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Legião Urbana FAIL


Compare a largura das faixas nas duas versões (foto: Marcelo Costa)

O Marcelo flagrou uma cagada master em pelo menos um dos itens da reedição da discografia do Legião Urbana em vinil. Não sem antes dar uma espezinhada necessária com o preço do novo formato (pra lá dos 100 reais, um preço claramente chutado pra cima), Mac compara o lado B do primeiro disco do Legião, batizado apenas com seu nome. Embora o rótulo dos vinis apresente a ordem correta, o que se ouve nos sulcos é um shuffle analógico, que em nada lembra a ordem escolhida pela banda, inicialmente.

Para quem não liga para música é só um detalhe, mas este não é o público consumidor deste material. No novo primeiro disco do Legião, o lado B que abriria com “O Reggae” começa com “Teorema” e depois emenda em “Por Enquanto”, a faixa melancólica e inerte que o grupo escolheu para fechar o disco. Continuando, “O Reggae” frequenta meio o lado B seguido por “Baader-Meinhoff Blues” e concluindo o último lado com “Soldados”, uma música cujo significado é quase oposto ao da canção bolada para realmente fechar o disco. “Soldados” é esparsa, vacilante, desesperada – fechar o primeiro disco de uma banda com uma música dessas é quase uma assinatura niilista, tornando a estréia mais punk e desesperada do que o disco imaginado para fechar com “Por Enquanto”, faixa que é quase um por do sol musical e que é, escancarada, uma canção feita para encerrar o assunto.

Guardadas as devidas proporções, imagina começar o lado B do Dark Side of the Moon com “Any Colour You Like” em vez de “Money”, ou o lado B de Sgt. Pepper’s terminando com “When I’m 64” em vez de “A Day in the Life”. Ou, em exemplos brasileiros, o Ventura do Los Hermanos terminar com “Deixa o Verão” em vez de “De Onde Vem a Calma” ou se o lado B de Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje, começasse com “Jesse Go” em vez de “Inútil”.

Em todo o caso, um desrespeito para quem está disposto a torrar uma grana para comprar possivelmente um disco que já tem em casa. E isso se estivermos falando só desta edição…

Calvin mindfuck

Daddy issues – e por causa de um disco, pobre coitado.

De volta ao vinil

Materinha que fiz pro C2 Música, a edição semanal do Caderno 2 do Estadão dedicada ao tema, sobre a visita que fiz há menos de um mês à Polysom, a tão falada única fábrica de vinis da América Latina, que finalmente lançou seus primeiros discos. Ela conversa com o Personal Nerd que fiz pro Link há duas semanas.


Sulcos do acetato, primeira etapa na fabricação do vinil, vistos no microscópio da sala de corte

Fotos: Tasso Marcelo/AE

Fazendo disco: o pó de PVC é posto na extrusora…


…que depois sai pelo cilindro à direita, como uma massa mole…


…as matrizes do disco são postas na prensa, que é calibrada a cada prensagem…


…a massa de vinil é posta entre os dois rótulos do futuro LP e depois posta na prensa…


…que, uma vez fechada, é aberta para revelar o disco idêntico ao que você vai pegar na loja, ainda quente…


…Tcharã!

O que ele está fazendo aí?
Passar um dia na Polysom, única indústria de vinil da América Latina, é como viver nos tempos em que CDs e música digital não eram mais do que ficção

Uma massa mole e preta sai quente de uma máquina chamada extrusora. Moldada numa pequena bola que cabe na palma da mão, ela é disposta sobre um dos rótulos de papel do futuro disco ? o outro é aplicado por cima, formando uma espécie de sanduíche de massa de pó de PVC e papel, que é colocado em uma enorme prensa hidráulica. A máquina faz seu trabalho em poucos segundos: espreme o bolinho engraçado entre duas chapas horizontais que, ao se afastarem uma da outra, revelam um disco de vinil recém-prensado.

Esta operação simples e quase artesanal é a etapa final de um processo que chega ao fim após quase um ano. “A gente achava que em um mês dava para colocar isso para funcionar e já estamos há oito meses, sempre fazendo testes para ficar direito”, explica João Augusto, dono da gravadora Deckdisc e agora proprietário da Polysom, a única fábrica de discos de vinil da América Latina.

A fábrica fica em Belford Roxo, região metropolitana do Rio, e a ida do Aeroporto Santos Dumont ao portão da Polysom dura quase o mesmo tempo que o do voo Rio-São Paulo. Ao volante, Rafael Ramos, filho de João Augusto e diretor artístico da gravadora ? um dos principais entusiastas da reativação da Polysom -, recorda o feito, com o sorriso largo. “Nem parece que até outro dia isso era só uma provocação que eu fazia com o meu pai”, revela enquanto atravessamos a Linha Vermelha saindo do Rio.

É importante entender o papel de Rafael nesse processo, uma vez que ele faz parte de uma geração que viu os vinis nas coleções dos pais, assistiu à ascensão e posterior queda do CD, viveu os primeiros dias da música digital, sem suporte e sem disco, e redescobriu o velho disco preto quase no fim da primeira década do século.


“As pessoas compram pelo fetiche”, diz João Augusto, um dos donos da Polysom

E Rafael está longe de ser o único. Só nos EUA, no ano passado, foram vendidos 2 milhões e meio de vinis, um número a que João Augusto acrescenta um dado interessante: “47% desses compradores sequer tem toca-discos”, enfatiza citando uma pesquisa feita pelo instituto Nielsen Soundscan. “As pessoas compram pelo fetiche.”

As megastores brasileiras não demoraram a perceber isso, tanto que algumas já exibem prateleiras com vinis recém-fabricados – todos importados. “Mas a maioria das lojas não tem nem espaço para receber os discos”, conta João. E ele traduz esse novo interesse pelo vinil ao contar como foi que a cantora Pitty reagiu ao ver seu disco na versão vinil: “Agora, sim, somos uma banda de rock.”

Pitty faz parte da primeira safra de discos saída da gravadora, todos da Deckdisc. Além do relançamento de Chiaroscuro, a primeira leva ainda inclui outros discos da gravadora carioca: o solo da vocalista do Pato Fu Fernanda Takai e os discos mais recentes dos grupos Cachorro Grande e Nação Zumbi. Mas João é enfático ao dizer que a Polysom não é a fábrica da Deckdisc. “É dos sócios da Deckdisc, cobramos da Deck o mesmo que cobramos de qualquer um.”

Ele acredita que a primeira etapa do processo está terminando agora, com a fabricação dos primeiros discos. “Só agora é que as pessoas vão ver que é verdade”, festeja. E não está falando apenas dos consumidores, mas também das gravadoras e dos artistas. “Acredito que os artistas vão motivar muito este movimento”, diz João, contando que alguns deles – Jorge Ben Jor e Lenine – já abraçaram a ideia.

Resta saber como o mercado brasileiro reagirá aos lançamentos. A gravadora EMI é uma das que estão em conversações com a Polysom para o relançamento da discografia do grupo Legião Urbana. Se ainda é cedo para saber se o velho LP volta para valer às lojas, ao menos podemos comemorar que a única fábrica de vinil da América Latina fica no Brasil ? e já está funcionando.

Na linha de produção


Pré-análise do áudio. O operador mede a qualidade do som usando instrumentos específicos e sua experiência técnica, antes do áudio começar a se transformar num vinil.


Cabeça de corte. Esta máquina funciona como um toca-discos. A diferença é que, em vez de reproduzir o som, ela grava os sulcos no acetato.



Galvanoplastia. É a fase química do processo, em que o acetato original é colocado em tanques com nitrato de níquel. As partículas de níquel “grudam” no acetato, formando uma “capa”, que é retirada e funciona como um vinil em negativo.

Prensagem. A capa de níquel é colocada nas prensas, que depois recebem uma massa mole feita a partir de pó de PVC que, prensada, vira um disco.

Disco preto

Esqueci de linkar o infográfico que fiz nesta edição do Link sobre a volta e mostrando como se fabrica um disco de vinil. Ei-lo (pra ampliar, basta clicar):