Trabalho Sujo 75

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Pode ir me dando os parabéns. O Trabalho Sujo completa 21 anos neste dia 20 de novembro de 2016 e para comemorar apresento uma playlist perene. A Trabalho Sujo 75 elenca 75 músicas que você precisa ouvir agora, de acordo com a pauta aqui do site. Vai desde singles que acabaram de aparecer a flashbacks motivados por relançamentos, óbitos ou reedições, além de lançamentos de toda espécie. É uma lista finita que vai sendo atualizada constantemente, por isso sigam-me os bons.

Reaquecendo as turbinas

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Férias tiradas, cabeça zerada, um monte de vídeos do Primavera pra subir (alguns deles já estão no ar) e muita novidade à vista. Religo o Trabalho Sujo aos poucos a partir de hoje – e neste sábado já tem Noites Trabalho Sujo!

Engatando a marcha lenta

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Fico duas semaninhas offline (ma non troppo): vou passear em Amsterdã e Barcelona com meu amor e deixo o Trabalho Sujo no piloto automático com eventuais atualizações nas minhas redes sociais: Facebook, Instagram e Twitter. Sigo conectado por lá, mas num ritmo bem menor. Quem quiser mandar notícias, mande nos comentários aí. Até a volta!

Trabalho Sujo @ Spotify

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Não é só o Vida Fodona que deixou de ser um podcast para virar uma série de playlists no Spotify. Fechei uma parceria com o maior aplicativo de streaming de música do mundo e agora tenho uma conta na rede deles e alimentos diferentes playlists – dá pra me seguir aqui:

Lá criei algumas playlists fixas, que sempre serão atualizadas, além de outras temporárias. Funciona assim:

  • Na playlist Trabalho Sujo eu reúno as músicas que aparecem nos posts do site. Vai pelo lado mais noticioso mesmo e pode misturar aniversários de discos com singles recém-lançados. É o meu recorte editorial do conteúdo musical do site. Ouça aqui.
  • Na playlist Vida Fodona eu reúno todas as músicas que já foram tocadas nas mais de 500 edições do antigo podcast. Ainda estou adicionando músicas e vai demorar pra encher tudo – são dez anos de mixes, afinal. Ouça aqui.
  • Na playlist Noites Trabalho Sujo está a trilha sonora da sua festa favorita, naquela vibe de acabação feliz que você bem conhece. Ouça aqui.
  • Na playlist Sussa a vibe, óbvio, é mais tranquila e conversa com a minha festa vespertina de verão. Ouça aqui.

Além destas, que são fixas e estão sempre sendo alimentadas, ainda há versões periódicas de algumas delas: quase toda semana tem playlist nova do Vida Fodona, sempre antes de qualquer Noite Trabalho Sujo alimento uma playlist que dá o tom da próxima festa e o mesmo vale com a Sussa, que é mais esporádica. Fizemos – eu, Danilo, Klaus e Babee – uma Sussa inclusive pra selar a parceria com o Spotify, tocando na sede do aplicativo aqui em São Paulo. E a trilha sonora foi essa:

E ainda vem aí os Spotify Talks, em que vou conduzir conversas sobre música com gente que manja de música. Faço a curadoria e a apresentação destes encontros, que devem começar em julho. Depois eu falo mais sobre isso.

E vem mais novidade dessa parceria por aí, aguardem!

Revista Trabalho Sujo: Um papo com o Miranda

Entro na reta final do crowdfunding da versão impressa do Trabalho Sujo conversando com os colaboradores da primeira edição – e o primeiro deles é velho compadre Carlos Eduardo Miranda, que fala sobre porque uma revista impressa em 2016. Saiba mais sobre o projeto e colabore com a campanha no site do Catarse – e se você já colaborou, espalhe para os amigos.

Vamos fazer a versão impressa do Trabalho Sujo?

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Comecei o financiamento coletivo da revista do Trabalho Sujo lá no site do Catarse – qualquer dúvida é só perguntar aí!

Trabalho Sujo: 20 anos – e agora?

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É oficial: passei metade da minha vida fazendo isso. E daí?

E daí que 2015 me comprovou uma teoria que vinha me azucrinando desde que eu ainda trabalhava no Estadão, um processo terapeutico de autorreconhecimento que me fez repensar várias coisas em relação à minha produção: por que eu preciso depender de um grande veículo de comunicação para fazer as coisas que quero, levantar os questionamentos que acho interessantes, passar as informações que realmente fazem sentido pra mim? O próprio Trabalho Sujo começou nessa lógica da brecha, de aproveitar uma determinada posição para conseguir passar informações que normalmente não estariam ali.

Por todos empregos que tive aproveitei essa situação, seja virando um caderno de cultura do avesso como editor aos 25 anos, seja subvertendo as intenções originais da revista de entretenimento e tecnologia, fazendo a iniciativa privada publicar Lawrence Lessig e distribui-lo em dezenas de milhares de bibliotecas do Brasil, puxando política e cultura para dentro de um caderno de tecnologia ou tentando abrir a cabeça de uma revista CDF. Ao mesmo tempo fui entendendo que é assim que eu sei trabalhar, colocando meu olhar, minha assinatura, minha marca. Mesmo quando fui chamado para outros trabalhos fora de redação levava uma inquietação, uma provocação, uma vontade de misturar e um olhar em perspectiva. O problema é que os trabalhos em redação (processos criativos prazeirosos em que conheci algumas das melhores pessoas da minha vida) inevitavelmente me arrastavam para intermináveis reuniões que não iam dar em nada, decisões absurdas de RH, passaralhos e invencionices que claramente não iam dar certo, além de uma desagradável sensação de cumplicidade com gente que você não queria nem conhecer.

Por isso desde o ano passado resolvi abandonar de vez as redações. Fui demitido da Galileu com uma desculpa esfarrapada qualquer (e bem no mesmo mês em que colocava na capa da revista a importância de se consertar algo que não está dando certo em vez de jogar fora) mas não via a menor perspectiva em voltar para qualquer redação. Recebi convites que em outras épocas fariam meu olho brilhar e os declinei sem o menor remorso. Toda a possibilidade de desenvolver um bom trabalho era ofuscada pela rotina sem graça de plantões, horas extras, fechamentos e ter que utilizar o Outlook.

Enquanto isso, o Trabalho Sujo deixava de funcionar só como hobby e terapia e seus filhotes começavam a caminhar: as Noites Trabalho Sujo se estabeleceram em São Paulo, depois vieram os cursos Trabalho Sujo e OEsquema acabou. Tudo conspirando para que eu assumisse o site como meu principal veículo, Ainda mantenho um blog no UOL, uma coluna na Caros Amigos e me chamam vez por outra para escrever aqui e ali, mas cada vez percebo que isso é que é o acessório. Não que os veículos de comunicação tradicional não importem, mas eles estão se afunilando cada vez numa imensa descartabilidade, medindo sucesso e desempenho por clique, view e like, reverberando notícia ruim, requentando release, pensando em ganchos bobos para conseguir falar de assuntos legais, correndo atrás de discussões das redes sociais (quando deveriam pautar a discussão), tomando o tom das pessoas que comentam em sites (você já comentou em alguma notícia de site grande na vida?) como se esse fosse o tom de todo seu leitorado, entrevistando as mesmas pessoas que entrevistam há vinte, trinta, quarenta anos e regurgigando pessimismo como se viver fosse uma merda.

O Trabalho Sujo me mostra que é justo o contrário e todo o dia eu descubro uma história incrível, uma pessoa foda, um trabalho formidável, algo que realmente merece atenção. Às vezes é uma banda, um show, um entrevistado, uma música, um filme, um remix; outras vezes é uma pessoa, uma história, uma festa, um comentário, um causo, um link, um dado, um texto, uma informação. Muitas vezes publico sem explicar demais, outras puxo como fio da meada de algo maior, outras tantas não publico, apenas guardo – e tudo isso vai ajudando as coisas a fazerem mais sentido ainda.

E tudo, como sempre repito, é jornalismo. É pesquisar, checar, fuçar, descobrir, redigir, editar e mostrar – seja num curso, num post, numa matéria, num comentário em vídeo, num podcast, numa discotecagem. Mas não é o jornalismo caxias que se leva mais a sério do que o assunto nem o jornalismo propaganda que só funciona com tudo mastigadinho na mesa do dito “repórter”, que não vai atrás de nenhuma informação. Chamo isso de jornalismo-arte como brincadeira mas também como provocação. Porque eu sentia falta de um romantismo jornalístico que permitia humor, otimismo e vínculo com a rua, que não era pautado em esporros, publicidade disfarçada, morosas burocracias e o descaso com o leitor. Não sinto mais falta disso, pois com o foco no Trabalho Sujo isso tudo foi retomado. Falta ainda uma redação, um lugar constante para trocas de experiências coletivas, mas isso é algo que eu vou resolver depois, sem pressa.

Por enquanto prefiro ir tocando minha vida sem stress, cuidando dos pequenos detalhes da vida além do trabalho (cozinhando o próprio almoço, tomando sorvete, lendo um livro ou indo pro cinema durante a semana à tarde, encontrando amigos, caminhando pelo prazer de caminhar, namorando), enquanto vejo um hobby virando ofício, fonte de renda e de inspiração. Os cursos O Outro Lado da Música e Todo o Disco são só as primeiras novidades desta nova fase. A festa do sábado – mais uma edição da já clássica Analógicodigital, um dos primeiros indícios dessa mudança – era o mínimo que eu podia fazer. Mas tem pelo menos três grandes novidades vindo aí que anunciarei até o meio de dezembro – nenhum frila, tudo relacionado ao próprio Trabalho Sujo – que mostram como vão ser as coisas daqui pra frente.

Quer dizer, de uma certa forma você já sabe. Pode não saber o que é, mas como vai ser está meio implícito.

20 anos de Trabalho Sujo

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Eu nunca havia pensado em ser jornalista. Sempre fui viciado em jornais e revistas de papel e por informação e conhecimento, viesse de onde viesse; além de ser fissurado tanto por ler quanto por escrever. Fiz fanzines e jornaisinhos de escola desde que nasci, em Brasília, mas o destino me levou a fazer Ciências Sociais na Unicamp e lá também fiz um jornal, desta vez com meus amigos de faculdade. Uma edição foi parar na redação de um dos jornais da cidade, que me chamou para colaborar com o caderno para o público adolescente à época, peculiarmente chamado de Diário Pirata. Fiquei quase um ano no Pirata, quando soube que o caderno ia ser extinto. Me deram duas opções: jornalista de cidades ou cobrir automóveis. Pedi demissão e voltei pra academia.

Mas o bicho do jornalismo já havia me mordido e eu sabia que era um caminho sem volta. Em menos de uma semana, há vinte anos, estava rascunhando digitalmente meu primeiro fanzine de fato, escrevendo no Word, diagramando no PageMaker, ilustrando no Corel Draw e escaneando e recortando fotos no Photoshop. Ele não se concretizou como eu havia pensado, mas depois de ser abduzido mentalmente pelo jornalismo, fui absorvido comercialmente pelo mesmo e comecei a publicar meu fanzine na contracapa do caderno de cultura do Diário do Povo às segundas-feiras. Depois, como já escrevi, passei para a central do caderno de domingo, a contracapa do caderno de sábado, um link entre a seção de suplementos do primeiro site do jornal, depois um site no Geocities, depois no Gardenal, que me levou a fundar OEsquema, que morreu este ano. Vinte anos depois, o site está na própria URL bem como nas principais redes sociais – e eu cada vez mais distante das engrenagens da ainda principal força-motriz do jornalismo brasileiro, mas não do jornalismo.

Mais:

Em grande parte destes vinte anos de Trabalho Sujo – que coincidem também com meus 21 anos de profissão – sempre tive o Sujo como uma atividade paralela, um hobby descompromissado, uma atividade mais prazeirosa do que profissional. O que pagava as minhas contas era o trabalho em redação, seja nas duas concorrentes locais que frequentei em Campinas (primeiro como repórter, depois como ilustrador e editor de arte no Diário do Povo e como editor do caderno de cultura do Correio Popular), em redações de espírito startup em empresas em ascensão (como editor-executivo e editor da falecida Play na editora Conrad e como editor-chefe de conteúdo do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama) ou em redações tradicionais (até dizer chega) no Estadão (onde editei o Link) e na editora Globo (onde dirigi a redação da Galileu).

Mas foi a partir de uma provocação do Wagner “Mr. Manson” Martins (com quem hoje divido dois projetos paralelos, que conto em breve) que me fez entender a importância do Trabalho Sujo em minha carreira. Em uma mesa sobre cultura digital (em uma das primeiras edições do YouPix, se não me engano), Manson soltou que quando alguém tem um blog bom, é quase certeza de que ele está desempregado – pois quando ele tem um emprego ele não tem tempo para o blog. Entendi a mensagem como um desafio, pois isso foi um pouco antes de sair da Trama ou logo depois de entrar no Link, e lembro que comecei a manter a regularidade e a constância no Trabalho Sujo quase como uma resposta à provocação de Manson. Mas ao mesmo tempo era uma forma – como ainda é hoje – tanto de organizar as áreas que acompanho quanto de me forçar a caçar novidades e exercer meu espírito crítico, a treinar meu texto e explorar formatos de edição. Muitas coisas que apliquei nos empregos que tive na última década foram testadas anteriormente no Trabalho Sujo ou em seus braços nas redes sociais (que não existiam há dez anos).

Mas a frustração quase constante com a maioria das empresas de comunicação brasileiras e uma inquietação que me incomoda a cada vez que alguém menciona o fim do jornalismo a partir de um sintoma de má adminstração de uma destas empresas me fez entender que meu papel como jornalista independe de quem está me contratando. Mais do que isso: o Trabalho Sujo é o meu veículo e ele me abre tantas portas – ou mais – do que quaisquer empregos anteriores. Isso sem contar que é um sobrenome que eu escolhi. Não preciso me apresentar como sendo “do jornal tal” ou “da revista tal” para que me reconheçam.

Ao mesmo tempo, o caráter multiplataforma do Sujo me fez batizar minha festa com o nome do site e que começasse a organizar cursos que levassem seu nome como carimbo autoral. Isso me fez escolher trabalhar diretamente com meu público, que eu conheço dos comentários e em algumas situações pessoalmente, em vez de ter que imaginar um público-alvo fictício ou ter de dar satisfações para este ou aquele patrocinador. Até hoje eu não tenho plano de negócios nem media kit porque não fiz o que faço pensando neste tipo de ação. É uma escolha pessoal, uma estética própria, um caminho que aponto e que pode ser seguido por quem quiser, pagando ou não por isso ou não.

E, cada vez mais a partir de agora, é o meu negócio. É o meu veículo, o meu emprego, o que me satisfaz tanto pessoal quanto profissionalmente. É o meu jornal, minha rádio, minha emissora de TV, minha revista e meu portal – meu vínculo com um público que tem mais ou menos a minha idade e que gosta mais ou menos do mesmo tipo de coisas do que eu. Não estou me referindo a rótulos como “cultura pop”, “indie rock”, “mashup”, “ficção científica”, “mercado independente”, “seriados”, “dance music”, “filmes alternativos”, “remix” ou “internet”. Há uma intersecção gigantesca entre essas tags e outras que por ventura posso agregar a elas e essas intersecções formam a teia editorial do Trabalho Sujo. Falo sobre um monte de coisas que todo mundo fala, meu diferencial é o meu sotaque, meu tom de voz, meu ponto de vista, meu senso de humor, minha linha editorial, que tento deixar clara, sem cair na conveniente armadilha da isenção e da imparcialidade que as empresas de comunicação costumam armar.

O aniversário de 20 anos de Trabalho Sujo, portanto, marca o início de uma série de ações e novidades que começo a anunciar hoje e que continuo até para além da data do aniversário, dia 20 de novembro. A festa de aniversário já está marcada para o dia seguinte desta data, que deve trazer mais novidades. Antes desta, começo a antecipar algumas das coisas que bolei para este ano, começando pelo curso O Outro Lado da Música, que estou fazendo na Unibes Cultural e cuja primeira aula começa nesta terça-feira, gratuitamente, com aula sobre psicodelia brasileira ministrada pelo Fernando Rosa, do site Senhor F.

Este curso é só o começo: muitas novidades vêm por aí. E cada vez mais, meu lema faz mais sentido: só melhora!

(E a intervenção dos “20 anos” sobre o logotipo feito pelo Jairo é da Juj Azevedo, que está me ajudando numa dessas novidades.)

Rumo a Parati

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Este blog dá uma reduzida em sua velocidade de postagens pois vou pra Parati pelo segundo ano consecutivo cuidar das mídias sociais da Flip. Dou notícias de lá. Hasta!

Por que faço o Trabalho Sujo

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Desde que o Trabalho Sujo era uma ideia eu já me acostumei ajustá-lo de acordo com a situação.

Chego agora a essa nova fase pensando no que o site pode ser nos próximos anos sendo que ele nunca foi planejado para ser um site, um conceito que mal existia quando o Trabalho Sujo nasceu. Fora que não dá pra saber o que esperar dos próximos anos – quem sabe? As mudanças que aconteceram na minha vida nos últimos 20 anos mostraram que não adianta fazer muitos planos nem tentar agarrar o controle da vida, é melhor deixar levar com o fluxo, ser levado pela corrente da vida, que não é só sua. O fim dOEsquema e o novo layout do Sujo é uma forma de organizar um pouco a casa e as ideias antes do aniversário de 20 anos que acontece em novembro. Não sei o que vou fazer em novembro, mas me parece uma boa meta de tempo.

Algumas novidades vão ficar mais evidentes com o tempo, mas já antecipo umas de cara. Aos poucos o Leitura Aleatória (aquela coleção diária de links) vai voltar, Facebook e Twitter passam a funcionar de forma diferente em relação a postagem de conteúdo do Trabalho Sujo e externo (o Instagram é uma conta cada vez mais pessoal, tô quase pensando em botar o cadeado na porta e não replicar pro Facebook); haverá uma newsletter e seções específicas com periodicidade a definir; além de explorar mais a relação do site com eventos ao vivo. Ah, o 4:20 acabou (por isso aquele monte de “The End”) pois ter cumprido seu papel e disseminado a hora mágica para o mundo. É como as fotos da tapioca: continuo comendo-as todas as manhãs, mas depois que eu lancei o hype não preciso insistir mais nisso, né? E ainda tem uma coluna pra você mandar suas dicas pra cá.

O Sujo começou depois de uma demissão. Tinha sido demitido do jornal que trabalhava, o Diário do Povo, e estava naquela encruzilhada entre retomar o curso de Ciências Sociais na Unicamp, fazer um fanzine e continuar publicando de alguma forma em algum jornal – o vírus do jornalismo havia me infectado e quem conhece sabe como é essa cachaça. Antes de ser demitido eu publicava num caderno voltado para o público adolescente chamado Diário Pirata (justo esse nome!) que fazia sucesso na cidade por ser a única publicação em Campinas que não falava ou com adultos ou com crianças – e a equipe liderada pela gênia Adriana Villar aproveitava-se dessa zona cinzenta para inventar pautas e abordagens que gostaríamos de ler, uma das minhas primeiras grandes lições da profissão: só faça uma matéria que você queira ler.

Havia acabado de comprar meu primeiro computador, um trambolho Compacq comprado numa promoção da Fenasoft de 1994, e brincava com versões dos programas que os jornais usavam pra diagramar e ilustrar suas páginas, os arcaicos Aldus PageMaker e Corel Draw. Meu primeiro fanzine começou a ser rascunhado digitalmente, usando um scanner de mão e fotos que já vinham no computador para ilustrar matérias sobre diferentes assuntos. O nome havia surgido numa névoa matutina dessas e vinha com sobrenome: o subtítulo “Porque alguém tem de fazê-lo” margeava tanto a versão original de um zine que nunca existiu quanto as primeiras edições do Trabalho Sujo de fato.

Um dos motivos do sucesso do Diário Pirata era a literal ausência de concorrência – o principal jornal da cidade, o Correio Popular, não tinha nada que se parecesse com o Diário Pirata – e anos depois quando começou a sua versão (chamada de… “Geração”) não chegava aos pés do trabalho que fazíamos na redação da Vila Industrial. E foi ali que o editor-chefe do jornal – ou em algum terceiro tempo no Bar Azul ou no City Bar – ficou sabendo que eu iria vender uma coluna para o correio. E depois me chamou na redação para outra daquelas grandes lições do jornalismo que carrego pra vida: ele fechou o caderno não por falta de interesse, mas porque tinha de cortar papel, e ao saber que eu toparia trabalhar como frila – minha proposta original para o Correio -, me convidou para trazer aquela coluna para o jornal. E me deu a contracapa do caderno de cultura das segundas-feiras. Eu simplesmente reempacotei meu fanzine para um formato de página de jornal e, diagramando no PageMaker e editando no Corel, levei a coluna num disquete para a redação, que ainda não tinha internet. Descia à sala de produção para escanear fotos e aplicá-las na página e aos poucos fui me ficando familiarizado com todo o lado industrial do jornal. Até então só sabia o que acontecia até que o texto chegava à página. Como frila, passei a frequentar a gráfica.

Assim começou o Trabalho Sujo que, em menos de seis meses, já teve que aprender a se adaptar, quando o Correio simplesmente comprou o Diário e passou a sucatear o antigo concorrente, levando a linha editorial para o pior estilo espreme-sai-sangue. Consegui manter o Sujo a duras penas, pois ele saiu da contracapa de cultura para dar espaço à nova colunista Sônia Abrão (é…) e foi para o alto da página dois, em cima dos quadrinhos e do horóscopo, em versão preto e branco. A fase trevas do Diário durou um ano e aos poucos sua autoestima foi sendo retomada, mesmo sempre abaixo da do ex-concorrente e atual “casa grande” de uma tentativa de império dos jornais do interior que mal conseguia chegar às cidades vizinhas. Nesse meio-tempo me tornei ilustrador do jornal (pois era o único na redação que sabia usar o Corel Draw), contratado e fazendo o Trabalho Sujo na paralela, sem receber a mais por isso. Em pouco tempo, tornei-me editor de arte do jornal, quando fiz um novo projeto gráfico para o Diário (que morreu em 2012 com o logotipo que eu havia feito) e ajudei o jornal a criar seu primeiro site. E ali plantei também a primeira versão digital do Trabalho Sujo, que devia ter um link do tipo http://www.diariodopovo.com.br/suplemen/TrabSujo/index.htm. A versão em papel tinha voltado a ganhar espaço e como o Rio Fanzine n’O Globo passava a ocupar a página dupla central da edição de domingo. Eu que diagramava e escrevia tudo, sempre, mas nessa época já tinha colaboradores fiéis como o grande Roni César, comparsa de editoria de arte e ilustrador de primeiríssima, e o mestre Sérgio Carvalho, o Serjão, até hoje um dos meus fotógrafos favoritos.

Em 1999, o Sujo foi para a contracapa de sábado e, no meio daquele ano, fui chamado para ser o editor de cultura do Correio Popular. Pra evitar problemas de autoria, em vez de levar o Trabalho Sujo para o Correio, simplesmente fechei a coluna impressa e abri o site no Geocities, onde começava a publicar textos que escrevia para o Correio e para outros veículos – na época eu já colaborava com O Globo, o Estadão e a Gazeta do Povo de Curitiba -, mas aos poucos fui entendendo a lógica daquela nova mídia. E antes de eu mudar para São Paulo já havia transformado o Trabalho Sujo do Geocities em meu site pessoal. Depois veio o Gardenal, veio OEsquema e aquela história que eu tava contando e, aos poucos o Trabalho Sujo também foi mudando.

De lá pra cá passei pelas redações da Conrad, da Trama, do Estadão e da Editora Globo sempre levando o Sujo como uma atividade paralela, um misto de hobby e missão, mas ao mesmo tempo ele ia ressaltando qualidades e manias que sempre fiz questão de prezar. Ao assumir o próprio domínio do Trabalho Sujo, o site segue como coluna de novidades e notícias, misturando opiniões e nichos diferentes para tentar acompanhar as transformações que estão acontecendo atualmente. Mas também começa uma produção ainda mais autoral, de produzir conteúdo específico pra cá e levar o site como meu principal veículo. Vai ser um processo lento porque ele requer uma baita organização em vários aspectos, mas o primeiro passo é esse novo site, que ainda tem uma série de coisinhas pra resolver e ajustes para serem feitos, além de outras novidades que prefiro ir apresentando com o passar do tempo.

O Trabalho Sujo é um trabalho em andamento e pode assumir outros formatos em encarnações futuras e por mais que ele seja um projeto individual, ele não funciona sozinho. Essa mudança estética e organizacional de agora, por exemplo, só aconteceu graças ao nobre auxílio dos mestres Jairo e Cauê: Jairo foi editor de arte do Estadão na época em que eu estava no Link e sempre que podíamos fazíamos páginas juntos; é dele esse logo Ralph Steadman que marca o site em diferentes plataformas; Cauê eu conheço das internas da internet como um dos caras que mais manjam de WordPress que eu conheço; é ele quem me ajudou na migração e adaptação de um tema inteiro para esse site que você está vendo agora.

E claro, você, leitor. Conheci algum dos meus melhores amigos desta forma: lendo textos deles e delas ou elas e eles lendo meus textos, pois esse contato por escrito é mais superficial que do o contato por rádio ou por vídeo, mas provoca uma intimidade e aproximação que conecta cabeças. Estou no fundo escrevendo como uma longa terapia em fluxo de consciência, organizando ideias e teorias em textos sobre produtos de cultura pop pra que consiga exprimir melhor o que está acontecendo ao nosso redor. Essa conexão, que antes só acontecia no papel, agora pode acompanhar o leitor em qualquer situação. E acho que essa é a graça disso que estamos fazendo aqui – seja nesse início de renascença dos blogs (o que é o Medium senão isso?), nas redes sociais ou nos aplicativos em que adicionamos uns aos outros – e que me faz crer que possa ser a saída pra essa profissão que a maioria lamenta. Falta paixão e sobra estatística, eu quero mais o jornalismo-arte.

Vamo pra festa?