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Profusão de possibilidades

O Picles ficou pequeno nesta sexta-feira quando reuni duas bandas intensas e novíssimas em mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo. Shows distintos de duas bandas que estão em momentos parecidos de suas carreiras, mas em vidas paralelas ao vivo. Enquanto o Nigéria Futebol Clube está vindo num crescendo de shows épicos, a Tubo de Ensaio fez o primeiro show em meses, hiato em que eles têm se dedicado a pensar no próximo álbum, o sucessor de Endofloema que lançaram no ano passado. Assim, trouxeram vários fãs para reencontrá-los ao vivo com toda a psicodelia prog que está em seu DNA. Além da energia contagiante do grupo, dos tempos quebrados e jogos de vocais e da forte influência do jazz, a Tubo ainda se dá ao luxo de meter eletrônica com synths caseiros que eles mesmos fazem – e que poderiam ter mais presença! O show ainda trouxe música inédita e no bis chamaram Bernardo Puyol para cantar a canção que ele compôs com a banda, “Taioba”. Bom demais!

Depois foi a vez do Nigéria Futebol Clube seguir sua escalada de shows fodas na primeira apresentação que fizeram no Picles. E, como têm feito, eles pegaram todo mundo de surpresa. Além de ter colocado a banda Vinco para dividir o palco com eles, foram montando o show músico a músico, fazendo com que cada um dos nove participantes da noite entrassem no palco à medida em que iam construindo um groove só – mecânico e hipnótico – com duas guitarras, duas baterias, baixo, teclado, flautas e vocais. Um atordoo sonoro que deixou a casa abarrotada de gente em êxtase, clamando pelo grupo aos gritos. Dois shows fodaços que marcaram a sexta, que terminou com eu e a Fran fazendo todo mundo dançar até alta madrugada.

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Dois extremos de uma mesma geração

O primeiro Inferninho Trabalho Sujo no Fervo reuniu dois shows que funcionam como bons exemplos da amplitude musical da nova geração de bandas e como, apesar de virem de áreas sonoras distintas, harmonizam com gosto. A noite começou com o delírio prog-jazz do Tubo de Ensaio, que apesar de não negar suas raízes no rock clássico e na música brasileira, partem dessa mistura para voos instrumentais e viagens vocais que misturam improviso e psicodelia. Num transe instrumental que mistura doces harmonias vocais, groove hipnótico e equipamentos fabricados em casa, o quinteto mostrou algumas músicas de seu recém-lançado Endoefloema com várias canções inéditas que eles já estão preparando para o próximo trabalho. É bonito ver como a sinergia do grupo, tanto a presença performática e carismática da vocalista Manuela Cestari – interagindo constantemente com o pequeno e avassalador baterista Gabriel Ribeiro, que por vezes deixa seu kit para tocar metalofone, à simbiose de contrapontos do baixo melódico de Francisco Barbosa e a guitarra jazzy e psicodélica de Lorenzo Zelada, entrelaçando-se com os teclados espiralados de Lorena Wolther, que, ao lado de Lorenzo, compõe jogos vocais suaves e lisérgicos junto a Manu. A intensidade do show e a cumplicidade da banda amplia muito as dimensões das canções do disco, que por vezes esticam de duração em solos e improvisos contínuos, que conversavam diretamente com as trips instrumentais do Tutu Naná, que por sua vez vêm de um outro universo musical.

Depois foi a vez do Tutu Naná mostrar que o transe instrumental simbiótico também pode vir de uma outra fonte sonora, que mistura tanto referências de jazz brasileiro, quanto de noise, rock clássico, shoegaze e pós–punk. O quarteto catarinense nascido das cinzas da banda John Filme acabou de lançar o ótimo Itaboraí, em que mostram que não há fronteiras musicais quando se transcende o vínculo artístico para além da convivência, transformando o trabalho musical dos quatro num mesmo organismo vivo. Quase sem precisar trocar olhares, seus integrantes abrem fronteiras musicais que por vezes começam em dedilhados sutis da guitarra de Akira Fukai nas linhas de baixo elípticas de Jivago Del Claro, crescem nos vocais entrelaçados dos dois ao lado da vocalista Carol Acaiah, que por vezes puxa sua flauta transversal para liberar o ruído coletivo ou para domá-lo em momentos de êxtase, quase sempre impulsionados pela bateria impetuosa e quebrada de Fernando Paludo, um monstro que parece ter saído de uma mutação genética entre Dom Um Romão, Ginger Baker, Milton Banana, Art Blakey e Keith Moon (além de ficar fazendo loops com seu vocal distorcido entre as músicas). Cada apresentação é um convite a um novo transe e não foi diferente neste primeiro Inferninho Trabalho Sujo no Fervo, quando o público desceu para perto dos trilhos do trem na Água Branca para uma noite de puro delírio musical. E como se não bastasse, o Tutu Naná encerrou sua apresentação com uma improvável versão “Duas Opiniões”, do Tom Zé. Foi demais.

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Inferninho Trabalho Sujo apresenta Tubo de Ensaio e Tutu Naná @ Fervo (18.7)

Desbravamos mais um ano do Inferninho Trabalho Sujo mostrando uma nova geração de artistas que está vindo com tudo nesta década ao mesmo tempo em que espalhamos a festa por diferentes casas da cidade. Desta vez, chegamos pela primeira vez na Ocupação Fervo, que desde o começo do ano está agitando ali na Água Branca. Quem abre a noite é a banda paulistana psicodélica Tubo de Ensaio, estreando no Inferninho, que vem mostrar seu recém-lançado primeiro disco Endofloema, que conecta diferentes pontas, de diferentes épocas, da música lisérgica brasileira. Depois é a vez do noise açucarado do Tutu Naná, quarteto de Maringá residente em São Paulo que acaba de lançar mais um disco, o inspirado Itaboraí, batizado com o nome da rua em que moram – juntos, tocando quase todo dia – na cidade. A casa abre às 18h e o primeiro show começa às 21h – e enquanto as bandas não estiverem tocando eu discoteco. O Fervo fica na rua Carijós, 248, na Água Branca, e dá para vir tanto pela rua Guaicurus (perto do Sesc Pompeia), quanto pelo outro lado do trilho do trem – e o melhor é que não custa nada pra entrar, é só chegar! Vamos nessa!