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Estranho sossego

Casa cheia para assistir à última apresentação do grupo Oruã antes de sua próxima turnê internacional, quando o quarteto carioca vaga à deriva, nos próximos meses, pelo hemisfério norte com dezenas de apresentações marcadas enquanto finalizam seu próximo disco, que deve ser lançado durante essa viagem. Mas quem foi ao Centro da Terra nesta terça-feira já pode sentir um gostinho do estranho sossego das canções deste novo disco, chamado de Passe. Pelas faixas do novo disco, o grupo conduz um jazz funk relaxado, ancorado num andamento quase sempre kraut, cortesia do entrelaçamento da bateria motorik da aniversariante do dia, Karin Santa Rosa, com as linhas de baixo marcantes de Bigú Medine e a cama eletrônica dos synths de João Casaes. Por cima destes andamentos surge Lê Almeida, por vezes cantando doces melodias sussurradas, por outras deixando sua guitarra sangrar solos entre o rock clássico e o indie rock, e conduzindo todo o público a este novo ambiente, tão familiar quanto surpreendente, enquanto tocavam sob projeções de vídeos com paisagens oitentistas e cenas da própria banda e entre a bruma de incensos acesos. Esse ritual mágico e sônico só mudou de rumo quando o grupo convidou a performer Flavy Matos para o palco e todos trocaram de instrumentos: Lê assumiu o baixo, Bigú foi para o synth, João para a bateria e Karin na guitarra, esta última surpreendida com um bolo de aniversário em pleno palco, antes de cantar a balada “Don’t Touch”, de Norma Tenaga, com a participação de Ana Zumpano na bateria. Coisa linda.

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Oruã: Passe

Muito feliz de trazer pela primeira vez ao palco do Centro da Terra o grupo Oruã, liderado pelo herói da cena independente carioca Lê Almeida. O quarteto apresenta seu “free jazz de pobre, kraut de vagabundo, sem neurose”, como descreve, no espetáculo Passe, que leva o mesmo nome de seu próximo disco, que deve ser tocado pela primeira vez ao vivo nesta terça-feira. É a última apresentação do quarteto no Brasil antes de mais uma turnê internacional e terá a participação de Ana Zumbpano e Flavy Matos. Os ingressos estão sendo vendidos online e a apresentação começa pontualmente às 20h. Vamos?

2023 empilhando festival atrás de festival – então toma mais um pra incluir na sua agenda. O Festival Zunido acontece este mês no Sesc Pompeia e reúne o trio Azymuth com o mestre Marcos Valle, traz o DJ Kid Koala mais uma vez ao Brasil e nos presenteia com a primeira vinda dos Last Poets, um dos grupos pioneiros na história do rap, ao país. “O mais importante é a questão dos encontros e das sonoridades que se juntam nessas delicadezas e dissonâncias”, explica Talita Miranda, que assina a curadoria do festival ao lado de Rodrigo Brandão e da curadoria de música do Sesc Pompeia, “são transformações e releituras a partir de uma base da música negra, da diáspora africana, o quanto a gente busca essa transformações e essa mistura, então vai ter sempre o hip hop, jazz, afrojazz, o afrossamba e, claro, dar uma ênfase específica para a música brasileira.” Continue

Que delícia a primeira segunda-feira de Ná Ozzetti no Centro da Terra, quando ela deu início à sua temporada Três Duos e Um Trio, que ocupará todo início de semana de março no palco mais fértil de São Paulo. Acompanhada dos sopros de Fernando Sagawa e do violão de Franco Galvão, ela nos conduziu ao repertório de Dominguinhos a partir dos arranjos camerísticos criados pelos dois especialmente para sua voz doce e apaixonante, fazendo-nos descobrir recantos aconchegantes de seus maiores sucessos (“Eu Só Quero um Xodó”, “Tenho Sede” e a magistral “Lamento Sertanejo”, uma das músicas mais bonitas do Brasil, estas duas últimas em parceria com Gilberto Gil) e confortos inesperados em canções menos conhecidas (como “Sopro de Flor”, parceria com José Miguel Wisnik, “Poema 3”, composto sobre um poema de Câmara Cascudo, “Contrato de Separação”, “Chegando de Mansinho”, “Sanfona Sentida” e a linda “Arrebol”, que voltou no bis). O casamento da voz perfeita de Ná com sua interpretação contida ao lado dos instrumentos quase mínimos de seus companheiros de noite realçou a beleza nata das composições deste que é um dos maiores nomes de nosso cancioneiro. Uma noite apaixonante.

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Que maravilha receber a maravilhosa Ná Ozzetti na primeira temporada no Centro da Terra de 2023. Durante quatro as segundas-feiras de março, ela divide o palco com mais três amigos na série de shows que batizou de Três Duos e Um Trio, que começa nesse dia 6 exatamente com o trio propriamente dito, formado pelos sopros de Fernando Sagawa e pelo violão de Franco Galvão, quando os três navegam pelas canções eternizadas pelo mestre Dominguinhos. Na segunda seguinte, dia 13, Ná recebe o comparsa baixista e produtor Marcelo Cabral para formar um duo de voz e contrabaixo acústico que repassa o repertório dos dois, tanto as músicas de Ná quanto as que Cabral participou em parcerias com Rodrigo Campos Kiko Dinucci e Romulo Fróes, entre outros. Na terceira segunda do mês, dia 20, ela reúne-se mais uma vez com Sagawa e os dois embarcam em um duo de voz e sopro com vasto repertório, para finalmente encerrar estes encontros no dia 27, ao lado dd violonista e arranjador Franco Galvão, celebrando a obra do compositor paulista Vadico, puxando clássicos em parcerias com Noel Rosa, entre outros sambas. Os ingressos já estão à venda e os espetáculos começam sempre às 20h.

Brilha, Anelis!

Anelis Assumpção lançou seu Sal em três noites esgotadas no Sesc Pinheiros – fui na de domingo, quando ela chamou a amiga Thalma de Freitas para dividir vocais em algumas canções. Quase sem conversar com o público, deixando as canções falarem por si, ela subiu um patamar nesse show, ao mostrar que mais do que uma cantora, compositora e intérprete de primeira, ela é uma estrela. Não que não soubéssemos disso, mas nessa nova apresentação ela deixou sua luz brilhar magicamente, contando com uma banda ainda mais azeitada que a que acompanhava nos anos anteriores e com um palco deslumbrante: tudo funcionando para que ela deslizasse sua voz e seu corpo acima de todos nós, tirando o fôlego do público em vários momentos. Quero ver mais!

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Nosso timoneiro

Com 80 anos completos, Paulinho da Viola segue com a mesma calma impecável e o mesmo ar de tranquilidade que sempre carregou por toda sua vida. O carisma recolhido passa uma impressão de timidez, mas é só uma forma de ficar à vontade ao mesmo tempo de dominar o público de forma quase passiva – e quando menos esperamos estamos envoltos por suas histórias e canções, que se misturam com a própria história do samba. Em sua apresentação neste sábado no Vibra São Paulo (o antigo Credicard Hall), ele aproveitou esse momento para contar seus causos e lembrar parcerias, citando compadres e mestres como Monarco, Cartola (cantou “Acontece” acompanhado apenas do piano de Adriano Souza), Zé Kéti, Elton Medeiros e Lupicínio Rodrigues ao mesmo tempo que mistura suas canções com as destas entidades. E longe de ser só uma celebração nostálgica, ele visitou clássicos de diferentes fases de sua carreira, dos hinos que o tornaram célebre (“Samba Original”, “Coisas do Mundo Minha Nega”, “Sinal Fechado”, “Dança da Solidão”, “Pecado Capital”, “Coração Leviano”, “Argumento”, “Timoneiro”, “Prisma Luminoso” e “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”) a clássicos mais recentes (como “Eu Canto Samba” e “Bebadosamba”) e até um samba inédito, ainda sem título, que usou para abrir a apresentação, tocando, sozinho no palco, apenas uma caixinha de fósforo. Gigante.

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Anna Vis lançou sua carreira fonográfica no dia em que fez o primeiro show desta nova fase, lançando seu disco de estreia, Como Um Bicho Vê, no palco do Sesc Vila Mariana exatamente no mesmo dia em que este viu a luz do dia. E, como o próprio disco, o show foi direto e convicto, com sua autora assumindo a força deste primeiro trabalho acompanhada da mesma dupla que a ajudou a transformar suas canções em fonograma – Marcelo Cabral e Maurício Takara -, que abriram seus respectivos baixo e bateria para que ela mostrasse suas composições desimpedidamente. Além da dupla, que também produziu o disco, ela ainda contou com a presença do diretor artístico deste trabalho, Romulo Fróes, que em vez de cantar a música que participa no final do álbum (a tensa “Moribundo”), preferiu cantar “Calada”, que leva a carrega o verso que batiza o disco – Anna retribuiu a participação puxando “Numa Cara Só”, de um dos discos que Romulo lançou ano passado, Aquele Nenhum. Mas o show era dela e mesmo com essas presenças ilustres, não baixou a cabeça e apresentou-se com a mesma firmeza do disco. Quase sem trocar palavras com o público, ainda intercalou as faixas com o longo poema “Sem Vacilação”, que, como no disco, espalhou pelo repertório – a diferença é que se, no disco,os pedaços do texto foram amparados pela colagem eletrônica do produtor carioca Mbé, no show Takara e Cabral improvisaram bases acústicas para que ela recitasse o texto, criando uma conversa dinâmica e ao mesmo tempo austera com suas canções incisivas e sensíveis.

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Duas realidades sonoras se chocaram nesta terça-feira no Centro da Terra sob o signo do ruído. O duo paulistano Test (transformado em trio com a presença de Bernardo Pacheco, assumindo o baixo como convidado desta noite) convidou o quinteto paraibano Papangu para um encontro no palco que, a princípio, imaginei vir na linha dos outros encontros que já haviam realizado anteriormente, tocando coletivamente com o trio Rakta e o quarteto Deaf Kids, ambos daqui de São Paulo. Mas ao contrapor um universo musicalmente tão distinto quanto o do Papangu, o time paulistano preferiu alternar composições com o grupo da Paraíba. E enquanto o Test passeava pelo grindcore e speed metal com sua desenvoltura já tradicional – criando um volume grave de barulho que às vezes arrastava-se e outras disparava, o Papangu expandiu os tentáculos de seu metal pela música nordestina, sacando flauta, gaita e triângulo como contrapontos acústicos da massa sonora do grupo, e pelo rock progressivo, chegando ao extremo de reduzir o show a um piano acústico acompanhado do sax do convidado da banda, o francês Benoit Crauste. Com duas bandas no palco simultaneamente, era inevitável que o encontro vez por outra descambasse para o improviso, fazendo os sete músicos entrarem em combustão espontânea musical. Um soco sonoro, daqueles de tirar o fôlego.

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Depois de já ter anunciado Kraftwerk (pela primeira vez no Brasil sem um de seus fundadores, Florian Schneider, que morreu em 2020), Weyes Blood e Tim Bernardes tocando Gal Costa em sua escalação, o festival C6Fest, produzido pela Dueto de Monique Gardenberg que fazia o Free Jazz e o Tim Festival, acaba de anunciar sua formação completa. O evento acontece no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, entre os dias 18 e 20 de maio, e no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, entre os dias 19 e 21 do mesmo mês e traz, na escalação final, nomes novíssimos como Arlo Parks, Black Country New Road, Samara Joy e Dry Cleaning, grandes nomes da última década como War on Drugs. Christine and the Queens, The Comet is Coming e Jon Batiste e veteranos como Underworld e Juan Atkins, entre várias outras atrações. No time brasileiro, há um tributo a Zuza Homem de Mello (que foi curador do Free Jazz e do Tim Festival) com a Orquestra Ouro Negro, Fabiana Cozza e Monica Salmaso, Russo Passapusso com a Nômade Orquestra, Caetano Veloso e uma homenagem musical ao ano de 1973 com Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Arnaldo Antunes, Tulipa Ruiz, Linn da Quebrada, Giovani Cidreira e Jadsa. Os ingressos começam a ser vendidos a partir do próximo dia 5 e separei mais informações sobre horários e preços abaixo. Continue