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Entre a música, a física e a matemática

Quando Guilherme Held e Kiko Dinucci subiram ao palco do Centro da Terra apenas com seus instrumentos, todos os presentes sabiam que íamos, como nas segundas anteriores de sua temporada Abriu o Fuzz (quando recebeu Fernando Catatau e Lúcio Maia para duelos da mesma natureza), mergulhar no universo da guitarra elétrica sob os auspícios de dois magos das seis cordas. O encontro, porém, foi muito além dos timbres, solos e riffs característicos no manejo daquele instrumentos, quando os dois usaram suas guitarras para explorar os limites e possibilidades da eletricidade sonora, usando a guitarra mais como um cajado sobrenatural do que condutor de melodias e indutor de harmonias e ritmos. Enquanto Kiko enfiava objetos entre as cordas – tocando-a até com um arco de viola – e trabalhava com texturas fantasmagóricas e bordoadas rítmicas, Held repetia loops de notas sequenciais que acelerava ou desacelerava de acordo com as vibrações sísmicas no palco. Na maior parte do show as guitarras não soavam como guitarras, refletindo a reverberação elétrica dos efeitos e texturas manipulados pelos dois, mas em alguns momentos soava como uma conversa alienígena, uma linguagem robótica testando as fronteiras de possibilidades entre a música, a física e a matemática. A ausência do laser de Paulinho Fluxuz, que não pode participar desta única apresentação da temporada, deixou a iluminação mais estática e pensativa, reforçando a transposição sonora da dupla. Tá doido!

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Amor fantasmagórico

Terça-feira histórica no Centro da Terra, quando Kiko Dinucci mostrou, didaticamente, como chegou ao seu terceiro álbum Medusa sem que este nem tenha sido lançado. Tocando o disco ainda inédito na ordem, ele foi, sozinho no palco apenas com sua guitarra, dois amplificadores e pedais, mostrando as músicas ao vivo numa espécie de audição (que ele também odeia e se refere como “maldição”) enquanto entre as canções falava do processo criativo deste Medusa, que incluiu seu reencontro com a guitarra, uma nova curiosidade em relação ao shoegaze e ao dreampop, a inspiração inicial de Noel Rosa, a presença fantasmagórica dos Cocteau Twins, Dinosaur Jr., My Bloody Valentine e Sonic Youth na microfonia da guitarra solitária, registros em fita analógica, parcerias com Maria Beraldo, Negro Leo, Sophia Chablau, Gustavo Infante e Cadu Tenório tudo sob a direção musical – agora com firma reconhecida em público – de Juçara Marçal. Com vultos tão diferentes quanto Laura Palmer, Alexandre Frota e Claudia Raia pairando sobre a cama de eletricidade sonora e canções que sempre falam de amor – e dos lados improváveis e invertidos deste -, encerrou o show com sua primeira incursão ao território de Roberto Carlos, uma balada rock com uma segunda parte instrumental noise que acaba por sintetizar mais uma obra-prima que Kiko está prestes a por no mundo. Medusa sai no segundo semestre, mas pra quem foi nesta terça não tem como tirar o disco da cabeça.

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Kiko Dinucci: Pré-Medusa

Imensa satisfação de receber, nesta terça-feira, Kiko Dinucci mais uma vez no palco do Centro da Terra, desta vez para descortinar pela primeira vez em público apenas músicas inéditas. Na apresentação Pré-Medusa, que antecipa seu terceiro disco solo – batizado apenas de Medusa e previsto para o segundo semestre deste ano -, ele não apenas mostra as canções do novo trabalho, como fala do processo de criação delas, em seu reencontro com a guitarra elétrica. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão esgotados.

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Ave Varda!

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!

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Guilherme Held: Abriu o Fuzz

Imensa satisfação em receber o guitar hero Guilherme Held às segundas de abril no Centro da Terra, quando ele promove uma celebração ao seu instrumento em encontros com velhos compadres e camaradas na temporada que batizou de Abriu o Fuzz. A cada segunda ele recebe um amigo e camarada de instrumento, começando nesta primeira segunda do mês com Fernando Catatau. Nas seguintes, ele recebe Lúcio Maia (dia 13), Kiko Dinucci (dia 20) e Edgard Scandurra (dia 27). As apresentações começam sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à no site do Centro da Terra.

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Centro da Terra: Abril de 2026

O primeiro semestre de 2026 está chegando na metade e essas são as atrações musicais de abril no Centro da Terra. As segundas-feiras ficam por conta do guitarrista Guilherme Held, que resolve mergulhar em seu instrumento sempre em dupla com velhos camaradas das seis cordas, na temporada Abriu o Fuzz. A cada segunda-feira, Held reúne como outros guitar heroes – e ele só reuniu cobras. Na primeira (dia 6), ele convida Fernando Catatau, na segunda (dia 13) ele vem com Lúcio Maia, na terceira (dia 20) é a vez de chamar Kiko Dinucci para concluir a saga na última segunda do mês (dia 27) ao lado de Edgard Scandurra. Às terças começamos com o encontro das vozes e violões de Ítallo França, Marina Nemesio, Tori e João Menezes, que reúnem-se na primeira terça (dia 7) pela primeira vez para celebrar seus próprios repertórios, na apresentação que chamaram de De Banda, que também pode ser entendido como o embrião de um grupo. Na segunda terça-feira do mês (dia 14), Kiko Dinucci sobe sozinho com sua guitarra no palco do teatro do Sumaré para mostrar, pela primeira vez, o repertório de seu próximo álbum, previsto para o segundo semestre e batizado de Medusa. Nesta apresentação, que ele chamou de Pré-Medusa, ele mostra as novas canções e o clima elétrico-etéreo do sucessor de Rastilho. A última terça-feira do mês fica a cargo da poeta Heloiza Abdalla, que finalmente materializa no palco seu livro Ana Flor da Água da Terra, lançado há dez anos. Poemas que tornam-se música com a presença de improvisadores como Sandra X (voz e efeitos), Breno Kruse (violão e guitarra), Romulo Alexis (trompete) e Chicão (piano). Os espetáculos começam sempre às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

Química natural

Sophia está surfando na temporada que está fazendo no Centro da Terra e a noite passada foi só a segunda das cinco apresentações que fará na casa. Mas ao apresentar-se ao lado da banda que a acompanhará nos próximos shows, antes mesmo de chamar os convidados da noite, ela já deu a medida de como será o resto do mês, já que o power trio que montou ao lado de Marcelo Cabral (entre o baixo e o synth bass) e Theo Ceccato (bateria) está azeitadíssimo. Ela começou a noite com os dois, tocou algumas músicas sozinha, misturando canções solo que ainda não têm disco, outras do Handycam que gravou ano passado com Felipe Vaqueiro, outras de sua banda Uma Enorme Perda de Tempo e algumas que compôs há pouquíssimo tempo. Mas o ouro da noite começou a acontecer quando ela convidou seus dois novos parceiros para subir no palco, primeiro Kiko Dinucci, que anunciou que tem disco novo vindo aí – que inclui “Água Viva”, parceria com Sophia que já está tocando em shows s- e depois Jonnata Doll, que entrou dançando no palco e logo chamou todos para acompanhá-lo em uma faixa inédita sua, “Vamos Dançar no Picles”, seguida de um atordôo sonicyouthiano quando os cinco engataram na hipnótica “Crack pra Ninar” do Kiko Dinucci, com Jonnata tocando guitarra. Uma noite maravilhosa, a primeira vez de um grupo tocando juntos que parecia que já tinham feitos inúmeros shows, tamanha a química no palco. Se você não foi a nenhum show dessa temporada da Sophia está perdendo, só tenho isso a dizer.

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Sophia Chablau: Guerra

A primeira temporada de 2026 no Centro da Terra não poderia ser mais certeira, afinal Sophia Chablau, que vai tomar conta de todas as (cinco!) segundas-feiras deste mês de março no teatro, batizou sua residência no teatro com o título de Guerra no exato momento em que o mundo parece colapsar em mais um conflito bélico mundial. “Palavra temida que escancara o conflito, repetida na canção, metonímia ou metáfora de conflitos externos a nós, conflitos internos ou conflitos românticos”, explica a cantora paulistana. “Em último caso a vida sendo uma guerra contra a morte, o monumento fazendo guerra ao tempo, a canção fazendo guerra a desordem do universo. As grandes guerras, as pequenas guerras, as guerras. – Pra variar estamos em guerra. Não é um eixo temático, é uma provocação, é um anúncio – é preciso declarar guerra.” E para essa declaração ela reúne sessões que prometem ser históricas. A primeira acontece nesta primeira segunda (dia 2) quando recebe sua banda Enorme Perda de Tempo para mostrar novidades que eles vêm trabalhando. Nas segundas seguintes ela mantém o baterista Theo Ceccato e chama o baixista Marcelo Cabral para acompanhá-la na guitarra quando recebe duplas de peso. Na segunda (dia 9), ela chama Kiko Dinucci e Jonnata Doll. Na outra (dia 16) é a vez de receber Dora Morelenbaum e Juçara Marçal. Na quarta segunda do mês (dia 23) ela convida o casal Ava Rocha e Negro Leo e encerra sua temporada de ouro na última segunda do mês (dia 30) com as presenças de Vítor Araújo e Zé Ibarra. Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda pelo site do Centro da Terra – mas corre que eles estão acabando!

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A primeira vez no Bona

Por incrível que pareça, esta quarta marcou a primeira vez que o Metá Metá tocou no Bona. Integrantes da melhor banda do Brasil já haviam passado pelo palco da casa do Sumaré em outras formações, mas as duas apresentações que marcaram para esta semana foram as primeiras que Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França fizeram juntos naquele palco, espalhando o já conhecido e arrojado feitiço musical forjado em São Paulo – embora nenhum de seus integrantes seja paulistano – para os ouvidos atentos que foram ouvi-los no meio desta última semana de janeiro. O repertório é o mesmo que apresentam há anos, juntando músicas de seus três álbuns com versões para canções de Jards Macalé, Maurício Pereira, Siba Veloso, Douglas Germano e Itamar Assumpção – que deixaram para tocar no bis, com a assertiva “Tristeza Não” -, sempre deixando violão, sax e vozes ganhar corpo próprio e dominar todos os presentes. Sempre aquele descarrego energético feito pra gente voltar leve pra casa.

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