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Show

Texto que escrevi pro blog do Estadão sobre o SWU falando dúnico show que vi no festival até agora.

Foi com dor no coração que eu disse não ao Rage Against the Machine. Não tanta dor assim, metade é floreio textual. Mas quando vi as condições a que o SWU submeteu seu público, assim que cheguei na Fazenda Maeda para assistir apenas aos Apples in Stereo, fiquei feliz em ter escolhido não ficar até o fim do primeiro dia do festival. E nem precisei ficar sabendo dos relatos deprimentes de horas de tortura em trânsito para sair do festival (#radioheadfeelings) como sentir o frio na pele para identificar o tamanho da roubada. Apenas vi a minúscula estradinha de terra que o evento colocou para escoar todos os sabe-se lá quantos mil carros que os diferentes estacionamentos iriam escoar. Não havia anoitecido ainda, mas já dava para antever o mar de luzes traseiras vermelhas à frente do pobre motorista, cercado por outros em idêntica situação – vendo o êxtase de ver sua banda favorita ao vivo transformar-se numa raiva incontrolável contra o amadorismo semiprofissional da indústria de entretenimento brasileira.

Por isso, disse não ao Rage. Led Zeppelin de minha adolescência, havia jurado para mim que ainda os veria em vida, dane-se se voltassem só pela grana (e como se tocar música não fosse o trabalho dos caras). Mas como promessas para si mesmo são as mais tranquilas de serem abortadas, deixei para lá. Mas o fator determinante que me fez ir ao SWU em seu primeiro dia foi uma bandinha minúscula dos Estados Unidos, que, com quase vinte anos de carreira, é uma pequena nota de rodapé na história da música pop, mas que também é quase um capítulo inteiro em uma das minhas partes favoritas da história do rock: a psicodelia. O Apples in Stereo faz parte do mesmo coletivo Elephant 6 que deu ao mundo o Olivia Tremor Control, o Neutral Milk Hotel e o Elf Power, bandas que, do fim dos anos 90 até hoje, ajudam a manter acesa a chama da lisergia entre os nomes no rock independente do século 21. E era a principal atração – a única internacional – de um dos palcos do festival.

Liderada por Robert Schneider (que foi entrevistado pelo Fred Leal no C2 Música deste sábado e no Link desta segunda), a banda vem abandonando o lado barroco lo-fi de seus primeiros discos nos últimos anos, dando mais ênfase à faceta pop e objetiva de hits fáceis de ser lembrados. Seu disco mais recente, Travellers in Space and Time, é um dos melhores álbuns de 2010, mesmo que esteja longe de ser lembrado pelas listas de melhores do ano, tanto do público quanto da crítica. Por serem comercialmente minúsculos, quase sempre não são lembrados nesta hora.

Mais um motivo para assistir aos Apples – eles disputariam público com uma das raras apresentações dos Los Hermanos e tocariam quando a dupla canadense MSTRKRFT tocasse na tenda de dance music. Dois concorrentes de peso, para tirar público da banda. O espaço dedicado aos Apples estaria, portanto, mais transitável, menos abarrotado, mais civilizado. Em condições normais, os Apples in Stereo teriam tocado em São Paulo num palco do Sesc, talvez no Espaço +Soma ou no Studio SP, o que inevitavelmente tornaria sua apresentação disputadíssima. Mas no ambiente do festival, ela tornou-se praticamente um luau para os fãs da banda.

Um show redondíssimo, de pouco mais de uma hora, em que a banda esmerilhou todo seu pop psicodélico futurista e radiante para um público pequeno, mas completamente em sintonia com a banda. Em pouco mais de uma hora, se divertindo tanto quanto o público, a banda criou uma bolha de boas vibrações que praticamente os isolou do clima de vinho barato do SWU (mesmo que a única bebida alcóolica à venda fosse cerveja). Alternando principalmente músicas dos dois últimos discos (Travelling e New Magnetic Wonder, de 2007), o show também funcionou por ter evitado o complexo de épico que reinava sobre o festival.

Terminado o Apples in Stereo, logo logo ouviria o Mars Volta funcionando como trilha sonora perfeita para ir embora. O som de pesadelo – não estou ficando velho, Mars Volta é bem ruim mesmo – funcionava como um presságio para o tumulto e o pânico que reinaram sobre a madrugada. Estava de volta à estrada antes das 22h e li, pela internet, a confusão que aconteceu durante o show do Rage Against the Machine.

A dúvida agora é saber se vale à pena chegar na fazenda de novo nesta segunda-feira a tempo de ver o Yo La Tengo e encarar Josh Rouse e Cansei de Ser Sexy antes dos Pixies (Queens of the Stone Age eu passo, muito obrigado). Mas a certeza é única – mesmo que tenha Linkin Park e Tiesto depois dos Pixies, acho válido sacrificar o bis da banda americana para não pegar o perrengue da saída. Pois, não duvide, muita gente vai ficar só até os Pixies – o suficiente para tumultuar aquela minúscula estrada de terra.


“Hey Elevator”


“Dignified Dignitary”


“Go”


“Energy” / “Dance Floor”


“Told You Once”


“Rainbow” / “No One in the World”


“Next Year About the Same Time”


“Can You Feel It?”


“Please”


“Same Old Drag” / “Ruby”

Mais uma do Bill Hicks, cortesia do Emer.

A última faixa deste Yoshimi Hip Hop, no entanto, não usa rappers como vocalista – e sim o comediante Bill Hicks. Uma pequena aulinha de vidafodona, olha só:

“The world is like a ride at an amusement park. And when you choose to go on it, you think that it’s real because that’s how powerful our minds are. And the ride goes up and down and round and round. It has thrills and chills, and it’s very brightly coloured, and it’s very loud and it’s fun, for a while. Some people have been on the ride for a long time, and they begin to question – is this real, or is this just a ride? And other people have remembered, and they come back to us. They say ‘Hey! Don’t worry, don’t be afraid, ever, because, this is just a ride.’ And we…kill those people. Ha ha ha. ‘Shut him up! We have a lot invested in this ride. SHUT HIM UP! Look at my furrows of worry. Look at my big bank account and family. This just has to be real.’ It’s just a ride. But we always kill those good guys who try and tell us that, you ever notice that? And let the demons run amok. But it doesn’t matter because: it’s just a ride. And we can change it anytime we want. It’s only a choice. No effort, no work, no job, no savings, and money. A choice, right now, between fear and love. The eyes of fear want you to put bigger locks on your doors, buy guns, close yourselves off. The eyes of love, instead, see all of us as one. Here’s what you can do to change the world, right now, to a better ride. Take all that money that we spend on weapons and defence each year, and instead spend it feeding, clothing and educating the poor of the world, which it would many times over, not one human being excluded, and we could explore space, together, both inner and outer, for ever, in peace.”

Se alguém se dispuser a traduzir, por favor, o faça – que eu publico aqui.

O João traduziu, se liga:

“O mundo é como um passeio em um parque de diversões. E quando você escolhe entrar nele, você pensa que ele é real porque nossa mente é poderosa. E no passeio você vai para cima e para baixo e dá voltas. Ele tem emoções e calmarias, e é muito brilhante e colorido, e é muito barulhento e é divertido, por um tempo. Algumas pessoas estão no passeio por muito tempo, e elas começam a questionar – isso é real ou é só um passeio? E outras pessoas lembram, e elas voltam para a gente. Elas dizem “Ei! Não se preocupe, não fique com medo, nunca, porque é só um passeio”. E a gente… mata essas pessoas. Ha ha ha. “Calem a boca dele! Nós temos muito investido nesse passeio. CALEM A BOCA DELE! Olhe para minhas rugas de preocupação. Olhe para minha rica conta bancária e minha família. Isso tem que ser real.” É só um passeio. Mas nós sempre matamos esses caras bons que tentam e nos dizem isso, você já percebeu isso? E deixamos os demonios enlouquecer. Mas isso
não importa porque é só um passeio. E podemos mudar a hora que quisermos. É só uma escolha. Nenhum esforço, nenhum trabalho, nenhum emprego, nenhuma economia, e dinheiro. Uma escolha, agora, entre medo e amor. Os olhos do medo querem que você coloque fechaduras maiores nas suas portas, compre armas, se tranque. Os olhos do amor, por outro lado, veêm todos nós como um. Eis o que vocês podem fazer para mudar o mundo, agora, para um passeio melhor. Pegue todo o dinheiro que gastamos em armas e defesa todo ano e ao invés disso invista em alimentação, roupas e educação para os pobres em todo o mundo de forma que nenhum ser humano seja excluido e nós poderemos explorar o espaço, juntos, tanto por dentro quanto por fora, para sempre, em paz.”

Valeu, bicho!


The Kleptones – “Last Words (A Tribute)