“Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo”

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Pare o que está fazendo e leia agora A Liberdade de Ver os Outros, de David Foster Wallace, que saiu na Piauí deste mês e pode ser lido na íntegra aqui. Depois me diz o que você achou.

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Sem Resultados

  1. Jesse disse:

    este texto já saiu na piauí tem um tempo, não foi desse mês não.

  2. Daniel Melo disse:

    Cara, um soco no estômago.

  3. Patrícia Oliveira disse:

    Bom texto, o que achei interessante é o cara que o escreveu ter se matado e talvez não tenha conseguido a liberdade que seu próprio texto dizia ou simplesmente cansou e desistiu das pessoas ao seu redor, não sei. Às vezes a gente pode achar ser tão difícil cortar as “amarras” do pré-conceito, da intolerância ao jeito do outro e da maldita generalização, mas se fizessemos um mínimo de esforço tudo poderia ser diferente, não querendo ser utópica, e achar que todos podem viver de mãos dadas e tralálá, temos muitas diferenças, mas acho que é possível se conviver sem querer esganar um ao outro simplesmente concordando em discordar. Pelo menos é a maneira de como estou encarando a vida no momento, querendo ser livre.

  4. Antonio disse:

    Acho que teria que ler esse texto ao menos duas vezes por semana

  5. Wladimir Houdjakoff disse:

    Somos automatizados desde criança a o eu quero, eu gosto, etc e tal depois de um tempo começa a sua mãe a dizer q vc tem q dividir os brinquedos e lá no fundo vc não quer dividir coisa nenhuma.

    O tempo passa e ficamos nessa estrada de mão dupla, o que fazer, o que querer, e voltando sempre ao EU … Cada um de nós é o centro do universo e não há nd q possamos fazer, até os mais radicais q se isolam vivendo uma vida eremita, tbm estão pensando neles, ajudar os outros é consequência.

    Por isso tanta morte, briga, inveja, sede por tudo, queremos sempre mais, e o que nos basta já está ao nosso redor.

  6. jc ruzza disse:

    Pois é, tanta conquista tecnológica, cyber-skates rolando sobre o céu de marte, o homem dechavado até o DNA, e tudo mais e o ser humano não percebe que acabamos por martelar os próprios dedos com as ferramentas que criamos para nos ajudar. A Ciencia por exemplo, abstração máxima da mente humana, útil sim, mas parece ignorar que apenas reflete códigos criados por nos mesmos no desespero de entendermos as coisas. Abstrai os singulares até se tornarem uma coisa inexistente “O HOMEM” e esquece que é no travesseiro a noite é que o bicho pega. É uma pena que o cara não tenha suportado suas próprias visões, pelo menos mais um pouco. Mas fica aí a idéia de pelo menos tentarmos nos voltar de vez em quando para as nossas próprias programações.

  7. André disse:

    O problema é que, além de não enxergamos o outro, não conseguimos enxergar com clareza nem a nós mesmos. O suícidio é exatamente o não suportar a si próprio e ao confronto com o outro. Para enxergar o outro é preciso primeiro enxergar a si mesmo. E é aí que a porca torce o rabo. Não queremos enxergar nosso próprio vazio, quanto mais o vazio dos outros.

  8. Guilherme Fassy disse:

    Cara, ando me dando conta que o maior medo nosso é ficar sozinho, por termos de encarar a nós mesmos, refletir sobre as escolhas que fizemos (nem sempre acertadas), enfim, isso na medida que a vida passa e as escolhas vão se acumulando, pesa. Daí as travas. Mas perceber isso já é o primeiro passo, o texto é bom. E como diz Bnegão, o processo é lento. E não tô dizendo que é fácil 😉

  9. Lvcivs disse:

    Eu achei uma merda.

    Um cara que pensa assim só podia se suicidar mesmo.

  10. Wladimir Houdjakoff disse:

    O texto é maravilhoso, se não acha é pq nunca se isolou para pensar em si mesmo ou é mais uma alienado como tantos outros, apertando o controle remoto sem parar tentando achar algo interessante, porém nunca acha pois quem não está interessado é vc mesmo, só q não para p pensar sobre isso 😉

  11. Vinícius E. disse:

    Sinceramente, esse cara não tinha a mínima noção do que é ateísmo para falar uma besteira tão descomunal ao associar qualquer tipo de veneração à crença religiosa ou a falta dela e dizer que “na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo”. Que frase ridícula.

    Me espanta saber que ele era um escritor “tão admirado” – talvez seja por isso que nunca ouvi falar dele. Achei o texto uma porcaria.

  12. wb disse:

    Vinicius, o texto foi escrito para ser lido a uma turma de formandos, dito isso acho que merece uma nova lida.
    Sugiro rever conceitos sobre o ateísmo também. Considere que o ateismo nao existe porque o deus de cada ateu é seu senso de certeza. Todo ateu idolatra seu próprio argumento (e os alheios) de que Deus nao existe. O ateu é devoto da ciência e da razão. Esta crença de um indivíduo ateu faz dele quase um politeista.

  13. Geandré disse:

    Acho que todo suicida é no fundo uma pessoa que pensa demais em si mesmo.

  14. João disse:

    Ele se matou pra dar coerência ao texto.