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Dentro do Branco

Noite linda no Bona nesta sexta-feira, quando Douglas Germano descortinou ao vivo um dos melhores discos do ano passado. Acompanhado apenas de seu violão e do violoncelo de Thiago Faria, o sambista paulistano mostrou a íntegra de seu Branco de forma crua e direta, sem os instrumentos, percussão e vozes que o tornam tão rico, mas desvendando a natureza do disco em seu instrumento de criação. A apresentação começou com Douglas passeando por clássicos de outras épocas, começando por “Padê Onã” dos tempos em que era do Bando Afromacarrônico de Kiko Dinucci, passando por “Espólio” de seu primeiro álbum Ori, e “Pela Madrugada” de seu Golpe de Vista (única obra de arte brasileira a mencionar a palavra “golpe” no título no ano de 2016). Depois caiu pra dentro do álbum Branco, disco marcado pelas colaborações que se propôs ao fazê-lo, tocando-o na íntegra quase na mesma ordem original, sempre comentando as parcerias (três com Fábio Peron, três com Luiz Antonio Simas, outras com Roberto Didio – com quem compôs a precisa “Zelite” -, Alfredo Del Penho e Márcia Fernandes) e contando as histórias de cada canção – a de “19 de Março” – uma das poucas (com “Na Ronda”, que abre o disco) que compôs sozinho – é de chorar de tão bonita. Antes de encerrar o show com a faixa-título que encerra o disco, passou por mais uma do Golpe (“Lama”) e por uma de suas composições mais bonitas, “Tempo Velho”, do descomunal Escumalha de 2019 (outro retrato instantâneo do Brasil como tão poucos fizeram no auge dessa fase de trevas que o país viveu). Não fez cerimônias para puxar seu bis, cantando uma de suas maiores canções, a imortal “Vias de Fato”, talvez o maior samba paulistano desse século. Deixou de fora sua “Maria da Vila Matilde”, recentemente adotada pelo governo federal como campanha contra o feminicídio, pois não teve tempo de incluí-la no repertório, mas quem sabe ela ressurge nas duas apresentações que fará no Sesc Vila Mariana após o carnaval – quando trará a banda completa, inclusive as participações especiais do álbum. Ave Douglas!

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Barisbe nas cordas

Mais uma segunda-feira teleguiada por João Barisbe, que nos convidou a mais um capítulo de seu Turismo Inventado, em que nos convida a conhecer lugares imaginários através de suas próprias composições, a cada semana com novos arranjos. Desta vez foi o momento em que ele exercitou o naipe de cordas, convidando o sublime Quarteto Ibá (formado pelas violinistas Leticia Andrade e Mica Marcondes, pela violista Elisa Monteiro e pelo violoncelista Thiago Faria) para voltar às músicas que apresentou na semana passada, mas sem sequer subir no palco para regê-las, juntando-se ao grupo apenas para tocar seu saxofone, deixando claro seu papel de arranjador mais do que de regente . Além do quarteto, Barisbe também convidou dois músicos reincidentes da semana passada para mostrar suas próprias canções – primeiro a maravilhosa Thais Ribeiro, que trouxe seu acordeão para mostrar sua “Meu Velho” e Gabriel Milliet, que primeiro visitou “Jardim da Fantasia”, de Paulinho Pedra Azul, que ele conheceu na versão definitiva que Renato Teixeira gravou com Pena Branca e Xavantinho no disco ao vivo que gravaram em 1992 em Tatuí, e depois a inédita “Prefiro Infinito”, parceria com o próprio Barisbe, quando apresentou-a ao lado do quarteto tocando violão. A noite terminou como a anterior, quando Barisbe voltou ao palco com o sax para cantar – sem texto, só com a voz de seu instrumento – a épica “Cometa Javali”, a mesma com a qual encerrou a primeira apresentação e cujo verso central parece não apenas resumir a temática de sua temporada quanto o que pode ser feito a partir do trabalho com a arte em seu verso central, “imaginação e possibilidade”. Bravo!

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Acrescente um violoncelo…

E Pélico segue desbravando novos rumos para suas canções em mais uma noite de sua temporada Cá com Meus Botões no Centro da Terra. Nesta segunda, a terceira noite de sua temporada no teatro, ele chamou o parceiro de longa data Regis Damasceno, que também está tocando na atual formação de sua banda, que chega em conjunto na próxima segunda, para acompanhá-lo ao lado de um novo parceiro, o violoncelista Thiago Faria. E juntos, o trio passeou por algumas das canções de seu repertório visitadas nesta temporada e algumas versões, entre elas mais uma vez “Espelhos D’Água”, hino romântico de Dalto, e, pela primeira vez, “Vinte e Nove”, do Legião Urbana, além de pinçar faixas próprias que há muito tempo não tocava ao vivo, como “Um Menino” e “Pretexto”. E mais uma vez Pélico entregou-se de corpo e alma às suas canções, numa noite tão emotiva quanto as anteriores, mas que caminhava por outros arranjos…

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Pélico: Cá com Meus Botões

E com prazer recebemos durante as segundas-feiras de outubro o grande cantor e compositor Pélico, que depois de uma temporada no exterior, começa a preparar sua volta aos palcos e aos discos, lentamente preparando um próximo álbun à medida em que volta a sentir a pulsação do momento. E ao propor a temporada Cá com Meus Botões, ele volta-se para si mesmo, como o título deixa claro, para, a cada segunda-feira, visitar um trecho de sua carreira com diferentes formações. Na primeira segunda, dia 7, ele vem acompanhado do tecladista Pedro Regada, para depois, no dia 14, visitar um repertório de canções que canta em casa acompanhado do violão de Kaneo Ramos: violão. No dia 21 ele vem escudado pelo compadre Regis Damasceno, que toca guitarra, violão e o acompanha nos vocais, e do cello tocado por Thiago Faria, para revisitar velhas canções nesta nova formação. E encerra a temporada no dia 28, acompanhado de sua atual banda (formada por Regis Damasceno, Pedro Regada, Jesus Sanchez no baixo e Richard Ribeiro na bateria), quando começa a mostrar sua produção atual. Os espetáculos começam pontualmente sempre às 20h e os ingressos estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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Entre o onírico e o erudito

Lindo demais o show que Loreta fez nesta quarta-feira para mostrar seu disco de estreia Antes Que Eu Caia no palco do Bona. Acompanhada de uma formação nada ortodoxa (o saxofonista e tecladista Fernando Sagawa e o quarteto de cordas formado por Thiago Faria, Michele Mello, Letícia Andrade e Wanessa Dourado), entre o onirico e o erudito, ela deslizou sua voz encantadora por canções melancólicas e esperançosas (incluindo “Ai, Ai Ai”, da espanhola Silvia Pérez Cruz) num show que ainda teve a presença de suas irmãs vocalistas do grupo Gole Seco – as formidáveis Niwa, Gui de Castro e Nathalie Alvin -, que ainda renderam uma apresentação extra para a noite com duas canções só no gogó. E no bis, Loreta chamou o violonista Luca Frazão, “a pessoa com quem eu mais toquei na vida”, para tocar a sua “A Arte de Me Enganar”.

Assista aqui: