Clima de sonho

yma2019

Yma me convidou para escrever o texto de apresentação de seu belo disco de estreia, Par de Olhos, lançado nesta sexta-feira, uma viagem onírica que fica entre a psicodelia noir, o vintage anos 80 e um certo ar de mistério.

Uma guitarra torta rasga o horizonte como um raio em câmera lenta numa noite fria – mas não há sinal de chuva. Bateria e baixo marcam o andamento, ponteado por outra guitarra, à espreita, dedilhada, como se soubesse de algo que não podemos saber. É uma canção dos anos 80 e também é uma viagem de carro à noite, o vento batendo no rosto enquanto mistura camadas de emoções num mesmo bloco de sentimentos. “Seus olhos no escuro, dançando pelo avesso, as paredes se derretem devagar”, a doce voz de Yma sussurra a melodia principal desta introdução, acrescentando uma inusitada psicodelia noir àquela cena. Não há estrada nem horizonte, apenas um quarto no escuro e todo o imaginário evocado pela canção é ilusão. “Tenho medo de você evaporar”, ela canta na introdução deste primeiro disco, “Par de Olhos”, lançado bem no começo de 2019, deixando claro que estamos entrando num território onírico.

O disco de estreia da cantora e compositora paulistana começa de verdade na segunda faixa, que batiza o álbum. Todos os elementos que formam a dissimulada vinheta “Evaporar” se realinham criando uma atmosfera completamente diferente, que mantém-se moderna e retrô sem medo da contradição. A psicodelia noir, o romantismo anos 80, a guitarra dedilhada, o ar de fantasia, o baixo e a bateria de uma canção de amor – e até a guitarra de um dos convidados, o líder do Cidadão Instigado Fernando Catatau. A canção “Par de Olhos” brinca com o flerte para hipnotizar o ouvinte rumo a um território estranho e familiar, impreciso e reconfortante, como um predador que encanta a presa para que ela não perceba o que está para acontecer.

O clima de sonho é determinante para este primeiro registro de Yma. “Há uma exploração do universo onírico, em que eu uso os mecanismos do mundo dos sonhos para distorcer – e dar graça – às situações cotidianas que me inspiram a escrever”, explica. “O mistério sempre me instigou, e por mais que tenhamos o sentido da visão, acredito não sermos capaz de enxergar tudo que está à nossa volta. Gosto de interpretar as lacunas do que está por trás da vista imediata, buscar o imaterial. Talvez esta seja a melhor definição de Par de Olhos, essa tentativa de investigar os cantos escuros da realidade”.

O disco continua com a já conhecida “Vampiro”, uma das três faixas que Yma já havia lançado antes deste primeiro registro oficial. O ar de estranheza melancólica desta canção apresentou-a a um público maior, transformando-a em hit online, que ainda emplacou “Sabiá” e “Summer Lover” (que não estão no álbum), criando um pequeno séquito de fãs que a acompanha para onde for. Apesar das referências oitentista e do ar retrô (ou talvez justamente por isso), seu público é majoritariamente adolescente, que encontra-se na doce rebeldia de suas letras “Acho até que eu perdi o meu caminho e eu não quero voltar, porque aqui eu sou normal”, canta entre a inocência e o blasé, “vamos fugir junto que o tempo é curto e eu não quero mais morrer, eu quero dançar com você…”

Produzido por Fernando Rischbieter, que também é guitarrista, toca teclados e dirige musicalmente o trabalho ao lado de Yma, Par de Olhos conta com uma banda formada por Uiu Lopes no baixo, Dreg na guitarra, Leon nos synths e Marco Trintinalha na bateria, além de synths da própria vocalista e compositora e participações de músicos como Gustavo Ruiz, Zé Ruivo, Gongom, João Antunes e Elísio Freitas. Nascida em São Paulo, a cantora e compositora tem formação erudita, mas sua queda pelo pop a trouxe para este universo musical fluido, que segue em outras paragens musicais, misturando sempre a sensação de familiaridade com a de vazio e costura existencialismos que se refletem em canções que vão da pista de dança (“Shake It”) à praia (“Sun and Soul”, um dueto delicioso com o vocalista Lau, do grupo Lau e Eu), do cemitério (“Colapso Invisível”) ao espaço sideral (“Nowhere Here”), encerrando com a absorta “Pequenos Rios”, composta ao lado de César Lacerda. “As luzes da cidade que cobrem essa noite, eu quero te levar comigo”, ela segue cantando, lembrando que tudo é ilusão, “as sombras nas paredes, os passos em silêncio, eu quero te guardar comigo”.

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