Trabalho Sujo - Home

Show

stop-making-sense-

Show dos Talking Heads dirigido pelo recém-falecido Jonathan Demme também redefiniu o conceito de música com imagens – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

Jonathan Demme, cuja morte foi anunciada nesta quarta-feira, era um diretor de trajetória única na história do cinema. Foi cult e pop, célebre e desconhecido, comercial e alternativo, embora não tenha uma filmografia robusta para exibir. É autor de filmes importantes como Filadélfia e O Silêncio dos Inocentes ao mesmo tempo em que flerta com o trivial em comédias aparentemente leves (Totalmente Selvagem, Melvin e Howard e O Casamento de Rachel) ou com o meramente comercial (como o remake desnecessário – mas bem executado – de Sob o Domínio do Mal). Do ponto de vista estritamente cinematográfico, ele é um Ridley Scott menos comercial, um Ron Howard com voz própria, um Spielberg menor. Mas sua importância cresce quando vemos que sua relação com a cultura vai além do cinema e que ele é destes raros cineastas que entende tanto de cinema quanto de música.

Demme dirigiu videoclipes no início de sua carreira, como o de “The Perfect Kiss” do New Order, o da versão de “I Got You Babe” que o UB40 fez com a Chrissie Hynde nos anos 80 e o de “Streets of Philadelphia” de Bruce Springsteen, que trouxe para a trilha sonora de seu filme sobre Aids, o primeiro a tratar do assunto. Sua relação com a música seguiu nos anos seguintes, quando dirigiu uma trilogia de documentários com Neil Young (Neil Young: Heart of Gold, Neil Young Trunk Show e Neil Young Journeys), outro sobre o músico inglês Robyn Hitchcock e acompanhando a turnê do disco mais recente de Justin Timberlake, em seu último filme, Justin Timberlake + the Tennessee Kids, do ano passado.

E, claro, sua grande obra, Stop Making Sense, que também é o melhor registro em filme de uma banda ao vivo, gravado com os Talking Heads em 1984. É por O Silêncio dos Inocentes que Demme sempre será lembrado, principalmente por levar o grand slam do cinema comercial norte-americano ao ser dos raros filmes que ganharam os cinco prêmios principais do Oscar (melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor diretor e melhor roteiro). A sombra da influência do filme que conta a história de um canibal elegante paira sobre nossa cultura pop até hoje – desde a sobriedade firme dos agentes do FBI depois da Clarice Starling de Jodie Foster até a violência gratuita e gráfica que permeia as principais obras norte-americanas deste século.

stopmakingsense4

Mas Stop Making Sense, o filme em que Demme filma um show dos Talking Heads em seu auge, é mais do que isso: é a obra-prima de Demme. Ele está sim contando uma história, a história não-verbal que é um show de rock. Vai desenvolvendo um crescendo literal ao colocar músico a músico no palco ao mesmo tempo em que mostra um show sendo montado no palco, com os instrumentos entrando pouco a pouco enquanto o palco também vai sendo montado. É como se o show fosse também o making of do show.

stopmakingsense1

Ele também encontra em David Byrne o ator perfeito para seus delírios visuais. O gestual de Byrne e seu olhar perdido, sua dança robótica e sua interação com o público (“alguém tem alguma pergunta?”, diz após o súbito fim de uma música) acompanhada de um groove pós-punk pesado, em que a edição e a forma como os músicos são mostrados acompanha o ritmo de perto. O ritmo do show é incessante e tanto a banda quanto seus convidados (o tecladista do Parliament-Funkadelic Bernie Worrell, o guitarrista dos Brothers Johnson Alex Weir, o percussionista Steve Scales e as vocalistas Lynn Mabry e Ednah Holt) não param de dançar um minuto. Sem contar os elementos de palco inventados pelo diretor junto com a banda, como os telões monocromáticos, o hoje clássico enorme paletó de David Byrne ou a inclusão de um abajur como objeto cênico – e parceiro de dança.

stopmakingsense2

Stop Making Sense é como o show reage a era do videoclipe, novidade comercial do mundo da música no início dos anos 80, mas também reposiciona o espectador de volta à plateia. Antes dele, filmes de shows clássicos – como o Last Waltz que Scorsese dirigiu para a The Band ou The Song Remains the Same do Led Zeppelin – colocam o espectador bem próximo da banda, criando uma cumplicidade inexistente em shows daquela proporção. São filmes que mostram o público como a banda o vê, uma situação que, de verdade, a audiência nunca irá passar. Demme posiciona a maioria de suas câmeras no público e assistimos ao show como se estivéssemos na plateia. E assim ele isola uma sensação que a maioria dos diretores de shows tenta recriar até hoje: a que realmente estamos assistindo a um show como se estivéssemos lá. Poucos diretores chegaram perto disso (Scorsese mesmo é um deles, principalmente no Shine a Light que filmou com os Stones), mas nenhum conseguiu de forma tão empolgante quando o falecido Johnathan Demme.

stopmakingsense3

Veja com seus próprios olhos:

phoenix-2017-

O grupo pop francês Phoenix prepara seu retorno em uma versão diurna com sotaque italiano, avisando que seu próximo disco chama-se Ti Amo e reflete “um paraíso perdido formado de eternos verões romanos (com muita luz, muita claridade, gelato de pistache), jukeboxes nas praias, Monica Vitti e Marcello Mastroianni, desejo implacável e antigas estátuas de mármore”, como escreveram ao anunciar a capa, a ordem das faixas (abaixo), a data de lançamento – dia 9 de junho e o primeiro single, repleto de teclados, chamado apenas de “J-Boy”:

ti-amo

“J-Boy”
“Ti Amo”
“Tuttifrutti”
“Fior Di Latte”
“Lovelife”
“Goodbye Soleil”
“Fleur De Lys”
“Role Model”
“Via Veneto”
“Telefono”

O grupo já havia mostrado o trecho de uma de suas músicas novas (“Fior Di Latte”) em um comercial de roupas íntimas da Calvin Klein dirigido por Sofia Coppola, esposa do vocalista da banda, Thomas Mars, e estrelado por atrizes como Rashida Jones, Kirsten Dunst e Lauren Hutton.

E a faixa-título já foi registrada no show que a banda deu na Antuérpia, na Bélgica, na semana passada:

Molto bene.

Stop-Making-Sense

Mais do que um grande diretor, Jonathan Demme, que morreu nesta quarta, também foi um dos grandes diretores de vídeos musicais – em especial de um favorito pessoal, o impressionante Stop Making Sense, dos Talking Heads, que pode ser assistido na íntegra neste vídeo abaixo:

Grande perda.

Cultura do Vinil

culturadovinil

Este sábado o evento Record Store Day completa dez anos e é indiscutível que ele foi crucial para que a indústria fonográfica começasse a ver que o velho vinil – tido como morto para a maioria das pessoas àquela época – poderia ser reencarado como um produto viável, inclusive comercialmente. Um novo interesse pelo formato, temperado com uma forte dose de nostalgia, fez o disco voltar à franca circulação, primeiro como curiosidade, depois como modismo e finalmente como uma das fontes de renda de artistas, tanto jovens quanto veteranos e defuntos.

Mas a renascença do vinil só aconteceu devido a uma resistência analógica que manteve-se firme mesmo quando parecia que o digital ia dominar tudo. Enquanto todos se desfaziam de suas coleções de discos, estes personagens – DJs, técnicos, colecionadores, artistas – guardavam as suas como seu maior tesouro, enquanto criavam uma rede de troca e de interrelações que permitiu que o vinil renascesse pleno. Ele não ressuscitou do nada – e sim de um terreno que nunca deixou de ser alimentado.

São estes os heróis celebrados no evento Cultura do Vinil, que acontece no Centro Cultural São Paulo nos dias 22 e 23 de abril, das 14h até o início da noite. Chamei os caras da Patuá Discos – Paulão, Ramiro e Peba – para me ajudar a criar um evento que falasse da importância cultural do disco, não apenas do ponto de vista mercadológico, e assim reunimos bambas de todas as estirpes para dissecar este objeto cada vez mais clássico. O fim de semana começa com o pioneiro Seu Osvaldo, um dos primeiros DJs do Brasil, contando seus tempos de Orquestra Invisível e ainda tem um debate sobre fuçar discos em sebos, com dois mestres no assunto, Rodrigo Gorky (Fatnotronic) e Edson Carvalho (Batuque Discos); uma aula de limpeza e manutenção de discos, com César Guisser; e outra sobre masterização para vinil, com Arthur Joly. Além disso teremos apresentações de cobras como DJ Nuts, Erick Jay e o braço paulistano do núcleo Vinil é Arte, Formiga e Niggas. O evento será encerrado com uma homenagem ao querido Don KB, que faleceu no mês passado, quando seu irmão, Marcio Cecci, apresenta-se ao lado do grande MZK, recriando o clima das Jive Nights, e apresentando o filho do Don, Enzo Cecci, dando continuidade à linhagem nos toca-discos.

E o melhor: tudo de graça. Chega cedo pra garantir a presença. Abaixo, a programação completa (tem mais informações aqui):

Sábado, 22 de abril

14h: Naquele tempo, com Seu Osvaldo
Seu Osvaldo começou a discotecar em 1958 com sua Orquestra Invisível e é considerado o primeiro DJ do Brasil. Ele conta um pouco de sua experiência e mostra o som que rolava nas festas de sua época.

15h: Nos toca-discos: DJ Nuts
DJ Nuts é um dos DJs brasileiros mais reconhecidos fora do Brasil tanto pela técnica como por sua pesquisa. Ele fala um pouco sobre sua trajetória e exibe sua habilidade nos toca-discos.

16h: Busca sem fim, com Edson Carvalho e Rodrigo Gorky
Edson Carvalho (Batuque Discos) é reconhecido como um dos melhores “record dealers” do Brasil. Rodrigo Gorky, além de DJ e integrante do Bondê do Rolê, é um voraz colecionador de vinil. Os dois conversam sobre os macetes de como fazer um bom garimpo de LPs e compactos.

17h: Limpeza e Manutenção, com Cesar Guisser
Nem sempre um vinil que está pulando, está riscado. Cesar Guisser, especialista em limpeza e conservação de discos de vinil, apresenta as melhores técnicas e produtos para manter sua coleção em bom estado de conservação.

18h: Nos toca-discos: Vinil é Arte
Vinil é Arte é um coletivo que reúne 6 DJs, com três duplas que representam as cidades de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A programação de sábado termina com uma discotecagem dos DJs residentes em Sampa: Formiga e Niggas.

Domingo, 23 de abril

15h: Nos toca-discos: Erick Jay
Erick Jay é o DJ residente do programa “Manos e Minas” e atual campeão mundial do DMC, o principal campeonato de DJs do planeta. Ele faz sua performance de “turntablism”, a arte de invenção musical a partir de dois toca-discos.

16h: Masterização em vinil, com Arthur Joly
Arthur Joly (Reco Master) é especialista no Brasil na complexa ciência da produção de um vinil. Ele divide com o público a sua experiência nessa rara atividade.

18h: Homenagem a Don KB
Don KB, falecido aos 47 anos em março deste ano, foi uma das figuras por trás da casa noturna Jive, que fomentou a vida noturna paulistana e a cultura de vinil no começo dos anos 2000. Ele é homenageado com discotecagem de dois de seus principais parceiros na Jive (MZK e Marcio Cecci) e também do seu filho, Enzo Cecci.

sinkane-kexp

O músico inglês de ascendência sudanesa Sinkane mostra faixas de seu ótimo Life & Livin’ It ao vivo na clássica rádio indie KEXP.

Showzão.

negroleosp_dia17_facebook

Chegamos à terceira noite de Negro Leo Chega em São Paulo e ele avisa que a partir desta segunda-feira as coisas vão ficar insanas. Se você não sabe o que é Negro Leo Chega em São Paulo, ele fala mais sobre isso aqui e aqui – e aqui tem mais informações sobre o show desta segunda no Centro da Terra.

São Paulo está mudando para você à medida em que você fazer essa série de shows em São Paulo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-sp-muda-para-voce-a-medida-em-que-voce-faz-essa-serie-de-shows-em-sp

A segunda noite foi uma versão alternativa da primeira noite?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-a-segunda-noite-foi-uma-versao-alternativa-da-primeira-noite

A terceira noite pode seguir o mesmo rumo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-a-terceira-noite-pode-seguir-o-mesmo-rumo

Como que as dimensões do Centro da Terra favorecem esse tipo de composição?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-como-que-as-dimensoes-do-centro-da-terra-favorecem-essa-criacao

O quanto esse processo é ensaiado e o quanto ele é improvisado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-o-quanto-esse-processo-e-ensaiado-e-o-quanto-ele-e-improvisado

Como criar em frente a uma plateia muda o processo de criação?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-como-criar-em-frente-a-uma-plateia-muda-o-processo-de-criacao

O que esperar da terceira noite de Chega em São Paulo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/negro-leo-chega-em-sao-paulo-o-que-esperar-da-terceira-noite-de-chega-em-sao-paulo

kikodinucci-ccsp

Kiko Dinucci mostra seu Cortes Curtos neste domingo de Páscoa, às 18h, lá no CCSP. Em versão enxuta, sem convidados, só com esse power trio pós-punk perfeito: Kiko grunhindo na guitarra e conversando nos vocais, Marcelo Cabral tortuoso ao mesmo tempo no baixo e no synth e Serginho Machado moendo a bateria (mais informações sobre o show aqui).

kamasi-2017

Depois de shows arrebatadores no Nublu Jazz Festival, em São Paulo, o saxofonista californiano Kamasi Washington anuncia o lançamento de seu primeiro disco desde seu aclamado The Epic, de 2015. O EP Harmony of Difference (cuja capa, acima, foi feita pela irmã de Kamasi, Amani) foi apresentado esta semana com o clipe de “Truth”, abaixo:

O disco vai ser lançado oficialmente no meio do ano. Abaixo, meia hora do último show que Kamasi fez no Sesc Pompeia, filmada por mim:

Spoon at The Main

O primeiro clipe do disco novo do Spoon, a faixa-título “Hot Thoughts”, foi filmado durante os três shows realizados durante o SXSW 2017, que acontece na cidade-natal do grupo, Austin.

fodidodemais

O grupo carioca Do Amor volta à ativa depois de Piracema, lançado em 2013, e finalmente lança Fodido Demais, disco que vêm maturando lentamente desde então (“O Aviso Diz“, por exemplo, é de 2015). Lançado pela Balaclava, o disco marca a quase mudança literal da banda do Rio de Janeiro para São Paulo, onde eles apresentam o disco pela primeira vez ao vivo neste sábado, no Sesc Pompéia (mais informações aqui). O disco chega às plataformas digitais nesta sexta, mas eles já adiantaram outra faixa, “Frevo da Razão”, esta ao lado de Arnaldo Antunes.