square) Baby I Don’t Care (Studio Jam)”
“Helter Skelter (Second Version Take 17)”
“Glass Onion (Take 10)”

CD 6
“I Will (Take 13)”
“Blue Moon (Studio Jam)”
“I Will (Take 29)”
“Step Inside Love (Studio Jam)”
“Los Paranoias (Studio Jam)”
“Can You Take Me Back (Take 1)”
“Birthday (Take 2 Instrumental Backing Track)”
“Piggies (Take 12 Instrumental Backing Track)”
“Happiness Is A Warm Gun (Take 19)”
“Honey Pie (Instrumental Backing Track)”
“Savoy Truffle (Instrumental Backing Track)”
“Martha My Dear (Without Brass And Strings)”
“Long Long Long (Take 44)”
“I’m So Tired (Take 7)”
“I’m So Tired (Take 14)”
“The Continuing Story Of Bungalow Bill (Take 2)”
“Why Don’t We Do It In The Road? (Take 5)”
“Julia (Two Rehearsals)”
“The Inner Light (Take 6 Instrumental Backing Track)”
“Lady Madonna (Take 2 Piano & Drums)”
“Lady Madonna (Backing Vocals Take 3)”
“Across The Universe (Take 6)”

Máquina do Tempo: 19 de outubro

sepultura

O Sepultura lança o clássico Chaos A.D., os Beatles gravam “Hello Goodbye” e um festival de blues mexe com a Inglaterra – é o passeio da Máquina do Tempo do site Reverb pelo dia 19 de outubro, acompanha lá.

Geoff Emerick (1945-2018)

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Morre Geoff Emerick, o engenheiro de som que ajudou os Beatles a moldar sua sonoridade e a se aventurar no estúdio de gravação. Estive com ele no fim do semestre passado, em Porto Alegre, quando ele me contou sobre algumas das inovações que fez ao lado do grupo – e contei lá no Reverb.

Um papo com Geoff Emerick

geoffemerick

Conversei com o engenheiro de som dos melhores discos dos Beatles, que vem ao Brasil para dar uma masterclass neste fim de semana, em Porto Alegre, para uma matéria para a revista Trip. Um trecho da conversa:

“Os Beatles não eram meus ídolos, porque eu vi eles acontecendo”, lembra-se. “Eles gravaram ‘Love Me Do’ dois dias depois que eu comecei a trabalhar em Abbey Road. Era só um trabalho, mas eu vi o crescimento deles como parte do meu trabalho. Nós não éramos conhecidos mas reconhecíamos uns aos outros no estúdio, sabe? Até que eu comecei a trabalhar com masterização e eu passei a trabalhar diretamente com eles a partir do álbum Revolver, de 1966. Eu assisti à carreira deles do começo até o final.”

Ele explica que, embora estivessem cansados de fazer shows, o que fez o grupo se dedicar principalmente aos discos foi seu senso de aventura, mais do que a estafa e a exaustão dos dias de turnê. “Quando gravamos o Revolver eles ainda estavam fazendo shows, mas eles não conseguiam reproduzir o que fazíamos no estúdio nos palcos. Eles até tentavam, mas era um desastre”, ri. “Quando começamos a gravar Sgt. Pepper’s, em 1967, John Lennon dizia que, agora que eles não iriam mais fazer shows, a gente não precisava se preocupar com a sonoridade ao vivo daquelas novas músicas — e isso deu um rumo completamente diferente para eles. E todos olharam pra mim e eu não tinha nenhum equipamento, não havia plugins, era só um gravador de dois canais e uma câmara de eco, sabe? O desafio era criar a partir daquilo, a partir do nada. Metaforicamente eu só tinha cola e fita adesiva, eram esses os recursos que eu tinha para criar o que eles queriam.”

Ele também conta de sua relação com seu chefe direto na época, o mítico produtor George Martin (1926-2016). “Muito se fala da relação dos Beatles com George Martin como se ele fosse o diretor da escola — e de fato ele era. No começo, eles ficavam nervosos quando ele vinha falar com eles. Aos poucos, isso foi diminuindo, mas a gente se entendeu a partir disso e muito rápido, principalmente por termos o mesmo tipo de senso de humor. Então desenvolvemos uma cumplicidade que bastava olhar no olho um do outro para saber o que estava certo ou errado, trocávamos olhares e sorrisos mais do que palavras. Líamos a mente um do outro e muita gente comentava sobre isso durante as sessões de gravação: ‘Você e o George não se falam durante as gravações?’ A gente não precisava, não tinha muita discussão.”

Geoff lembra da dinâmica dos Beatles em ação. “A parte mágica daquilo era que Lennon e McCartney eram opostos completos. Quando os dois começavam uma música, um deles escrevia algo num papel — uma estrofe, um refrão — e falava para o outro que não tinha uma ideia de como terminar aquela parte. Era essa combinação entre os dois que faziam as coisas acontecerem, além de George e Ringo trabalharem cada vez mais pesado para soarem melhor.”

Leia a íntegra lá na Trip.

17 de 2017: 3) Liverpool

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2017 também foi um ano de prestar antigas contas: visitar a terra-natal de meus primeiros ídolos, faróis do meu interesse por música e cultura. O encontro com o velho entreposto comercial britânico que fez John, Paul, George e Ringo quererem sair de sua própria cidade aconteceu na mesma semana em que seu disco mais emblemático completava 50 anos e foi farto material para a introspecção pessoal e reencontro com meus próprios interesses, depois de 42 voltas ao redor do sol. Além de visitar as casas que os quatro cresceram e os míticos Strawberry Fields e Penny Lane, ainda pude me calar ao silêncio literalmente sepulcral (ao lado do túmulo de ninguém menos que Eleanor Rigby) do quintal da igreja em que John viu Paul tocar pela primeira vez e aceitá-lo em sua banda. “Ah look at all the lonely people”, cantei calado para mim mesmo. A viagem também me presenteou com uma visita-relâmpago a Manchester, outra cidade-símbolo da minha formação, o reencontro com a querida Megssa e seu marido Gordon, que ainda contou com um show do Fall de lambuja. Uma semana que me fez renascer.

Magical Mystery Tour, 50 anos

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A trilha sonora do filme psicodélico dos Beatles completa meio século de idade – e eu escrevi sobre esse clássico lá no meu blog no UOL.

Quando a versão LP de Magical Mystery Tour chegou às lojas norte-americanas há cinquenta anos, no dia 27 de dezembro de 1967, os Beatles encerravam com chave de ouro seu maravilhoso ano psicodélico bem como começavam a perder a mão do próprio negócio. Embora o disco fosse impecável – a ponto de rivalizar com o emblemático Sgt. Pepper’s como uma das principais obras da banda até então -, ele era fruto do primeiro projeto do grupo que foi mal recebido pela crítica (o telefilme que batizava o disco), bem como feria uma regra tácita que a banda se impôs desde seus primeiros anos, de não incluir as canções lançadas em compacto em seus álbuns.

Magical Mystery Tour foi um projeto liderado por Paul McCartney logo após a morte do empresário da banda, Brian Epstein, no fim de agosto daquele ano. Epstein havia sido a peça-chave que fez o grupo ir além do formato tradicional de banda de rock, transcendendo para fenômeno pop global sem precedentes. A súbita morte do empresário pegou a banda de surpresa logo após o lançamento de Sgt. Pepper’s e os deixou completamente sem rumo. Era Brian quem estudava todos os passos que a banda poderia dar, dividindo com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr as opções de carreira e a partir das opiniões do grupo dar seus ousados passos profissionais. Foi ele quem vislumbrou a estética da banda, todo o conceito de merchandising, a forma como lidava com a imprensa, a conquista de mercados pelo planeta, a possibilidade de fazer filmes, capas e títulos de discos que falavam por si só. Dos grandes passos que os Beatles deram em termos de marketing pessoal, só alguns foram dados sem a iniciativa de Brian, como o abandono dos palcos em 1966 e a ideia de criar álbuns conceituais. Da mesma forma que o produtor George Martin era o quinto beatle quando o assunto era música, Epstein era o quinto beatle em relação a estratégia e rumos de carreira, guiando a banda para fronteiras que os quatro nem imaginavam.

Não por acaso sua morte foi um choque para a banda. Ele não chegava a ter o aspecto professoral que Martin tinha em relação ao grupo (por ser quinze anos mais velho que os dos Beatles mais velhos, John e Ringo) e tinha só seis anos a mais que os dois, aproximando-o ainda mais do grupo. Era um fã de música pop como os quatro Beatles e sua relação com o grupo era menos de empresário e mais de amizade. Os quatro confiavam cegamente em Brian – e aquela morte tirou completamente o senso de realidade do grupo na hora em que estavam surfando uma onda de plena criatividade artística. Isso está claro na entrevista que John e George deram logo após chegar do retiro com o guru Maharishi Mahesh Yogi, onde souberam da morte do amigo e empresário. Olha a expressão na cara dos dois:

Paul McCartney logo entendeu que aquela notícia poderia ter um impacto negativo o suficiente para deteriorar a banda e acelerar seu fim, algo que já vinha sendo cogitado desde que o grupo pendurou as chuteiras dos palcos, e assumiu as rédeas da banda. Como havia feito em Sgt. Pepper’s – quando concebeu o conceito por trás de um disco que seria uma obra única, mais do que uma coleção de canções -, logo cogitou a possibilidade de lançar um terceiro filme da banda, sua obra audiovisual psicodélica, que, por motivos de agilidade de produção, foi transformado em um filme feito para a TV, no caso a emissora britânica BBC, onde o grupo já batia ponto regularmente em seus programas radiofônicos.

Magical Mystery Tour foi um conceito criado a partir dos chamados “mystery tours”, viagens de charrete em que os ingleses eram convidados a passear sem saber o rumo daqueles passeios, quase sempre em direção ao campo, no início do século 20. Como, para os ingleses, toda a noção de psicodelia estava intrinsicamente ligada à volta à infância e uma viagem ao passado, era natural que aquele conceito fosse transformado em “mágico” para saciar as ansiedades lisérgicas de uma geração que via o mundo deixar de ser preto e branco para assumir cores em Technicolor.

O problema é que por mais empolgado que Paul estivesse com aquele conceito, ele era apenas um jovem de vinte e cinco anos que havia dominado o mundo da música e estava delirando com a possibilidade de se tornar um autor sério. Havia começado a frequentar galerias de arte, a acompanhar cinema de vanguarda e a ler sobre cultura erudita. Aquele ímpeto jovem de se tornar um artista intelectual era bonito na teoria, mas na prática ele não tinha muita ideia do que fazer. E embora o filme tivesse sido dirigido e escrito pelos quatro Beatles, era ele o capitão daquela aventura e o aspecto livre de execução do filme seria perfeitamente exemplificado pelo roteiro escrito por Paul – um diagrama circular que funcionaria como ponto de partida para improvisos excêntricos e delírios lisérgicos da banda.

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O resultado foi um filme completamente experimental e caótico, que substituía as charretes das turnês misteriosas do passado por um ônibus escolar cheio de personalidades peculiares, todas elas vindas do inconsciente coletivo imaginado pela banda, ecoando também as viagens psicodélicas promovidas pelos Merry Pranksters de Ken Kesey pelos Estados Unidos, anos antes, quando aquele grupo atravessava o país dando ácido lisérgico diluído em ki-suco em festas instantâneas. Pelo percurso do filme, curtas musicais que anteviram o conceito de videoclipe e acenos humorísticos que plantariam a semente do que o Monty Python faria em seu Monty Python’s Flying Circus, dois anos depois. Steven Spielberg e George Lucas também celebraram o aspecto de vanguarda naïf do filme, que ajudaria os dois diretores a entender como ser experimental e pop simultaneamente.

Mas todas essas qualidades foram percebidas posteriormente. Quando foi exibido após o natal daquele ano, o filme sofreu fortes críticas, principalmente por sua falta de roteiro e aparente amadorismo. O produtor George Martin também atribui o fracasso do filme ao fato de este ser um filme muito colorido e, à época, boa parte dos televisores na Inglaterra transmitirem apenas em preto e branco. O baque sofrido pela banda foi tamanho que o próprio Paul McCartney deu uma declaração para a imprensa praticamente se desculpando por ter feito o filme.

Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e John Lennon

Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e John Lennon

O mesmo não poderia ser dito em relação à sua trilha sonora. Lançada no início daquele dezembro como um EP, o disco continha apenas as músicas da banda que utilizadas no filme, todas inéditas. Era um compacto duplo que trazia a faixa-título e “Your Mother Should Know” no lado A, “I Am the Walrus” no lado B, “The Fool on the Hill” e a instrumental “Flying” no terceiro lado e “Blue Jay Way” de George Harrison no quarto. Como a capa de Sgt. Pepper’s, a do EP também era dupla e trazia um encarte de 28 páginas que tentava contar a história rascunhada no filme.

Mas quando o disco foi cogitado para o mercado norte-americano, ele sofreu uma grave distorção – principalmente do ponto de vista dos Beatles. Em vez de ser um compacto duplo, ele agora seria um álbum, e parte das músicas que o tornariam um disco cheio já haviam sido lançadas como compactos anteriormente, quebrando uma regra que os Beatles criaram logo após o lançamento de seu primeiro disco, o único a conter músicas lançadas também como single (a saber, “Love Me Do” e “P.S. I Love You”, que faziam parte do repertório do disco Please Please Me). Desde então, o grupo separava as músicas que tinham maior potencial radiofônico para serem lançadas como compacto, deixando-as quase sempre de fora dos álbuns. Assim, hits instantâneos como “She Loves You”, “I Wanna Hold Your Hand”, “We Can Work It Out”, “Day Tripper”, “Paperback Writer” e “Rain”, entre outras, nunca chegaram a figurar na discografia de álbuns do grupo.

O disco Magical Mystery Tour, que chegou ao mercado norte-americano há 50 anos, incluía as faixas de compactos como “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” (compacto que havia sido lançado antes de Sgt. Pepper’s), “All You Need is Love” e “Baby You’re a Rich Man” (lançado após a primeira transmissão ao vivo da história, naquele mesmo ano) e “Hello Goodbye” e “I Am the Walrus”. A princípio o grupo ficou contrariado com esta nova versão, mas aos poucos cedeu às más impressões a ponto de oficializá-lo com item oficial quando a discografia da banda foi sacramentada em sua versão em CD, trinta anos depois. A inclusão daqueles compactos no antigo EP duplo também favorecia a transformação de todos os outros compactos na coletânea dupla Past Masters – Volume 1 & 2, que teria de ter um terceiro volume caso não os compactos de 1967 não fossem incluídos naquela edição.

Mas, principalmente, a nova edição coroaria 1967 como o ano psicodélico dos Beatles, reunindo toda a produção da banda naquele ano em dois álbuns, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Magical Mystery Tour. Juntos os dois formam um par de discos impecável, que reúne a produção psicodélica mais intensa em um ano em que várias bandas lançaram dois discos clássicos (os Doors lançaram seu primeiro disco homônimo e Waiting for the Sun, o Experience de Jimi Hendrix tinha a estreia Are You Experienced? e o fantástico Axis… Bold as Love, o Jefferson Airplane teria seu Surrealistic Pillow e After Bathing at Baxter’s, os Stones lançariam Between the Buttons e Their Satanic Majesties Request).

Sozinho, Magical Mystery Tour é o que o filme original tentava ser: uma viagem psicodélica misteriosa, em que os Beatles, como mágicos, recebiam o ouvinte tentando emular a sensação lisérgica em letras e melodias – dos “roll up” que abrem a faixa-título ao clima nebuloso da hipnótica “Blue Jay Way” de George Harrison, da viagem instrumental de “Flying” (a primeira faixa assinada pelos quatro Beatles) ao delírio jocoso de “I Am the Walrus” (que Lennon compôs arbitrariamente de forma dúbia, apenas para atiçar a curiosidade dos que interpretavam demais suas letras), passando pela viagem à infância em Liverpool de “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane”, pelas baladas nostálgicas “The Fool on the Hill” e “Your Mother Should Know” e pelas letras simples, otimistas e diretas de “Hello Goodbye” e “All You Need is Love”. Um disco impecável que encerraria um ano mágico para os Beatles e os preparava para o início do fim de suas carreiras, quando, em 1968, começariam a se desfazer com o mítico Álbum Branco. Mas isso é outra história…