Lost e o futuro

Textinho que escrevi hoje no Link impresso.

O entretenimento do futuro nasce com o fim de ‘Lost’

A primeira década do século 21 assistiu a mudanças drásticas no que diz respeito à cultura – principalmente devido à dominância digital que marcou estes anos. Não houve mídia ou gênero que não fosse abalado por este impacto. E mesmo com dois formatos do século anterior vivendo dias de ouro (quadrinhos e games atingiram um patamar de excelência inédito), nenhuma obra soube lidar melhor com a cultura digital – e de forma mais ampla – do um certo seriado sobre os sobreviventes da queda de um avião em uma ilha maluca.

Num mundo cada vez mais dividido em dualidades – velho/novo, digital/analógico, online/offline -, Lost preferiu apostar nas duas alternativas ao mesmo tempo. É uma série comercial com ares de culto. Aborda mistérios científicos e espirituais, as diferenças entre destino e livre arbítrio, física e filosofia, pais e filhos, passado e futuro.

Tais oposições, na verdade, partem de um conceito descrito pelo criador da série J.J. Abrams, que ele expande para todas suas outras obras: ele quer dar classe A à “cultura B” – de nicho, quase sempre produzida com pouco orçamento e, por isso mesmo, mais ousada que a comercial.

Assim, Lost é, ao mesmo tempo, programa de sucesso e objeto de culto, novelinha emotiva e complexa saga de ficção científica, mainstream e nerd.

Esta ambivalência não fica só na tela – e aí que Lost desequilibra. Mesmo com séries de TV bem melhores que ela produzidas no mesmo período (Sopranos, The Office, Battlestar Galactica), Lost desempata ao trazer sua dualidade para fora da tela – e incluir o fã na história.

Não como nos games, em que você assume a pele do protagonista, nem como na web 2.0, em que você cria uma identidade digital a partir do que posta online. Ela apresenta a opção ao telespectador: você quer apenas assistir um programa de TV ou mergulhar num universo que expande-se online no fim de cada episódio?

Enquanto não surge um aparelho que possa romper as barreiras entre nova e velha mídia (o iPad de Steve Jobs tenta abrir este meio-termo, leia na página L7), Lost é o melhor exemplo de integração de duas culturas que ainda caminham separadas mas que tendem a virar uma só. Se é apenas um rascunho que vamos assistir daqui para frente ou já o primeiro capítulo de uma nova cultura, cabe ao futuro nos dizer.

Mas eu quero saber mesmo é o que aconteceu com os personagens depois do clarão no último episódio…

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Sem Resultados

  1. Daniel disse:

    Pô, um cara que foi pioneiro nessa história de expandir o episódio na net depois da exibição – ou no caso depois da publicação – foi o Grant Morrison. “Seven Soldiers of Victory” era quase incompreensível se o cidadão só lesse os gibis e não entrasse nos fóruns e sites depois. Entender aquela HQ maluca era um esforço coletivo. Mas quem se deu ao trabalho de pesquisar depois de ler se ligou que estava lendo uma das melhores HQs de super-herói já feitas. E cheia de lances metalinguisticos, coisa que me parece ser a chave pros “mistérios” de LOST.

    O Morrison tentou repetir o feito com “Final Crisis”, mas não há esforço multimidia que salve uma história ruim.

    Sobre LOST: realmente tem série melhor, mas a mais instigante é LOST mesmo. As demais séries parece que sempre acabam caindo numa receitinha. E a manha de LOST é subverter essa receita a todo momento. O momento mais impactante da série – a virada no fim da 3a. temporada – era uma virada da maneira de contar a história, não da história em si.