Digital

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Materinha de capa da Bizz do mês passado, edição integral…

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Ricardo no MSN! Quase não acreditei, quando ele pediu o meu email pra cadastrar em sua lista de contatos, me forwardeando os do Ferla (que eu não tinha por um mero acaso, ora bolas, é o Ferla…) e o do Lúcio, que eu já tenho há priscas eras. Ele me adiciona e fico rindo da cara dele – e ele da minha – à medida em que ajustamos o tema da conversa: próxima capa da Bizz. Ele começa a elocubrar em frases que terminam com ponto final (acho engraçado quem põe ponto final em texto nessas conversas) sobre o estado da música na internet e porque era a hora de colocar isso na capa da revista (não era a primeira vez em que ele cogitava a hipótese, mas pelo “tom de voz” imposto nas mensagens, senti aquela vaibe de “agora vai”).

(Lembro que até tinha cogitado colocar a Lily Allen na capa, fazendo uma paródia com a clássica capa “Te Cuida Madonna, Patsy vem aí!”, mas acho que o timing da Allen passou [será?])

Logo depois recebemos um email coletivo com um brainstorm pessoal sobre o que estava acontecendo com a música depois que ela despregou-se do CD. Perguntei um a um qual era o último grande disco da história do rock e para desenvolver uma teoria que não tem nada de jornalismo – é pura crítica musical, sem embasamentos factuais, mas que funciona como uma parábola para a transformação dos dias em que vivemos…

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OK COMPUTER
O dia em que a música saiu do disco
Por Alexandre Matias e Marcelo Ferla

Em junho de 1997, o grupo inglês Radiohead resumia as tensões pré-milenares em um disco que funcionaria como a lápide final para o formato álbum. Tornado público por Frank Sinatra e seu arranjador Nelson Riddle no melancólico In the Wee Small Hours, de março de 1955, o conceito de transformar um vinil de 12 polegadas em uma coleção de canções gravadas para serem ouvidas de uma vez só, como uma obra conjunta e não um apanhado de faixas, atravessou a segunda metade do século vinte como a epítome do som gravado enquanto obra de arte. O álbum atingiu sua maturidade em plena Era de Ouro do rock, quando os Beatles, Bob Dylan, Frank Zappa, o Velvet Underground e os Doors geraram a primeira safra de grandes álbuns da história, um movimento que seguiu-se em ciclos constantes, alimentando, e bem a indústria dos discos.

Até que há quinze anos o Nirvana lançava seu Nevermind e essa história começava a mudar. Kurt rompeu sem querer a fronteira entre o underground e o mainstream e a piada punk inventada por Malcolm McLaren foi absorvida pela indústria que deveria ser a vítima do golpe – eram os “Bollocks” que agora diziam “Nevermind”. As entranhas da indústria foram expostas e o faça-você-mesmo do punk rock tornou-se commodity; marketeava-se crédito de rua em massa! Mais tarde, Kurt meteu o balaço nos miolos e apagou o neon do sonho do rock de vez, que nunca mais conseguiu ressurgir sem uma campanha de marketing ou uma assessoria de imprensa.

Dois meses depois da morte de Kurt Cobain, a Fraunhofer Society, um grupo de institutos de pesquisas tecnológico da Alemanha, lançou o primeiro software capaz de encodar arquivos extraídos de um CD para um formato de áudio novo, que havia começado a ser desenvolvido em 1991 (o mesmo ano de Nevermind) por um grupo de pesquisadores de vários países (Alemanha, França, Holanda) que buscava uma forma de comprimir arquivos de áudio sem perder a qualidade. Chamado de MPEG Audio Layer-3, o formato foi batizado pelos técnicos da Fraunhofer como MP3, pelo fato de se exigir uma abreviatura de três caracteres para uma terminação de arquivos de computador. Assim que foi batizado, o MP3 passou a ser utilizado, sendo beneficiado pela popularização de uma certa world wide web.

A internet existia literalmente há décadas quando o engenheiro de computação inglês Tim Berners-Lee, chegou à conclusão que a melhor maneira de criar um sistema de informações sobre todas as informações disponíveis em uma rede – uma espécie de enciclopédia virtual sobre tudo – era se todos pudessem contribuir com algo, inclusive na própria estrutura do projeto. No dia 6 de agosto de 1991, dois meses antes de Nevermind tornar-se público, Tim postou o resumo de sua idéia no fórum alt.hypertext, explicando que:

“O projeto World Wide Web (WWW) foi iniciado para que se permitisse que pesquisadores compartilhem dados, notícias e documentos. Nós estamos muito interessados em espalhar esta teia (web) para outras áreas, tendo servidores como portais de entrada para outros dados. Sejam bem-vindo os colaboradores!”.

A primeira mensagem postada na web pressupunha a troca de informações – e a web tornou-se popular justamente por dar esta possibilidade para qualquer um. Mais do que visitar o Museu do Louvre em um tour virtual, era possível criar um tour virtual para qualquer lugar – como, por exemplo, para dentro da sua cabeça.

E assim a web começou a acelerar a colisão de informações díspares vindo de todos os lados. Como determinado por Nevermind, que desbancou Guns’N’Roses, Madonna e Michael Jackson do topo das paradas e encerrou de vez os anos 80, não havia mais diferenças entre notícias vindo de conglomerados de mídia ou de testemunhas anônimas por email. A avalanche de dados que se acumulou fora de nichos no final dos anos 90 criou expectativa e angústia que foram catalizadas brilhantemente pelo Radiohead em seu disco de rock definitivo que, acenando para o crescimento da importância do computador na vida das pessoas, roubava uma frase de Douglas Adams, o autor da trilogia em cinco volumes O Mochileiro das Galáxias, para dizer que cedia ao novo: “OK, computador”, dizia o título de um disco que ainda tinha faixas chamadas “Andróide Paranóico”, “Polícia do Karma”, “Sem Surpresas”, “O Turista”, “Airbag”, entre outros slogans para o vazio existencial do final do milênio, “você venceu”.

A ironia daria a volta completa para deixar de ser apenas um recurso lingüístico. Não fosse o aspecto colaborativo da web e a popularização do formato MP3, talvez outros discos ainda mantivessem o cânone do álbum sincronizado com a história da música gravada. Mas quis o destino que a mesma banda que admitiu a derrota do suporte musical disco voltasse, três anos depois, em um mundo completamente mudado, para lançar um álbum que não precisava mais existir fisicamente.

Kid A chegou às lojas do mundo em outubro do vazio ano 2000, mas já era conhecido pelos fãs do Radiohead há pelo menos três meses. Desde o início daquele ano, faixas do aguardado novo disco do grupo inglês já se espalhavam pela rede, primeiro em gravações ao vivo estimuladas pela própria banda (o vocalista Thom Yorke elogiava e incitava as gravações ao ouvir as pessoas cantarem músicas que ainda não tinham sido lançadas). Até aí, nada de novo: era só uma versão digital do que já acontecia historicamente no mercado de discos e fitas piratas. A internet só agilizava o processo.

Mas em junho de 2000, o novo disco do Radiohead apareceu na internet. Inteiro. Era a primeira vez que um disco saía do estúdio diretamente para os ouvidos de fãs em uma quantidade massiva. Era comum um radialista, jornalista ou alguém ligado à banda ou à gravadora conseguir uma cópia inédita de um disco que ainda não havia sido lançado – há casos até de comercialização deste registro, sendo o mais clássico deles o primeiro disco pirata da história, as Basement Tapes de Bob Dylan A expectativa em relação ao novo disco fez com que a troca de MP3s com o disco que ainda nem existia se tornasse massiva, ainda mais com o elemento Napster na história.

Criado por um adolescente no quarto de sua república em 1999, o Napster era um programa simples que aceitava o convite feito por Berners-Lee oito anos depois. Shawn Fenning só queria um dispositivo para ouvir os MP3s de amigos que tivessem músicas que ele não tinha em outras máquinas. Criou um software que facilitava o download de músicas não de um servidor, mas de vários – e assim transformou qualquer pasta de MP3s em zilhões de computadores pelo mundo em servidores aleatórios de troca de informações. A lógica da internet – a mesma que levou os militares americanos a criar a Arpanet nos anos 60 – aplicada no computador caseiro para um fim específico: a troca de arquivos de som.

Com o Napster, a indústria do disco, que preferiu apostar no sucesso rápido e formulaico durante os anos 90, passou a apontar a troca de MP3s como grande vilão em sua derrocada no mercado. Não era a primeira vez que as gravadoras multinacionais culpavam fãs de roubarem música – no início dos anos 80, com a ascensão do Walkman lançado pela Sony em 1979, a indústria fonográfica americana lançou a campanha “Home Taping is Killing Music”, acusando as pessoas que passavam seus LPs para fitas cassete de responsáveis pela falência da música. Você já viu esse filme…

A expectativa sobre o lançamento de Kid A se inverteu. Em vez da venda de discos, o quarto álbum do Radiohead passou a ser assombrado pelo fantasma do fracasso, uma vez que, pensava a indústria, ninguém compraria um disco que já tem. Mas contrariando as melhores previsões, quando chegou às lojas no dia 2 de outubro do ano 2000, o disco foi direto para o topo da parada dos discos mais vendidos dos EUA e da Inglaterra, com ótimas performances de venda em todo o planeta. Sozinho, vendeu mais que os discos daquele ano de N Sync, Eminem, Madonna e Britney Spears, os maiores vendedores de disco da época. Um disco cuja vida começou antes de existir propriamente.

Na mitologia radioheadiana, Kid A é o primeiro clone humano, o garoto A, programado para nascer. Na mitologia de nosso tempo, o disco Kid A é o primeiro disco digital, um clone musical que determinou uma paisagem que não pára de crescer ao nosso redor.

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Volto ao papo com o Ferla, que havia proposto que a pauta incluísse o estouro da banda gaúcha – você sabia? – Fresno. “All the Way” sou eu, “Mr. F” é ele.

Mr.F diz: vam’lá: enviei um e-mail prao ricardo: se eu fosse tu dava capa pra o moptop, pra provocar.
Mr.F diz: ele falou: tá doidão?
All the Way diz: desenvolve
Mr.F diz: fora dizer que doidão era o emerson…
Mr.F diz: argumentei q. tem ninguém no Brasil deu de fato a matéria q. a música mudou por causa do mp3 (sem precisar do didatismo que a gente sabe e tudo mundo sabe)
Mr.F diz: aí veio o mp3 agora é revolução
Mr.F diz: e pensei: o q. um cara q. faz música hoje precisa saber / e o q. já tem um monte de gente fazendo pra acontecer (no seu espaço, tempo, tamanho…)
Mr.F diz: ricardo falou do youtube do moptop. por isso me veio a cabeça o lance da fresno.
All the Way diz: vai falando, tou sacando e acho q estavamos falando da mesma coisa, de pontos de vista diferentes
Mr.F diz: aí pensei: o lelê empresaria fresno (q. tá fazendo a quarta turnê no nordeste sem tocar em radio)…
Mr.F diz: …e neguinho nem sabe q. é de porto alegre (pq. não faz a mínima diferença)
All the Way diz: aham, concordo
Mr.F diz: e empresaria cachorro grande, que tem o mesmo aproach (band de rock tipo underground)…
Mr.F diz: aí quero comparar quanto tempo a cachorro levou pra fazer 4 turnes no nordeste (por ex,.)
Mr.F diz: depois de levar varios nao de gravadora, de penar procurando lugar pra show etc.
All the Way diz: entao
Mr.F diz: segundinho…
All the Way diz: tu acha q essa pauta eh meio q um guia pra qm quer estourar e nao sabe por onde comecar?

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From: terapiap12@…
Subject: Fw: Fw: CAPA DA BIZZ
Date: October 24, 2006 8:11:10 AM GMT-02:00
To: mcferla@…
Reply-To: lele@…

Bicho, se puderes encaixar esta frase em algum lugar, te agradeço, pois pensei nela o dia todo ontem: “De cada 10 shows que a Fresno faz, um é no Rio Grande do Sul, sua terra natal. Isso diz tudo com relação ao verdadeiro poder que a internet dá a ambos os lados: a banda faz sua música chegar onde quiser e o público consome a música, seja ela de onde for.”

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Leandro “Lelê” Bortholacci, o internauta que me enviou a mensagem acima, é empresário das bandas de rock Cachorro Grande e Fresno, e do rapper Nitro Di. De alguma forma, o trio para quem (e com quem) ele trabalha aponta para o passado, o presente e o futuro da relação entre o artista e o novo mercado que se propõe a partir da popularização da música na web.

Cachorro Grande e Fresno foram criadas em 1999 – são contemporâneos do Napster, portanto. Até o ano passado, a Cachorro, que assinou com a Deckdisc e tem músicas executadas em redes de rádios de todo o Brasil, tinha feito quatro shows no Nordeste. A primeira turnê rolou só esse ano, quando a Fresno, que não toca em nenhuma rede nacional de rádio, acaba de voltar da quarta turnê por lá, com média de mil pagantes por show (nas apresentações em São Paulo o número cresce para três mil).

“Em 2004, quando eu não trabalhava com a banda, vi imagens de shows da Fresno no Nordeste e fiquei me perguntado, como era possível uma banda de Porto Alegre fazer shows no Nordeste com o público cantando TODAS as músicas?”, questiona Lelê, o empresário.

A resposta está na rede, obviamente, e não a de rádio, a que se tornou “parceira” das gravadoras. Via rede mundial de computadores, a Fresno conquistou pelo menos 90% do seu público – tem média de duas mil visitas diárias no site oficial (www.fresnorock.com.br) e de 50 mil visitas por semana no fotolog (www.fotolog.net/fresnorock), 70.524 membros na comunidade oficial do Orkut e outras 245 comunidades dedicadas a banda no site (www.orkut.com), 278.832 downloads no site download.com (www.download.com/fresno), 100.171 plays no site myspace (www.myspace.com/fresnociano) e média de cinco músicas entre as 15 mais baixadas no site Trama Virtual (www.tramavirtual.com.br) desde o lançamento do segundo disco, O Rio, A Cidade e a Árvore, em dezembro de 2004.

Todas as músicas dos três trabalhos da banda são liberadas no site, em MP3. O CD Ciano, de março deste ano, vendeu 14 mil cópias. Mas não é a principal fonte de renda do quarteto, que lucra mesmo com os shows semanais Brasil afora.

“O CD tem seu lugar numa hierarquia, mas já não é mais a maior fonte de renda do artista. Se o CD fosse a única plataforma para divulgação do nosso trabalho, dificilmente teríamos saído de Porto Alegre”, avalia Lucas, vocalista da Fresno, que mudou do Sul para Sampa em julho desse ano, “para se aproximar mais de seu público”.

Bem diferente da Cachorro Grande, que se bandeou de Porto Alegre para São Paulo em 2003 depois de ter seu segundo disco, As Próximas Horas Serão Muito Boas, rejeitado pela gravadora gaúcha Orbeat Music (acabou lançando a obra encartada na revista Outracoisa). O que para uma banda foi a opção mais cômoda, para outra foi a necessidade de tentar a sobrevivência. Ano passado a Cachorro Grande respirou mais aliviada quando assinou com a Deckdisc e lançou o álbum Pista Livre, simultaneamente à participação no CD Acústico MTV Bandas Gaúchas. Apesar da superexposição, o CD solo vendeu cerca de 12 mil cópias.

E o possível futuro dessa relação? É com ele que flerta o rapper Nitro Di, que pisca o olho para algo que gira em torno da “Volta da Canção”, como nos velhos tempos do namoro de portão, época em que ainda se ia nas cabines de som das lojas de discos para ouvir os compactos em vinil das bandas prediletas – nunca esqueci do 4 Rocks da Pesada que meu irmão mais velho comprou. O rapper sulista decidiu que, a partir de agora, só vai gravar singles e disponibilizá-los, um a um, no site. Quando tiver número suficiente para lançar um álbum, vai avaliar a possibilidade de prensar CDs.

“Poucos se interessam pela qualidade de som, ficha técnica, fotos. Eu prenso CDs somente para fazer promoções, vender em shows e em alguns pontos mais direcionados”, conta o ex-integrante da banda Da Guedes e defensor da auto-gestão, uma mentalidade que cresce nitidamente na geração pós-Napster.

“O artista não pode se acomodar e se preocupar apenas com o som. Tem que se auto-divulgar, produzir, buscar parcerias. O plano de mídia e a concepção toda de um trabalho tem que ser feito pelo artista e seu empresário. Se eles tiverem prestígio não vão precisar de uma gravadora para fazer videoclipe e camisetas.”

Camisetas, videoclipes, gravadoras. Gravadoras? É hora de entrar em contato com a Universal Music e pedir com urgência mais uma entrevista, a única de uma dezena feita com artistas para essa matéria que rolou por telefone, armada pela solícita assessoria de imprensa – será que as gravadoras não gostam de internet?

Acho uma bobagem demonizar as grandes gravadoras, mas qual o sentido de ligar para uma major numa reportagem com esse espírito? A resposta é o grupo carioca que tem o nome inspirado na franja dos Beatles, o som inspirado em Strokes e Franz Ferdinand e o mote que inspirou essa reportagem de capa: Moptop, o quarteto indie de site bacana e apelo pop e letras espertas que assinou com uma multinacional. Um exemplo a ser seguido? Um passo para trás? Uma vitória do sistema?

“Vão nos pagar R$ 1 por CD a partir de um certo número de discos vendidos. Não recebemos adiantamento. Ganharíamos mais grana vendendo direto os nossos discos, mas achamos que a proposta da Universal era interessante”, conta Gabriel Marques, vocalista, guitarrista e letrista do Moptop. “O contrato inclui dois discos, videoclipes e as facilidades de uma equipe trabalhando para a gente. Se investíssemos no cenário indie ganharíamos mais a curto prazo, mas em pouco tempo atingiríamos um topo de público, não teria mais como aumentar. Artisticamente não nos comprometemos.”

Como que se defendendo do fato de freqüentar o cast de uma major, o Moptop gerou um case no processo ao ironizar a maneira tradicional como as grandes gravadoras vendem seus artistas, a bordo de releases ultra-mega-elogiosos, fotos mudernas e making ofs recheados de obviedades (meu predileto mostra Celine Dion explicando como aprendeu a espirrar para não danificar as cordas vocais). O grupo produziu um “faking of” com os clichês dos clichês, dirigido pelo amigo Bruno Natal, e disponibilizou no site You Tube (www.youtube.com).

“A gente sabia que muita gente ia passar a não gostar da banda sem ouvir só porque assinamos com uma gravadora”, teoriza Gabriel. “Fizemos o faking of para mostrar que não mudamos. O You Tube estava crescendo e resolvemos zoar. A gravadora não curtiu, mas desde a primeira reunião deixamos claro como agimos.”

O contrato está assinado e o CD nas prateleiras, com selo multinacional, mas o discurso do Moptop, na voz de seu compositor, é de um artista consciente das necessidades da cena independente. Gabriel adota um discurso anti-corporativo: “O xis da questão para os indies é: quando vamos poder dizer não a uma gravadora?”; demonstra conhecimento de mercado, algo recorrente aos artistas pós-MP3: “Bandas como o Walverdes, que não é comercial, sabem que é no show que vão vender camiseta, CD, porque esse circuito é auto-sustentável, e se preparam bem para o show, sabem que é o negócio que garante a sobrevivência deles”; lamenta a falta de visão da indústria fonográfica: “Perdemos porque fomos proibidos de botar nossas músicas de graça em nosso site.”

(Me vejo perguntando, se outra pessoa colocar o álbum inteiro do Moptop, adianta proibir? Nevermind…)

E se admite perda, Gabriel aprova os downloads gratuitos?
“Não tenho mais como viver sem baixar música, não acho um crime”, afirma. “Mas também não me incomodaria de pagar uns R$ 20 por mês para ter direito a vários discos, tipo, na conta do celular.”

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Enquanto o Ferla conversava com o povo, chega o email do Lúcio.

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lucio to alexandrematias
More options 3:49 pm (23 minutes ago)
se não for e der pra vc mesmo mexer, mete a mão.
usei até frases suas…
hehe

O Que Você Quer da Vida.doc
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Lúcio, o maratonista da cena indie-brasil, não conseguiu tempo entre seu blog, sua coluna, matérias pros outros, discotecagens e uma viagem para o Acre (é, e sem precisar de exclamação para demonstrar espanto – isso sim é digno de exclamação!) para entrar no brainstorm que resultou neste texto que você está lendo agora. Mas Lúcio, como já disse o Ricardo Bizzes atrás, é “o jornalista brasileiro que melhor soube usar a internet”, e como tanto eu quanto o Ferla referendamos esta hipótese, era importante ele entrar na mistura. Perguntei se ele não queria falar justamente disso – e esse era o texto que ele havia mandado atachado no email.

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O Que Você Quer da Vida
Eu quero o que você quer. Mas o que você quer?
Por Lúcio Ribeiro

Até minha última olhada na caixa postal, não tinha nenhum email dos meus contratantes querendo quebrar algum vínculo de trabalho comigo. Então, posso dizer, talvez eu seja o cara que mais fature no mundo indie, viaje sem parar pelo Brasil e principalmente para o exterior, ganhe discos e convites e pá. Devo isso a um extraordinário talento no jornalismo, uma beleza incrível e uma família rica que compra editores para me garantir emprego?

Nada disso. Eu devo tudo, acredito, a duas coisas: (1). Ao leitor, na maioria das vezes bem mais esperto e antenado do que eu, e que me entrega coisas de bandeja, às quais sou agradecido e tal. E (2) à revolução comportamental causada pela internet.

Acho que minha virtude, talvez, no meio dessa loucura insana que está a velocidade da informação e dentro desse agora valoroso nicho musical que envolve a Bizz, o meu blog e meus textos na Folha de S.Paulo, seja tentar organizar tudo o que eu recebo via leitor, amigos, audição de rádios online, visões de YouTube, fuçadas de MySpace e adivinhar o que você quer com música hoje.

Ou o que você quer e não sabe. Ou o que você não quer, mas colocar de um jeito que faça você querer. Ou o que você não quer, tem raiva e se irrita tanto do meu jeito de colocar as coisas que faça você me ler só pra aumentar seu ódio.

Basicamente é assim: eu pego tudo de você e retorno… para você.

Minha tarefa anda fácil, por causa da atual “revolução”. Falo sobre (às vezes mostro) vídeos que a MTV levaria seis meses para falar e mostrar. Escrevo de discos que as gravadoras daqui lançam seis meses depois. E, se lançam rapidinho, não é rápido o suficiente para a geração 2000, que já ouviu tudo seis meses antes de ser lançado.

Estou longe de ser o fodão que lê o “New Musical Express” antes de todo mundo, como alguns falam. Até porque, com a internet e o “modo de vida” Web 2.0, o “NME” ocupa o 17º posto na lista de lugares legais para ir atrás de novidades que interessam.

Uma lista rápida das minhas fontes se apresenta mais ou menos assim, por ordem de importância: leitor a, leitor b, amigo x, blog americano tal, Radio One inglesa, leitor c, leitor d, amigo w, amigo z, jornal “The Guardian” (versão online), blog inglês tal, leitor…

Às vezes vem um cara e diz: “Lúcio, você ainda não escutou a banda Frévis. É sensacional”. Mas aí eu aciono meu radar, que são as minhas fontes acima, e não capto nenhum sinal da banda Frévis. Então vou me ocupar com outras coisas. Porque, é batata, se a banda Frévis nunca passou no crivo dos meus leitores, é porque ela não existe.

O ser Lúcio Ribeiro virou uma entidade gerenciada pela geração internet. Essa geração que nasceu falando arroba e que nunca teve que levantar da cama ou do sofá para trocar o vinil de lado. E que não vai ouvir a música (impostamente) tocada na rádio tal porque, no mínimo, essa geração monta sua própria rádio.

Uma geração tão democrática que não se dá mais ao trabalho de engolir 12 músicas chatas de um CD só para ter uma ou duas faixas que gosta. E por mais que tudo pareça fácil, só é fácil do lado de quem consome. As bandas estão tendo que se virar no avesso para agradar essa turma exigente e pouco… fiel. Qualquer deslize é uma desculpa fácil e rápida para se agarrar à próxima banda do momento.

E há algum mal em ser a “’banda do momento”? Não é assim que as coisas funcionam hoje em dia? Não dá mais tempo de se criar um ídolo e esperar que ele lance obras marcantes a cada três anos. Quem não corre atrás dessa galera esperta e não tenta pensar como eles, ou não tenta ver longe para saber onde eles (não) querem chegar, perde o trem do futuro. E do presente.

É tudo muito imediato. E tudo muito divertido (pelo menos para mim).

Às vezes fico sem saber de onde vem tanta informação. Quero saber o que eles estão lendo, de onde tiraram aquela nota legal daquela banda que ainda não sei pronunciar o nome. E vou atrás disso tudo, ainda meio perdido no meio de emails acelerados com um português que às vezes me é estranho. E daí o processo se repete: leio, ouço, odeio, odeio gostar, deixo pra depois, me arrependo de ter deixado para depois, esqueço a dica ou perco o email, volto e ouço de novo, desconfio, assisto, não acredito e vejo mais uma vez, recomendo, testo, cutuco aqui e instigo dali, e deixo as coisas acontecerem sozinhas.

Esse é o meu trabalho, o meu dia-a-dia. Tenho só a sorte de ter esse tempo e de ainda ser pago para isso.

Mas não pense que tudo é fácil. Às vezes gasto 12 horas de aeroporto indo de um lugar para o outro para atuar de “DJ” (outra benesse da nova era) ou como convidado para algum festival. Vou bancado por moleques, que agora, na geração deles, têm o poder (e algum dinheiro).

Ah, se não fosse o iPod ou o celular que consegue ver email para eu aproveitar esse tempo e ir atrás do que você quer…

Você, da geração que hoje consome música e revistas como essas e jornais como aquele e blogs como o meu e que não consegue ficar quieta. Qual a graça de ler, ouvir e ver e não poder opinar, xingar e deixar isso bem claro? Basta dar uma olhadinhas nas comunidades e fóruns por aí, ou nos comentários de blogs: todo mundo tem algo a dizer. E na medida do possível, tento ouvir o que você berra.

Gritaê.

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Telefone no gancho, é hora de mais uma sessão de ok, computer. Dou sign in no MSN e espero pelo Matias, enquanto listo quais álbuns eu baixaria primeiro se pudesse pagar para baixar discos na conta do celular, como cogitou o Gabriel Moptop…

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lucio to alexandrematias
More options 4:12 pm
bota o gritaê e é nóis.
> Ficou massa, eu acresceria um autoajuda final, tipo:
> Gritaê.
> ou
> Além de gritar, como todo mundo.
> Mas curti sim. Vou remixar.
> Abraco
>~Matias

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Mr.F says: (9:06:41 PM)
lembra q. tu tinha falado do zappa? nao tinha a ver com telefone?
All the Way says:(9:06:49 PM)
o zappa se liga do papo da musica virar uma parada por assinatura no meio dos anos 80
All the Way says:(9:06:57 PM)
o discurso dele eh todo “nao precisamos de cd”
All the Way says:(9:07:15 PM)
tudo antes de existir internet

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“CONSUMIDORES DE MÚSICA GOSTAM DE CONSUMIR MÚSICA, NÃO DISCOS DE VINIL EMBALADOS CAPAS EM PAPELÃO”. O negrito e o caps lock são tirados direto do original, que não é de nenhum consultor trend-setter descolado fazedor de cabeça de executivos da indústria da tecnologia e do entretenimento, e sim de ninguém menos que Frank Zappa. Logo que a música se despregou de seu suporte tradicional – na época, o disco de vinil – transformando-se em pedacinhos de zeros e uns transferíveis por redes de computadores, o principal iconoclasta musical do século vinte fez uma pergunta que até muita gente boa não fez: por que, se a música podia ser digitalizada – ou seja, livre de um suporte físico palpável (como o disco de vinil, a fita cassete, o cilindro do fonógrafo…) – por que raios a indústria fonográfica lançou um novo suporte?

Aí entramos no terreno da especulação, mas alguns fatos falam por si. O compact disc, apresentado ao público em 1982, é quase tão barato para fabricar quanto um disco de vinil, mas é mais prático para ser estocado e transportado – mais leve, menor, menos suscetível a atritos. Para tocá-lo, no entanto, os consumidores deveriam ter que comprar um novo equipamento, o CD-player – mais caro que qualquer outro player médio da época. E devido à sua suposta melhoria na qualidade do áudio (subjetiva, o tempo mostrou – vide os audiófilos de hoje em dia que ainda veneram o velho vinil), o disco passou a custar, em média, ao menos o dobro do antigo LP.

Alie a isso uma enorme campanha de marketing de todas as grandes empresas de tecnologia, que pegavam carona na novidade “CD” para lançar aparelhos que, além de alardear o compact disc como o futuro do áudio, rebaixava o vinil como suporte datado, mídia morta. Aos poucos, vitrolas e coleções inteiras de discos eram vendidas ou jogadas fora para abrir espaço para os pequenos discos prateados embalados em plástico. Sem querer – porque, por mais maquiavélicas que fossem as multinacionais na época, elas não teriam capacidade para pensar nisso (basta ver o zelo administrativo que fez com que o negócio praticamente falisse durante os anos 90) -, as pessoas estavam comprando um mesmo disco que já tinham pela segunda vez.

Entra Frank Zappa, crítico insistente de tudo que pode ser criticado – inclusive dele mesmo. De ascendência ítalo-americana, o compositor começou sua carreira com um pequeno estúdio em Cucamonga, gravando grupos de doo-wop, surf music e até se envolvendo com filmes pornô, até que entrou no imaginário mundial com discos que ridicularizavam o movimento hippie quando este era mais popular do que o YouTube em 2006. Desde os anos 60, mirou sua metralhadora musical em qualquer coisa que pudesse se mover, mas tinha como alvos favoritos o establishment norte-americano (inteiro, do governo às divas da indústria do entretenimento) e a estupidez humana. Engajado em causas espinhosas e delicadas, ele se pronunciou prontamente ao advento da música digital e em 1983, no mesmo ano em que o CD chegava ao mercado americano, escreveu sua “Proposta para a Substituição da Mercadoria Disco”, de onde saiu a citação em negrito do início. E finalizava a primeira parte de seu texto com mais negrito e letras maiúsculas: “As pessoas hoje em dia gostam mais de música do que nunca e eles gostam de levá-la onde quer que elas vão. ELAS PODEM OUVIR A DIFERENÇA ENTRE ÁUDIO DE BOA QUALIDADE E ÁUDIO DE MÁ QUALIDADE… ELAS SE IMPORTAM COM ESSA DIFERENÇA E ESTÃO DISPOSTAS A PAGAR PARA TER ‘ÁUDIO PORTÁTIL’ DE ALTA QUALIDADE PARA USAR COMO ‘PAPEL DE PAREDE PARA SEU ESTILO DE VIDA'”. Isso, lembrando, DEZ anos antes de a web atingir o grande público, DEZESSEIS anos antes do Napster e DEZOITO anos antes do iPod.

Zappa tinha até a resposta para problemas que ainda nem haviam começado a existir e aí que seu texto fica mais incisivo. Na segunda parte (chamada apropriadamente de “Respostas para Perguntas Intrigantes”), ele nos apresenta ao “Q.C.I.”. “Propomos adquirir o direito de duplicar digitalmente e estocar O MELHOR de cada um dos difíceis de transportar Q.C.I. (Quality Catalog Itens, Itens de Catálogo de Qualidade) de todas as gravadoras, reuni-los em um lugar de processamento central e torná-los disponíveis via fone ou cabo de TV paga, diretamente acessível através dos dispositivos caseiros de áudio do consumidor, com a opção de transferência de um ambiente digital para outro através da F-1 (o gravador de áudio digital da Sony, disponível para o público), Beta Hi-Fi ou cassete análogo simples (que precisa apenas da instalação de um conversor no próprio fone, cujo chip principal custa US$ 12)”.

“Todas as contas de pagamentos de royalties, cobranças do consumidor, etc., seriam automáticas e estariam no próprio programa básico do sistema”, Zappa continua. “O consumidor tem a opção de se inscrever em uma ou mais categorias de interesse, cobradas mensalmente, sem se preocupar com a quantidade de música que ele ou ela decidam gravar. Prover material em tal quantidade a um custo reduzido realmente diminuiria o desejo de duplicação e armazenamento, já que este estaria disponível a qualquer hora do dia ou da noite”.

Zappa simplesmente bolou um sistema de pagamentos, acesso e distribuição de música que parece atender às necessidades de todos (com a exceção daqueles que cita no início do texto – “Muitas pessoas estão empregadas no campo de promoção de discos. Estes salários são, na maior parte, desperdício de dinheiro”). Sem a internet. Sem o MP3. Sem P2P.

E conclui: “Queremos uma quantidade GRANDE de dinheiro e os serviços de uma equipe de mega-hackers para escrever o software deste sistema. A maior parte dos equipamentos, mesmo quando você ler isto, já estão disponíveis como itens existentes no mercado, apenas esperando para serem plugados uns nos outros de forma que eles possam por fim na “INDÚSTRIA DO DISCO” como a conhecemos.

Isso, repito, em 1983.

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Nisso, tá o Ferla na casa dele e ele me pede pra ficar online pra decidirmos onde ele encaixa os vários artistas que entrevistou sobre esta mudança de marés neste universo que hora nos referimos como “cultura”, outra como “entretenimento”. A bola é tua, compadre.

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Ok, computer, é hora de remixar tudinho – portanto, não espere exatamente todas as respostas, caro leitor. Redigir o que os artistas pensam sobre o Ricardo no MSN, a popularização do formato MP3, a volta da canção, auto-produção, faking of do Moptop, a melhor banda do mundo essa semana, a música fora do CD.

Então quer dizer que o CD morreu?

“Nada é excludente”, garante por telefone André Szajman, o big boss da Trama, gravadora que namora firme com a música fora do CD (sem excluí-lo da pauta, coerentemente). Anterior ao hypado MySpace, o site Trama Virtual é uma democrática plataforma receptora de música digital, e se espraia por outros formatos, inclusive programa de TV. “Você vai ao show, compra o CD, pega a versão exclusiva da música, compra uma camiseta. Tudo tem que ser visto como uma plataforma de marketing. Se o CD deixou de ser desejado, temos que criar um novo desejo”.

Então quer dizer que o CD deixou de ser desejado?

O multi-produtor Kassin execra a idéia: “O CD ainda é a mídia da nossa época, não me parece fazer sentido pagar por MP3, um formato de baixa qualidade, comprimido. Compartilhar MP3 é ótimo, mas como suporte real ele é muito fraco”.

Artistas ligados ao mercado independente, de todas as vertentes e regiões do Brasil, como Gabriel, do roqueiro e viajado Autoramas (um hit no Japão, por exemplo), o rapper De Leve e o MP-bista Lucas Santana vêem no disquinho digital algo que ainda lhes confere legitimidade no showbiz. Wado, que de tão híbrido é um catarinense/alagoano, crava que o “CD é como uma festa de 15 anos, uma legitimação, um pedigree. Serve mais pelo status necessário para te levarem à sério. E no fim do show muita gente compra disco. Isto é um fato.”

Então tá, o CD tem seu valor, mas não é mais o fim, no máximo um bom meio. Agora, o que acontece depois do show é um bom mote para se falar da necessidade de auto-gestão dos artistas. É preciso estar atento e forte para se mover nessa cena de bombardeio de informações e formatos e, sobretudo, muitas possibilidades. “As bandas de metal sempre foram boas nesse quesito sobrevivência. Eles praticamente criaram esse modus operandi: além do cachê dos shows, banquinha de CD, camisetas, boné”, lembra o rapper BNegão. O rocker Chucky, do Forgotten Boys, que lamenta a “perda da concepção de álbum como um conceito artístico”, tem a esperança de que “a desvalorização do CD seja a valorização do produto ao vivo”.

Vender (inclusive CD) é a deixa para mais uma vantagem proporcionada pela música fora dele (o CD). Gabriel dá a pista: “Fazemos shows em lugares onde nossos CDs nunca chegaram e todo mundo cantou as músicas! Quando ficou mais fácil o acesso ao nosso som, quantidade de shows aumentou muito.” (E eles passaram a vender mais CDs no fim do show, ganhando mais do que R$ 1 por disco, acrescente-se). A partir da experiência com o Seletores de Freqüência, BNegão corrobora: “Nós lançamos nosso disco em novembro de 2003, botamos na internet e cinco meses depois estávamos tocando em Barcelona, num lugar clássico, para duas mil pessoas, o que gerou uma série de outros shows”.

A velocidade é só um dos lados bons dessa realidade, na qual “quem mais se beneficia com os novos formatos é o artista, que pode montar suas próprias estratégias e tem mais capacidade de divulgação”, resume André Szajman. Wado assina embaixo: “Quem sabe se vender, tem público. Então alguém tem que conseguir te achar, por isso disponilizar na rede é uma ferramenta forte.”

Tejo, produtor do coletivo Instituto e do Turbo Trio, que com uma música gravada recebeu convite para fazer show em festival com banda gringa do porte de Chemical Brothers, salienta que “as pessoas que pesquisam na rede estão avaliando somente a música.”

Poder se concentrar só na música é o sonho de qualquer artista. Estourar na gringa a partir da web também. Possibilidade cada vez mais palpável, outro saudável paradoxo desse universo digital. Adriano Cintra, o bendito fruto da banda feminina Cansei de Ser Sexy, enche o peito para afirmar: “Quero mais é que as pessoas troquem minhas músicas. Dinheiro eu faço com editora e show. Não com venda de disco.”

Fenômeno mundial, rebatizado CSS no exterior, o grupo de Cintra é um espelho de novos tempos em que o conceito de “dar certo” também está mudando: “Às vezes penso que se a gente tivesse deixado ‘Superafim’ ser a música de trabalho, teríamos tocado na Jovem Pan, ido ao Faustão e participado do Rock Gol. E eu estaria me sentindo o ser mais miserável do mundo.”

É de se pressupor que o Cansei de Ser Sexy jamais assinaria com uma gravadora. Assinaria? “Eu nunca assinaria”, afirma Cintra. “O que eu quero é poder fazer minha música em paz, sem nenhum velho desgraçado falar como eu devia estar fazendo.”

Bem diferente da idéia da imagem do “velho desgraçado” (e é bem verdade que, com exceção de Cintra, todos os demais entrevistados não descartam assinar com uma gravadora, e muito menos na linha mal-necessário do que se possa pensar), André Szajman vislumbra o momento em que a música fora do disco seja definitiva: “A proteção é um tiro no pé. A música sem proteção pode ser a melhor notícia. No Brasil teve o i-musica, agora tem o Sonora, do Terra, o UOL Megastore. Dá para imaginar que comece a existir um mercado. Mas temos que resolver a questão do DRM (gerenciamento de direitos digitais). O consumidor, quando comprar, compra. Mas ele quer portabilidade, quer ouvir tudo em qualquer player, se não tocar é um inconveniente. O consumidor da nova geração quer liberdade. O DRM pode ser a última barreira para a revolução.”

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All the Way diz:
o kid a tb eh o primeiro disco a…
All the Way diz:
(efemeride digital)
Mr.F diz:
vazar total.
Mr.F diz:
ok computer tem tudo isso e mais o nome. mas o Kid é híbrido. rock sem guitarras.
All the Way diz:
exato
All the Way diz:
o primeiro disco q existia antes de existir o disco
Mr.F diz:
jazz sem solo.
All the Way diz:
da pra falar de hibridizacao de generos, ninguem mais escuta um soh tipo de som
Mr.F diz:
e o nome da banda tem a ver com um veiculo q. as majors tao matando…
All the Way diz:
radiohead, eh mesmo… hmmmmmmmm

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“Jazz sem solo”… O Ferla me solta essa e deixa no ar. Jazz sem solo. Originalmente, o jazz sequer tem solo – é um amontoado de instrumentos tocando simultaneamente, buscando espaços nos vazios deixados uns pelos outros. Contemporâneo da metrópole, do chiclete, do arranha-céus, do cinema e do desenho animado, o jazz é um dos muitos exemplos de como a cultura do século vinte começou como um agrupamento de diferenças, de sobretons, para se tornar algo massivo e repetitivo. Como as ruas de uma grande cidade, as janelas de um prédio gigantesco, inúmeros filmes e cartoons sem personalidade, repetidos agreassivamente. Assim foi também com o jazz, que de um gênero musical em que todos os instrumentistas solam simultaneamente, tornou-se sinônimo da presença do solista único, a ponto do Ferla comparar o Kid A com “jazz sem solo” mais como uma bravata eficaz do que como uma descrição propriamente dita do som do disco – o que não quer dizer que não funcione para tal…

Como o Kid A, a música que passou a ser produzida ao final do século vinte e que é tendência cada vez mais presente neste novo centênio não tem rótulo definido. É rapper fazendo música baba, sambista tentando R&B, MPBistas soando indies e vice-versa, Raconteurs gravando “Crazy”, clubbers e rockers se convertendo em múltiplas tribos híbridas, pandeiros sampleados e funk carioca surrupiando Prince e Smiths. A esquizofrenia de nosso tempo (uma personalidade para cada ocasião – não finja que não é com você) fez com que a ditadura das tribos fosse abolida e os guetos se misturassem num emaranhado de minorias que hoje compõem a maioria. Não é à toa que o CD mais vendido no mundo hoje é o CD-R.

Como definir musicalmente um artista como o DJ Dangermouse, por exemplo? Produtor, começou sua carreira em 2003 com o disco mashup Grey Album, em que colidia as músicas do Álbum Branco dos Beatles com os vocais do rapper americano Jay Z. Proibido pela gravadora dos Beatles, a EMI, de distribuir sua obra, ele foi centro das atenções internautas pelo planeta quando, no dia 24 de fevereiro de 2004, mais de cem servidores de internet disponibilizaram o disco de graça como uma forma de protesto contra à medida tomada pela major. Isso transformou Brian Burton em celebridade instantânea e chamou a atenção de Damon Albarn, líder do grupo Blur e fundador da deliciosa picaretagem animada Gorillaz. Albarn trouxe Dangermouse para produzir o segundo disco da banda, o que, na prática, equivaleu a lançar singles com o grupo de rap De La Soul e o papa anfetaholligan Shawn Ryder, gravando duas das melhores músicas do ano passado (“Feel Good Inc.” e “Dare”, respectivamente). No final do ano passado, Dangermouse criou o grupo Gnarls Barkley com o rapper Cee-lo (ex-Goodie Mob) ao mesmo tempo em que produzia um disco com samples da faixa adulta do Cartoon Network, Adult Swim, ao lado do fodão MF Doom, The Danger and the Doom. “Crazy”, a primeira faixa da nova dupla, estourou nos blogs de MP3 dos EUA e em seguida na Inglaterra, tornando a música um sucesso mesmo antes de ser lançada oficialmente. Resultado: no dia em que foi posta à venda – em MP3, antes de sair em CD – a faixa foi direto para o topo da parada inglesa, sagrando historicamente uma canção que, por si só, é a cara de 2006.

Lóki.

“Acho que a década passada assistiu a um declínio”, me explica Tim Westergren, CEO do serviço Pandora, que ajuda as pessoas a descobrirem músicas que não conhecem a partir de seu gosto musical inicial. “não em como as pessoas amam música, mas em quão conectados eles se sentem em relação à atual cena musical. Acho que isso tudo começou a mudar e a música digital está conduzindo este novo vigor”. Serviços com o Pandora, a Last.FM e outros que não necessariamente são ligados à música – como a festejada Wikipedia, o cada vez mais amplo MySpace, blogs de MP3 – encabeçam a dita “mudança de paradigma” de nossos tempos ao colocar o antigo ouvinte – que, no final do funil, apenas recebia informação – no meio da cadeia alimentar da indústria da música. E os dados que este elemento pode inserir no mercado acaba com o público-alvo amorfo que é o alvo da publicidade e do mercado como um todo. O “consumidor de música” imaginado pelas multinacionais é algo tão improvável e raro quanto o café da manhã em família do comercial de margarina.

Então parece que o antigo consumidor/ouvinte, antes passivo e agora agente, é o principal personagem nesta reinvenção da música como negócio e estilo de vida. Tim concorda comigo: “É isso. E cada vez mais o interesse está nas canções, à medida em que esta vem se tornando a unidade musical básica através da qual as pessoas interagem”.

Como diria Madonna: “Music makes the people come together”. Cada vez mais gente e cada vez mais perto.

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From: bnegron@…
Subject: Re: PERGUNTAS PARA REVISTA BIZZ
Date: October 25, 2006 8:53:49 PM GMT-02:00
To: mcferla@…

Vocês vão falar dessa verdadeira “caça às bruxas” que a industria fonográfica tá promovendo em cima da galera que baixa sons? Flexibilização do direito autoral,etc? Seria importante também…

1 abraço e boa sorte geral pra todos aí.
E manda um abraço pro Matias tb!
BNegron

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Ricalex, tudo contigo!
Qquer. coisa, to no MSN (também quero falar sobre show do Ian Brown em Bs.As.).
Bj na Jane e na Lorena!
Ferla

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Ufa, parece que não ia acabar. E não acabou – só acabou o papel desta vez. Daqui pra frente é tanto comigo quanto contigo. É, você.

It’s we.
~Matias

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4 Resultados

  1. Realmente…

    E tô bolado até agora com o Zappa. Sinistro.

  2. joão disse:

    Olá.

    Acho oportuno a bizz abordar o formato mp3 e as transformações que ele representa pra indústria musical e pras novas bandas que querem “estourar” em vendas.

    Mas acho importante não esquecer que o fenômeno dos blogs mp3 vai muito além dos lançamentos. Acredito que a frequência e o número de downloads em blogs dedicados aos anos 50, 60 e 70 é tão grande, ou talvez até maior do que a que pode ser verificada nos blogs que se dedicam aos lançamentos da atualidade.

    Acredito que as facilidades proporcionadas pelo mp3 abrem caminhos pra que qualquer garoto de 13 anos possa acessar e guardar um disco do Frank Zappa. Esse mesmo garoto pode desenvolver um discernimento suficiente para administrar seus interesse musicais sem se bitolar. Afinal de contas, com um ou dois cliques ele pode ouvir música árabe, rock, música celta, polca, choro, John zorn, Madonna, Sivuca, Villa Lobos, King Crimson, Television, Stooges, Piazolla, Floyd, Novos Baianos, Clube da Esquina, enfim, o que ele quiser… ele não está mais na dependência das dicas dos críticos, porque a internet (enciclopédica) já cumpre esse papel de orientação.

    Se o leitor (de qualquer idade) quiser ler a opinião de algum crítico específico, nada lhe impede, mas a grande revolução está no fato de que ele não precisa restringir suas impressões (de um disco que não sabe se vai comprar) ao que foi dito por um crítico… ele simplesmente pode baixar gratuitamente o disco e coletar informações pela internet… Acho que a relação do público com os lançamentos e com os discos do passado não está mais tão ligada às revistas musicais e à MTV.

    O papel de mediador que o crítico desempenhava entre o público e os discos, já não pode ser encarado da mesma forma que há alguns anos.

    Lembro que lá por 94 li uma resenha sobre o grupo Material na seção de discos underground da Bizz. Bom, naquela época, o cd (importado) só era acessível mediante o desembolso de algo em torno de 70 reais… Esses dias baixei esse disco que sempre desejei ouvir, mas nunca me empenhei em ter. Está lá, de graça e isso significa uma relativização da relevância de qualquer opinião sobre ele.

    O que não retira o interesse de algumas opiniões, claro.

  1. 22/10/2009

    […] de outubro de 2009 Foi em 2006 que uma capa de revista me chamou atenção: Uma mão segurando um iPod num fundo vermelho. E não era uma revista de informática. Desta forma fui iniciado às revistas sobre música sob as […]

  2. 22/12/2010

    […] Não custa voltar no Zappa, que já pensava nessas questões no começo dos anos 80. O texto abaixo é um trecho de uma matéria que escrevi pra capa da Bizz, quando ela ainda existia em 2006, sobre música digital. A íntegra da matéria tá aqui. […]