Emicida e banda subiram de branco ao palco Júlio Prestes da Virada Cultural neste fim de semana pra celebrar a tolerância religiosa, mas o rapper aproveitou pra dar o seu recado sobre as várias tensões que esticam-se sobre o Brasil atualmente. O Pedro Alexandre filmou e transcreveu, reproduzo abaixo (e vale ler seu relato completo lá no Farofa-fá, em que ele aprofunda-se nesta questão e em outras):
“E aí vira o quê? Os com-diploma versus os consciência. A Fundação é tudo, menos Casa, prum interno. É mó boi odiar o diabo, eu quero ver cê se ver lá no inferno. Não existe amor em SP? Existe pra caralho. Cês acham que as Mães de Maio chora por quê? Tendo que sobreviver ao pai que abusa, ao ferro sob a blusa, às farda que mata nós e nunca fica reclusa, ao Estado que te usa, ao padrão de beleza musa e aos otário que inda quer vim me falar de racismo ao contrário. Tempo doido, tempo doido, a espinha gela, onde as mulher é estuprada e no final a culpa ainda é delas. O problema é seu e da sua dor. Às vez eu me sinto inútil aqui, que eu não valho nada, igual o governo tem tratado os professor. Mas presses bunda mole aí que acha que nós tá dormindo, um aviso: não é porque nós tá sonhando que nós tá dormindo, viu?”.
É interessante notar a gradual transformação da persona pública do jovem Leandro, que aos poucos deixa de ser o rapaz gente boa da vizinhança pra começar a levantar o dedo pra quem levanta o dedo pra ele. É uma maturação artística que tem a ver com o seu próximo disco – que ele foi gravar na África – e o fato de ele estar aos poucos tocando instrumentos enquanto canta. Já rendeu um monólogo avassalador no Circo Voador no início do mês – e agora veio esse discurso da Virada. Sigo acompanhando.
A foto é do UOL.
Escrevi sobre o show de lançamento de Fortaleza, do Cidadão Instigado, na minha coluna Tudo Tanto da edição do mês passado da revista Caros Amigos. Lá embaixo tem os vídeos que fiz do mesmo show.
A maturidade do Cidadão Instigado
No lançamento do quarto ábum da banda cearense, Fortaleza, o público sabia cantar músicas que uma semana antes não conheciam
“Até que enfim
Eu cansei de me esquivar
Quanto tempo eu pensei em parar
Olho para o lado
Quanta gente diferente
E o que vou fazer?
Se não consigo te esquecer
Vou seguir…vou seguir”
Assim Fernando Catatau, líder do grupo cearense Cidadão Instigado, começa o quarto álbum de sua banda, batizado de Fortaleza, e seu show de lançamento deste que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, no início do mês passado. Ele não está cantando apenas sobre o sentido da vida, sobre um relacionamento ou sobre sua cidade-natal, mas sobre seu próprio conjunto, que levou mais de meia década para finalmente lançar seu novo disco .
Formado por Catatau na guitarra, composições e vocais, Régis Damasceno na segunda guitarra, Dustan Gallás nos teclados e efeitos, Rian Batista no baixo, o técnico de som Yuri Kalil e Clayton Martin na bateria, o Cidadão surgiu no final dos anos 90, com quase esta mesma formação, à exceção do paulistano Clayton, que juntou-se à banda quando ela já havia se mudado para São Paulo, na década passada. No século anterior, só um registro sobreviveu, um CD demo com cinco faixas batizado apenas de EP que hoje é tratado como raridade. A discografia oficial do grupo – O Ciclo da De:Cadência (2002), O Método Túfo de Experiências (2005) e Uhuuu! (2009) – é toda deste século.
Nestes discos, o grupo veio aprimorando uma sonoridade de rock clássico com um sabor especificamente brasileiro, a começar pelo carregado sotaque de seu vocalista e principal compositor. Catatau, guitar hero, conduz a banda para a virada dos anos 60 para os 70, quando os Beatles começavam a se desintegrar e o Pink Floyd e o Led Zeppelin a encontrarem seus rumos. Canções que se descortinam em dinâmicas elétricas que refletem tanto o momento em que o rock psicodélico começa a ficar mais pesado (Jimi Hendrix, Deep Purple, Black Sabbath) quanto como esta sonoridade se refletiu na música brasileira e particularmente nordestina (de Raul Seixas a Tutti Frutti, passando por Zé Ramalho, Fagner e Alceu Valença).
“Até que Enfim” não é a primeira música do disco Fortaleza à toa. A gestação do disco começou ainda em 2012, quando a banda se isolou em uma casa em Icaraizinho de Amontada, no litoral cearense, próximo a Jericoacoara. De lá pra cá foram três anos de amadurecimento musical que, pra começar, exigiu que a banda saísse de sua zona de conforto. Rian, Dustan e Regis trocaram de instrumentos: o baixista agora toca teclados, violão e fez os arranjos vocais, o segundo guitarrista assumiu o baixo e o tecladista pegou a segunda guitarra. Essa nova formatação mexeu com os brios da banda, que começou a pesar mais seu som, deixando as canções ensolaradas do disco de 2009 no passado. O disco continuou sendo gravado nos estúdios caseiros dos integrantes da banda até que, no início de 2015, o disco finalmente foi finalizado: vocais gravados, masterização em Los Angeles e lançamento pra download gratuito em seu próprio site, www.cidadaoinstigado.com.br
Fortaleza é um disco pesado no sentido musical, mas com momentos líricos e contemplativos (como a bela “Perto de Mim”, “Os Viajantes” e “Dudu Vivi Dada”) até um reggae (“Land of Light”). O peso dos anos 70 está nos timbres elétricos, mas eles estão longe de ser retrô. E o recado dado no decorrer do disco tem diferentes endereços, embora a principal referência seja a cidade-natal da banda que batiza o disco. Fortaleza pode ser ouvido como uma declaração de amor ao mesmo tempo que uma cobrança à capital cearense: “Minha Fortaleza ‘réia’ o que fizeram com você?”, pergunta o líder da banda no repente elétrico da faixa-título. Marca a maturidade do Cidadão Instigado em relação à busca da própria sonoridade.
Disponibilizado online na primeira semana de abril, o disco foi apresentado ao vivo uma semana depois de ter sido liberado na internet. E o show no Sesc Pompeia coroou este lançamento quando a banda ousou tocar praticamente o novo disco – e com as músicas quase em ordem idêntica – na íntegra, deixando o bis para tocar duas músicas de dois outros discos anteriores: “Lá Fora Tem” e a homenagem ao canadense Neil Young “Homem Velho”. E mesmo tocando pela primeira vez um disco que havia lançado há apenas uma semana, o Cidadão Instigado ainda contou com o coro da plateia em várias canções. Um momento especial para um disco de tal calibre.
Desde 2010, o Wilco organiza e encabeça o Solid Sound Festival, em que reúnem bandas de amigos e atrações afins para três dias de festa nas dependências do Massachusetts Museum of Contemporary Art, na cidade universitária de North Adams, nos EUA. O evento repetiu-se em 2011 e 2013 e sua quarta edição acontece a partir da próxima sexta e inclui nomes como Real Estate, Mac DeMarco, Parquet Courts, Richard Thompson Trio, NRBQ, Cibo Matto, Shabazz Palaces, Felice Brothers e, claro, o Wilco fechando todas as noites, além de projetos paralelos da banda.
Aproveitando a proximidade da edição deste ano, o grupo está lançando o documentário Every Other Summer, dirigido por Christoph Green e Brendan Canty, que trata da edição mais recente e que reuniu artistas como Yo La Tengo, Dream Syndicate, Foxygen, Neko Case, entre outros. o filme está sendo lançado numa plataforma on demand do Vimeo e pode baixado ou alugado digitalmente por uma semana por aqui.
E como no festival daquele ano o primeiro show do Wilco foi composto apenas por versões de músicas alheias em que a banda atendeu pedidos do público (na época eu linkei os vários videos que fizeram do show, com versões para músicas do Yo La Tengo, Kinks, Thin Lizzy, Stones, Abba, Television, Dylan, Velvet Underground, Neil Young, Beatles, Count Five, Daft Punk, Cheap Trick e The Band, entre outros), eles resolveram divulgar o documentário com a versão que fizeram para o hit do Pavement, “Cut Your Hair”.
Ainda na conexão Milton Nascimento / indie Brasil (que rendeu não apenas um, mas dois tributos só este mês), viram essa versão que o Hurtmold fez com o Paulo Santos, do Uakti, pra “Lágrima do Sul”?
O encontro (que repetiu-se durante a Virada deste fim de semana) já acontece há alguns shows – e esse aconteceu em março do ano passado, no Sesc Consolação. Pra quem não conhece a versão original, olha ela aí.
Dica do Julio (valeu!).
Se você ainda tem fôlego pós-Virada Cultural ou se o frio te venceu e te deixou em casa nesse sábado, a boa é pegar as atrações do Dia da Música que acontecem pelo decorrer da Paulista. São seis palco espalhados pela avenida, dois a cada estação do metrô entre a Brigadeiro e a Consolação, cada um deles com curadoria de gente que entende mesmo de música nova. São artistas essencialmente novos, nomes que você até pode ter ouvido falar mas que ainda estão em fase de maturação – imagine que você possa assistir à programação de um ano de Prata da Casa, aquele projeto de novas bandas do Sesc Pompeia, em um único domingo. Por isso pode ser que algum deles faz um show histórico para sua carreira, que engatilhe uma série de desdobramentos futuros que os tornarão mais conhecidos.
A programação está toda no site do Dia da Música, mas faço aqui minhas indicações: no palco curado pelo Dago, do Neu, perto do Itaú Cultural, vale sacar o show instrumental dos Soundscapes e as batidas tortas do CESRV, da turma da Beatwise. No palco do Lariú, do Midsummer Madness, perto da Brigadeiro, vale dar uma sacada no Digital Ameríndio, broder dos Supercordas. O palco do Mancha, da boa e velha casinha, fica perto do prédio da Fiesp tem três boas pedidas: Camila Garófalo, o ótimo Quarto Negro e os cariocas Simplício Neto e os Nefelibatas. No palco da Pâmela, da produtora Alavanca, devem valer a pena os shows dos goianos do Carne Doce e o pós-rock do E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante. No palco perto do Belas Artes, tocado pela Ângela Novaes, vale dar uma sacada no show dos Vermes do Limbo. E no palco organizado pelo Kamau, perto da esquina com a Angélica, vale ver os shows do Mesclado e da dupla Drik Barbosa & Mike. Fora que tem gente que eu não conheço nem de nome e pode surpreender. Vale passear pela Paulista nesse domingo e torcer pra que um dia, a avenida cartão postal, possa ser fechada (ou aberta?) aos domingos.
A edição paulistana do festival catalão Sónar confirmou neste sábado as vindas da dupla Chemical Brothers e do grupo inglês Hot Chip para o seu elenco. Além dos dois, o festival ainda trará o produtor francês de house Brodinski e o produtor inglês de hip hop Evian Christ. O evento acontecerá entre os dias 24 e 28 de novembro e além das atrações musicais (que se apresentarão no palco SónarClub), ainda trará festival de cinema (SónarCinema) e uma série de palestras (Sónar+D), cujas atrações serão divulgadas em setembro. Os shows acontecerão dia 26 no Espaço das Américas (ugh) e o ingresso custará salgados R$ 550,00. Uma escalação bem fraca, se não tiverem guardando nenhum ás na manga…
Os Smashing Pumpkins atravessam os Estados Unidos em sua primeira turnê acústica e em uma apresentação na cidade de Munhall durante essa semana, Billy Corgan revisitou o primeiro disco da banda tocando a introdução instrumental de cada uma das músicas do excelente Gish. O público ficou de cara…
E se isso é desculpa pra ouvir o Gish de novo…
Gabriela Deptulski abriu um portal intertemporal no sábado passado na Casa do Mancha. Seu My Magical Glowing Lens pode ter começado como um promissor projeto shoegaze num quarto em Colatina, no Espírito Santo, apenas com um computador, uma guitarra e vários pedais, mas ela está inconscientemente traçando um cânone desprezado por muitos ao fazer a conexão entre duas vertentes hoje clássicas no rock: a era de ouro dos anos 60 e a era pós-punk dos anos 80.
O fato do My Magical Glowing Lens não ser mais só Gabriela e sim uma banda com baixo, guitarra, teclado e bateria reforça essa conexão, mas ela já estava nos solos de guitarra da cantora e compositora, que embora sussurrasse sob camadas de microfonia seguindo a escola de bandas como Cure, Echo & the Bunnymen, Jesus & Mary Chain e My Bloody Valentine, já ecoavam sombras de Eric Clapton, Syd Barrett, Jimi Hendrix e Robbie Krieger.
A transformação do MMGL em banda conta com a aproximação do grupo The Single Malt, de Vila Velha, uma banda claramente com referências sessentistas e o diálogo do trio com a vocalista e guitarrista está engatando bem. O guitarrista Raími Leone funciona como contraponto perfeito para os solos de Gabriela, puxando bases hipnóticas ou improvisando solos de outra natureza, mais blues que psicodélica. Alternando ente o baixo e o teclado (onde faz as linhas de baixo), Pedro Moscardi deixa evidente as referências do início do rock pesado, ecoando Jack Bruce, Glen Hughes, John Entwistle e até Geddy Lee. Só o baterista Rafael Borges destoa do grupo, não por falta de afinidade e sim por excesso – ao esmurrar seu kit como um Keith Moon, ele perde a sutileza de seu instrumento nas partes que requerem mais intensidade do que força, mas nada que comprometa a apresentação.
A conexão entre as duas vertentes musicais – rock clássico e indie rock – pode ter sido acionada via Kevin Parker – é evidente a influência do guitarrista do Tame Impala no trabalho de Gabriela, mas ela é mais negada pelos fãs do que pelos músicos: o Jesus & Mary Chain se descrevia como o cruzamento de Stooges com “Be My Baby” e Beach Boys, o Echo & the Bunnymen venerava os Doors e o Cure gravou “Purple Haze” do Jimi Hendrix. Ao cutucar nessa ferida, o My Magical Glowing Lens pode estar começando uma utopia do indie rock brasileiro dos anos 90. Quem esteve lá sabe.
Filmei todo o show, saca só:
E segue firme o ritmo de reencontro do Oasis, as paralelas Liam e Noel inevitavelmente começam a se convergir para um cruzamento num horizonte próximo. Dessa vez foi Liam Gallagher quem juntou-se a dois ex-integrantes de sua banda pra tocar “My Generation” com o Roger Daltrey numa homenagem ao aniversário de vinte anos do programa TFI Friday. No mesmo dia teve Blur tocando “Coffee & TV” – postei os vídeos lá no meu blog do UOL.
Emicida pegou o microfone sozinho na quarta passada no palco do Circo Voador no Rio e mandou essa com dedo em riste:
Vai vendo…









