Trabalho Sujo - Home

O Ecossistema da Música no Século 21

ecossistema-musica-sim-2014

Hoje tem início a Semana Internacional de Música São Paulo e começo minha participação no evento ao fazer a palestra de abertura, chamada de O Ecossistema da Música no Século 21, levo um pouco do que discuti no curso que coordenei no Espaço Cult e amplio a discussão para traçar um cenário das transformações que estamos vivendo hoje. Minha apresentação começa às 11h e acontece na Sala Concerto da Praça das Artes, no Centro, e amanhã continuo participando como mediador de quatro mesas. Confira a programação completa do Sim São Paulo no site do evento.

Indo pra Belo Horizonte discutir hábitos culturais

leiva-bh

Participo hoje, no Oi Futuro de Belo Horizonte, de mais uma etapa do seminário Hábitos Culturais, produzido a partir da pesquisa de mesmo nome realizada pela JLeiva Cultura & Esporte e pelo Instituto Datafolha. Depois de examinar os hábitos paulistas em relação à cultura, é a vez de analisar os dos mineiros, num encontro que acontece a partir das 14h e ainda conta com as presenças de Roberto Guimarães (gestor de cultura do Oi Futuro), Eliane Parreiras (secretária de cultura do estado de Minas Gerais), Aluízer Malab (gestor cultural), Clarice Libâno (antropóloga) e Gustavo Caram (Circuito Cultural da Praça). As inscrições são gratuitas e podem ser feitas aqui.

A experiência religiosa de Philip K. Dick

pkd-crumb

A editora Aleph, que vem construindo um belo catálogo de ficção científica, acrescentou mais um volume essencial à bibliografia do mítico Philip K. Dick ao lançar pela primeira vez a obra Valis, em que o escritor romantiza a revelação psicodélica-religiosa que mudou completamente sua vida em um livro que deu um novo rumo aos seus livros. A edição traz de brinde a HQ A Experiência Religiosa de Philip K. Dick, escrita e desenhada por Robert Crumb, que eu havia traduzido de brincadeira no começo desse século – e o velho compadre Mateus, que incentivou a tradução, letreirou o quadrinho e a hospedou em seu Ovelha Elétrica (ela está lá até hoje). Ao saber que o quadrinho já havia sido traduzido, a editora pediu para que eu desse um tapa na versão original para incluí-la como extra em Valis, oficializando assim a sexta obra de Crumb que participei da adaptação para o Brasil.

Discutindo Homens, Mulheres & Filhos

men-women-and-children-

Assisti ontem ao novo filme de Jason Reitman, Homens, Mulheres & Filhos e gostei. Talvez porque tenha ido com baixa expectativa (principalmente depois de ler a resenha da Gi Ruaro), mas a leitura que o diretor de Juno, Obrigado por Fumar e Amor Sem Escalas faz de nossos relacionamentos em tempos de internet não é propriamente crítica nem muito superficial. Ela apenas retrata a camada artificial que criamos entre nós e a realidade e como nos refugiamos nela para não termos que confrontar com a vida offline. O filme será exibido hoje gratuitamente às 20h, numa pré-estréia no cinema do Shopping Frei Caneca e após a sessão, que começa às 20h, haverá um debate sobre o tema do filme que eu participo ao lado do Pablo Peixoto (do canal Quatro Coisas) com mediação do repórter Guilherme Genestreti, da Folha de S. Paulo. As senhas para assistir ao filme de graça podem ser retiradas a partir das 18h, nas bilheterias do shopping (que fica na Rua Frei Caneca, 569). Atenção: o evento foi cancelado por motivos técnicos – em breve aviso quando acontecerá a nova edição.

A volta das Noites Trabalho Sujo pro Alberta #3!

noites7novembro2014

Voltamos! Depois de sete meses distantes do melhor inferninho do centro da cidade, as Noites Trabalho Sujo voltam à sua pista de origem para matar saudades e fazer novos laços. Depois de um semestre entre o Subsolo do Toronto e a salinha do Apartamento Byob, nosso desfile de hits da cidade reencontra-se com você para retomar o trono de melhor sexta-feira de São Paulo. Na grande reestréia, Alexandre Matias, Luiz Pattoli e Danilo Cabral viajam por gêneros, países e épocas diferentes misturando o melhor do rock clássico com flashbacks dos anos 80, sucessos da discoteca e pérolas indie, groovezeiras espaciais e iê-iê-iê, samba rock, Britney Spears, Daft Punk e músicas de 2014 que você nunca tinha ouvido. E o esquema de nome pra lista de desconto é o mesmo de sempre – mande seus nomes pro email noitestrabalhosujo@gmail.com até às 22h. Diversão à toda!

A volta das Noites Trabalho Sujo ao Alberta #3
Com Alexandre Matias, Luiz Pattoli e Danilo Cabral
Alberta #3. Avenida São Luís, 272. Centro.
A partir das 22h.
R$ 35 / R$ 25 (com nome na lista pelo noitestrabalhosujo@gmail.com)

Cultura e tecnologia em São Paulo

sp-jleiva

Fui convidado para participar do livro Hábitos Culturais dos Paulistas, uma pesquisa feita entre a JLeiva e o Datafolha, para falar sobre as transformações que a tecnologia impôs ao nosso contato com a cultura. A pesquisa é excelente, quebra alguns tabus e abre cenários bem interessantes para um futuro próximo – ela pode ser acessada neste site. Além do capítulo no livro (que ainda conta com textos de Hugo Possolo, dos Paralapatões, José Roberto Toledo, do Estadão Dados, entre outros), também participei de duas mesas de discussão nesta terça e quarta na Pinacoteca, com alguns dos envolvidos no livro (Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, em um dia e Pena Schimidt e Alessandro Janoni, do Datafolha, no outro). Abaixo, o texto que escrevi para o livro, que pode ser baixado em PDF aqui.

Um país conectado

Viver no Brasil na segunda década do século 21 é habitar várias épocas ao mesmo tempo. O país atravessou o século passado sob a sombra de um epíteto infame, a frase “O Brasil é o país do futuro”.

Ela foi dita pela primeira vez, com ironia, por um personagem do livro País do Carnaval, de Jorge Amado, nos anos 1930. Virou título do livro ufanista do austríaco Stefan Zweig em 1941 e, no final dos anos 1960, foi transformada em mote nacionalista pelo ditador militar Emílio Garrastazu Médici. Hoje, por linhas tortas, ela parece ter deixado de ser futuro do pretérito para se tornar presente.

“O futuro já começou” não é mero arremedo da letra do jingle que Marcos Valle compôs para o final de ano da TV Globo nos anos 1970 – a realidade digital para onde estamos sendo tragados desde a popularização da world wide web há vinte anos vem borrando nossa sensação de futuro e nos fazendo crer em um mundo de não ficção científica. Ainda estamos longe dos carros voadores ou de morar na Lua, mas a transformação provocada pela internet na virada do milênio foi colossal e seu impacto talvez seja maior do que a urbanização do planeta, um processo que começou há pouco mais de um século e que atingirá seu auge nas próximas décadas (a ONU estima que, em quinze anos, 70% da população do mundo morará em grandes cidades).

Nossa sensação de futuro foi embaçada pela onipresença da rede e pela miniaturização dos dispositivos de acesso a ela – repare como todo filme de ficção científica produzido até 1994 ficou datado pelo simples fato de não cogitar a existência da internet no futuro.

O que antes chamávamos de “futuro” foi ultrapassado pela realidade de redes sociais e smartphones. Fazemos reservas de restaurante e compramos ingresso para o cinema apenas via celular – e sem usar a voz. O conteúdo sob demanda já está nas TVs e nos sites e logo chegará às rádios. Livros e discos eletrônicos são vendidos diretamente para o aparelho de consumo, mudando a natureza das lojas. Aplicativos nos ajudam a achar o melhor caminho para chegar em casa ou a chamar táxis mais rapidamente. Wi-fi em todo lugar. Movimentações bancárias e comerciais podem ser feitas de casa, por qualquer um, sem haver a menor necessidade de manusear dinheiro. Registramos cada passo de nossos filhos para publicar para amigos e familiares ao descobrirmos que a melhor câmera é aquela que está sempre à mão – ou melhor, no bolso ou nos próprios celulares.

Qualquer dúvida pode ser saciada com uma busca, qualquer endereço pode ser encontrado com poucos cliques, e o celular virou uma mistura de central de entretenimento com controle remoto da realidade. Todos andamos encurvados, tateando fixamente um retângulo preto nas mãos. Em pouco tempo, essa caixinha irá para os óculos e para o pulso, da mesma forma que os computadores tradicionais (notebook ou desktop) estão perdendo espaço para o smartphone. Repare: você já usa mais seu celular do que seu PC.

Nova realidade digital
Calhou de essa nova realidade digital pairar sobre o mundo no mesmo momento em que o Brasil passa a se equilibrar com as próprias pernas. Estamos saindo de nossa adolescência pátria ao mesmo tempo que o mundo se horizontaliza com a internet – e, aos poucos, estamos conquistando o planeta. De repente, “ser brasileiro” ganhou conotações completamente diferentes dos clichês do passado, que figuravam o país em algum ponto equidistante entre Carmen

Miranda, o filme Cidade de Deus, Gisele Bündchen e o funk carioca. Aos olhos estrangeiros, o Brasil sempre foi um animal bonito e exótico, mas o início de nossa maturidade cívica, escancarada nos protestos de junho de 2013, mudou a visão externa sobre o país.

E a forma como usamos a internet é crucial nessa nova abordagem para o resto do mundo. Somos o segundo país que mais consome smartphones e o vice-líder em presença no Facebook, além de dominarmos outras tantas redes sociais com uma presença massiva que só não ultrapassa a dos Estados Unidos. O Brasil é conhecido por ter se embrenhado em diferentes áreas do mundo digital e ter conseguido deter autoridade nos pontos mais remotos desse universo. Do pioneirismo da adoção do software livre em gestão pública ao maior encontro de pessoas conectadas do planeta (a Campus Party de São Paulo ultrapassou a versão original, espanhola, há dois anos), das plataformas de transparência política ao sistema bancário eletrônico (considerado superior ao de países europeus em termos de segurança), do maior festival de cultura da internet do mundo (o YouPix, em São Paulo, reúne quase 20 mil pessoas por ano) a enormes comunidades de gamers on-line, o Brasil é reconhecido constantemente como um gigante digital. E muitos desses hábitos, ainda em transformação, são detectados com clareza nesta pesquisa.

Embora a TV aberta ainda seja o hábito mais comum entre todos os entrevistados, é fácil perceber que esse cenário está mudando drasticamente – basta confrontar a quantidade de pessoas que não acessa a internet (27%, número que tende a cair) com o fato de que metade dos que responderam à pesquisa acessa a rede diariamente, seja para entrar em contato com amigos e familiares, seja para consumir conteúdo, que pode ser tanto informação como entretenimento.

É interessante notar a natureza social da rede. Ela não é usada unicamente para benefício próprio ou interesses individuais, mas é um lugar de diálogo e de relações pessoais. É onde as pessoas mantêm contato mais frequente, ainda que na forma de likes, tuítes, links e vídeos compartilhados. E reforça tanto o caráter gregário quanto o clima de festa típicos da sociedade brasileira, que podem pender essa intensidade para um lado mais depreciativo, ao qual assistimos tanto nos comentários das notícias quanto nas redes sociais. E estamos todos nelas – 90% dos entrevistados que acessam a internet participam de alguma rede social, e 83% deles têm perfil no Facebook, a maior rede social do mundo atualmente.

Pirataria
Uma das particularidades da internet brasileira é a adoção do download ilegal. O Brasil foi um dos primeiros países a abraçar o Napster, software que permite o compartilhamento de arquivos de um computador para outro, sem que ambos estejam conectados a um servidor principal, vivendo o auge da pirataria digital simultaneamente a Estados Unidos e Europa. O país se beneficiou ao ter acesso a esse tipo de conteúdo exatamente quando seus serviços de banda larga começaram a ganhar território, substituindo a obtusa conexão via linha telefônica que dominou a primeira fase de popularização da web, na última década do século passado. O usuário de internet brasileiro médio baixa música gratuitamente mais do que qualquer outro tipo de conteúdo e não se vê pagando por material digital.

Embora seja o principal conteúdo baixado, a música não está sozinha como líder de downloads ilegais. Cada vez mais gente baixa filmes pela internet em vez de assisti-los no cinema. Na pesquisa realizada, quase um em cada cinco entrevistados assiste a filmes que foram baixados da internet. É curioso perceber que não são assistidos no computador em que foi feito o download, mas na própria TV de casa. Seja conectando o computador ao televisor ou usando HDs, consoles de videogame ou pen drives para ter acesso a conteúdo audiovisual, mais da metade dos entrevistados usa um aparelho de televisão para assistir aos filmes baixados ilegalmente.

Da web para a rua
Muito se engana quem acha que uma população conectada é uma população isolada e trancafiada em apartamentos, mesmo porque boa parte das pessoas usa a internet como ponto de partida para a rua. E não se trata apenas dos protestos de junho de 2013, quando o país juntou-se ao momento histórico que reuniu importantes levantes populares, como a Primavera Árabe, os Indignados da Espanha, os tumultos em Londres e o movimento Occupy Wall Street. Mais do que protestar, as pessoas querem desfrutar de eventos culturais – muitos realizados em praça pública e ao ar livre.

Entre os entrevistados, 40% dizem se informar sobre atrações culturais por meio da internet, sendo que 23% de todos ficam sabendo das atrações por meio das redes sociais. Mais da metade dos que usam internet e redes sociais usam portais e sites de mídia para descobrir novidades sobre a programação cultural da cidade e usa as páginas oficiais dos eventos nas redes sociais para descobrir mais informações. Um dado curioso se reflete no ato da compra: a grande maioria ainda prefere adquirir ingressos para esses eventos pessoalmente, na bilheteria, em vez de usar a internet.

O que a pesquisa mostra é que a estrada digital é um caminho sem volta. Os aparelhos continuarão diminuindo até praticamente desaparecer diante de nossos olhos. Um dos melhores exemplos dessa tendência dos aparelhos “vestíveis” parece uma anomalia tecnológica ao acoplar um minimonitor a um par de óculos, mas já nasce com cara de datado, de filme de ficção científica retrô. Essa tendência de aparelhos “vestíveis” é inevitável: basta ver o smartwatch como o controle de interface de nossos smartphones, como uma “filial” do celular. Nem precisaremos tirar o telefone do bolso, basta acioná-lo – muito provavelmente por voz – usando outro pequeno computador, amarrado em seu pulso, substituindo o velho relógio.

É um futuro em que controlaremos as telas sem usar as mãos e em que nos tornaremos cada vez mais independentes do computador de mesa, da escrivaninha e do escritório. A mobilidade digital nos joga para a rua, nos tira de uma zona de conforto que, na verdade, era uma zona de medo. Já estamos retomando as ruas graças às tecnologias disponíveis. E não param de aparecer novidades, portanto, não basta esperarmos que o futuro aconteça. Ele já está acontecendo. É preciso ir ao encontro dele e começar a fazer algo.