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Os ingressos já estão esgotados, mas não podia passar o registro da noite deste 4 de fevereiro, quando eu, Luiz e Danilo tocamos antes das Warpaint no MAC USP, dentro do no projeto The Art of Heineken.

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Continuando o resgates das minhas colunas da Caros Amigos para o Trabalho Sujo, segue o texto que escrevi para a edição de dezembro do ano passado sobre o festival brasiliense Satélite 061, que reuniu Elza Soares e Gal Costa debaixo da mítica torre de TV da capital do país.

Duas estrelas sob a Torre
Festival brasiliense Satélite 061 superou os problemas de produção com dois shows históricos de Elza Soares e Gal Costa

“Vida dura de quem trabalha acreditando na arte independente e que faz na raça mesmo”, ri Marta Carvalho, presidenta da Ossos do Ofício, associação multicultural que realiza o festival Satélite 061, a cuja quinta edição pude comparecer no final do mês de setembro, em Brasília. Ela ri quando peço para que ela conte a história de que ouvi falar, sobre como ela conseguiu pagar os artistas que se apresentaram em seu festival dois anos antes. “No ano de 2014, o festival contava somente com um pequeno patrocínio da Petrobras e para que acontecesse eu tinha que utilizar verba da Secretaria de Cultura para estruturas e cachês artísticos”, conta.

“Logo após o festival, o governo contingenciou as verbas para cultura inclusive vetando os pagamentos de eventos já executados. Sem opção, me uni a vários artistas do movimento cultural do Distrito Federal e fi zemos um plano radical: entramos na Secretaria de Fazenda do DF e nos acorrentamos. Só sairíamos de lá após termos as datas concretas da liberação dos recursos. Foi difícil, mas necessário para que pudéssemos honrar com os nossos compromissos.”

O festival também passou por maus bocados na edição deste ano, quando uma improvável tempestade no início da primavera – época em que não chove em Brasília –, danificou o equipamento no primeiro dia, atrasando a programação. “Com o atraso, tivemos que cancelar o show do BaianaSystem, mas que já marcamos nova data para acontecer. Será dia 18 de novembro, no Museu da República, dentro da programação do Festival Favela Sounds, que eu contribuo com a direção artística”, explica Marta. A queda do BaianaSystem da programação foi um baque num elenco maravilhoso.

O festival, que reunia várias bandas da cidade, entre grupos de rap, bandas de rock e sambistas, tinha escalado uma seleção de artistas que fazia a ponte entre a tradicional música brasileira e a atual música independente moderna, fazendo um contraponto ao outro grande festival da cidade, o Porão do Rock, por não se basear no rock como gênero-base. Assim, tínhamos o veterano Di Melo ao lado do novato Fióti, o irmão de Emicida, que agora lança sua carreira como soulman (com direito a participação do irmão como percussionista e vocalista de apoio ele só foi rimar em “África Nossa”, versão para o hino da diva caboverdiana Cesária Évora). O rock dos Autoramas – que agora é um quarteto – e o rap / R&B de Drik Barbosa. O free jazz elétrico do trumpetista Guizado e a MPB teatral de As Bahias e a Cozinha Mineira.

O raggatech samba-reggae do BaianaSystem seria a liga perfeita para misturar estes diferentes gêneros ancestrais e modernos, principalmente pelo fato do grupo estar lançando um dos melhores discos deste ano, o elétrico Duas Cidades. Mas as duas maiores estrelas do festival foram dois monstros sagrados de nossa música popular, duas divas de histórias díspares que vivem momentos semelhantes nesta segunda década do século 21.
“Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas”

Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas. As duas tiveram um ótimo 2015 quando, cercadas de novos músicos, fizeram álbuns ousados para suas carreiras: Elza Soares cercou-se da nova vanguarda paulistana (Rômulo Froes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Celso Sim, José Miguel Wisnik, Thiago França, Douglas Germano, os metais do Bixiga 70 – todos sob a batuta do percussionista Guilherme Kastrup) para lançar o poderoso Mulher do Fim do Mundo, talvez o disco brasileiro mais importante desta década.

Gal fez seu Estratosférica um oposto solar, diurno e carioca do disco paulista de Elza, reunindo composições de Céu, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Lirinha, Alberto Continentino, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes e Caetano Veloso, sob a produção de Kassin e Moreno Veloso. Elza trouxe seu espetáculo pleno, inclusive o cenário de Anna Turra que a coloca central, num trono, cantando a íntegra de seu disco intenso, além de músicas clássicas de seu repertório, como “A Carne” e “Malandro”. Gal foi intimista e, em vez da apresentação de seu novo disco, preferiu desfi lar seu rosário de clássicos ao lado do músico Guilherme Monteiro, no espetáculo Espelho D’Água. É uma sequência de clássicos sem par na música brasileira – “Baby”, “Vaca Profana”, “Tigresa”, “Negro Amor”, “Coração Vagabundo”, “Passarinho”, “Folhetim”, “Sua Estupidez”, “Meu Nome é Gal”, “Dom de Iludir”, “Tuareg” – todas entre a guitarra e o violão e voz intacta da cantora, que completava 71 anos (“54”, brincou) naquele mesmo 26 de setembro.

O público, entregue à sua majestade, não acreditava no que assistia e cantou parabéns para a baiana no palco mais de uma vez. Satisfeita com o resultado da quinta edição do festival, que mesmo com o tropeço do sábado conseguiu reunir 50 mil pessoas aos pés da monumental Torre de TV de Brasília, um dos cartões postais da cidade, a organizadora Marta nem acredita o quanto já conseguiu neste tempo, mas esquiva-se da modéstia. “Esse ano eu fui bem além e vi que é possível ir cada vez mais”, comemora, cravando a sexta edição do festival para o ano que vem, sonhando com dois grandes nomes: o rapper ganês Blitz The Ambassador e o cantor Ney Matogrosso. “Afi nal sonhar não me custa nada”, conclui, rindo.

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Eis o falado EP ao vivo Desvio Onírico, que reúne quatro faixas dos Boogarins tocadas ao vivo em quatro cidades diferentes, Nova York, Vancouver, Lisboa e Austin. Prepare-se para derreter…

E assim o grupo ganha tempo para maturar ainda mais seu terceiro disco.

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O hermano Rodrigo Amarante volta para São Paulo com a turnê de seu primeiro disco solo em três shows no primeiro fim de semana de fevereiro, no Sesc Pinheiros. Depois de passear com seu disco Cavalo pelo Brasil, Estados Unidos e Europa, ele topa encerrar o ciclo do disco sozinho no palco, somente ao piano e ao violão, tocando músicas que foram agregadas ao repertório na turnê. Ele aos poucos prepara o lançamento de seu segundo disco solo, o terceiro depois do hiato eterno dos Los Hermanos, se contarmos o que ele gravou como integrante da banda Little Joy. Mais informações no site do Sesc.

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“Cara, eu não consigo parar quieto”, me explica André Whoong quando pergunto se ele, que lança hoje seu segundo disco, Justo Agora, pouco mais de um ano do disco de estreia, já tem material para um novo disco. “Confesso que já tenho esboço de músicas para uns dois discos. Mas não sei o que vai acontecer, porque esse ano também eu fui convidado para atuar em dois filmes, um do Matias Mariani e Gustavo Rosa de Moura e outro do Marcelo Colaiacovo e Nilson Primitivo. Tudo pra esse ano. Sei lá se seria loucura eu lançar um disco…”, ri.

Justo Agora será apresentado pela primeira ao vivo neste sábado, na Casa do Mancha, quando André divide o palco com o músico e produtor norte-americano Jesse Harris (mais informações aqui). “São dois shows, o dele e o meu. Eu conheci o Jesse através do disco Esmeraldas, o terceiro da Tiê, que ele produziu junto com Adriano Cintra e eu fiz os arranjos de cordas e sopros. Ficamos em Nova York por cinco dias, mas criamos um vínculo de amizade muito forte então sempre que a gente está lá ou ele está aqui, nos encontramos principalmente para comer, que é o maior vício dele.”

Sobre o novo disco, André não acha apressado o lançamento em menos de um ano e meio depois de seu disco de estreia, 1985. “Acredito que foi no tempo natural. Eu já estava com monte de músicas prontas e não fazia sentido mante-las no computador. E senti que o 1985 já estava chegando ao fim do ciclo natural dele. Sou uma pessoa que muda constantemente de opinião, isso podendo as vezes até ser prejudicial pra mim, mas eu sentia que eu já estava num outro momento da minha vida. Por isso esse Justo Agora. Se eu não fizesse disco agora talvez eu não faria jamais.”

E conclui lembrando que, além de seus trabalhos, ainda tem o quarto disco da Tiê, de quem é guitarrista, e que já está sendo composto e começa a tomar forma em breve. “Eu vou produzir esse disco com o Adriano (Cintra).. Caramba… esse ano vai ser demais!”, comemora.

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Publiquei no meu blog no UOL um vídeo em que o ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters, aponta sua munição para o recém-eleito presidente dos EUA, Donald Trump.

Desde os tempos do Pink Floyd, o músico e compositor Roger Waters usa sua música para fazer comentários sobre política – tanto sobre a natureza política do ser humano (em discos como Dark Side of the Moon e Animals), quanto sobre a classe política em si (especificamente em The Wall, quando comparou o conceito do astro de rock a um ícone fascista). Mas desde que saiu em carreira solo, ele é mais proeminente sobre questões específicas, desde a recontextualização de seu The Wall no local da queda do Muro de Berlim quanto à discussão em relação à questão palestina. E, na sexta passada, dia da posse de Donald Trump como novo presidente norte-americano, o baixista postou em sua página do Facebook um vídeo para lembrar que “a resistência começa hoje.

O vídeo traz a apresentação do músico na Cidade do México, no ano passado, quando, em frente a 300 mil pessoas, comparou o personagem descrito em sua “Pigs (Three Different Ones)”, do disco Animals, a Donald Trump. A faixa faz parte do antepenúltimo disco da formação clássica Pink Floyd, lançado há quarenta anos, inspirado no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e descreve um personagem “palhaço” e “que é quase uma piada”. Donald Trump apareceu projetado nos telões do show, sempre ridicularizado e comparado a Adolf Hitler.

A briga promete, pois Roger Waters dá início à nova Us and Them, que atravessa a América do Norte entre maio e setembro. E, como avisou, não deve diminuir o tom.

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Há dez anos, o recém-falecido baterista do Can Jaki Liebezeit sambava com os DJs J-Rocc, DJ Nuts e Madlib e os bateristas João Parahyba e Mamão, do Azymuth, numa jam session percussiva provocada pelo diretor irlandês Brian Cross em Colônia, na Alemanha, ao divulgar seu projeto Brazilintime, que reunia bateristas e DJs brasileiros.

A foto saiu deste Flickr.

Todo o Manual

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Os Boogarins voltam a São Paulo para encerrar o ciclo de seu segundo disco, Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos, de 2015, tocando-o na íntegra e na ordem na próxima sexta-feira, no Sesc Pinheiros. O show acontece antes do lançamento do EP ao vivo Desvio Onírico, que lançam no mês que vem, reunindo versões de dez minutos para quatro faixas tocadas em diferentes cidades do mundo, durante o intenso 2016 da banda. A apresentação também terá projeções personalizadas para cada canção, num transformando o show num espetáculo único. Mais informações no site do Sesc.

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O disco novo do Xx é meio mais ou menos, mas essa versão que eles fizeram pra “Too Hot”, do Drake com a Rihanna, no Live Lounge da BBC, melhorou a versão original.

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Conversei, lá no meu blog no UOL, com o Lô Borges sobre a recriação de seu clássico disco de estreia, tocado pela primeira vez ao vivo neste fim de semana no Sesc Vila Mariana.

“A coisa mais certa que eu podia fazer foi a largar a indústria fonográfica aos vinte anos de idade depois de compor 25 músicas para dois álbuns, para o Clube da Esquina e pro disco do tênis”, lembra o mineiro Lô Borges, em entrevista por telefone, sobre o início de sua carreira em 1972. “Foi a melhor coisa que eu fiz! Se eu continuasse gravando um disco a cada seis meses, eu ia enlouquecer! Eu não queria sobreviver de música, eu queria que a música sobrevivesse em mim!”

Um dos principais nomes da cena mineira que se revelou no disco Clube da Esquina, Lô Borges era o segundo autor do disco que reunia músicos e compositores que hoje são bastiões da música brasileira, como Flávio Venturini, Toninho Horta, Fernando Brant, Beto Gudes, Wagner Tiso e Milton Nascimento. Creditado a ele e Milton, o disco apresentava uma nova cara para o pop mineiro, recriando-o a partir de influências da então novíssima MPB e do rock contemporâneo à época, hoje reverenciado como clássico. E após o lançamento do disco, Lô seguiu a boa fase lançando seu primeiro disco solo quase em seguida. Batizado apenas com seu próprio nome, o disco de 1972 é conhecido pelo par de tênis em sua capa e por aprofundar-se ainda mais nas profusões musicais daquela cena criando um registro que hoje é clássico da psicodelia brasileira. Um disco que nunca foi tocado ao vivo por seu autor, falha que será corrigida a partir deste fim de semana, quando Lô recria o clássico disco em três shows – já com ingressos esgotados – no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

“O disco do tênis nunca se misturou ao meu repertório ao longo dessas décadas todas. Ele ficou preservado. Nunca toquei músicas do tênis nos setlists dos meus shows, que contemplam quase todos discos meus, mas nunca entraram músicas do tênis”, explica o músico e compositor. O motivo é tão simples quanto revelador: uma vez submetido às pressões do showbusiness, Lô teve que tirar um disco que se comprometeu a lançar por contrato a fórceps e depois de terminado, decidiu abandonar tudo para viver a vida.

“Esse disco não teve lançamento. Quando eu acabei de gravar o disco, eu era um pouco mais que um adolescente, eu tinha vinte anos. Tinha feito o Clube da Esquina no começo de 72 e o disco do tênis no meio de 72 e ele foi feito como se fosse uma oficina criativa instrumental e poética, mas também feita no sufoco”, continua relembrando. “Eu tinha um contrato com uma gravadora que dizia que eu fizesse um disco logo depois do Clube da Esquina. Sabe o que eu tinha? Eu não tinha música nenhuma! Eu assinei o contrato sem ter música nenhuma! O processo do disco do tênis era o seguinte: eu fazia a música de manhã, meu irmão (Márcio Borges) fazia as letras à tarde e à noite ia pro estúdio, fazia os arranjos e gravava tudo valendo! Foi um disco muito urgente! Eu não tinha vinte, quinze anos de composição, eu tava compondo há dois anos e minhas músicas foram canalizadas pro Clube da Esquina. Então foi uma loucura! A música ‘Pensa Você’, por exemplo, eu cheguei no estúdio sem ter nada e compus a música no estúdio, no dia de gravar.”

A pressão responsável pelo processo de criação do disco também lhe deu uma aura colaborativa, em que todos entraram no ritmo em que criação, composição, arranjos e gravação faziam parte de um mesmo processo, nada linear. “Eu acho que uma das características mais legais do disco do tênis é a coisa de ele ter sido feito caoticamente. Eu não tinha as músicas e tinha que criar. Isso botou minha cabeça pra funcionar de um jeito que ela nunca funcionou”, continua Lô. “Eu tive a curiosidade de ver a ficha técnica desse disco anos depois e vi que a produção é do Milton Miranda e Maestro Gaia, que já devem ter falecido há mais de trinta anos, mas eu nunca vi nem o Milton Miranda nem o Maestro Gaia no estúdio quando estávamos gravando. A gente produziu tudo sozinho. Eu ficava meio na direção musical, apresentando as músicas e as ideias e os meus amigos, os músicos, acrescentavam as ideias delas às minhas. Foi uma oficina de cooperação criativa. Agradeço demais a todos que contribuíram na gravação, porque se não fossem eles, não teria acontecido esse disco.”

“É um disco totalmente inspirado que aponta pra vários lados: tem baião, tem canção, tem música que eu canto quase chorando…”, ri. “Acho que ele sugere muitas tendências que estavam contidas na minha cabeça. É meio psicodélico, meio progressivo, tem uma coisa meio Hermeto Pascoal.” A tônica do disco foi embalada pela expansão da consciência típica do período. “As drogas tiveram total influência nisso, porque o mundo estava vivendo em estados alterados de consciência. Todos os artistas, os ingleses, os americanos, Jimi Hendrix, os Beatles, os Rolling Stones, os Emerson Lake & Palmer, os Crosby Stills Nash & Young… O mundo inteiro usavam substâncias alteradoras de consciência, como eu e a turma que gravou comigo também. Todo mundo o tempo todo com o estado de consciência alterado. Eu gostava muito das lisérgicas, tinha gente que gostava mais de álcool, tinha gente que gostava mais de maconha e tinha gente que gostava de tudo o tempo todo”, lembra.

E depois de gravar o disco, em vez de colocá-lo na rua, ele preferiu largar tudo. “Sabe quem foi pra rua? O Lô Borges”, continua. “Eu fiz o disco e larguei tudo. Falei que não queria saber mais de gravadora, não queria saber mais de carreira, de disco, vou voltar pra Belo Horizonte e fazer as coisas que as pessoas da minha geração estão fazendo. Eu virei hippie! Fui pra Arembepe na Bahia, pra Porto Alegre, não sei onde mais, viajando pelo Brasil de ônibus com alguns exemplares do disco que eu entregava pras pessoas nas rodinhas de violão. Eu praticamente abandonei minha carreira.”

Lô não se arrepende do surto, que considera a melhor decisão que fez em sua carreira, retomada quase seis anos depois, com o disco A Via Láctea, de 1979. “Passei cinco anos na vida libertária de hippie e me estruturando como compositor. Quando eu voltei, seis anos depois, eu tinha música pra caramba!”, recorda-se. “Não tinha que fazer música de manhã, letra de tarde e gravar à noite. Quando eu voltei com o Via Láctea em 78 eu tinha música pra caramba, eu ensaiei o disco, que foi produzido pelo Milton, foi muito mais relaxado.”

A decisão de abandonar o meio artístico surgiu logo após ele ter finalizado seu disco de estreia, por isso em vez de seu rosto, há o par de tênis na capa. “A ideia do tênis da capa é minha. Quando o disco ficou pronto e fomos discutir a capa, eu disse que estava saindo da indústria fonográfica e queria colocar o tênis pra simbolizar isso. Não ter colocado a minha cara e sim um tênis, que era eu dizendo que ia pegar a estrada: eu vou pegar a estrada e tô saindo do Rio de Janeiro, tô saindo do showbusiness, tô saindo do circuito. Eu tenho vinte anos apenas e não quero essa obrigação de gravar um disco a cada seis meses. Até hoje eu autografo o disco do tênis dizendo ‘com um pé na estrada’.”

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972

Trancado na própria memória de Lô, o disco nunca mais voltou aos palcos ao mesmo tempo em que criava sua reputação de forma paralela, tanto no Brasil quanto no exterior. Até que, no ano passado, após um show, alguns músicos haviam lhe perguntado sobre a importância do disco, o que lhe fez voltar a pensar no álbum. Mas a decisão de voltar ao disco surgiu quando ele conheceu o músico mineiro Pablo Castro. “Ele é um cara que escreveu dez páginas do meu songbook e que fui conhecer num show que eu fiz com o Samuel Rosa num festival aqui em Belo Horizonte quando ele tocou antes de mim e do Samuel. Eu fiquei interessado no som dele, trocamos ideias ali no camarim. Depois eu convidei ele pra minha casa, gostei muito do disco dele, e qual a minha surpresa quando ele pegou um violão e começou a tocar todas as músicas do disco do tênis! E tocou todas as músicas dos lados Bs dos discos meus, ele era um especialista em lados B de Lô Borges.”

A ideia de recriar o disco começou a ser gestava, mas havia um agravante: “Refazer o disco do tênis é um processo tão complexo, porque o disco é uma engenharia, uma oficina instrumental, em que a gente botou cravo, Hammond, pedais, pianos acústicos… E pra reconstruir o disco do tênis teria um trabalho muito grande. Mas ele disse, ‘Lô, eu sou um cara que teve por anos bandas cover de Beatles, além de ser cantor e compositor eu sou especializado em reconstituir discos, toquei no Cavern Club em Liverpool, em Nova York. Se você quiser eu faço isso com a minha banda!”‘

Pablo, que além do próprio trabalho autoral, também teve três bandas cover de Beatles em Minas Gerais, The Silver Beatles, Sgt. Pepper’s Band e Free as a Beatle, fala sobre esta experiência e como ela lhe aproximou ao disco do tênis. “É um estudo muito interessante reproduzir à risca um arranjo. Primeiro porque estimulamos o ouvido a memorizar e decodificar o som. Segundo porque é uma prática de banda muito específica, onde há um efeito preciso a se almejar, incluídos aí os vocais, sua timbragem, harmonização, jeito de interpretar, etc. Terceiro, porque os detalhes são importantes para a fruição dos aficcionados. É uma espécie de ‘música de concerto’, só que popular. E, em última instância, valorizar o arranjo, em vez de apenas a canção, é uma maneira de homenagear todos os músicos envolvidos criativamente na confecção de uma faixa, não apenas os compositores. Tudo isso foi uma experiência valiosa para meu trabalho de direção musical no show do disco do tênis. Evidentemente, as harmonias de Lô são mais complexas e arrojadas do que as dos Beatles. Mas a análise dos timbres, camadas de instrumentos, texturas, frases, tudo isso é importante nesse tipo de reconstituição. Penso que a experiência com os Beatles me ajudou nesse aspecto.”

“O mais difícil nesse tipo de reconstituição são as partes que, na gravação original, foram meio que improvisadas, não seguem um padrão definido, mas que abrilhantam a faixa”, continua Pablo. “Os solos de guitarra são o exemplo mais evidente disso, mas normalmente os solos estão em primeiro plano, de forma que não é tão difícil transcrevê-los. Mais complicados são aqueles detalhes de instrumentos não solistas mas cujas frases aparecem aqui e ali, e contribuem para o efeito geral da música. Além disso, o disco do tênis tem vários vocais de 4 vozes, às vezes mais, e não é tão simples fazer isso funcionar no palco. É preciso ensaiar bem pra timbrar, equilibrar e afinar tudo a contento no palco. Outro aspecto importante, e dos mais criativos nesse tipo de trabalho, são adaptações de finais para as músicas que originalmente terminam em fade-out. Isso quase nunca funciona no palco, de forma que fizemos finais completos para essas faixas no show. Tenho gostado de todas, mais acho que ‘Aos Barões’, por ser uma música tão inusitada, meio perturbadora, está entre as mais instigantes do disco e do show. ”

Lô deu a carta branca para Pablo tocar o disco e depois foi chamado para assistir à execução. “Comecei a participar dos ensaios em dezembro. No primeiro ensaio eu não acreditei, eu tava em 1972 e não sabia! Eu nem toquei, só escutei! Tudo igualzinho! As guitarras do Beto Guedes, as minhas guitarras, os Hammonds do Tenório Júnior, os violões do Nelson Ângelo, o baixo e a guitarra do Toninho Horta. Eles fizeram a reconstituição fidedigna igual. Aí eu entrei na história e virou o projeto e a história de tornar público nosso encontro.”

Pablo explica que manteve a concisão do disco que tem 15 músicas e pouco mais de meia hora de duração. “Há algumas canções com as formas expandidas, mas não muitas. Não queríamos descaracterizar o aspecto hai-cai dessas canções . É um charme uma composição incisiva que passa rápido como uma borboleta em vôo. Faremos também, na segunda metade do show, todas as canções de Lô do disco Clube da Esquina, igualmente em seus arranjos originais, de forma que o show, além de repleto de outras canções decisivas na obra de Lô, não será tão breve quanto o disco do tênis.”

Depois dos shows em São Paulo, o grupo quer rodar com o disco pelo país. “Cair na estrada!”, comemora Lô, que ainda não tem shows agendados para esta nova fase, embora a próxima apresentação deva acontecer em alguns meses, em Belo Horizonte.