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Não existe ninguém como Tom Zé

, por Alexandre Matias

Tom Zé é patrimônio nacional. Não importa que o gênio quase nonagenário esqueça trechos das próprias letras, confunda a própria banda, arraste-se em longos devaneios sem rumo, esqueça-se onde está ou queira ir embora pra casa antes da hora. Seu valor pra nossa cultura é inestimável justamente por isso: ele nunca se conformou, nunca se ajoelhou pra quem paga a conta, nunca fez concessões, nem se autocensurou por motivo algum. Sempre fez o que e como quis e, como todos que embarcam nessa aventura no Brasil, pagou um preço por isso. Mas mesmo assim sua energia vital é emblemática e está no palco, um de seus principais lares e centro de comunhão com o público. E assim ele esteve em sua apresentação no Auditório Simon Bolívar do Memorial da América Latina neste domingo, dentro do palco paralelo do festival Coala, que acontecia lá fora e, justamente por isso, demorou para encher, com o público entrando até a metade do show. Acompanhado da banda que o segue desde a volta da pandemia (o guitarrista Daniel Maia, a tecladista e vocalista Cristina Carneiro, o baixista Felipe Alves, o baterista Fábio Alves e a vocalista Andreia Dias), ele seguiu o roteiro até o que seria a metade do show, quando anunciou que iria embora e retornou algumas vezes à pitoresca canção que compôs em homenagem ao marsupial que batiza o evento de MPB (diferente da música que fez recentemente sobre a Casa de Francisca, que celebra o local), antes de passar por seus inevitáveis hits – “Tô”, “Hein”, “Menina Amanhã de Manhã” e “Augusta, Angélica e Consolação” – e desandar a conversar sobre qualquer coisa com os dois lados da plateia do auditório. E o público foi entregue ao Tom Zé bruto, sem filtros, intenso e autêntico como poucos artistas brasileiros conseguem ser – e é um privilégio gigantesco poder vê-lo assim, às vésperas de completar 90 anos. Não existe ninguém como Tom Zé.

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