Sonny Rollins (1930-2026)

Sonny Rollins, último sobrevivente da maior geração do jazz (que floresceu em Nova York, nos EUA, durante os anos 50), nos deixou nesta segunda-feira, com um legado que segue mesmo após sua passagem – e no mesmo dia do centenário de Miles Davis. Escrevi sobre sua importância em mais uma colaboração para o Toca UOL.
Com a morte de Sonny Rollins, encerra-se maior geração da história do jazz

Embora o epíteto mais repetido ao falarmos de Sonny Rollins, o último gigante da fase de ouro do jazz, que deixou este plano na segunda (25), seja “colosso do saxofone” ou “colosso do jazz” (culpa dele mesmo, que batizou seu primeiro grande álbum com o título de “Saxophone Colossus”, gravado em 1956), outra forma de nos referirmos a ele traduz sua importância e seu legado para além de seu gigantismo artístico: Rollins era a ponte.
Nascido Theodore Walter Rollins em 1930, ele começou tocando piano e saxofone alto, embora achasse que a música era um hobby se comparado à carreira que queria seguir, de cartunista. Felizmente a música falou mais alto pela vizinhança, cresceu no mitológico bairro no Harlem nova-iorquino junto de outros futuros grandes nomes que transformariam o jazz de vez, muitos a metros de distância: Duke Ellington morava no mesmo quarteirão e Coleman Hawkins na esquina debaixo de sua rua, por exemplo.
Este último foi quem trouxe Rollins para seu instrumento definitivo, o sax tenor, depois dos primeiros anos em que tocava sax alto influenciado por Louis Jordan. A mudança de instrumento também mudou o tom de sua música e como seus contemporâneos, passou a mexer no jazz para além de sua beleza e tradição, transformando a música em aventura e percurso, mais do que um fim em si mesmo.
Cresceu entre titãs como Miles Davis, Charlie Parker e Thelonious Monk, todos companheiros de gravação ainda no início de suas carreiras, no início dos anos 1950, e como estes —e outros contemporâneos como Max Roach, Art Blakey, Horace Silver e Ornette Coleman (que conheceu quando mudou-se brevemente para Los Angeles no final daquela década)— artesãos brutalistas que transformaram o jazz em uma arte moderna para além das pistas de dança e bailes com grandes grupos.
Entre os marcos do início de sua discografia estão “Miles Davis with Sonny Rollins” de 1954, um buquê de obras-primas gravado em 1956 —além de “Saxophone Colossus”, também está “Clifford Brown and Max Roach at Basin Street”, em “Sonny Rollins Plus 4” e em “Tenor Madness”, que traz seu único registro com John Coltrane, na faixa-título —, o soberbo “Way Out West”, de 1957, ano em que ainda gravou “Sonny Side Up”, com Dizzy Gillespie, e o gigantesco “Freedom Suite”, do ano seguinte.
Rollins era o último sobrevivente de um dos registros jornalísticos mais impressionantes de uma cena musical, quando o fotógrafo freelance Art Kane conseguiu reunir, para a revista Esquire, os maiores nomes do jazz estadunidense para um especial chamado “A Era de Ouro do Jazz”. Conhecida como “Um Grande Dia no Harlem”, a foto reunia dezenas de luminares daquela cena, como Count Basie, Art Blakey, Dizzy Gillespie, Coleman Hawkins, Gene Krupa, Thelonious Monk, Gerry Mulligan, Horace Silver, Lester Young e, é claro, Sonny.

Em 1958, o fotógrafo Art Kane reuniu, para a revista ‘Esquire’, os maiores nomes do jazz estadunidense
Rollins, no entanto, entrou em uma crise criativa na virada da década de 1950 para 1960, ao ver sua geração entrar em combustão criativa e explorar tanto outros rumos para a música quanto se afundar na heroína, vício que também o afetou no início daquela década. Mas, enquanto seus pares faziam discos e shows pelo mundo ainda mais densos e sérios, abrindo novas fronteiras para o jazz que o transformaram em bebop, hard bop e free jazz, Rollins saiu de cena e tirou o primeiro de seus muitos sabáticos, ficando longe dos estúdios e dos palcos por dois anos. Mas não do seu instrumento.
Entre o meio de 1959 e o segundo semestre de 1961, ele começou a tocar na ponte de Williamsburg, em Nova York, para não incomodar uma vizinha grávida. E descobriu um lugar pessoal perto dos trilhos do metrô daquela ponte, que passou a frequentar diariamente com seu saxofone por todo aquele período, tocando o instrumento sem faltar um dia, tocando por quase quinze horas consecutivas num retiro musical e espiritual autoguiado. Começou a praticar ioga e aquela ponte parecia ser uma metáfora para sua própria carreira, uma travessia para um outro lado desconhecido.
Depois deste período, gravou um disco justamente com o título de “The Bridge” (a ponte), lançado em 1962, que abriu sua série de discos clássicos dos anos 1960, que ainda incluíam outros discos lançados naquele mesmo ano (como o latino “What’s New?” e o ao vivo “Our Man in Jazz”), “Sonny Meets Hawk” (gravado com Coleman Hawkins em 1963), “Now’s the Time” (1964) e “The Standard Sonny Rollins” (este com Herbie Hancock, 1965). Nesta década, passa a usar o penteado moicano dez anos antes do punk, faz suas primeiras apresentações no Japão e, mais uma vez, sai de cena em 1969, quando visita a Jamaica e depois a Índia, onde se aprofunda em meditação.
Seguiu décadas nesta toada, sempre saindo de cena para se conhecer ainda mais e voltando para nova produção musical junto a diferentes nomes, inclusive de outros gêneros musicais, sempre reverenciado como o deus do jazz que sempre foi. Disse que se aposentaria em 2004, quando perdeu sua esposa de décadas (Lucille Pearson, com quem casou-se em 1965), mas seguiu tocando até pendurar de vez o saxofone em 2012, alegando problemas respiratórios.
Antes disso, veio ao Brasil duas vezes, a primeira na primeira edição do festival Free Jazz, em 1985, e depois na abertura do Tim Festival, em 2008. Depois de sua aposentadoria foi criada uma campanha para rebatizar a ponte de Williamsburg, com seu nome, algo que pode voltar à discussão com sua passagem nesta segunda, concretizando algo que Sonny sempre foi em vida: a ponte para o outro lado.
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