É com imensa satisfação que recebemos no CCSP um dos grandes compositores de São Paulo na atualidade, o sensacional Douglas Germano, que leva seus sambas para a Sala Adoniran Barbosa neste domingo, às 18h (mais informações aqui).
O pessoal do Selo Sesc me chamou para escrever para a sessão Baú da recém-lançada revista eletrônica Zumbido, em que convidados lembram de apresentações marcantes nas unidades da rede e eu lembrei não só de shows clássicos do Yo La Tengo, Stereolab e Tom Zé com Tortoise, Ornette Coleman, William “Bootsy” Collins, Flying Lotus, Mogwai, Jurassic 5, De La Soul, Sabotage, Bombino, Bob Mould, Television, Sebadoh e tantos outros, como de um bate-papo do Damo Suzuki com o Kode9 que fiz a mediação, do 2012 em que fui curador do saudoso Prata da Casa e outros tantos momentos épicos nos diferentes palcos da rede.
Tenho uma enorme dívida com o Sesc. Eu e pelo menos umas duas gerações próximas à minha. Porque foi graças à rede de centros culturais espalhada por São Paulo que pude assistir a alguns dos shows da minha vida — desde turnês internacionais de bandas estrangeiras minúsculas às primeiras vindas ao país de titãs da música não-comercial — e também a participar de momentos cruciais para a evolução da música brasileira.
Sou de Brasília, estudei na Unicamp e passei parte de quase todos os anos 90 em Campinas, bebericando da vida cultural de São Paulo em doses curtas. Quando me mudei para cá no início do século, já tinha noção da importância do Sesc para a cultura da cidade, mas uma sequência de shows no Sesc Pompeia, um dos melhores lugares de São Paulo, cristalizou a importância destes centros culturais na minha vida.
Não recordo com precisão as datas (aconteceram exatamente na virada do século), mas foram três shows duplos que tive a oportunidade de ver extasiado no teatro daquela unidade: dois Stereolab, dois Yo La Tengo e dois Tortoise com a participação de Tom Zé. Os shows cruzavam uma série de tendências que seguiriam unidades anos depois: organizados pela produtora mineira Motor Music, eles conectavam a cena independente brasileira à rede internacional underground e ajudavam a reunir pessoas desconhecidas com o mesmo tipo de pensamento no mesmo lugar. Parte do público destas noites seguiu ferrenho seus caminhos no meio independente brasileiro, criando bandas, selos, sites, zines, produtoras e gravadoras que ajudariam a aumentar a auto-estima do incipiente indie brasileiro ao mesmo tempo que mostravam que seus equivalentes estrangeiros não eram rockstars esnobes e que gostavam de colocar a mão na massa.
A íntegra do texto você lê aqui.
Action Lekking, um dos aclamados discos de 2017, foi experimentado ao vivo antes de ser lançado na temporada que Negro Leo fez no Centro da Terra em abril do ano passado. É natural que ele volte para um dos locais onde foi gestado em versão completa – e intensa. Ao lado do baterista Serginho Machado, do baixista Fabinho Sá e do técnico de som Bernardo Pacheco, Leo aprofunda-se no atordoo musical proposto no disco em duas apresentações febris de seu disco duas terças de fevereiro no Centro da Terra. A ordem do caos político e social brasileiro será dissecada em duas sessões complementares em que o disco é revisitado sob a ótica do início do novo ano (mais informações aqui e aqui). Conversei com Leo sobre assuntos correlatos ao tema do disco.
Action Lekking conversa com a Tropicália, 50 anos depois?
Outro dia um jornalista estrangeiro deu que eu fazia faixas e não canções. Pô, esse cara é um idiota da objetividade, eu sou lá o Tom Jobim ou Chico Buarque ou o Noel Rosa?
Essas coisas me irritam, saca, num tom super arrogante, desqualificando o lance, dizendo que eu supunha que o grande barato da Tropicália fosse a abordagem sonora e não as canções. Quer dizer, essa aproximação com a Tropicália é legítima – houve o salto, quem pegou, pegou, eu aprendi ouvindo – mas é tremendamente redutora se você pegar a visão de como venho afirmando meu repertório, conectado com perspectivas que sequer tomaram conhecimento do tropicalismo, gente do Brasil. O tropicalismo me interessa na medida em que é a modulação mais radical e controvertida da crítica de esquerda ainda hoje por causa do alto investimento primitivo (realista) no lance. A distensão do mundo é provocada pela colisao do eu com seu duplo engajado e não pela luta e esperança, que seria dissoluçao do eu no seu duplo engajado. Dessa colisão resta a percepção do gozo como horizonte desejável e a valorização da brutalidade urgente no gesto. O tropicalismo é complexo no debate cultural brasileiro porque revelou o mecanismo do desejo cultural: o que falta é o que transforma, ou seja, a lacuna tem q servir pra expiar e transcender. Por isso estamos muito avançados em relaçao aos europeus.
Essa coisa de deslocar o elemento cultural, produzindo um sentido vertiginoso, Lula e FHC, Che e Coca-Cola, sempre me interessou também. Quem criou a responsabilidade foi a esquerda ortodoxa. A única esquerda possível percebe o elemento cultural do ponto de vista palpável, sou Lula 2018, é o gesto mais mecânico, automático, utilitário, solidário, instintivo que se poderia tomar em política, qualquer outro passa por demandas psicológicas, questões mal resolvidas, foro íntimo, divã. Então pô, esse estrangeiro leu minhas letras? Sei lá, acho tudo muito simplificador.
Fala mais sobre essa questão política neste tenso 2018.
Eu confesso que me dá um prazerzinho sádico quando a grande imprensa me telefona e eu digo ao jornalista que se ele não for honesto o suficiente pra publicar que o jornal pro qual ele trabalha é anti lek, que seja honesto para não publicar nada. Outro dia foi com um cara do Globo.
Eu que sou muito idiota ou esse pessoal que acha q Lula ‘perdeu uma oportunidade historica’? Pessoal acha que política é sonho, isso é coisa de hippie e psicanalista. Política é aquele verso do Sergio Sampaio: suje os pés na lama e venha conversar comigo.
Cês viram a campanha #aprendizlegal do governo federal na TV aberta? Um aprendiz ganha entre 1/3 e 2/3 do salario mínimo que varia de acordo com as horas semanais trabalhadas. Tão encorajando empregadores a contratar aprendiz para não custear empregado.
Como 2013 conversa com 2018?
Quando 2013 estourou com as jornadas eu percebi que a única mobilização honesta e salutar naquele contexto provinha dos anarquistas, pros quais o estado tem que acabar mesmo. Mas logo fui percebendo que aquilo seria engolido tanto pelo governo federal, pra quem aquilo era uma demanda irrealizavel de esquerda, como serviria posteriormente à linha acessória do golpe via captura discursiva da mídia, que deu no antipetismo.
Acho que Bernardo Oliveira me aplicou Jesse de Souza na rede. Revisão histórica potencialmente destruidora de nossa sociabilidade escravista. Ate a esquerda radical, q eu prefiro chamar de naif ou ingenua, teve que reconhecer o balanço, embora lamentasse o engajamento de Jesse na defesa de Lula e Dilma.
A partir daí o Lek começou a ganhar forma na minha cabeça. Daí foi misturar um pouco as expectativas das classes populares em ‘Meus Filhos, Meu Tesouro’ de Jorge Ben, com a tranformaçao do elemento cultural nos contextos empobrecidos. Enquanto o liberalismo estimula uma espécie de diferença que tende a se anular no contexto consumidor – o mercado -, a ecologia estimula uma super diferença na relaçao natureza x mercado – a sociedade. Isso vai ter que ser equilibrado em algum momento por um governo de esquerda.
E qual o papel do Carnaval nessa história toda?
Eu vejo pessoas problematizando o Carnaval na rede. Pô, isso é coisa de gente mesquinha, né? Gente amargurada. Não gosta de Carnaval, fica calado. O Carnaval também é dos tolos, é da direita e da esquerda, é o momento mais delicado da nossa sociabilidade brasileira. É a festa popular. O Carnaval nos ensina, de maneira inequívoca, nas palavras de Flavio de Carvalho, que o mais baixo na hierarquia social é quem dita a moda. O Carnaval nos mostra claramente o paraíso artificial da política. Talvez seja a única força anárquica autêntica em potencial do brasileiro. Algo capaz de derrubar o estado. Pense no simbolismo do prefeito entragando a chave da cidade ao Momo. Quando o carnaval passa é difícil entender como as pessoas conseguem retomar sua vida ‘normal’. Eu sempre me fodia na administraçao psíquica do lance. Nao é facil castrar toda liberdade já na quinta depois das cinzas.
Como Action Lekking se encaixa neste contexto?
Eu quero exaltar o brilhantismo e inventidade de Sergio Machado e Fabio Sá. A presença deles é a maior força do disco. Sergio ja vinha com a ideia de processar sua bateria com mics ligados a um synth, o que eu fiz foi levar essa ideia a todos os instrumentos na mistura. Pepe e Renato Godoy montaram uma nave digital/analógica q nao deve nada a Abbey Road e depois Manso juntou-se a nós e deu grandes ideias, como o vari-fi onde deveria haver um solo em “Lek Lover”. O mais incrivel na historia do actionlekking é a maneira absolutamente fortuita como as coisas se deram. Ava (Rocha, esposa de Leo) recebeu um telefonema de Funai (Rodrigo “Funai” Costa, técnico responsável pelo som da Red Bull Station), depois de quatro artistas que haviam cancelado gravação no Red Bull Station. Como ela também estava gravando o disco dela lá, ele supos que ela quisesse gravar alguma coisa no buraco ocioso do estúdio. Mas ela também não podia e me indicou. Liguei pra Fabio e Sergio e fiz o convite, pra minha sorte eles podiam e toparam. Gravamos o disco em três dias. Depois mixamos em uma semana no estudio do Pepê no rio (que aliás recomendo fortemente pela estrutura e pelo astral).
E como você trouxe o disco para o palco?
Fizemos o primeiro show oficial do Aktion no festival Fora da Casinha. Bernardo Pacheco fez o som do nosso palco, eu apenas disse a ele que queria que a master do PA fosse manipulada impiedosamente com efeitos, algo que Estevao Case fazia nos shows do Água Batizada, mas ali apenas a voz era processada. Eu tinha imaginado um disco muito processado, quando saiu, lembro de Alejandra Luciani, engenheira de gravação do disco, comentar que tinha ficado aquém da imaginação. Ela tava certa, mas eu nao podia perder as canções e arriscar um ano de ostracismo por ter lançado um disco ‘muito louco’. Quando pintou esse arremedo de crítica na beatbrazil, do tal gringo que mencionei acima, vi q podia ter realmente feito algo ainda mais insano. Esse ano vou gravar mais um disco com Sergio e Fabio, dessa vez com Kiko Dinucci no violão e Vítor Araújo escrevendo os arranjos pra orquestra. Pensei também em alguns solistas, quero reabilitar o solo, o indie matou o solo. Vai ser tão quente, tão quente que vai carbonizar cérebros e corações desavisados.
As Rakta lançam o disco Oculto Pelos Seres nesta quinta-feira no Centro Cultural São Paulo, às 21h, acompanhadas na bateria por ninguém menos que Maurício Takara (Bicho de Quatro Cabeça feelings) – vamo lá? Mais informações sobre o show aqui.
Retomamos as atividades no Centro da Terra em 2018 com shows de três artistas durante o mês de fevereiro. Quem inaugura a nova temporada é a debutante Isabel Lenza, que faz seus primeiros shows da vida ao mostrar seu disco Ouro ao vivo com uma banda que conta com integrantes do Bixiga 70 na formação – ela toca na próxima segunda (dia 5) e na segunda seguinte à do carnaval (dia 20). Após a folia é a vez do mítico Negro Leo inaugurar as terças-feiras da programação (dias 20 e 27), mostrando seu Action Lekking ao vivo, disco que foi rascunhado durante sua temporada no ano passado, em abril. E na última segunda-feira do mês é a vez da Papisa revisitar o espetáculo Tempo Espaço Ritual, que inaugurou em outubro do ano passado no mesmo local. E prepare-se que é só o começo do ano, logo após o carnaval anuncio os donos das temporadas do primeiro semestre deste imprevisível 2018. O Pedro deu mais detalhes sobre a temporada deste mês em seu blog no Estadão e os ingressos já estão começando a ser vendidos online aqui.
O Bike, uma das principais bandas da renascença psicodélica brasileira desta década, despede-se de seu segundo álbum, Em Busca da Viagem Eterna, apresentando-se nesta quinta-feira no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui). O ciclo é fechado também com o lançamento do clipe “Terra em Chamas”, mostrado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
O líder da banda, Julito Cavalcante, comentou sobre o fim desta etapa, que sobrepõe-se ao início do trabalho do terceiro álbum da banda. “O Em Busca foi importante para nós, caímos na estrada como nunca, foram mais de 70 shows, fizemos nossa primeira turnê européia com bons shows na Inglaterra e no Primavera Sound, trocamos de baixista, o Rafa saiu no meio da turnê e hoje o João está fixo na banda e tivemos a participação de muitos amigos músicos, , Brenno Balbino, que se tornou o quinto elemento do Bike, Gabi, do My Magical Glowing Lens, Danilo, do Hierofante Púrpura e até do Tagore. Tocamos em quarteto, quinteto e sexteto, pudemos tocar pela primeira vez com bandas do cenário mundial aqui no Brasil, como The Black Angels e Os Mutantes, tivemos um EP de Remix feito pelo Renato Cohen que nos surpreendeu. Foi um ano duro mas de amadurecimento como banda e como músicos”, me explica por email.
Sobre o próximo disco, ele garante que sai até maio, quando a banda completa três anos de estrada. “Desde novembro todos voltaram a morar no interior, isso nos deu mais tempo e liberdade, todas as músicas surgiram depois desse retorno, compomos e produzimos tudo com calma”, ele continua. “Isso somado às novas influências que absorvemos durante as viagens pela Europa e pelos extremos do Brasil resultou num álbum mais tranquilo, nos deu uma sensação de cura e entendimento de tudo que aconteceu nessa busca pela viagem eterna”.
Neste sábado, às 19h, o rapper Síntese comemora uma década de atividade do coletivo Matrero de São José dos Campos, que o colocou no mapa ao lado de outros grandes nomes daquela cena, como os MCs Inglês, Nego Max, Moita e o DJ Willião, no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui).
Lenda viva do rap underground paulistano, Kamau comemora dez anos de seu disco de estreia, Non Ducor Duco, neste domingo, a partir das 18h, no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui).
Que bordoada essa notícia da morte do Mark E. Smith. Um dos maiores ícones do rock inglês, o dono do Fall era um desses sérios candidatos ao posto de maior inglês vivo (Alan Moore e Charlie Brooker são os outros dois) e sua carreira parecia interminável da mesma forma que parecia existir desde sempre. Dezenas de discos lançados um atrás do outro, influenciando gerações e gerações de artistas em todo o mundo com um único lema: “foda-se tudo”. Era um artista que nunca imaginei que poderia vê-lo ao vivo, até que o acaso me sorriu no ano passado, quando fui pra Liverpool e minha querida amiga Megssa (ex-vocalista dos Fish Lips, quem sabe, sabe) me interceptou para Manchester assistir a um festival que tinha Royal Trux, Swans e… The Fall! Nem pestanejei e peguei o trem em seguida, para presenciar uma apresentação em que Mark mandava tudo à merda, como reza sua lenda: balbuciava os vocais como se tivesse dando um esporro no público, desligava e ligava os amplificadores, deixando os músicos (todos mais novos que ele) putos ou rindo, cantando com dois microfones ao mesmo tempo, tocando a bateria com um dos microfones antes de atirá-lo na plateia. A apresentação ia do humor ao terror em segundos e a sensação de periculosidade no palco era palpável – a qualquer minuto o velho Mark poderia fazer qualquer coisa, como sair do palco do meio do show, forçando a banda a buscá-lo na marra. Eis o vídeo que fiz do histórico show (pelo menos para mim):
Obrigado, Sir Smith. Com sua morte, o mundo fica menos divertido e caótico, mas seu legado é imbatível.
Começamos hoje as festividades do aniversário de São Paulo com uma trinca de shows de rap até domingo (mais informações aqui) e quem abre os trabalhos é o vovô Rodrigo Ogi, que lança seu ótimo Pé no Chão nesta quinta-feira, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui).










