Transcendental sem tirar os pés da terra – assim Kiko Dinucci elevou o público a outra dimensão emocional no show que fez neste sábado, no Sesc Pompeia, quando África, rua e roda de samba surgiram como vultos vivos à espreita, esperando só o toque de seu violão e o canto de sua voz ao lançar efetivamente seu Rastilho ao vivo.
Seja sozinho no palco ou com a ilustre presença de verdadeiras entidades musicais – Juçara Marçal intocável, o mago Rodrigo Ogi e o deslumbrante coro formado por Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e a própria Juçara -, ele chama para si uma ancestralidade que sobrevive nas esquinas, bares e terreiros e coloca-a onde ela deveria estar, no centro.
E do mesmo jeito que transforma seu instrumento num tambor de terreiro, ele erige um monumento à música popular, buscando seu DNA a partir de seu pulso. O batuque, as palmas, o pé na terra e o canto livre transformaram o teatro concebido por Lina Bo Bardi em uma catedral de uma música brasileira moderna, que abole resquícios barrocos em busca de uma brasilidade real e sobrevivente, aquela que se esgueira pelas frestas para contar sua história de boca a boca.
Kiko canta manso, sua voz erguida pela alavanca do toque ríspido em seu instrumento e abraçada no ar por um coro angelical. Um samba secular, sacro e mundano, forte e delicado, melancólico e sorridente, um antídoto para o tétrico 2020 que este país atravessa – que nos mostra o único horizonte possível.
Porque Rastilho é, como tudo que Kiko faz, um manifesto político. Mas também é um gesto poético, um grito de guerra e uma oração, um chamado às armas e um acalanto.
A programação de fevereiro do Centro da Terra invade o próximo mês quando Beto Villares encerra a sua temporada Amostras Emocionais no dia 2 de março, mostrando pela primeira vez seu novo disco, Aqui Deus Andou, ao vivo. No dia seguinte, na terça, dia 3, Felipe S., vocalista do Mombojó, começa a mostrar músicas inéditas no espetáculo Notícias Recentes (mais informações aqui), quando divide o palco com nomes como Habacuque Lima, Bruno Bruni, Barbarelli, entre outros. Na outra segunda, dia 9, é a vez do produtor e percussionista Guilherme Kastrup começar a temporada Feminino Fatorial (mais informações aqui), quando convida as artistas visuais Edith Derdik e Carol Shimeji, as percussionistas Beth Belli e Jackie Cunha e a dançarina Morena Nascimento para um espetáculo contínuo, que vai mudando a cada nova segunda-feira. A programação do mês se encerra com chave de ouro, quando mais uma vez recebemos a deusa Juçara Marçal para recriar seu Encarnado no palco do Centro da Terra, só que em versão acústica (mais informações aqui), convidando Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rhorer para recriar este marco da música brasileira deste século ao vivo. Que mês!
Imensa satisfação receber a baiana Livia Nery nesta terça, 18 de fevereiro, no Centro da Terra, quando ela traz uma versão intimista e sintética de seu repertório para o palco do Sumaré, a partir das 20h. No espetáculo Beco do Sossego, ela relê as canções do disco que lançou no ano passado, Estranha Melodia, ao lado do tecladista e conterrâneo João Deogracias, e convida a paulistana Luiza Lian para acompanhá-la nesta noite (mais informações aqui). Conversei com ela sobre o que podemos esperar desta apresentação.
SUSSA. Sol. Ar. Luz. Sim. Psicodelia. Gente legal. Ondas gravitacionais. Altos massa. Boas vibrações. Música ao vivo.
O que você vai fazer neste domingo? Vamos aproveitar o sol pra passar o dia ao ar livre, ouvindo música boa, bebericando ao cair da tarde e conversando com gente legal? Nosso regulador de boas vibrações reconecta-se com a eterna Casa do Mancha na primeira edição 2020 da boa e velha Sussa, versão vespertina das Noites Trabalho Sujo, que chega tardiamente ao verão deste ano para trazer o sol, com presenças ilustres além da discotecagem de Alexandre Matias, que convidou o próprio Mancha para dividir o som nesta tarde – e quem apresenta-se ao vivo são o fino da psicodelia paulistana desta década, o quarteto Applegate, prestes a lançar mais um novo single. Começamos às 16h20 e vamos até o começo da noite, fechando esse fim de semana ensolarado numa bowa.
Sussa – Tardes Trabalho Sujo
Discotecagem de Alexandre Matias e Mancha
Show: Applegate (17h30)
R$ 20,00 – 16h20
Casa Do Mancha
R. Felipe de Alcaçova – Pinheiros. São Paulo.
Telefone: (11) 3796-7981
A casa aceita cartões de débito.
O cantor e compositor paulista Bruno Schiavo mostra as composições de seu primeiro disco A Vida Só Começou da edição desta semana da Sexta Trabalho Sujo, no Estúdio Bixiga, a partir das 21h (mais informações aqui). Schiavo lançou “Califórnia”, a primeira música de seu disco em primeira mão aqui no Trabalho Sujo e lançou há pouco a ótima “Orestes Revisitado” – e o disco sai logo após o carnaval. Mas dá pra sacar antes, no show desta sexta. Vamos?
Um dos pais do rock gaúcho como o conhecemos hoje, o mestre Frank Jorge está prestes a gravar um novo disco produzido por ninguém menos que Kassin: “Quero revisitar brega brasileiro 1970 com referências do rock mundial da mesma época, CBGB’s… Se conseguiremos fazer? Boa questão”, ele me antecipa. Enquanto o disco toma forma antes das gravações começarem, ele compartilha uma sessão que fez ao vivo no início do ano, contando com seus dois filhos como músicos de sua banda: Érico, de 20 anos, na guitarra e Glória, 15, na bateria. Foi a segunda vez que tocaram juntos – a primeira foi em dezembro do ano passado (na foto acima). Na sessão abaixo, gravada em janeiro deste ano, além de Frank, Érico e Glória, está o baixista Regis Sam.
Pai coruja, Frank reforça que os dois tocam juntos na banda Flanelas Desbotadas (que, olha só, tem futuro) e “a Glória toca na Orquestra de Bateria e Percussão Batucas, organizada pela Biba Meira, há quatro anos”, comenta orgulhoso da filha tocando no projeto da primeira baterista do Defalla.
Há quase uma década numa missão de aproximar “antigas, novas e possíveis tradições” da cultura africana para a cultura brasileira, o grupo Höröyá, idealizado pelo percussionista André Piruka, leva para o palco da choperia do Sesc Pompeia nesta quinta-feira mais uma celebração reunindo músicos e dançarinos em um espetáculo inédito, chamado de Höröyá Pan África Brasil, que reúne músicos e dançarinos da Guiné-Conacri (como o Mamady Keita, Djenab Soumah e Djanko Camara), a dançarina baiana Rosangela Silvestre e os senegaleses Aziz Mbay e Moustapha Dieng, celebrando a cultura do oeste africano (mais informações aqui). Aproveitei a deixa para bater um papo com Piruka sobre a renascença da cultura do continente negro em uma época tão bizarra quanto a que estamos vivendo politicamente.
Enorme prazer receber Joana Queiroz nesta terça-feira, dia 11 de fevereiro, no Centro da Terra, quando a instrumentista do Quartabê convida mais seis músicos para seu espetáculo Emaranhados. Fruto de parcerias que Joana vem realizando desde antes de se mudar para São Paulo, a apresentação reúne músicos e cantores com quem ela tem consolidado no último ano e traz para o mesmo palco Filipe Massumi, Loreta Colucci, Claudia Dantas, Natalie Alvim, Bruno Qual e Melina Mulazani, que misturam suas canções em diferentes e improváveis formações durante a noite. Bati um papo com ela sobre o que poderemos esperar da apresentação desta terça.
O grupo eletrônico Anvil FX, liderado pelo antológico Paulo Beto, homenageia a vida do ícone do underground mineiro Marcelo Dolabela, que morreu no mês passado, na edição desta semana da Sexta Trabalho Sujo, no Estúdio Bixiga, a partir das 21h (mais informações aqui). Vamos?
O Nublu deste ano começou pesado ao anunciar que trará para São Paulo e São José dos Campos, entre 12 e 15 de março, nada menos que John Cale, Mos Def e Femi Kuti, que dispensam apresentações. E lembrando que o festival organizado pelo clube nova-iorquino que o batiza – que acontece por aqui no Sesc Pompéia e no Sesc São José dos Campos – sempre traz mais do que três atrações, então pode esperar que vem mais coisa aí! Vi na Monica Bergamo.









