
“Numa conferência sobre zen-budismo no inverno passado, o doutor Suzuki disse: ‘antes de estudar zen, homens são homens e montanhas são montanhas. Enquanto se estuda zen, as coisas se tornam confusas, não se sabe exatamente o que é o que e qual é qual. E depois de estudar zen, homens são homens e montanhas são montanhas’. Depois da conferência foi feita a pergunta: ‘Doutor Suzuki, qual é a diferença entre homens são homens e montanhas são montanhas antes de estudar zen e homens são homens e montanhas são montanhas depois de estudar zen?’. Suzuki respondeu: ‘A mesma coisa, só um pouco como se você tivesse os pés um tanto fora do chão’. Agora, antes de estudar música, homens são homens e sons são sons.” Com essa apresentação falada citando John Cage para explicar o título de sua temporada, o produtor Barulhista nos convidou para um mergulho profundo em cinco atos de ambiência, todos cronometrados por um timer colocado no palco – e, por que não, transformado em instrumento. Ele começou o primeiro ato ao piano, aos poucos repetindo notas que ganhavam ritmo e o ajudaram a fazer a transição para os beats eletrônicos, tocando o piano com a mão direita e os synths com a esquerda. O segundo ato recebeu o projeto solitário de Luciano Valério, MNTH, que trouxe camadas etéreas de ruído branco e melódico enquanto Barulhista batucava num caixote, que também foi acompanhado pelo piano e pelos eletrônicos ao final desta parte. O terceiro ato viu a chegada do poeta Diogo Cardoso, que abriu sua participação estalando batidas com os lábios e a língua, antes de ler trechos de seus dois livros, Sem Lugar a Voz (2016) e Língua Nômade (2025), aos poucos convertendo palavras em sons e finalmente canto. O quarto trecho foi um solo ambient de MNTH, transe que antecedeu o ato final, em que os três se entregaram às palavras e aos sons, sintetizando a mágica apresentação, que ainda contou com vídeos de Nando Motta e codireção (e iluminação) de Renato Hermeto, embora, como tenha reforçado o protagonista da noite, “quem dirige é o acaso” – e sons são sons.
#barulhistanocentrodaterra #barulhista #centrodaterra #centrodaterra2025 #trabalhosujo2025shows 081

“Tem umas coisas estranhas e bizarras acontecendo”, disse Bruce Springsteen, durante seu segundo show em Manchester, na Inglaterra, no fim de semana passado. “Nos Estados Unidos, estão perseguindo pessoas por usarem seu direito à liberdade de expressão e por manifestarem opiniões contrárias. Isso está acontecendo agora. Nos Estados Unidos, os homens ricos estão abandonando as crianças mais pobres do mundo para morrer. Isso está acontecendo agora. No meu país, estão sentindo um prazer sádico pela dor que prejudicam trabalhadores leais americanos e estão revertendo legislações históricas de direitos civis que levaram a uma sociedade mais justa e moral. Estão abandonando nossos grandes aliados e se aliando com ditadores contra aqueles que lutam por sua liberdade. Estão retirando moradores das ruas americanas e, sem o devido processo legal, os deportando para centros de detenção e prisões estrangeiras. Tudo isso está acontecendo agora.” No primeiro show, realizado na quarta da semana passada, ele já havia levantado a voz contra a administração Trump, o que fez o presidente dos EUA twittar falando mal de Bruce feito uma criança mimada (ele já havia feito algo parecido no dia anterior, falando que foi só ele tornar-se presidente pra Taylor Swift deixar de ser “HOT”). Mas após a fala acima, Trump engrossou o tom e resolveu sair falando mal de todos os artistas que apoiaram sua ex-adversária na eleição do ano passado, Kamala Harris, avisando que iria perseguir os artistas que a apoiaram, incluindo Bono e Beyoncé. Fico pensando na possibilidade dos músicos anti-Trump se reunirem para gravar uma música contra seu regime totalitário e o nível de bizarrice que seria se o “We Are the World” desta geração for uma música contra o presidente dos Estados Unidos. Bem a cara dessa época, se você parar pra pensar…
Assista abaixo: Continue

A turnê mundial de Dua Lipa entrou no continente europeu na semana passada mantendo o padrão que ela estabeleceu quando passou pela Oceania, e após apresentar sua banda em “These Walls”, vai para um palco menor no meio da plateia para cantar músicas de artistas de cada país em que ela passa. Foi assim quando esteve em Madri, quando saudou Enrique Iglesias cantando “Héro” e emocionou a todos pinçando “Me Gustas Tu” do repertório de Manu Chao. Quando passou pela França, nos dois shows que fez na cidade de Auvergne-Rhône-Alpes, perto de Lyon, cantou primeiro, em francês, a balada “Dernière Danse” da cantora Indila, e depois “Get Lucky” da dupla Daft Punk. E começou essa semana com dois shows em Hamburgo, o primeiro esta segunda, quando atreveu-se a cantar em alemão – e saiu-se bem! – o hit mundial da cantora new wave Nena, a imortal “99 Luftballons”. Ela faz outro show na cidade nessa terça… Será que ela vai tocar Kraftwerk?
Assista aos videos abaixo: Continue

Eis os novos horários do C6 Fest desse ano. Deu uma melhorada, deu pra ver que valeu a pena falar pelas redes sociais e deu até pra ver a boa intenção nos horários do sábado, mas o Gossip ainda ficou espremido entre os Pretenders e o Air…
Veja abaixo: Continue

É uma cena de tirar o fôlego que o próprio System of a Down anunciou em suas redes sociais que “não é uma zona de guerra, nem um tumulto”. Depois de Madonna, The Weeknd e Lady Gaga, foi a vez do System of a Down engrossar o coro de artistas que vêm para o Brasil fazer shows gigantescos que contam com a excitação do nosso público pra tirar onda e virar notícia lá fora ao encerrar a turnê de nove shows (cinco no Brasil) em que fizeram pela América do Sul. A moda pegou e pode ficar tranquilo que nos próximos meses veremos cada vez mais demonstrações dessa grandeza – o que inevitavelmente trará estrangeiros pra ver esses shows gigantescos por aqui.
Assista abaixo: Continue

O sujeito está prestes a completar 84 anos e não para de nos surpreender. Primeiro foi nesta terça, quando realizou o primeiro show de mais uma turnê que vem fazendo com Willie Nelson (a tal Outlaw Tour, que fez os dois se encontrar no ano passado), em Phoenix, nos EUA, e pinçou algumas músicas que não tocava há tempos, como sua clássica “Mr. Tambourine Man” e versões de músicas que nunca havia tocado, como “Axe In The Wind” de George “Wild Child” Butler, “I’ll Make It All Up To You” de Jerry Lee Lewis e “A Rainy Night In Soho”, clássico dos Pogues, que encerrou a noite (assista aos vídeos abaixo). Não bastasse isso, parece que ele está prestes a lançar o segundo volume de suas Crônicas, algo que os fãs já haviam desistido. A notícia, no entanto, veio de uma fonte pouco provável, quando Sean Penn, que foi o narrador da versão em áudio do livro autobiográfico que Dylan lançou em 2004, deixou escapar em uma entrevista para o podcast de Louis Theroux no Spotify, que “parece que irei fazer o segundo também. É, Crônicas Dois!”. Dedos cruzados! Continue

Nesta terça-feira temos a satisfação de receber a cantora e compositora mineira Josy.Anne, que começa a revelar a segunda parte de sua trilogia, batizada de Negra Ressonância Mineira, depois de lançar o primeiro capítulo como um disco, chamado de Mozamba. No espetáculo desta terça, ela começa a investigar como será a continuação de sua saga, em que ela mergulha nas tradições de seu estado para falar sobre negritude e ancestralidade a partir deste recorte social e geográfico. No segundo ato, que ela chama de Bateia (que vem com um subtítulo ousado: Gira Que Salta para o Novo), ela vem acompanhada de uma bandaça, com Curumin na bateria, Maurício Badé na percussão e Podeserdesligado nos efeitos e produção eletrônica. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.
#josyannenocentrodaterra #josyanne #centrodaterra #centrodaterra2025

Eu não estava. Pelamordedeus, o que que é isso? Tragam urgente o show solo dessa mulher pro Brasil!
Assista abaixo: Continue

Sábado pude comparecer a mais uma missa do papa negro Mateus Aleluia, que, mesmo lançando disco novo neste fim de semana (o soberbo disco batizado com seu próprio nome), preferiu ater-se ao seu repertório clássico, que une tanto pérolas do africanto dos Tincoãs, ancestral trio vocal que trouxe o terreiro puro para o repertório da MPB ainda nos anos 70, quanto hinos já imortais de sua recente carreira solo. A apresentação aconteceu na Casa Natura Musical e eu escrevi mais uma vez cobri um show para o Toca do UOL. Continue

O encontro de Maria Beraldo e Arrigo Barnabé no palco que aconteceu neste sábado, no Sesc Avenida Paulista, é uma grande ideia, para começar, conceitual. Parte do encontro Travessia, idealizado por Caroline Zitto e dirigido pelo Curumin, a apresentação foi a segunda noite do evento, no dia seguinte à da dupla Di Melo e Jadsa e no dia anterior à junção de Yma e Maurício Pereira. O alinhamento cósmico Arrigo e Beraldo não é novidade, só ganha outros contornos em 2025, quando a compositora catarinense já tem sua carreira solo consolidada (com o ótimo segundo disco Colinho, lançado em 2024) e não mais como integrante da banda do mestre Crocodilo. Sem acompanhamentos, os dois se confrontaram com vozes e instrumentos – Arrigo sentado ao piano elétrico, Beraldo alternando-se entre ficar sentada ou de pé para tocar clarinete ou guitarra. Os dois começaram com um envolvente número instrumental (ele ao piano, ela no clarinete) e foram para a chuvosa (num sábado igualmente chuvoso) “Cidade Oculta” de Arrigo emendada com uma versão deslumbrante para “Ninfomaníaca” do disco mais recente de Maria, que Arrigo aproveitou para recitar a tradução que Augusto de Campos fez para o Canto I do Inferno da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Ele deixou o palco e ela seguiu só na guitarra, quando puxou sua “Da Menor Importância”, de seu primeiro disco, Cavala, emendou um solo de clarinete (enquanto fazia sua guitarra rugir com os pés) que transformou-se em uma versão cacofônica de “Rainha” para chegar à melodia plena da fatalista “Baleia”. Arrigo voltou ao palco quando sozinho ao piano visitou Itamar Assumpção (“Noite Torta”), Carlos Drummond de Andrade (ao recitar de pé “Relógio do Rosário”) e um número instrumental, antes de trazer de volta sua pupila e entraram juntos na parte final do show. Esta veio com a mistura de “Diversões Eletrônicas” com “I Can’t Stand My Father Anymore”, que foi sensacional, e descambou a dupla final do show, quando visitaram as clássicas “Sabor de Veneno” e “Clara Crocodilo” para a encerrar a apresentação lá no alto e num lugar familiar aos dois, numa boa amostra do que foi essa noite mágica.
#arrigobarnabe #mariaberaldo #sescavenidapaulista #trabalhosujo2025shows 079