Bom Saber #032: Arnaldo Branco

É mais difícil ser roteirista ou humorista no Brasil? Arnaldo Branco nem olhou pra trás ao abraçar duas carreiras sem a menor tradição no país e aos poucos se estabelece como um dos grandes, escrevendo para programas tão diferentes quanto o Filho do Jorel e Greg News, além de se estabelecer como um dos grandes cartunistas do país, mesmo que isso não lhe pague o que ele mereça. Mas mais do que lamentar a profissão, aproveitei a deixa de sua presença no meu programa semanal de entrevistas Bom Saber, encerrando a trilogia com os fundadores dOEsquema (antes teve papos com o Mini e com o Bruno), para conversar sobre a sua formação e trajetória e a situação do Brasil atualmente, principalmente se levarmos em conta o quanto o humor disseca facetas nada agradáveis dos dias que vivemos. E, claro, rir muito.

OEsquema sobre o capitalismo

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Mais uma reunião de condomínio dOEsquema e partimos do assunto capitalismo para falarmos sobre bilionários, segurança pública, a culpa da imprensa brasileira, empreendedorismo e chanchadas, a vinda do crentistão, crise climática, planos de dominação mundial vilanescos, a compra do próprio imóvel, a cultura dos memes e a subversão da desobediência civil. Mas calma que o papo flui bem.

A volta dOEsquema

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A novidade desta semana é reencontro com meus chapas dOEsquema. Pra quem não lembra, eu, Arnaldo Branco, Gustavo Mini e Bruno Natal conduzíamos um condomínio de blogs que reunia gente de todo o Brasil até 2015, quando resolvemos fechar o site devido à ascensão das redes sociais. Mas a conexão dos quatro continua e por mais que só tenhamos nos encontrado pessoalmente três vezes, seguimos trocando impressões, comentários e opiniões sobre assuntos diferentes. Consegui reunir todo mundo para um papo sobre redes sociais e resolvemos que vamos tentar manter a periodicidade quinzenal. Chega mais.

Falando dOEsquema em Porto Alegre

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Eu, Mini, Bruno e Arnaldo falamos do saudoso portal que criamos em 2007 e matamos em 2015 para discutir comunicação e internet e seu futuro a partir de um mundo pós-redes sociais no Festival de Interatividade e Comunicação que acontece nestas segunda e terça, em Porto Alegre. Nossa mesa acontece nesta segunda-feira, às 16h15, na Unisinos – as inscrições podem ser feitas no site do FIC 2019.

Monty Python para todos!

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Arnaldo Branco, Clarice Falcão, Fabiane Langona, Laerte e Gregorio Duvivier falam sobre a importância do grupo inglês Monty Python, que aos poucos começa a disponibilizar sua obra no Netflix, em matéria que escrevi pro site da Trip. Um trecho:

“Lembro quando soube da existência deles, lendo O diário de um cucaracha, do Henfil, uma coletânea das cartas que ele escreveu quando morava nos Estados Unidos nos anos setenta — o Henfil descrevia a ideia geral do programa, chocado que uma parada que pegava tão pesado com a ideia de Deus passava na TV americana”, lembra Arnaldo, sobre a demora do grupo em chegar ao Brasil.

“Acho que o Monty Python ensinou a desenvolver um olhar meio cômico sobre tudo de ridículo e inerente à sociedade. Aquele esquete da entrevista de emprego idiota é um exemplo. Textos imensos. Timing de piada”, continua a quadrinista Fabiane Langona, que ainda reforça a importância do integrante norte-americano do grupo, o animador Terry Gilliam. “A estética dessas animações parece sempre ter feito parte da minha memória por osmose, muito antes de eu ter qualquer ideia do que era Monty Python”, lembra.

Clarice reforça a seriedade do grupo também do ponto de vista musical. “A primeira sequência que vi deles foi o começo d’O sentido da vida, com a canção do esperma, que me marcou profundamente. Era um número musical levado muito a sério e hilário. Acho que pra uma música ficar engraçada ela tem que ser levada a sério. O Eric Idle especialmente fazia isso muito bem”, explica. “Conheci mais profundamente o Monty Python, também por conta da amizade do grupo com o George Harrison — que armou uma produtora e hipotecou a casa pra bancar A vida de Brian”, continua Fabiane. “Adoro essa amizade. E acho que humor X música tem tudo a ver, ainda mais se tratando desse pessoal.”

“Humor é sempre ligado à circunstância — é difícil rir do mesmo modo com que se ria ao ler Jonathan Swift, ou Voltaire”, continua Laerte. “Mas as chaves que o Monty Python nos deixou abrem ainda muitas e muitas portas, isso é verdade.” “Eles continuam muito atuais. Eles estão no nível dos grandes humoristas que são eternos, como Chaplin e Buster Keaton”, emenda Duvivier. “Eles riem do humano, não do que acabou de acontecer essa semana. Não é humor de revista, trocadilho com o nome do presidente ou piada com uma coisa que acabou de sair do jornal. O humor deles é muito ancorado na realidade, no humano. Por isso que eles são tão duradouros, porque eles riem da condição humana — e também daqueles que estão no poder.”

A íntegra pode ser lida aqui.

Como foi a edição de agosto de 2016 das Noites Trabalho Sujo

Noites Trabalho Sujo | 13.08.2016

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O frio que paira sobre o mês de agosto acabou funcionando como uma materialização do marasmo e da rotina pessimista que tem dominado este 2016, o que urge a necessidade de mais um ritual psíquico-científico para promover o descarrego de almas e a desintoxicação dos corações. Em nosso encontro mensal tecnopagão no centro de uma das maiores megalópoles do hemisfério, reunimos um time de estudiosos da harmonia e acadêmicos do ritmo para elevar espíritos e conectar neurônios apenas com o poder de frequências sonoras. O laboratório que batiza o evento, chefiado pelo cientista-orgânico Alexandre Matias, tem uma baixa na formação devido à perigosa incursão que o metaexplorador e galã Danilo Cabral tem feito no mundo da bruxaria pré-adolescente, fazendo que o cônsul do naturismo hormônico, o ministro Luiz Pattoli, acumule a função de copiloto e navegador durante a expedição para o interior da mente. O sarau idílico no auditório azul néon ainda conta com as presenças ilustres do casal formado pela historiadora em tempo real Liv Brandão e antropólogo comportamental Arnaldo Branco, ambos em visita fulminante fugindo do balneário carioca que sedia os Jogos Olímpicos. A dupla de pesquisadores Missin Link, formado pelos analistas de frequencias Daniel Prazeres e Vanessa Gusmão, também dominam o público pagante com seu transe emocional. Do outro lado daquele andar, um verdadeiro time de sociólogos, analistas de sistemas, bon vivants, exploradores e notívagos reunidos no instituto de filosofia Scream & Yell, liderado pelo anfitrião Marcelo Costa, que recebe as duplas Bruno Dias & Tiago Agostini e Nat Julio & Renato Moikano, além de Bruno Capelas e Tiago Trigo no auditório preto, dispostos a derreter corações e quadris com uma sequência emblemática de registros sonoros de afeição emocional. À entrada, outra dupla, esta formada pelo escultor de luz Fabs Grassi e pela viajante temporal Priscila de Castro Faria, recebem os que chegam num transe sensual para aquecer glândulas pineais. A presença neste encontro precisa ser confirmada através do endereço eletrônico [email protected] até às 20h do dia da realização do evento, quando as confirmações começam a chegar de volta. Ouça seu coração e se aqueça neste inverno, começando por essa amostra que disponibilizamos na rede:

Noites Trabalho Sujo @ Trackers
Sábado, 13 de agosto de 2016
A partir das 23h45
No som: Alexandre Matias e Luiz Pattoli (Noites Trabalho Sujo), Liv Brandão e Arnaldo Branco, Daniel Prazeres e Vanessa Gusmão (Missin Link), Fabs Grassi e Priscilla de Castro Faria (no lounge), Marcelo Costa, Bruno Capelas, Bruno Dias, Tiago Agostini, Nat Julio, Renato Moikano e Tiago Trigo(Scream & Yell)
Trackertower: R. Dom José de Barros, 337, Centro, São Paulo
Entrada: R$ 30 só com nome na lista pelo email [email protected] O preço da entrada deve ser pago em dinheiro, toda a consumação na casa é feita com cartões. E chegue cedo – os 100 que chegarem primeiro na Trackers pagam R$ 20 pra entrar.

OEsquema (2008-2015)

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Hora de fechar mais um capítulo.

Hoje desligamos o site por diferentes motivos, mas principalmente por estarmos sintonizados em frequências diferentes em relação à produção de cada um de nós. E por termos chegado a uma fria conclusão no fim do ano passado.

OEsquema nasceu da necessidade. Eu, Bruno e Arnaldo nos conhecemos online, no início do século, quando o URBe e o Mau Humor ficavam no Blogger e eu pendurava o Trabalho Sujo no já moribundo Geocities. Até que o Pablo e dois amigos vieram com uma história de criar um portal de blogs pra hospedar todo mundo que estava pendurado em servidores gratuitos e tentar criar uma fricção criativa entre diferentes produtores de conteúdo. O Pablo queria o Trabalho Sujo, que nem tinha completado uma década de vida e tinha mais história impressa do que digital, e eu vi uma oportunidade boa de chamar o URBe e o Mau Humor para aquela confusão alto astral.

Mas o Gardenal, o primeiro coletivo de blogs do Brasil, começou a crescer junto com a vida profissional de seus sócios, que não conseguiram gerir o servidor nem como plataforma digital, muito menos como negócio. Entre os problemas técnicos houve um hoje clássico servidor frito que nos fez perder pelo menos dois anos de produção online, uma pequena tragédia que, se por um lado me escaldou a me tornar menos acumulador digital, nos motivou a tentar buscar uma casa própria.

E no dia 8 do 8 do 8, eu, Bruno e Arnaldo convidamos o Mini para inagurar OEsquema. Não tinha plano de negócios nem linha editorial – era simplesmente um lugar para podermos escrever o que quiséssemos de acordo com a nossa vontade. Por assim seguimos os primeiros anos até que começamos a pensar em ampliar a festa, convidando um monte de amigos e amigas pra começar a se publicar sob a nossa marquise. Em comum tínhamos a vontade de distribuir conhecimento e opinião sobre assuntos diferentes, que não eram facilmente classificáveis nas prateleiras ainda utilizadas do século passado, e sermos personalidades individuais em vez de nomes que se escondem atrás de um todo. OEsquema era mais um processo do que um produto. Reunimos jornalistas, escritores, músicos, quadrinistas, fotógrafos, DJs, designers, palpiteiros, deslumbrados e céticos que tivessem uma mentalidade parecida com a nossa, urbanos de vinte e tantos ou trinta e poucos anos entendendo a relação da cultura e do comportamento modernos com as novas cidades e as novas mídias e tecnologias.

Nesses últimos sete anos vieram as redes sociais, a tecnologia móvel, a cultura em streaming e o início de maturidade política brasileira, processos que quase sempre se assemelhavam ao que havíamos pensado quando começamos a por OEsquema em prática. Não pioneiros – fomos os últimos representantes de uma cultura de clusters que foi atomizada e acelerada pelo impacto do mundo online e digital desta segunda década do século 20. Uma cultura que fez artistas se unirem em prol de causas estéticas, comunicadores criar os primeiros jornais, escritores se reconhecer coletivamente através das ideias. Um link que aproximou os primeiros modernistas, os primeiros anarquistas, os primeiros hippies, os primeiros punks, os primeiros hackers e os primeiros indies. E também os primeiros blogueiros, os primeiros videomakers, as primeiras bandas de rock, os primeiros fanzineiros.

OEsquema pertence a essa tradição de querer ficar junto dos outros. Somos a última espécie de uma época em que essa aproximação ocorria de maneira analógica e bem mais lenta. Mesmo que tenhamos nos conhecido primeiro virtualmente para depois nos conhecermos pessoalmente, nós dOEsquema temos os pés no século 20 e, como grupo, nos movíamos mais lentamente que a velocidade exigida pela internet no início desta década.

Com o mundo cada vez mais conectado, cada vez mais pessoas se conhecem simultaneamente, formando grupos que incluem anônimos e celebridades entre listas de amigos, seguidos e seguidores em diferentes plataformas sociais. O volume coletivo está cada vez mais intenso e são raros os maestros que se fazem entender no meio dessa cacofonia geral.

O fim de 2014 trouxe uma sensação de esgotamento para as pessoas no mundo todo relacionado a uma série de fatores diferentes. E, para nós, essa sensação não veio com um gosto feliz de missão cumprida mas também sem o amargor de um relacionamento mal resolvido. Seguimos amigos e próximos e vai ser inevitável que nos encontremos em novas parcerias – talvez agora mais intensas – num futuro próximo. Mas há um sentimento inevitável de falta de propósito, ao menos coletivamente, como cogitamos há quase uma década.

Seguimos cada um em nossos cantos, uns em seus próprios sites, outros firmes em redes sociais, mais alguns aproveitando o período para repensar sua relação com o digital. O Trabalho Sujo a partir dessa sexta assume seu próprio domínio como casa, quando começo uma enorme faxina editorial rumo ao aniversário de vinte anos, em novembro.

OEsquema pode ter terminado, mas a ligação que estabelecemos nestes anos é pro resto de nossas vidas.

Agradeço a todos que estiveram nessa enorme festa – nos encontramos por aí!

Beijos
Matias
PS – A carta de despedida do Bruno tá aqui . Linko as outras quando outras vierem.

Arnaldo Branco sobre o ataque ao “Charlie Hebdo”: “Condenar um homem-bomba à pena de morte me parece o cúmulo da inutilidade”

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Meu broder e sócio nOEsquema Arnaldo Branco deu uma entrevista ao site Livre Opinião em que ele deixa claro sua opinião em relação aos sentimentos gerados a partir do atentado à redação do jornal francês Charlie Hebdo:

““Os cartuns são racistas, retratam os islâmicos como terroristas”. Sim – os que são efetivamente terroristas.Trazendo para o nosso contexto: quando você faz um cartum com um traficante de AR-15 e chinelo, não está chamando todos os favelados de bandidos – você está retratando uma minoria (a Rocinha, por exemplo, tem 200 mil habitantes e é controlada por um bando de 100 caras armados) que efetivamente tem grande efeito na vida da comunidade. Todos conhecem as circunstâncias que levam um sujeito ao crime organizado, mas a prática não é menos odiosa – nenhuma miséria justifica a predisposição para o assassinato, senão muito mais gente estaria formando com os traficantes. Digo isso friamente, sem achar que a pena de morte ou redução da maioridade penal seja a solução pra nada – mas também não vou me compadecer da situação de alguém que acha matar um recurso válido. Quando um bandido morre em uma ação da polícia não sinto pena, mas também não me sinto vingado. Pelo mesmo motivo não senti nenhuma emoção quando a polícia francesa cercou os autores do atentado – nenhum desfecho iria trazer o Wolinski de volta, e quem quer que tome esse caminho de violência na vida entende o próprio assassinato como um revés possível do ofício. Condenar um homem-bomba à pena de morte me parece o cúmulo da inutilidade.

Outra coisa: esses caras do #jenesuispascharlie acham que só eles enxergam as implicações e desdobramentos do atentado, se acham o último farol da humanidade, ficam nas redes sociais exibindo sua pretensa sagacidade, dizendo coisas tipo”será que só eu percebo que o Sarkozy é um hipócrita quando fala em liberdade de expressão?” Não, fera, tem a maior galera que se liga nisso, mas nem todo mundo tem a manha de se aproveitar de uma tragédia pra se sentir especial. O que esses relativizadores estão fazendo é contestar luto em velório.

E pior é esse povo que fica repetindo “não teve toda essa comoção com o massacre tal”, como se fosse um campeonato de tragédia. Geralmente você vai na timeline desse pessoal e tem mais foto de almoço do que solidariedade com os oprimidos.”

Falou e disse. A foto saiu do Instagram dele.

Overdose vem aí: “Dá pulseirinha mas não vipa!”

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É o seriado do Arnaldo que se avizinha…

Promete…