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Madonna conseguiu – de novo

“A pista de dança não é só um lugar, é uma fronteira”, canta Madonna na sinuosa “One Step Away”, quase no início de seu recém-lançado novo disco, Confessions II, “um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”. E assim Madonna conseguiu se superar. Confessions II não é só o disco que prometia como põe a diva pop no topo de 2026 como pouquíssimos artistas conseguiram chegar até agora. O novo disco segue a lógica do disco original: Confessions on a Dance Floor, de 2005, que Madonna fez sob a direção do maestro dance Stuart Price, e nos deu ao mundo hits como “Hung Up”, “Sorry” e “Jump”, era seu penúltimo grande feito artístico, se levarmos em conta a gigantesca turnê The Celebration Tour (que encerrou em grande estilo na praia de Copacabana, em 2024) como sua última tour-de-force. Mas se Celebration tinha ares de turnê de despedida, Confessions II mostra que Madonna ainda tem disposição para seguir ditando rumos. Como o disco de 2005, o novo também é dirigido por Price, que transforma o disco num delicioso e forte set de pista que não deixa ninguém parado, mesmo nos momentos mais introspectivos. Nostálgico sem ser retrô, ele supera o primeiro disco ao rever a carreira de Madonna como uma celebração à dance music como um todo, abraçando diferentes gêneros – da house ao trance, do techno à disco music – como facetas de algo nada superficial, que é a louvação da pista de dança como espaço espiritual, ou, como ela coloca explica literalmente em outra canção, “dançar é amar sem palavras”. E ela observa tudo de cima, não apenas como madre superiora ou DJ de almas, mas como pioneira e fonte de luz, sem nunca esquecer que foi ali embaixo, na pista, dançando, que começou. E se lembrarmos que ela está com quase 70 anos e decidiu atingir esse topo sem abrir mão de seu território de origem (justamente a pista), esse trunfo ganha méritos louváveis, como se Paul McCartney ou os Rolling Stones (duas décadas mais velhos que ela) pudesse ter lançado discos vinte anos atrás em que se pudessem se conectar com a geração do rock do início deste século. E assim Sabrina Carpenter, Stromae e Feid aparecem como meros coadjuvantes que são e não como chancelas geracionais. Discaço.

Achtung Baby Covered

E por falar na revista Q, vocês viram o tributo que ela fez ao Achtung Baby? Felizmente o disco de 91 vem sendo cada vez mais celebrado como sendo o grande disco do U2, deixando clássicos anteriores como Joshua Tree ou Unforgettable Fire na poeira messiânica do passado. No disco-tributo, que acompanha a edição de dezembro, a revista reuniu nomes como Patti Smith, Jack White, Killers, Depeche Mode, Garbage e Nine Inch Nails, entre outros, para celebrar o primeiro disco europeu do grupo irlandês. O resultado, infelizmente, paira entre a pasmaceira e o horror. Os vídeos (e meus comentários) para cada uma das músicas do tributo seguem abaixo, como eu vi no Scream & Yell.

 

Scissor Sisters 2010

Não duvide se o Scissor Sisters vierem com um discaço por aí – e as dicas aparecem nos detalhes. O novo single, chamado “Invisible Light”, mostra que a banda assumiu que pode sair do truque do falsete Bee Gees rumo a voos mais pretensiosos. Com seis minutos, a faixa que encerra Night Work – que será lançado no final de junho deste ano – é a prova de que o casamento com o produtor Stuart Price deu certo. Produtor de quase tudo da Madonna pós-“Hung Up”, o pé dos Killers na eletrônica e dono de projetos como Zoot Woman e Les Rhytmes Digitales, Price fez com que os Sisters deixassem o lado one-hit-wonder em segundo plano e deu-lhes maturidade e densidade cujo segredo pode ser desvendado com a participação do ator Ian McKellen no single. O ator que dá vida ao Magneto dos X-Men declama uma longa fala sobre “painted whores, sexual gladiators, fiercely old party children all wake from their slumber to debut the bacchanal” num tom que remete diretamente ao discurso de Vincent Price em “Thriller”. E se o single de Michael Jackson buscava um ator clássico de terror para dar o clima adequado a um clipe de zumbis, o dos Sisters parece se escorar em McKellen para fazer a ponte entre a decadência do Império Romano e a disco music. Parece besteira, mas se as condições de temperatura e pressão forem as certas, eles podem mudar de patamar.


Scissor Sisters – “Invisible Light