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Duas forças do som pesado brasileiro contemporâneo encontram-se nesta terça, no Centro da Terra, quando o duo paulistano Test (acompanhado de Bernardo Pacheco no baixo) e o quarteto paraibano Papangu apresentam-se juntos – e ao mesmo tempo – pela primeira vez, tocando músicas de seus álbuns mais recentes no encontro inédito Esquema Tático de Destruição em Massa em Nome do Holoceno. A apresentação começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente aqui.

Quando dedicou-se a visitar o repertório clássico – no limite do clichê – da música brasileira reconhecida no exterior em seu Brazliian Songbook, Marcela Lucatelli despedaçou símbolos da MPB como uma forma de confronto estético, iconoclastia que inevitavelmente tem natureza política. Isso muito pelo fato de que o projeto foi gravado com músicos do país em que Marcela reside há anos, a Dinamarca, cuja visão de nossa sonoridade é muito específica (e também no limite do clichê). Mas quando ela arregimentou um timaço de músicos brasileiros para reviver esta premissa no palco do Centro da Terra, nesta segunda-feira, a abordagem foi para um outro patamar. Livre dos clichês que permeiam o álbum – o pianinho bucólico, o violão percussivo com acordes dissonantes, a bateria segurando o beat no aro da caixa -, ela partiu do improviso livre ao lado de quatro jovens mestres nesta arte, todos eles mais do que escolados na música brasileira, mas parte desta. Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Alana Ananias e Lello Bezerra criaram um conjunto abstrato de ruído que em poucos momentos resvalava no que se reconhecia como clássico da música brasileira, deixando a hiperbólica apresentação vocal e cênica de Marcela como fio condutor desta sonoridade. Ela disseca versos e frases musicais com um ataque musical entre a violência e o escárnio, enquanto sua performance cênica, solta naquela teia de ruído tão bem tramada (ainda que ao acaso), relê estas canções entre o encanto e a ironia. À frente daqueles quatro cientistas do som, transmutou seu Songbook em ouro puro.

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Quase chegando no final do mês, recebemos mais uma vez, no Centro da Terra, a cantora mineira Marcela Lucatelli para fazer a primeira apresentação de seu Brazilian Songbook em solo brasileiro. Residente há quase duas décadas na Dinamarca, ela estabeleceu-se como uma referência no canto de improviso livre na Europa e neste trabalho, ela viaja por clássicos da música brasileira, desconstruindo-os à medida em que embaralha as fronteiras entre samba, free jazz, musica pop, ópera, heavy metal e música experimental. Para montar este quebra-cabeças psíquico, ela conta com uma banda formada especialmente para esta ocasião, com Rodrigo Campos no cavaquinho, Lello Bezerra na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Alana Ananias na bateria, o que abre outras tantas dimensões nesta improvável equação. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda neste link.

Depois de muita especulação, finalmente foi anunciada a primeira vinda da já clássica banda psicodélica californiana The Brian Jonestown Massacre para o Brasil. O grupo tocará no dia 20 de abril no Cine Joia (quando terão abertura da banda Bike e de uma atração-surpresa), em São Paulo, e no dia seguinte em Brasília, como parte das comemorações do aniversário da capital do Brasil, dentro da programação do festival gratuito PikNic. O grupo liderado por Anton Newcombe vem para o país divulgar seus dois discos mais recentes Fire Doesn’t Grow on Trees, no ano passado, e The Future Is Your Past, que acaba de sair. Os ingressos para o show de São Paulo já estão à venda neste link.

Em dois anos, o mestre João Donato comemora suas nove décadas de vida, quase oito delas dedicadas à música. O buda acreano é um dos mitos da criação da música contemporânea brasileira e já apresentava-se ao vivo no início da adolescência, antes de toda a geração que veio a influenciar – e criar a bossa nova – começasse a se envolver profissionalmente com música. E mesmo prestes a cruzar a barreira nonagenária, exibe a desenvoltura mágica que o consagrou décadas atrás, tão à vontade quanto em seus discos mais clássicos. Defendendo o ótimo Serotonina, que lançou no ano passado, numa apresentação que fez no teatro do Sesc Pinheiros neste domingo, ele fez piada com o nome do disco e celebrou todas as parcerias que fez neste trabalho ao apresentar cada uma delas (mencionando nominalmente seus novos parceiros – Maurício Pereira, Felipe Cordeiro, Rodrigo Amarante, Céu – no primeiro disco de faixas inéditas em 20 anos), mas quando começava a tocar, tornava-se pleno. Acompanhado de uma banda luxuosa e mínima – Fábio Sá no baixo elétrico, Sergio Machado na bateria, Anaïs Sylla nos vocais de apoio e Marcelo Monteiro, entre a flauta e o sax -, ele foi além do repertório do disco novo e visitou clássicos de outros tempos, como “Emoriô”, “Bananeira” e “Nasci para Bailar”, sempre à vontade com seu instrumento, sua voz e seus parceiros. Que sorte podermos conviver com um mestre destes.

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Por mais que o Brasil já tenha cantado suas canções em outras épocas, Joyce Moreno amadureceu como um segredo para iniciados na exuberante árvore genealógica da música brasileira, uma orquídea que abre-se cada vez mais que aguça-se os sentidos em sua direção. Sua discrição pessoal, o canto doce e a persona suave deixam suas melhores qualidades à distância do mercado massificador que transforma qualquer artista em um produto em promoção e nada melhor que uma apresentação ao vivo para reconhecer a força de sua arte, a reverência que faz a seus mestres e parceiros e seu vigor instrumental, seja no violão ou na voz.

Na segunda de suas apresentações no Sesc Belenzinho neste fim de semana, ela mostrou o disco que compôs durante a pandemia, Brasileiras Canções, que reconheceu ter um tom mais triste do que o que vivemos hoje e aproveitou este clima para mostrar “Chuva Sem Gal”, parceria que fez com Marcos Valle após a passagem Gal Costa, no ano passado, logo após tocar a “Mistérios” que deu ao segundo disco do Clube da Esquina e que gravou com a própria cantora em seu álbum Revendo Amigos, lançado há quase 30 anos.

Temperou a tristeza destes temas com versões desafiadoras de clássicos do cânone que ajudou a erguer, o da canção brasileira. Em seu violão Joyce desfila autores e intérpretes clássicos como João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Edu Lobo, Vinícius de Moraes e Baden Powell num rosário que praticamente resume sua formação e nossa memória afetiva: “O Morro Não Tem Vez”, “Águas de Março”, “É Preciso Perdoar”, “Berimbau/Consolação”, “Desafinado” e “Upa Neguinho”.

Acompanhada de um trio de tirar o fôlego, ela não fica pequena ao lado dos virtuoses discretos que a acompanham – o baixo de Rodolfo Stroeter, o piano de Tiago Costa e a bateria de Tutty Moreno, se entrelaçam com seu violão de acordes dissonantes e marcação precisa, ao mesmo tempo em que afia sua voz sem exibicionismo, seja desconstruindo a métrica das próprias canções ou abrindo vocais improvisados sobre clássicos de nosso cancioneiro.

Sua relação com o baterista marido é um espetáculo à parte: a troca de sorrisos e olhares entre este casal que está prestes a completar meio século de parceria musical e de vida é uma conversa tão fluida e deliciosa quanto a troca musical da cantora com este que é um dos pilares do edifício que chamamos de MPB (Tutty é baterista em obras fundamentais como Transa, Expresso 2222, Cantar, o disco de estreia de Jards Macalé, Sinal Fechado e Álibi, só pra citar as joias de sua coroa).

E como se não bastasse o gigantismo deste evento de jazz brasileiro, Joyce ainda reforça seu papel de cantora e mulher, em hinos pessoais como “Samba da Mulher”, “Essa Mulher”, “Mulheres do Brasil” e, claro, “Feminina”. Uma noite maravilhosa. Viva Joyce!

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Que maravilha a imersão que os Boogarins fizeram no Clube da Esquina nesta sexa-feira no Sesc Pompeia. Logo que puderam conversar com o público que lotou o teatro, os goianos fizeram questão de frisar que não estavam tocando o disco na íntegra e nem só músicas do clássico mineiro de 1972, mas que visitavam todo o universo musical ao redor daquele álbum, afirmando isso logo após o início do show, quando emendaram “Fé Cega, Faca Amolada” com “Paula e Bebeto”, ambas do disco Minas, que Milton Nascimento lançou em 1975. E assim o disco percorreu as inevitáveis “O Trem Azul”, “Trem de Doido” e “Nada Será Como Antes” (que terminou com um aceno ao Tame Impala) e faixas de discos clássicos de Beto Guedes (a imortal “Amor de Índio”, faixa-título do disco do guitarrista de 1978, cantada pelo baixista Fefel), de Lô Borges (“Vento de Maio”, do soberbo A Via Láctea, de 1979) e até da espetacular joia secreta que é o disco Beto Guedes, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Novelli, gravado pelos quatro músicos que o batizam, em 1973. Este último foi contemplado em dois momentos (“Serra do Mar” e “Ponta Negra”, mas faltou “Manoel, O Audaz”) e os dois vocalistas e guitarristas da banda, Dinho Almeida e Benke Ferraz, o reverenciaram como um disco central na formação da banda, citando-o praticamente como um disco dos Boogarins antes da banda existir, traçando a conexão psicodélica entre o Goiás do grupo e a Minas Gerais do Clube. O show ainda contemplou a mesma “Saídas e Bandeiras” que sentenciou esta conexão quando o grupo a tocou ao vivo no encontro com O Terno em junho de 2015 e terminou de forma épica, com a clássica “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, mexendo com corações e mentes de todos os presentes. Foi bonito demais e tem que voltar a acontecer com mais frequência – porque mais do que um show de tributo a um momento histórico da música brasileira, ele expõe as raízes do grupo de uma forma tão natural que torna claro o DNA musical dos goianos.

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Tirei o domingo de Carnaval pra ver mais um show dos ótimos Sophia Chablau & Uma Enorme Perda de Tempo, desta vez fazendo todo mundo no Sesc Ipiranga cantar todas as músicas junto. Em mais um show completo de seu primeiro disco (que inclui as participações da maravilhosa Lucinha Turnbull, do saxofonista João Barisbe, das cordas de Arthur Merlino e Fabio Tagliaferri – este último, pai de Sophia), o quarteto está liberando pouco a pouco as músicas novas de seu segundo álbum que, ao que tudo indica, deve sair ainda este ano – foram quatro só neste show. Sophia foi atropelada pelo Carnaval e mal conseguia colocar e tirar a guitarra, mas, como sempre, transformou o sofrimento em piada e outra vez tirou de letra um desconforto para dominar facilmente o público do teatro, que ela incitou para que levantasse em vez de ver o show sentado. Ninguém ficou parado.

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O Carnaval da Céu está acontecendo no Sesc Pinheiros, quando ela estreia o espetáculo Fênix do Amor, em que organiza seu repertório numa apresentação que não prioriza um determinado disco para repassar seus hits. Ela segue com a banda que montou para circular com o disco Um Gosto de Sol, com o fiel escudeiro Lucas Martins no baixo puxando os novatos Sthe Araujo (percussão), Bruno Marques (bateria) e Leo Mendes, que assume a guitarra depois de tocar apenas violão na turnê anterior – e esta mudança é crucial para a nova apresentação, fazendo o show ganhar força e eletricidade ao mesmo tempo em que Céu desliza em seus hits, como bem sabe fazer. O foco do show fica em seus dois melhores discos – Vagarosa e Tropix – e passeia por algumas do Apká! e até do disco mais recente (fazendo Céu ceder ao repertório autoral quando um fã pediu “Deixa Acontecer”, o samba do grupo Revelação que ela gravou no disco de versões), mas senti falta de músicas do Caravana Sereia Bloom – “Falta de Ar”, “Baile da Ilusão” e “Chegar em Mim” fariam bonito nessa noite. Mas é Carnaval e ela aproveitou para emendar uma sequência de músicas alheias no final, que começou sua já clássica versão para “Mil e Uma Noites de Amor” do Pepeu Gomes, passou pelo axé (“Vai Sacudir, Vai Abalar”, da banda Cheiro de Amor), visitou a pioneira Chiquinha Gonzaga (com, claro, “Abre Alas”) e encerrou celebrando Gal, com a irresistível “Bloco do Prazer”. Uma banda tinindo e uma luz deslumbrante (Marcos “Franja” Cicerone esmerilhando com a ajuda do laser de Diogo Terra), deixaram Céu completamente à vontade para dominar o palco e o público com facilidade, numa apresentação que funciona como balanço de carreira e quem sabe a ajude a pensar em novos planos para o futuro.

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Mesmo antes da apresentação que Sophia Chablau fez nesta quarta-feira no Centro da Terra eu já tinha a sensação de que ela estava dando um passo importante em sua ainda breve biografia. Tocando sozinha com seu violão e apresentando músicas novas pela primeira vez, ela mostrou um lado mais lírico e menos irônico do que o que conhecemos em seus trabalhos com suas outras bandas, usando o humor para quebrar o gelo entre as músicas, mas criando um clima mais intimista mesmo quando tocava os rocks tortos que conhecemos quando ela lidera, a Uma Enorme Perda de Tempo, ainda que este clima se expandisse com os vídeos que Dora Vinci projetava sobre a jovem compositora paulistana. E quando uma das músicas novas crava sobre “o início de uma nova era”, confirma-se a sensação de que ela começa a virar uma página de sua carreira para alçar outros voos.
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