
A inesperada volta de Bobby Womack trouxe a ainda mais inusitada parceria com Lana Del Rey, em “Dayglo Reflection”. E o blue beat que transforma a canção num híbrido de soul elemental com balada dubstep funciona como cenário tanto para a introspecção gospel do vocal emotivo do velho Bobby como para o tom gélido e fatal do timbre da jovem Lana. O resultado, que soa indigesto à primeira vista, torna-se um envolvente lamento que transcende idade, gênero, raça.
(E com o Damon Albarn acompanhando então… A música entra a partir dos quatro minutos no vídeo abaixo.)

A outra música que o Blur lançou em 2012 (além de “The Puritan“) alia duas qualidades da banda a uma de seu líder, Damon Albarn. Ela entra no rol de baladas sobre o cotidiano, lentas incursões introspectivas criadas ao piano que talvez sejam melhores que os hits instantâneos que a própria banda nos faz puxar pela memória, além do papel de cronista londrino, que descreve ruas, bairros, estradas, pessoas naquela obrigação de registrar uma história que não aparece nas manchetes de jornais – justamente por ser mais comezinha e fútil, corriqueira e mundana. Amarrando duas tradições do Blur à própria plural carreira solo, Damon Albarn prefere deixar sua primeira banda como principal veículo de comunicação com seu público, no mesmo ano em que lançou uma ópera sobre um conselheiro real do século 17 e um disco com o Flea e o Tony Allen (o trio que compôs minha música favorita de 2011). Não por acaso o Blur – que está longe do fim – foi uma das principais atrações durante os jogos olímpicos deste ano, realizados em Londres. E “Under the Westway” ainda tem a aceitação da maturidade, a consciência do reduto que é o saudosismo, uma melancolia inglesa rara (principalmente em tempos em que o pop da ilha é composto por dubstep, rockinhos de pista e bandas velhas voltando a todo minuto) que só encontra eco em extremos, como o do Xx ou o do Radiohead. Aqui, o sentimento é trivial como uma música que toca no rádio – algo que também é cada vez mais raro, ainda mais vindo de uma banda de rock.
Não há como não admirar a redescoberta da música africana que vem acontecendo no centro da música paulistana atual, reunindo talentos e novas celebridades ao redor da pluralidade polirrítmica e da harmonia tranversal da musicalidade do continente negro. É graças a esse não tão súbito interesse por diferentes aspectos de uma arte continental que personalidades como Kiko Dinucci (um dos maiores guitarristas do Brasil atualmente), Thiago França, Marcelo Cabral, Samba Sam e Wellington Moreira podem se encontrar em um projeto como o Sambanzo, nome que batiza o grupo (e que grupo!) liderado pelo sax endiabrado de Thiago. Mas “Capadócia” tem algo que transcende a Etiópia que dá nome ao álbum, o continente e vai encontrar parentesco na new wave dos Talking Heads, justamente em seu período caribenho, entre Fear of Music e o clássico show em Roma, em 1980. Culpa de Kiko, indie em pele de tribalista, que sabe muito bem o ponto em que o pós-punk converge com todo tipo de ritmo. E a cozinha, cubista e espacial, acompanha tudo de perto, escolhendo pontualmente os silêncios da faixa. Um clássico instantâneo.
Quem achava que o Bonde do Rolê nem chegaria ao segundo disco (como eu), deve ter se espantado (como me espantei) quando ouviu a versão anglófona do trio curitibano para “Baby Doll de Nylon”, do Robertinho do Recife. Contando com o auxílio luxuoso dos Poolside (grande nome deste ano) e de Caetano Veloso, verteram o xaveco pernambucano em um carimbó indie praiano, “Baby Don’t Deny It” faz muito sentido em um planeta que fica mais quente a cada segundo e dentro do bem sucedido TropicalBacanal, um disco que dá uma sobrevida improvável à existência do Bonde.

Mallu, por sua vez, vem saindo de sua casca indie e começa a explorar as possibilidades da canção até para além da influência de Marcelo Camelo, inevitável muso e influência de seu terceiro disco, Pitanga. “Me Sinto Ótima”, ainda sem disco e lançada num programa da MTV brasileira, mostra que ela vem ouvindo muita MPB dos anos 70 – Jards, Erasmo, Clube da Esquina, Rita Lee – e é prova de que a menina ainda tem muito o que mostrar.

Céu saiu do fumacê de seu segundo disco rumo a uma trip no deserto acompanhada de uma trupe de ases instrumentais, mas “Falta de Ar” talvez seja o momento mais jamaicano desse road album chamado Caravana Sereia Bloom.

E no meu segundo ano como curador dos shows do Festival da Cultura Inglesa, conseguimos o feito de trazer o Franz Ferdinand de graça para o Brasil, num show memorável, que trouxe músicas inéditas de um quarto disco que não viu a luz do dia em 2012. Fora a confusão com a polícia fora do Parque da Independência logo na hora em que o Franz subiu ao palco (lamentável), o show coroou um domingo no parque exemplar, que conseguiu ser ainda melhor que a vinda do Gang of Four ao mesmo evento em 2011. Em 2013 não consigo repetir a dose na curadoria, por isso despeço-me da função com o orgulho de ter organizado um dos grandes eventos de São Paulo no ano que termina.

O ano começou com outro convite-surpresa: o Sesc Pompéia me chamou para ser o curador da décima-terceira edição do Prata da Casa. E o convite ecoou como se minha cabeça fosse um sino: sempre fui fã do Sesc Pompéia e o Prata da Casa já havia me proporcionado ótimos shows com sua política de permitir apenas artistas de primeira viagem, sem disco gravado ou ainda no primeiro disco. O fato do convite ser relacionado à edição de número 13 (também sou fã) ainda veio junto de um novo desafio – afinal era a primeira vez que eles convidavam alguém que não era da imprensa especializada e apostavam no fato de eu ser, ao mesmo tempo, dono do Trabalho Sujo e editor de um caderno de tecnologia (os curadores anteriores – Pedro Alexandre Sanches, Carlos Calado, Israel do Vale, Marcus Preto, Patrícia Palumbo – sempre militaram na imprensa musical dos cadernos de cultura). Resolvi aceitar o cargo com algumas provocações – afinal, em tempos digitais, o que significava ter um primeiro disco? Assim, consegui trazer para o palco do Prata nomes como Dona Cila do Côco (85 anos de idade e um único CD), Bonifrate (que lança músicas em MP3 desde 2003 mas só havia lançado o primeiro disco no ano passado) e Max BO (que já pode ser considerado veterano da cena hip hop de São Paulo mas que só tem um disco lançado), mas sem perder a deixa pop deixada pelo curador do ano passado, José Flávio Júnior, que já havia expandido os horizontes do projeto para além da MPB ao trazer novos nomes do rap paulistano e a Banda Uó para o palco da choperia do Sesc. Assim, consegui colocar na programação do evento nomes que ajudaram a moldar a cara da música brasileira em 2012 – Silva, Cícero, Rodrigo Caçapa, Dead Lover’s Twisted Heart, Circo Motel, Rafael Castro, Elo da Corrente, O Terno, A Banda de Joseph Tourton, Mahmundi, Elma, Gang do Eletro, Rosie & Me, Afroeletro, Os Sertões, Dorgas, Pazes (um dos melhores shows do ano, o que menos deu público), Tibério Azul, Madrid, Quarto Negro, Me & the Plant, Kika, Chinese Cookie Poets, Onagra Claudique, Sambanzo e Ogi. Fui a quase todos os shows (só perdi alguns em que estive em licença médica) e filmei todos que fui, com a plena consciência de que estava fazendo um belo recorte do cenário musical atual – e em shows de graça, na inglória terça-feira (o dia mais morto da semana?), com lotação considerável por quase todas as apresentações. Agradeço à oportunidade ao Sesc, que fez valer sua fama de profissionalismo, e especialmente ao produtor Wagner Castro, que toda terça estava lá para acompanhar as atrações escolhidas e a me ajudar a fazer um balanço de como andava a curadoria. Um salve também pro fotógrafo Leonardo Mascaro, que aproveitou as terças de graça como laboratório para suas viagens com a luz, testemunha de boa parte de shows da temporada. Em fevereiro acontece a Mostra Prata da Casa 2012, em que, durante uma semana, duas atrações deste ano tocarão na mesma noite, de terça a domingo. Quando o ano começar eu dou mais detalhes dessa novidade.

Melhor ainda: na choperia do Sesc Pompéia! Coisa fina!

Não foi uma reunião do Nirvana, não foi épico, não foi histórico, talvez, se muito, divertido (e mais pra quem tava no palco): o fato é que a colaboração de Paul McCartney com os integrantes ainda vivos do Nirvana, para tocar uma música chamada “Cut Me Some Slack”, foi só mais um temperinho pro enorme Criança Esperança do Rock que aconteceu ontem em Nova York. Exagero? Veja abaixo:

