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A segunda temporada do Quinta Lapa

Anna Vis antecipa em primeira mão para o #trabalhosujo a programação da seu Quinta Lapa, quando reúne mais duplas de peso – como Maurício Takara e Maria Beraldo, Douglas Germano e Thiago França e Felipe Vaqueiro e Luíza Brina – em shows inéditos na galeria Lapa Lapa, como vem fazendo desde 2025, quando reuniu Giovani Cidreira e Negro Leo, ⁠Juçara Marçal e Marcelo Cabral, ⁠Yma e Fernando Catatau, ⁠Jadsa e Nina Maia, ⁠Sophia Chablau e Juliana Perdigão e ⁠Ava Rocha e Caxtrinho. Lembro quando ela me falou de fazer uma noite mais experimental na Lapa, bairro da zona oeste paulistana que está começando a se movimentar. Moradora do bairro, ela pensou na proposta a partir de uma conversa com Giovani Cidreira e Filipe Castro no bar da Lôra e aos poucos foi formatando a iniciativa, que aconteceu no segundo semestre do ano passado em parceria com a galeria Lapa Lapa, que também fica no bairro. “Eu tinha assistido a um show do Zelo na galeria umas semanas antes e saquei que o som da sobreloja tinha um reverb próprio, bonito, e de cara pensei em fazer um encontro totalmente desamplificado”, me explica Anna, que já havia feito curadoria de noites no Porta e na Associação Cecília, além de ter sua própria carreira solo. “Consegui o contato do Gabriel Roemer, fundador e idealizador da galeria, marcamos um café, contei minha ideia que ainda não tinha nome, mas já tinha uma noção formal de como se daria: seriam duos totalmente acústicos misturando canção e música experimental, dois artistas que tenham trabalhos solos e que topem se encontrar pra fazer um show inédito ali. Gabriel adorou a ideia, ele já queria produzir noites de música lá, tava caçando esse assunto. Quer dizer, nos encontramos na hora certa.” Ela juntou outros talentos – como a iluminadora Marcela Katzin e o fotógrafo Bruno Prada – e agora vem com essa nova safra de encontros, que começam no dia 19 do mês que vem (Maria Beraldo e Maurício Takara) e continuam em abril (Douglas Germano e Thiago França dia 2 e Luíza Brina e Felipe Vaqueiro dia 16). A Galeria Lapa Lapa fica na Rua Afonso Sardinha, 326, e o lugar é bem pequeno, por isso corre que os ingressos pra primeira noite já estão à venda!

Veja abaixo:  

A primeira vez no Bona

Por incrível que pareça, esta quarta marcou a primeira vez que o Metá Metá tocou no Bona. Integrantes da melhor banda do Brasil já haviam passado pelo palco da casa do Sumaré em outras formações, mas as duas apresentações que marcaram para esta semana foram as primeiras que Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França fizeram juntos naquele palco, espalhando o já conhecido e arrojado feitiço musical forjado em São Paulo – embora nenhum de seus integrantes seja paulistano – para os ouvidos atentos que foram ouvi-los no meio desta última semana de janeiro. O repertório é o mesmo que apresentam há anos, juntando músicas de seus três álbuns com versões para canções de Jards Macalé, Maurício Pereira, Siba Veloso, Douglas Germano e Itamar Assumpção – que deixaram para tocar no bis, com a assertiva “Tristeza Não” -, sempre deixando violão, sax e vozes ganhar corpo próprio e dominar todos os presentes. Sempre aquele descarrego energético feito pra gente voltar leve pra casa.

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Dos tempos da pandemia

Se tecnicamente ainda não saímos do período pandêmico, que dizer mentalmente? A arte mais uma vez mostra que não estamos 100% resolvidos em relação a esse período nefasto que atravessamos e cada vez mais obras vêm rever essa fase com uma certa distância no olhar. Uma delas é o EP que Thiago França lança nesta quinta-feira ao lado de Marcelo Cabral. Samples & Naipes, como seu título entrega, é composto de partes de músicas que Thiago gravou durante a quarentena interminável e decidiu compartilhar com o compadre baixista, que usou seu viés produtor para picotar as músicas e recriá-las incluindo até gravações do saxofonista em outros contextos. “Durante a pandemia, quando eu me dei conta de que a coisa ia longe eu me dediquei a ficar gravando coisas em casa, como exercício, pra não ficar parado sem criar nada”, França começa a lembrar, “e uma das empreitadas foi esse EP, que eu comecei regravando músicas minhas, já que tava sem idéia pra compor, entreguei pro Cabral e dei carta branca pra ele, já mirando nas coisas que ele fez no Naunym, disco eletrônico dele.” “Quando ele me convidou comemorei porque podia voltar a criar, que é a coisa que a gente mais sentia falta e comecei a picotar sax, respiração, o som dos dedos batucando nas chaves, com o ouvido atento à cada coisa, não só ao tema, mas quebrando a cabeça pra onde poderia ir, sem precisar respeitar nada, métrica, sampleei coisas dos outros discos dele, tem um monte de Thiago aí”, continua Cabral, falando que jogou muitas coisas da máquina de sampler, inclusive coisas do Marginals, grupo de free jazz que ele tinha com o Thiago. “Eu e o Cabral tocamos junto há muito tempo, então mesmo remotamente tem muito entrosamento e muita confiança um no outro também, e por mais que eu desejasse essa estética mais eletrônica, super produzida, não queria perder orgânico, o ‘tocado’, e eu sabia que ele ia entender isso sem precisar explicar.” Entre as faixas do EP estão a faixa título do disco RAN da Space Charanga, “Nostalgia Perus” do disco que Thiago fez em homenagem ao clássico livro Malagueta, Perus e Bacanaço de João Antonio, “Pedra do Rei” que ele gravou com sua Espetacular Charanga do França e a clássica “Angolana”, do Metá Metá, que ele antecipou em primeira mão para o Trabalho Sujo. Ouça abaixo:  

A Charanga vai à Europa!

A Charanga do França cruza o Atlântico e começa sua primeira turnê internacional neste fim de semana, quando levam o clima do carnaval paulistano para a Europa. Conversei com o fundador da banda, o maestro e manda-chuva Thiago França, em uma matéria que fiz sobre a viagem para o Toca UOL e ele comenta a possibilidade da viagem, que passa pela Inglaterra, Dinamarca e Holanda, faça as pessoas perceberem que o grupo não é uma atração de carnaval. “Assim os programadores talvez percam a resistência de achar que é muito nichado por ser instrumental ou muito sazonal, por ser carnavalesco”, me explicou na entrevista.  

Mais uma vez no Sabe Som

Thiago ressuscitou seu podcast Sabe Som?, que agora está hospedado na rede Brasil de Fato, e me convidou para participar mais uma vez do programa, fazendo um balanço do que aconteceu na música de 2020 pra cá e me pedindo para levantar os discos que considero os mais importantes lançados neste período. Abaixo deixo tanto o link pra quem quiser ouvir o programa no Spotify – em breve deve ter uma versão no YouTube – quanto ler a matéria que escreveram no site sobre a minha participação no programa.  

Os 50 discos brasileiros mais importantes de 2024 segundo júri da Associação Paulista dos Críticos de Arte

Nesta segunda-feira, a Associação Paulista de Críticos de Arte reúne-se mais uma vez para escolher os grandes nomes do ano que passou e esta relação abaixo lista os 50 discos mais importantes de 2024 de acordo com o júri de música popular da Associação, da qual faço parte ao lado de Adriana de Barros (Mistura Cultural), Bruno Capelas (Programa de Indie), Camilo Rocha (Bate Estaca), Cleber Facchi (Música Instantânea), Felipe Machado (Times Brasil), Guilherme Werneck (Canal Meio), José Norberto Flesch (Canal do Flesch), Marcelo Costa (Scream & Yell), Pedro Antunes (Tem um Gato na Minha Vitrola) e Pérola Mathias (Poro Aberto).

Adorável Clichê – Sonhos Que Nunca Morrem
Alaíde Costa – E o Tempo Agora Quer Voar
Amaro Freitas – Y’Y
Bebé – Salve-se!
Black Pantera – Perpétuo
Bonifrate – Dragão Volante
Boogarins – Bacuri
Cátia de França – No Rastro de Catarina
Caxtrinho – Queda Livre
Céu – Novela
Chico Bernardes – Outros Fios
Chico César e Zeca Baleiro – Ao Arrepio da Lei
Crizin da Z.O. – Acelero
Curumin – Pedra de Selva
Duda Beat – Tara e Tal
Exclusive Os Cabides – Coisas Estranhas
Febem – Abaixo do Radar
Fresno – Eu Nunca Fui Embora
Giovani Cidreira – Carnaval Eu Chego Lá
Gueersh – Interferências na Fazendinha
Hermeto Pascoal – Pra você, Ilza
Ilessi – Atlântico Negro
Josyara – Mandinga Multiplicação – Josyara Canta Timbalada
Junio Barreto – O Sol e o Sal do Suor
Kamau – Documentário
Lauiz – Perigo Imediato
Luiza Brina – Prece
Maria Beraldo – Colinho
Milton Nascimento & Esperanza Spalding – Milton + Esperanza
Ná Ozzetti e Luiz Tatit – De Lua
Nando Reis – Uma Estrela Misteriosa
Negro Leo – RELA
Nina Maia – Inteira
Nomade Orquestra – Terceiro Mundo
Oruã – Passe
Papangu – Lampião Rei
Paula Cavalciuk – Pangeia
Pluma – Não Leve a Mal
Pullovers – Vida Vale a Pena?
Samuel Rosa – Rosa
Selton – Gringo Vol. 1
Sergio Krakowski Trio e Jards Macalé – Mascarada: Zé Kéti
Silvia Machete – Invisible Woman
Sofia Freire – Ponta da Língua
Tássia Reis – Topo da Minha Cabeça
Taxidermia – Vera Cruz Island
Teto Preto – Fala
Thalin, Cravinhos, Pirlo, iloveyoulangelo & VCR Slim – Maria Esmeralda
Thiago França – Canhoto de Pé
Zé Manoel – Coral

Descarrego de fim de ano

Já dá pra dizer que show do Metá Metá em dezembro já é uma tradição de fim de ano, como reforçou o camarada José à saída da primeira das duas apresentações que a melhor banda do Brasil faz esta semana no porão da Casa de Francisca. O encontro de Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci é sempre um acontecimento, mesmo que eles mantenham intocável o mesmo repertório há uns bons anos. Não que isso seja um problema, pelo contrário. Ao reforçar uma seleção de músicas contemporâneas que já são clássicas, o trio pega o público pela goela e faz o que quiser com ele, tangendo-o da catarse à devoção como se tudo estivesse combinado. É sempre impressionante o que uma combinação tão improvável e mínima de instrumentos (voz, violão e saxofone ou flauta) consegue mexer com os ouvinte, atirando todos contra uma parede de som que faz expectativas altas serem ultrapassadas como se fossem fáceis. E passeando entre canções próprias – um rosário esplendoroso que inclui “Exu”, “Oyá”, “São Jorge”, “Vale do Jucá”, “Orunmilá”, “Atotô”, “Cobra Rasteira”, “Iyami Ilê Oró” – e alheias, como “Trovoa” de Maurício Pereira que o grupo eternizou cantada como se fosse um hino e uma oração, “Samuel” do Passo Torto (dedicada a um dos integrantes do grupo, Rômulo Froes, que estava presente) e “Let’s Play That” de Jards Macalé e Torquato Neto, além de três de Douglas Germano, “Sozinho”, “Rainha das Cabeças” e a joia “Vias de Fato”, em que Kiko convidou o próprio Douglas, que também estava na casa, para dividir os vocais com Juçara. Nos poucos momentos em que conversaram com o público destacou-se a insistência – justa – de Thiago França para que os presentes participassem da eleição para o Conselho Participativo Municipal que acontece neste domingo: “Cada um procure a sua subprefeitura e os candidatos progressistas pra gente parar de perder essa guerra por W.O.”, lembrando para levar RG e comprovante de residência para garantir a votação. “Não adianta reclamar na segunda-feira no Instagram”, esbravejou o saxofonista, com razão, abrindo caminho para encerrar a noite com a implacável “Obá Iná”. De lavar a alma.

Assista abaixo:  

Deixa andar…

Neste domingo pude ver mais um show que Juçara Marçal fez celebrando seu clássico disco de estreia, Encarnado, desta vez no Itaú Cultural, o primeiro no ano com a presença de Thiago França. Como nas outras vezes, a apresentação contou com o trio cinco estrelas que funda o púlpito eletroacústico em que a mestra discorre sua trágica obra: o suíço Thomas Rohrer na rabeca, Kiko Dinucci na guitarra e Rodrigo Campos alternando entre a guitarra e o cavaquinho. E além dos clássicos do disco de 2014 (canções inesquecíveis de seus compadres – “Velho Amarelo” de Rodrigo Campos, “Queimando a Língua” de Rômulo Froes, “Pena Mais que Perfeita” de Gui Amabis e “A Velha da Capa Preta” de Siba, além do ápice ao vivo que é a transição entre a dramática “Ciranda do Aborto” – ainda mais cantada neste fim de 2024 – e a bucólica “Canção para Ninar Oxum”), Ju ainda passeou por canções clássicas de seu cânone brasileiro pessoal, como “Xote de Navegação” de Chico Buarque (em que é acompanhada apenas por Thomas tocando um fuê de cozinha e desandou numa versão noise para “Odoyá”) e “Dor Elegante” do Itamar Assumpção (quando convidou Thiago para o palco e deslizou no nome do autor num momento cômico involuntário que serviu para dissipar o clima tenso da noite até então). Aproveitou a presença de Thiago para voltar ao disco com a imortal “Damião” e “E o Quico?”, do mesmo Itamar (qual deles?), com o maestro da Charanga disparando eletrônicos em vez de tocar seu sax. O show terminou com a saudação a Tom Zé em “Não Tenha Ódio no Verão” (e seu refrão desopilador) e as três tragédias suburbanas descritos por Paulinho da Viola (“Comprimido”), Kiko Dinucci (“João Carranca”) e Rômulo e Thiago (“Presente de Casamento”). O show terminou no alto com uma inédita que veio no bis, quando o quinteto novamente reunido, instigou o público com a emblemática “Opinião”, de Zé Keti, numa versão eletrocutada. Deixa andar…

Assista abaixo: