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Cidadão Instigado em Fortaleza

, por Alexandre Matias

Estive em Fortaleza neste fim de semana, quando pude assistir ao festival que comemorava o 27º aniversário do Dragão do Mar, um dos centros culturais mais importantes do Brasil. E entre as atrações, o principal destaque foi a volta do Cidadão Instigado aos palcos com seu primeiro disco de inéditas em 11 anos – e com uma formação completamente diferente. Escrevi sobre o festival em mais uma colaboração para o Toca UOL.

Cidadão Instigado reestreia com repertório ousado no festival Dragão do Mar

Com uma apresentação impecável, Fernando Catatau encerrou a festa de 27 anos do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura neste fim de semana em Fortaleza, no Ceará, ao fazer o primeiro show do recém-lançado novo álbum de seu grupo Cidadão Instigado, em sua cidade-natal. Ele mostrou a nova formação da banda e como este novo momento conversa com a história do Cidadão, um dos maiores expoentes da cultura daquele estado no Brasil atualmente, que também completa 30 anos de atividade.

O disco que estreou ao vivo no sábado foi batizado apenas com o nome da banda e é, ao mesmo tempo, uma afirmação da identidade musical do grupo e um salto no escuro. Composto em um sampler com participações de nomes fortes da atual cena contemporânea brasileira (Juçara Marçal, Ava Rocha, Kiko Dinucci, Jadsa, Yma e Mateus Fazeno Rock, entre outros), deixa claro o papel de liderança do guitarrista Fernando Catatau, que arregimentou uma nova banda para tocá-lo ao vivo.

Na nova formação, dois integrantes da “formação clássica” do grupo marcam sua presença, quando Dustan Gallas (baixo) e Clayton Martin (bateria) seguem sendo a cozinha básica do grupo. Acrescido aos dois vem o baterista Samuel Fraga, velho conhecido da banda e que tocou com Fernando em seu trabalho solo, lançado há quatro anos, que assume a segunda bateria da formação, esta eletrônica. Mas o grupo também conta com estreantes: Anna Vis (que também participa do disco e toca sample, guitarra e vocais) e MC Rubi Assumpção (que também faz vocais e toca percussão) .

O grupo aproveitou a nova formação para mexer no repertório de forma ousada e emendou cinco músicas novas quase na ordem de apresentação do disco, o que exigiu que o público entrasse direto no novo Cidadão Instigado, sem paliativos. Ao escolher “Os Urubus Só Pensam em Te Comer” como primeira música antiga a vir para o palco, fez a conexão entre os beats da nova fase com o do hit do disco de 2005, abrindo inclusive espaço para Rubi rimar num determinado trecho.

Isso acabou sendo a arma secreta do show – a forma como Catatau mostrou para o público que o que parece alienígena no novo disco está no DNA de sua banda desde sempre, pinçando músicas específicas que se conectam ao seu novo momento, como “Contando Estrelas”, “Te Encontra Logo”, “Quando a Máscara Cai”, “Lá Fora Tem” e “O Cabeção”, esta última surgida num bis que não estava previsto. Nessas, o público, que lotava a Praça Verde, um dos espaços para shows a céu aberto no Dragão do Mar, cantava as letras a plenos pulmões, isso quando não apenas se jogava dançando as músicas do novo disco.

O Cidadão entrou logo depois de outra apresentação em estreia, quando Buhr mostrou seu recém-lançado disco Feixe de Fogo pela primeira vez ao vivo. Desprendendo-se do antigo prenome para adotar apenas seu sobrenome como nome artístico, ela veio com uma bandaça formada pelo co-produtor do disco Rami Freitas (bateria), Izma Xavier (baixo), Susannah Quetzal (synth e guitarras) e Briar Aguarrás (teclados) e bancou o novo disco quase todo na íntegra, abrindo espaço para músicas de seus dois discos mais recentes (Desmanche de 2019 e Selvática de 2015) e ainda convidou a musa Moon Kenzo para dividir a dramática “70 Cigarros” (que cantam juntas no disco) e “Não É Carnaval”, da própria Moon.

E antes do show de Buhr, a iniciativa Iracema Sounds – criada por outro centro cultural cearense, este batizado em homenagem a Belchior – trouxe um grupo formado por mulheres para mostrar a nova safra de compositoras do estado. Pelo fato de o tema do festival este ano ter falado sobre força feminina, o grupo de cantoras formado por Ayla Lemos, Joana Lima, Zabeli, Di Ferreira e Mumutante subiu ao palco para apresentar suas composições e algumas versões, sempre acompanhadas por uma banda composta apenas por mulheres. De todas, Mumutante, que já acompanha Don L e Mateus Fazeno Rock em shows, é a que parece mais promissora.

Fazer esses shows na festa de aniversário do principal centro cultural do estado teve um sabor especial pois marca um novo momento do equipamento público. “O aniversário do Dragão tem uma característica própria, ele não é apenas um evento pontual, pois articula as linguagens do centro cultural e potencializa a nossa rotina de programação, música, cinema, teatro, literatura, pensamento, artes visuais, patrimônio, infância, expressão popular, convivência e ocupação dos espaços”, explica a diretora do Dragão, Camila Rodrigues.

“O Dragão também cumpre um papel importante como lugar de apresentação de artistas cearenses, nordestinos e nacionais, além de ser espaço de parcerias institucionais para o fomento da arte no estado, ao mesmo tempo, que precisa estar conectado com o debate nacional das artes”, conclui.

E assim, o festival, que aconteceu entre os dias 22 e 25 deste mês, reuniu dezenas de atrações gratuitas do evento, que, além dos shows de música pop, contou com exibição de filmes, apresentações de culturas populares, orquestras, espetáculos de dança, discussões sobre literatura, oficinas e uma feira de economia criativa, a Feira Auê, que ocupou a recém-aberta Praça Almirante Saldanha, que fica dentro do complexo do Dragão.

Os shows do sábado foram apenas uma das atrações musicais, que ainda contou com shows do grupo punk pernambucano Devotos, da baiana acordeonista Lívia Mattos, da popstar do brega Priscilla Senna (ex-vocalista do grupo Musa do Calypso, que cantou o hit “Alvejante” para um público emocionado), a estreia do grupo Forró Briseira, da dupla Tâmara Lacerda e Felipe Costta e do encontro da Orquestra Cabulosa com a Orquestra Popular do Nordeste. “O grande saldo é esse, o Dragão mostrou que consegue reunir muita gente sem perder densidade, conceito, frescor artístico e compromisso público”, arremata Camila. “Foi uma festa, mas também uma afirmação de memória, política cultural, articulação artística e futuro.”

Ela também fala da importância do tema escolhido para o ano, “Não existe Chico sem Matilde” em referência à busca que fizeram pela mãe do jangadeiro revolucionário e abolicionista que batiza o espaço. Apesar de conhecido historicamente por Dragão do Mar, o ativista Chico da Matilde teve sua vida pesquisada e houve a descoberta da história de sua mãe, Matilde, de onde vem seu sobrenome. “A ideia é lembrar que, antes do herói popular que entrou para a história, existiu uma mulher, uma mãe, uma labirinteira, negra e nordestina, que também carrega uma dimensão ética, afetiva e política dessa trajetória”, explica Camila.

“Ao falar de Matilde, falamos também das mulheres que colaboraram no processo de abolição da escravidão no Ceará, que aconteceu quatro anos antes da abolição no Brasil”, conclui a diretora. “Mas o tema fala também do presente. Em um país onde as mulheres, especialmente as mulheres negras, ainda enfrentam tantas violências, apagamentos e desigualdades, é urgente zelar por essas memórias, por essas vozes e por essas existências, por isso, a programação precisava comunicar essa narrativa, e fizemos uma curadoria com mulheres no centro, especialmente nordestinas, artistas, pensadoras e criadoras.”

*O jornalista viajou a convite do festival

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