Galileu – Fevereiro de 2014 – minha última edição

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Sim, a edição de fevereiro é a última edição da Galileu sob minha direção. Fui demitido na sexta passada, em pleno fechamento da edição de março e não faço a menor idéia sobre o futuro da revista. Só sei que, como havia dito na minha retrospectiva do ano passado, esse ano Galileu foi um ano de muito aprendizado, em vários níveis, e saio de lá com a sensação de que o trabalho que vinha fazendo foi interrompido pela metade, mas disposto a seguir com meus planos por conta própria. Já tinha novidades engatilhadas e, agora, fora do escritório, vou poder dar mais atenção e empenho a elas (isso também diz respeito ao próprio Trabalho Sujo). Essa semana ainda estou devagar por motivos pessoais e devo tirar um fevereiro de madame, aproveitando o verãozão e a piscina, mas grandes novidades surgem ainda antes do carnaval. Abaixo, minha última Carta ao Leitor.

Mãos à obra

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SEMPRE TEM: Perguntamos na redação se alguém tinha um iPhone quebrado e o Danilo Saraiva, da Quem, apareceu com esse

Quando foi que deixamos de fazer trabalhos manuais? Quando eu era criança — e nem faz tanto tempo assim —, gostava de montar quebra-cabeças, modelos Revell, carrinho de rolimã, além de abrir equipamentos quando meu pai deixava, normalmente eletrodomésticos velhos. Anos depois, na adolescência, comecei a tocar trombone e violão (não ao mesmo tempo) e a manutenção era uma parte tão importante quanto o uso dos instrumentos. Mas em dado momento as atividades manuais foram diminuindo — e a LER aumentando. O computador tinha entrado em nossas vidas.

Mas mesmo nos primeiros dias do computador, ainda havia alguma interação com a máquina para além da interface. Era preciso montá-lo: reunir peças e transformar HD, processador, pentes de memória, monitor, mouse, teclado e gabinete em um só aparelho. Isso também ficou no passado — e a caixa de ferramentas só sai do quartinho dos fundos quando há algum reparo rápido a ser feito em casa.

O certo é que, com a chegada do computador e da internet, deixamos as atividades manuais em segundo plano — em alguns casos, em terceiro ou quarto. Afinal, a era consumista que vivemos nos permite o luxo de, em vez de procurarmos o defeito, descartarmos o aparelho com problema. Basta lembrar quantos telefones celulares você teve nos últimos dez anos.

Esse luxo tem produzido uma montanha de lixo cada vez maior. E, mais do que isso, tem nos tornado menos práticos e mais dependentes de empresas e assistências técnicas para lidar com problemas que poderiam ser resolvidos em casa.

Mas há uma reação em curso e graças à mesma era digital que nos deixou mal acostumados: muita gente tem se reunido para retomar estas atividades — e consertar seus próprios aparelhos. O movimento “fixer” começou nos Estados Unidos, já se espalha pelo mundo e advoga que, se você não pode consertar seu próprio aparelho, você não é dono dele de verdade. Faz sentido.

Estes consertadores são o assunto de nossa matéria de capa e inspiram reflexões que vão além do descarte e da propriedade de aparelhos com problemas. Eles questionam a obsolescência programada que algumas empresas embutem em suas máquinas para que elas parem de funcionar depois de um tempo. E, como pude perceber, nossa falta de familiaridade com atividades que vão além de cliques de mouse e apertos de botões. Talvez seja o mote que precisamos para deixarmos o mundo virtual em outro plano. Vamos lá?

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

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22 Resultados

  1. Fra disse:

    Poxa que pena……
    Sorte aí.

  2. Delma disse:

    Boa sorte neste ano do cavalo! =)

  3. Luis Dourado disse:

    Poxa, cara…
    Sucesso nesse novo ciclo.
    Uma pena, porque sua direção estava acrescentando muito a revista.
    Abs!

  4. Paula disse:

    Adoro a facilidade do mundo de hoje, mas cresci em família japonesa, alemã e espanhola nas quais o trabalho manual sempre foi bem visto e incentivado. Desde as pinturas incentivadas pelo meu pai, os tricôs ensinados pelas tias até a curiosidade de dar um jeito em coisas quebradas em casa, com a ajuda de uma super cola aqui, uma chave de fenda alí, sempre gostei de me sentir independente.
    De saber como as coisas funcionam para tirar o melhor uso delas, de me sentir autosuficiente, para não ter que “chamar um homi”. Não por sentir que seja algo machista, o mundo tá aí, e na maior parte deles os homens sempre consertaram tudo. Mas por sentir orgulho de mim, meus conhecimentos e conquistas. Consertos são como dar uma nova vida a algo que esteve momentaneamente “morto”, esse pensamento é dramático, mas adoro essa sensação!
    De renovar, de começar de novo.
    Escrever e ler são paixões, mas não ficam muito a frente de criar e reparar coisas com as mãos.

  5. fernanda inocente disse:

    uma pena mesmo.

  6. André disse:

    Você faz bem tudo a que se dedica. Boa sorte. 🙂

  7. Para a Galileu é uma pena. Para você é a possibilidade de desbravar novos horizontes em vôos mais altos. Curta o verão e faça mais edições do vida fodona. Um abraço xará.

  8. Rafael disse:

    Pô, boa sorte com as portas que se abrem (rão)!

    Um abraço!

  9. Xico disse:

    q bosta

  10. Ângelo Capozzoli disse:

    Porra, a revista tava indo tão bem. Que merda! Vai entender cabeça de editora. De qualquer forma, obrigado pela qualidade do trabalho da revista. Boa sorte, Matias!

  11. James Della Valle disse:

    Cara, pena pare eles. Boa sorte com seus planos!

  12. dani disse:

    ahhh que triste, mas que bom que vem coisa nova por aí!

  13. Luiz Ramos disse:

    O motivo pelo qual você foi demitido eu não sei, mas que a Editora Globo é uma zona, disso eu tenho certeza.

  14. Rafael Porto disse:

    Comprei duas edições na sua “gestão”, cara. Que pena mesmo. Mas como você mesmo diz: “só melhora”.

    Que venham as novidades para 2014.
    🙂

  15. Jessé disse:

    A vida pede movimento…
    E continuamos acompanhando seu trabalho, seja aqui ou qualquer outro lugar.
    Boa sorte nessa nova etapa!

  16. Thiago Augusto disse:

    Azar o deles por perder você. Boa sorte em seu novo caminho.
    Ainda bem que continuei comprando a revista na banca e não fiz assinatura. Sem você lá, não sei se vale a pena.
    Abraços.

  17. Luiz disse:

    Porra, Matias, comecei a comprar a revista porque confio no seu trabalho de editor, acompanho desde a Pl4y. Azar deles que perderam um excelente profissional. Quanto a você, faz bem todo projeto que toca então nem precisa esquentar a cabeça.

  18. Daniel Araujo disse:

    Mancadíssima deles! A revista estava ótima.
    – e o título da edição ficou horrivelmente irônico nessa situação :¬[

    Boa sorte nos projetos futuros e precisando de qualquer coisa tamos aí!
    Se rolar algum tipo de vinte catorze também estamos aqui pra colaborar.

  19. Renato disse:

    Cara, já te conhecia aqui do Trabalho Sujo, desde que você foi pra Galileu comprei todas as edições, a capa sempre me fazia querer comprar! A revista mudou bastante e achei muito legal seu trabalho lá, estava pensando em assinar a revista esse mês (já que estava comprando todas as edições em banca mesmo), mas vou esperar pra ver o que acontece… Bom, boa sorte nos próximos projetos!

  20. Rondinele disse:

    Que pena Alexandre, depois que você se tornou editor foi quando assinei a revista Galileu, por causa de “o esquema”, agora vamos ver o quê acontece. Boa sorte cara.

  21. luiz carlos disse:

    Prezado matias
    Leio a revista vez ou outra. Essa mania de consertar coisas tenho desde criança. Acho que e nato. Hoje somos refem do consumismo e o pior de tudo, caro e ruim. Em casa tento consertar tudo o que e possivel, desde um interruptor ou tomada a chuveiro ate o meu carro. Ja economizei muita grana com isso, e o que emelhor, alem de servir como excelente higiene mental o serviço e garantido. Nesta semana, estou trocando o rejunte do banheiro. Parabens pelo seu trabalho. Conti nue na sua caminhada. Abraço. Luiz Carlos.

  1. 24/12/2014

    […] última edição da Galileu em que fui diretor de redação, entrevistei o filósofo italiano Domenico de Masi – e, agora, no fim do ano, lembrei que não a […]