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Ave PJ Harvey

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A deusa inglesa faz um show impecável e pode mudar o paradigma dos shows de rock no Brasil – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

Antes mesmo do show extra que a cantora e compositora inglesa PJ Harvey fez nessa terça-feira em São Paulo começar, os presentes sabiam que estavam prestes a testemunhar algo histórico. Não apenas o show em si, segunda vinda de uma das principais artistas contemporâneas ao Brasil, mas o contexto em que ele se encaixava, tirando o nome mais importante do meio de um festival com várias outras bandas (o Popload Festival, que acontece nesta quarta) e pondo-a em um palco mais que adequado, perfeito, para uma apresentação daquele porte. O público era veterano – numa faixa etária entre os trinta e os cinquenta – e claramente todos passaram parte considerável de suas vidas escutando som alto e indo para shows e festivais insalubres para ver seus artistas preferidos ao vivo. É uma mentalidade que tem mudado, mas fãs de rock no Brasil ainda são vistos como adolescentes que topam qualquer roubada para encarar shows que realmente querem assistir – desde pagar ingressos com valores descolados da realidade brasileira a se submeter a condições precárias e mal-ajambradas apenas para satisfazer objetivos de cunho emocional.

A situação anterior àquele show era inversa: grande parte do público sequer havia pago para assistir ao espetáculo, que em vez de cobrar dinheiro, preferiu pedir para os fãs trocarem seus ingressos por trabalhos de assistência social. Um modelo de negócios radical, uma vez que dentro do recinto não era possível ver nenhuma marca patrocinadora. E o show aconteceu num teatro que, afora uma precisa consideração de um mago moderno (“teatro de shopping é gaveta“) atendia necessidades que o público brasileiro de rock nem sabia que tinha.

A sensação era de estar num evento de gala, mesmo que o público usasse, em sua maioria, jeans, tênis e camiseta (de banda). A atmosfera poderia ser vista como sisuda ou convencional demais para um show desta natureza, mas era apenas uma sensação que vinha de décadas assistindo a shows de rock no Brasil que não levavam o público em consideração. No teatro, com lugares marcados, visibilidade perfeita, som intacto, estávamos prontos para assistir não apenas a um show de rock de uma artista importante, mas um espetáculo transcendental de uma das maiores artistas da virada do século.

Baseado em seus dois discos mais recentes (Let England Shake de 2011 e The Hope Six Demolition Project de 2015, de fortes tons políticos), o show começou com um leve atraso de quinze minutos e trouxe todos os nove músicos que a acompanham em suas apresentações no exterior: Alain Johannes, Alessandro Stefana, Enrico Gabrielli, James Johnston, Jean-Marc Butty, Kenrick Rowe, Terry Edwards, Mick Harvey e John Parish subiram ao palco enfileirados como uma banda marcial, mantendo o clima solene e cívico que embala os discos mais recentes de Polly Jean. Revezando-se entre vários instrumentos, a banda se moldava em diferentes formações, que poderiam ter quatro guitarras, três saxofones (inclusive um tocado pela cantora) ou três teclados simultâneos, uma bateria desconstruída que por vezes retomava o aspecto de banda militar (acompanhada de acordeão, flautas e violino), vocais de apoio de timbre grave que mantinham o tom patriótico da noite – o de uma pátria sem nação, sem fronteiras, cuja abordagem política era essencialmente humanista.

Todo esse altar hierático perdia seu sentido protocolar assim que PJ fazia o ar vibrar com sua voz. Sua presença magnética recolhia-se aos momentos em que se calava – ela mesma indo para trás dos músicos por diversas vezes para fazer-se coadjuvante nos trechos instrumentais -, mas bastava ela se aproximar do microfone que a tensão política se dissipava para ganhar contornos ainda mais grandiosos e a solenidade tornava-se ritual, cerimonial.

PJ Harvey não é uma diva, nem uma musa. Ela não é uma mulher num pedestal esperando ser admirada, apenas uma inspiração por sua presença irresistível. Ela é um agente de transformação, uma maestra de sentimentos que canaliza o inconsciente coletivo em suas canções. Ela também não é uma sacerdotisa num ritual pagão que converge diferentes sensações (o sagrado feminino, a majestade da canção, a tradição bretã, as dores do mundo, a resistência, o blues). Todos os nove homens que a cercam se apequenam à sua voz e a força feminina surge arrebatadora de suas cordas vocais e da forma como se movimenta no palco.

PJ Harvey é uma deusa. Toda de preto, ela encarna nossos anseios e ilusões, nossas esperanças e vontades, nossa força e inspiração em palavras cuspidas, gestos de exaltação, cantos hipnóticos, mantras celestiais, dancinhas sedutoras, letras que acertam o fígado, olhares que atravessam o público. É como se ela pudesse olhar nos olhos de todas as pessoas naquele teatro, acertar o fundo de suas almas com questões que nos esquivamos de responder. O público, completamente embevecido por sua presença catártica, assistia pasmo a um repertório concedeu poucos momentos à nostalgia (quatro músicas do século passado – “50 ft Queenie”, “The River”, “Down By the Water” e “To Bring You My Love”, todas ao final do show – e três da década passada – “Shame”, “White Chalk” e “Dear Darkness”) e reforçava a mensagem de seus discos mais recentes: que o importante é o humano, não o institucional. Que o que sobra é a civilização, não são marcas nem o dinheiro. Que deveríamos viver a cultura e a arte, sublimes, não a política e a economia, rasteiras.

Deusa de seu próprio ritual, ela se dirigiu verbalmente poucas vezes ao público (dois “obrigada” e um “minha banda” em português antes de apresentar o público), mas nem precisava falar. Sua mensagem é ela mesma, sua oração é sua presença e estávamos todos boquiabertos concordando, “amém”. E certamente parte da magia deste ritual veio das condições perfeitas de temperatura e pressão que foram apresentadas neste show que, acredito, começa a mudar o paradigma dos shows de rock no Brasil. O melhor show do ano (da década?) até aqui.

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Duas entidades do novo rap brasileiro se encontram nesta quinta-feira na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo: de um lado o bardo do rap mineiro que já passou pelo Quinto Andar e Subsolo e agora chega à sua carreira solo, do outro o ótimo grupo instrumental paulistano Projetonave, a banda do Manos e Minas que já acompanhou grandes nomes da black music brasileira. O encontro acontece no lançamento do disco 2 Atos, produzido por Gui Amabis, a partir das 21h (mais informações aqui).

Boogarins ♥ Céu

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Os Boogarins estiveram no programa da Roberta Martinelli e tocaram “Camadas”, a música que o Dinho compôs com a Céu em seu disco mais recente, o excelente Tropix.

Dá pra assistir à íntegra do Cultura Livre com a banda goiana logo abaixo:

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A crew feminina de rap e R&B dá as caras lança seu primeiro disco nesta quinta-feira, às 21h, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui).

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Encerrando a programação do Bicho de Quatro Cabeças no Centro Cultural São Paulo, o baterista do Hurtmold, Maurício Takara, apresenta seu projeto solo ao lado do Corte, banda formada por músicos do Bixiga 70 com a Alzira Espíndola, mais uma vez de graça, desta vez na Jardel Filho, às 19h (mais informações aqui).

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Começa nessa terça-feira, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, a celebração do cinquentenário da mais longeva banda da história da música brasileira, o Made in Brazil. O evento Viva Made in Brazil será inaugurado com uma exposição dedicada à história do grupo, reunindo fotos raras, discos, cartazes e memorabilia da banda, seguido de um fim de semana cheio de atividades relacionadas à banda: além do primeiro corte do documentário Uma Banda Made in Brazil, que será lançado no ano que vem, sábado e domingo assistirão a bate-papos com Oswaldo Vecchione, o líder da banda (no sábado com a mediação feita por Gastão Moreira e no domingo feita por Tony Monteiro, da Road Crew), e dois shows diferentes: um acústico no sábado (às 19h) e outro elétrico no domingo (às 18h), com convidados especiais como Serguei, Theo Werneck, Netinho, Babalu, Eduardo Araujo, Clemente, João Gordo, entre outros. E o melhor: tudo de graça (mais informações aqui). A atividade Viva Made in Brazil é a primeira que leva o nome Viva, criado pela curadoria de música do Centro Cultural São Paulo para celebrar a importância de artistas consagrados da música brasileira, com a presença e participação dos próprios homenageados. Outros virão depois deste evento do Made in Brazil.

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Quase no fim do Bicho de Quatro Cabeças, é a vez de sentir todo o groove instrumental do Bixiga 70 ao vivo, a partir das 18h (ingressos disponíveis desde às 16h, não dê mole – mais informações aqui).

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Escrevi lá no meu blog no UOL sobre o último show da turnê de 30 anos do disco The Joshua Tree do U2 – em que a banda mostrou didaticamente como escolheram uma zona de conforto em vez de continuar ousando.

Showzão, bandão, telão, Bonão. Os aumentativos parecem fazer parte de um show do U2, sublinhados por hipérboles que festejam sua passagem pelo Brasil: quatro datas em um mesmo estádio na maior cidade do Brasil, o fim de uma extensa e superlotada turnê de aniversário de seu maior álbum, o disco que transformou os integrantes da banda irlandesa em megaastros do pop – e não apenas da música. E o próprio grupo explicou à multidão de quase sessenta mil pessoas que se reuniu para assistir ao último show desta turnê, que aconteceu na quarta-feira, como eles deixaram de ser uma banda pequena e promissora para se tornar uma das maiores marcas da música recente.

O show foi didático neste sentido. Ao deixar o palco principal e o enorme telão em segundo plano logo no início, o U2 concentrou-se num pequeno palco posicionado no meio do público para mostrar quem era antes da chegada de The Joshua Tree, o disco de 1987 cujo aniversário foi o mote da atual turnê da banda. O grupo abriu com a catártica “Sunday Bloody Sunday”, o primeiro grande hit de sua carreira, e emendou uma invejável trinca de hits: “New Year’s Day”, a baladaça “Bad” e o hino a Martin Luther King “Pride (In the Name of Love)”.

Tocando sozinhos no centro do estádio, sem o auxílio de telões ou outros efeitos especiais, o U2 mostrou as armas que apresentaram ao público quando surgiram no meio dos anos 80, afiadíssimas quase quarenta anos depois. A bateria precisa de Larry Mullen Jr., as levadas hipnóticas do baixo de Adam Clayton, a ruidosa guitarra de The Edge e a voz entregue de Bono Vox seguem intactas e as músicas ainda têm a mesma força que tinham originalmente, além da imediata conexão com o público, quarentão e contemporâneo da banda, em sua maioria. O pequeno repertório inicial nos leva a um tempo em que a banda irlandesa batizada com o nome de um avião espião dos tempos da Guerra Fria era minúscula e ativista.

Quando surgiu, o U2 era parte do chamado pós-punk, a cena que surgiu a partir da implosão do punk britânico no final dos anos 70. Uma safra de bandas que incluía nomes como Cure, Joy Division, Gang of Four, Public Image Ltd., Bauhaus e The Fall, que desconstruiu o rock das três décadas anteriores transformando baixo e bateria em um galope incessante, desconstruindo a guitarra elétrica com pedais de efeito e descartando a herança do blues e cantando palavras de ordem política e sentimentos à flor da pele. O U2 era um dos nomes mais populares desta cena, ao lado de outros que também trilharam caminhos semelhantes rumo ao estrelato global, como o New Order (nascido das cinzas do Joy Division), o Cure, o Echo & the Bunnymen, o Cult e os Smiths. Mas a banda irlandesa deu um salto ainda maior graças a The Joshua Tree.

É o disco em que a banda abraça o adjetivo messiânico, que vinha sendo atrelado ao vocal e à performance de Bono, principalmente a partir do disco anterior, The Unforgettable Fire. E é o disco em que eles se voltam para os Estados Unidos, dispostos a conquistá-los. Abraçam a herança do rock tradicional que sua geração teimava em renegar e transformam-se na maior banda dos anos 80, o equivalente aos Rolling Stones daquela geração.

É quando o telão entra no show, um personagem à parte. Mais do que mostrar a banda no palco, a tela monumental funciona na maior parte do tempo como um cenário, mostrando recantos de uns Estados Unidos caipira, paisagens desérticas, estradas sem fim, gente comum. É quando o U2 assume ser uma banda de rock clássico e pertencer a uma linhagem que vinha desde antes do blues se encontrar com o country. Em The Joshua Tree, o U2 reverencia elementos do rock que sua geração repudiava, como a mitificação dos EUA, solos de guitarra, a banalização do discurso político, canções para serem cantadas a plenos pulmões com o público, refrões grudentos, o gigantismo e a possibilidade de falar com cada vez mais pessoas.

Até Joshua Tree, o grupo consegue equilibrar-se no limite desta nova realidade. E é um disco que faz por merecer, ainda mais com a sequência de abertura, que apresenta três dos maiores hits da história da banda na sequência: “Where the Streets Have No Name”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “With or Without You”. O lado A do disco ainda conta com outras duas faixas fortes (“Bullet the Blue Sky” e “Running to Stand Still”), tornando-o muito superior ao segundo lado do álbum (cujas grandes canções, “In God’s Country” e “Exit”, esmaecem perto das músicas do lado A). Mas o grupo faz jus à importância do álbum e tocam-o na íntegra e na ordem, mesmo que isso signifique que quase meia hora do show não seja tão explosiva quanto sua primeira hora.

E é aí que começamos a perceber a decadência artística do U2, prima de sua ascensão comercial. Após a primeira parte do show, eles voltaram com um primeiro bis formado apenas por músicas deste século, emendando “Beautiful Day”, “Elevation” (ambas do disco All That You Can’t Leave Behind, lançado no ano 2000) e “Vertigo” (do disco How to Dismantle an Atomic Bomb, de 2004). São músicas que apenas ecoam o que a banda foi um dia, transformando toda sua criatividade em fórmula, todo vigor em regra, toda vida em dinheiro. Canções que, mesmo com a presença dos elementos que tornaram a banda importante, soam quase como uma caricatura de sua sonoridade, reforçando a figura insuportável que seu vocalista se tornou ao entrar em campanha para se tornar a pessoa mais gente boa do mundo. O segundo bis emenda uma insossa música nova (“You’re The Best Thing About Me”) com dois clássicos dos anos 90: “Ultraviolet (Light My Way)” e seu maior hit, “One”, o que chama atenção para um pequeno detalhe na história contada no show desta turnê.

As duas últimas baladas que encerraram os shows são as únicas representantes da melhor fase da banda, no início dos anos 90, solenemente ignoradas pela turnê do Joshua Tree. Ao fazer uma ponte entre o disco de 1987 e as músicas lançadas no início do século, o U2 passa por cima de duas grandes obras, Achtung Baby, de 1991, e Zooropa, de 1993, seus discos mais ousados e mais bem sucedidos artisticamente, além do fraco Pop, de 1997, este sim o início da decadência do U2. Igualmente ignorado está o ao vivo Rattle & Hum, do final dos anos 80, que aprofunda-se nos conceitos de Joshua Tree, bem como toda a fase atual da banda, de dez anos para cá.

Ao eliminar estas partes da história, o U2 mostra como uma ótima banda pequena torna-se enorme e sem graça e prova que o disco lançado no ano 2000 era mais uma tentativa de reconectar-se com o próprio passado do que em seguir buscas por novas sonoridades. Até Joshua Tree, o grupo irlandês manteve-se numa ascensão natural que quase transformou-se em autoparódia no disco seguinte. A história é zerada a partir dos anos 90 e o grupo reinventa-se graças à eletrônica, à modernidade e a volta à Europa, conceitos que marcam os primeiros discos daquela década, e que foram abandonados logo que na virada do século. Ao voltar para o rock clássico que namorou no final dos anos 80, o U2 deixou de lado ambições estéticas e desafios artísticos para construir uma zona de conforto para si e para os fãs. E eles todos estavam lá, felizes puxando o ridículo “Uno dos tres… catorze!” que abre a insossa “Vertigo”.

Ao final do show, o grupo agradeceu ao público sob o verde e amarelo de uma enorme bandeira do Brasil que tomava conta do telão, e rapidamente conversou antes de deixar o palco e voltaram para uma rápida apresentação da primeira música de seu primeiro disco, a eletrizante “I Will Follow”, o que me fez lembrar de uma frase que Bono disse logo ao início do show, comentando que aquele era o último show daquela turnê: “Alguém deveria ter dito: ‘se tiver que acabar, que acabe no Brasil!”‘, trocando olhares cúmplices com os integrantes da banda. Seria uma forma inusitada, mas apropriada, de desligar os aparelhos da banda, encerrando a carreira com seu primeiríssimo hit. Mas é bem pouco provável que isso aconteça.

Mais provável é que, em 2021, nos reuniremos todos mais uma vez para celebrar mais um disco clássico da banda. E se a turnê de trinta anos do Achtung Baby realmente acontecer, o U2 vai ter que rebolar para se superar. Porque vocês lembram como foi a Zoo TV Tour…

hurtmold

O Bicho de Quatro Cabeças vai chegando ao final e sábado é dia do show do Hurtmold no Centro Cultural São Paulo, a partir das 19h, de graça (mais informações aqui).

Excursionando após lançar seu A Deeper Understanding – que não me bateu tão bem quanto seu terceiro disco, Lost in a Dream -, a banda norte-americana War on Drugs passou por Toronto no fim de semana passado, quando o líder da banda, Adam Granduciel, pode saudar a importância de seu ídolo Neil Young, nascido na cidade canadense, ao puxar uma soberba versão para o hino “Like a Hurricane”, uma das assinaturas musicais do velho Neil.

De chorar.