
Enquanto a chuva desabava sobre São Paulo neste sábado, Arrigo Barnabé reuniu-se mais uma vez com seu Trisca – o trio formado por três ex-integrantes do grupo Isca de Polícia, o guitarrista Jean Trad, o baixista Paulo Lepetit e o baterista Marco da Costa – para celebrar seu saudoso compadre Itamar Assumpção no Sesc Consolação. O show Tristes Trópicos costura clássicos do velho Ita com outros de outros sambistas dantanho, como Nelson Cavaquinho (cuja eterna “Quando Eu Me Chamar Saudade” abriu a noite) e Ataulfo Alves (presente em “Errei… Erramos” e “Na Cadência do Samba”) e convulsão entre funk, blues e samba que pairava sobre a obra de Assumpção dava o tom da apresentação, que começou com Arrigo em máquina de escrever, conversando com Itamar ao mesmo tempo em que sua voz regravada repetia-se no palco (em uma possível referência a Walter Franco). E entre hinos como “Fico Louco”, “Noite Torta”, “Oh! Maldição”, “Mal menor” e “Já Deu pra Sentir”, Arrigo ainda embrenhou duas canções próprias que conversam com a obra – e a vida – de Itamar: “Cidade Oculta” e “Clara Crocodilo”, que misturou com “Nego Dito”. Mas um dos grandes momentos da apresentação foi quando contrabandeou o “Relógio do Rosário” de Carlos Drummond de Andrade no meio da clássica “Dor Elegante”: “O amor não nos explica. E nada basta, nada é de natureza assim tão casta que não macule ou perca sua essênci ao contato furioso da existência”, puxou Arrigo de improviso, “Nem existir é mais que um exercício de pesquisar de vida um vago indício, a provar a nós mesmos que, vivendo, estamos para doer, estamos doendo.”
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A Trupe Chá de Boldo está em ponto de bala! Depois do recolhimento do período pandêmico, o grupo paulistano voltou aos palcos em 2023 para lançar o resultado deste tempo fora de cena, o ótimo Rua Ria, que pode lançar no Sesc Pinheiros nesta sexta-feira. E é tão bom ver quando uma banda tão numerosa – são doze integrantes! – funciona de forma tão orgânica e sincronizada, incluindo as trocas de funções durante o show: o vocalista Gustavo Galo vai para a guitarra em alguns momentos, enquanto Tomás Bastos e Gustavo Cabelo revezam-se entre o baixo e a guitarra e o percussionista Rafael Werblowsky troca de lugar com o baterista Pedro Gongom e o outro percussionista Guto Nogueira vai para a frente assumir os vocais. As três vocalistas – Ciça Góes, Julia Valiengo e Leila Pereira – são a alma da banda, entrelaçando seus vocais com os de Galo e Guto e com direito a momentos solo deslumbrantes, enquanto o trio de saxes Marcos Grinspum Ferraz, Remi Chatain e Juliene Bellingeri (esta última gravidaça!) dá o molho que engrossa o groove da banda. Passaram por várias faixas do disco mais recente mas não deixaram músicas de outros discos de fora. Bem bom!
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E pra esquentar esse clima, vou ficar publicando sobre Talking Heads aqui de vez em quando, como esse show maravilhoso que o grupo fez no festival de Montreux, na Suíça, no dia 9 de julho de 1982, e está na íntegra no YouTube. Além da banda principal, o grupo é acompanhado mais uma vez de vários músicos, como o guitarrista Alex Weir, o tecladista Raymond Jones, o percussionista Steve Scales e a vocalista e percussionista Dolette McDonald. além do tecladista Tyrone Downey e as irmãs de Tina, Lani e Laura Weymouth, que entram no bis para tocar “Take Me To The River”. No mesmo dia, Tina Weymouth e Chris Franz acompanhados de Lani, Laura, Steve, Alex e Tyrone abriram para o grupo com seu projeto paralelo Tom Tom Club (e esse show também pode ser assistido abaixo): Continue

Que beleza o show que Rubinho Jacobina fez no Centro da Terra nesta terça-feira, desfilando seu repertório balançado com dois compadres de longa data, cuja química musical vem de tempos imemoriais: quando Gustavo Benjão assumiu o baixo e Marcelo Callado a bateria, metade do quarteto Do Amor tornou-se base para o show do compositor carioca, que não teve dificuldade para se soltar. Seu suíngue irrefreável conduzia a apresentação sempre cima e para a frente, mesmos nos momentos mais delicados, quando, por exemplo, convidou Iara Rennó para sua participação a partir da música que compuseram juntos para seu disco mais recente, Amor Universal, a hipnótica e triste “É Demais”. Mas logo o show partiu literalmente para memórias de outros carnavais e os quatro dispararam marchinhas modernas de um carnaval do século 21 com tempero do século passado, numa noite muito astral.
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Encerrando a temporada de música em agosto no Centro da Terra, chega a vez do carioca Rubinho Jacobina estrear em nosso palco, trazendo músicas de seu disco mais recente, Amor Universal, e outras de sua carreira ao lado de uma banda que é metade do grupo Do Amor: Marcelo Callado na bateria e Gustavo Benjão no baixo. Rubinho repassa os dez anos que esteve na França num show que ainda terá a participação de Iara Rennó. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Desde o dia em que convidei Sandra Coutinho para fazer a temporada no Centro da Terra ela comentava, mesmo antes de confirmar se conseguiria conciliar sua agenda com a proposta, que uma das noites tinha de ser dedicada ao que ela chamava de “lado B das Mercenárias”: todo um repertório do clássico grupo de pós-punk que moldou parte da cena paulistana dos anos 80 que nunca tinha sido gravado de verdade, sendo tocado apenas em shows e circulando em gravações domésticas não-oficiais. Depois que confirmou sua temporada para este mês de agosto, ela deixou essa data como sua última participação e em vez de simplesmente trazer a atual formação da banda – com ela no baixo, Sílvia Tape na guitarra e Pitchu Ferraz na bateria – resolveu convidar reforços de peso para essa noite histórica. Além do único integrante do sexo masculino nas décadas de carreira da banda, Edgard Scandurra (que foi baterista da primeira formação da banda, mas que nesse show tocou guitarra), ela também reuniu um coro da pesada – Bibiana Graeff, Amanda Rocha e Mayla Goerisch – que assumiu vocais de canções que, mesmo com quase quarenta anos de idade, ainda soam atuais. Foi a coração de uma temporada que nasceu clássica – agora vamos ver se essas músicas inéditas finalmente podem ser registradas!
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A essa altura do campeonato você já deve saber que o Queens of the Stone Age cancelou sua participação no festival The Town, quando tocaria antes dos Foo Fighters, por motivos de saúde – e que seu substituto foi o trio nova-iorquino Yeah Yeah Yeahs. Mas a boa notícia mesmo é que quem quiser ver o grupo liderado por Karen O não vai precisar encarar a maratona de um festival, porque o Cine Joia acaba de confirmar que o grupo fará um show só seu no dia 8 de setembro – os ingressos podem ser comprados aqui. Que beleza, hein.

Outro encontro de gerações que aconteceu no fim de semana foi quando a paraense Luê chamou seu pai, Júnior Soares, um dos fundadores do Arraial do Pavulagem, para dividir o palco do Sesc Vila Mariana consigo, no primeiro encontro de pai e filha no palco desta última. Luê está lançando o EP 091, mergulho em suas raízes nortistas, que funciona como preâmbulo para o álbum que lança em breve, Brasileira do Norte, em que mistura gêneros caribenhos, amazônicos e latinos na mesma sonoridade pop e dançante – e com sua mágica rabeca sempre à mão. Esse foi o tom do show que aconteceu no domingo e Luê conseguiu aquecer o público com o calor de canções autoexplicativas como “Verão no Pará” e “Dançadeira do Arrozal” mesmo com o frio de quase 10 graus do lado de fora. O show aainda contou com ninguém menos que Felipe Cordeiro nas guitarras e depois Luê chamou o pai para dividir o single que lançaram juntos, “Preamar”, para depois passear pelo repertório paterno – sem esquecer a clássica versão que Beto Maia fez para “Wicked Game” de Chris Izaak, rebatizada de “Lilian”. Noite quente.
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“Eu tenho pensado em como abordar a cultura popular, porque há uma grande contradição, profunda, que é a contradição do nosso país, que é o fato de quando a gente elogia, defende e gosta da cultura popular, a gente sabe que essa cultura é a cultura dos condenados da terra, dos oprimidos, das pessoas que não tiveram nada”, Siba interrompeu a festa que fez com a Fuloresta nesse fim de semana no Sesc Pinheiros para salientar a disparidade entre a celebração que conduzia no palco e a realidade que faz essa folia existir. “E parece que a gente quer que continue existindo gente condenada nesse país pra que continue existindo cultura popular, então talvez seja o caso de olhar lá para o horizonte e defender o fim da cultura popular, ou seja, que a cultura popular seja a cultura desse país”. Um fim de semana concluiu o reenlace do mestre pernambucano com seus companheiros e mestres de Nazaré da Mata, com quem já percorreu todo o país e viajou pelo exterior. O reencontro aconteceu há poucos meses, no Pernambuco, e as duas apresentações ocorridas em São Paulo só vieram reforçar a importância deste novo momento, principalmente a partir da perspectiva destes anos de trevas que atravessamos. E mais do que a felicidade de poder brincar ao som dessa música, que é tradicional e moderna ao mesmo tempo (teve que nem reparasse que eles puxaram “Barbie Girl”, do Aqua, entre outros temas pop, em um determinado trecho do show), foi incrível rever mestres como Barachinha, que engatou dois embates de rimas com Siba, um deles dando uma volta ao redor do público do Sesc, e Mané Roque, dançando e pulando mais feliz que todos os outros músicos reunidos, fazendo o que fazem de melhor. A festa não pode parar!
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Vamos para mais um mês de atrações no Centro da Terra? Além da temporada de segunda-feira e dos shows de terça, neste mês teremos música ao vivo também às quartas, por isso são mais quatro shows durante o mês que começa na semana que vem. E é com maior satisfação que apresento o dono das segundas-feiras do mês: boogarinho Dinho Almeida, que começa a investigar seu trabalho solo na temporada Águas Turvas, primeiro tocando sozinho no palco (no dia 4 de setembro), depois acompanhado de Bebé e Felipe Salvego (dia 11), da dupla Carabobina, Desirée Marantes e Bruno Abdala (dia 18) e finalmente ao lado de sua irmã, Flavia Carolina (no dia 25). A primeira terça do mês, dia 5, traz mais um novo projeto de Thiago França, que volta-se ao free jazz acompanhado de Marcelo Cabral e Welington Pimpa, apresentando seu Thiago França Trio. No dia seguinte, a primeira quarta do mês (dia 6), é a hora de conhecer o trabalho autoral da instrumentista brasiliense Paola Lappicy, que antecipa seu primeiro disco solo no espetáculo Que Mágoa é Essa?, ao lado de Dustan Gallas, Caio Chiarini, Leandrinho, Léo Carvalho e Luciana Rosa. Na terça seguinte, dia 12, é a estreia do conjunto Comitê Secreto Subaquatico, formado por João Barisbe, Helena Cruz, Clara Kok Martins, Lauiz Orgânico e Fernando Sagawa, que apresentam-se no espetáculo Perigosas Criaturas Amigas. Na segunda quarta do mês, dia 13, Maurício Takara encontra-se com Guizado em uma noite de improviso livre chamada Hábitos Generativos. Na outra terça, dia 19, o palco do Centro da Terra recebe o encontro das bandas Bike e Tagore no espetáculo MPB ou LSD?, em que contam a história da psicodelia no Brasil desde os anos 60 até hoje, desenhando uma genealogia da qual as duas bandas fazem parte. Na quarta, dia 20, é a vez de Marília Calderón fazer terapia no palco no espetáculo Que Cida Decida, acompanhada de Felipe Salvego. Na última terça-feira do mês, dia 26, o baiano Enio e o pernambucano Zé Manoel misturam seus trabalhos autorais no espetáculo Encontros Híbridos seguido, no dia 27, do espetáculo Canta pra Subir, em que a cantora paulistana Sophia Ardessore, acompanhada de Nichollas Maia, Abner Phelipe, Fi Maróstica, Matheus Marinho e Lucas Alakofá dão passos além de seu primeiro disco, Porto de Paz. Um bom mês, diz aí. Lembrando que os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda neste link.