
E vamos ao primeiro Inferninho Trabalho Sujo deste novembro de aniversário dos 28 anos do Trabalho Sujo (serão três, vai anotando) quando reúno duas atrações incendiárias. A primeira é o último show da Monch Monch, liderada pelo geniozinho Lucas Monch, que vai sair do Brasil ainda este mês sem previsão de retorno breve. Depois vem o Test, a banda mais barulhenta do Brasil, em sua versão quarteto, com Berna no baixo e Mariano na percussão. E há a possibilidade de encontro de forças antes do fim da apresentação das duas bandas. Depois dessa colisão é a vez de retomar a pistinha com a comadre Francesca Ribeiro e vocês sabem o que acontece quando ocorre essa conjunção, né? O Inferninho acontece quinta sim quinta não no melhor buraco de São Paulo, nosso querido Picles, ali no coração moribundo do canteiro de obras chamado Pinheiros, no número 1838 da rua Cardeal Arcoverde. Vem com a gente!

Foi maravilhosa a estreia solo de Luiza Villa nesta terça-feira no Belas Artes, dentro da primeira edição do Trabalho Sujo Apresenta que faço após o período pandêmico. Além da voz exuberante e da natural e carismática presença de palco da cantora estreante, ela ainda pode exibi-las transpondo o difícil autodesafio de atravessar o repertório de Joni Mitchell, no show Both Sides Now, em que revisita a obra da cantora em diferentes camadas. Ela começou sozinha ao violão, enfileirando “Circle Game” e “Little Green” sem perder o fòlego ao mesmo tempo em que foi apresentando os integrantes de sua banda, um a um: primeiro o violonista Tomé Antunes (em “Cactus Tree”), depois o tecladista Pedro Abujamra (em “Both Sides Now”), seguido do baterista Tommy Coelho (“Big Yellow Taxi”) e do baixista João Pedro Ferrari (“Carey”), cada um mostrando suas armas e suas habilidades até que a partir de “Hejira”, puderam mostrar como são bem amarrados como conjunto musical – Luiza inclusive, tanto nos vocais quanto na guitarra e no violão. E até o final da apresentação passearam com destreza e alegria por faixas reconhecíveis e empolgantes como “Coyote”, “Help Me” e “In France They Kiss on Main St” e outras mais espinhosas e quilométricas como “Edith and the Kingpin”, “The Hissing of Summer Lawns” (com um solo vocal de derreter qualquer ser vivo) e “Free Man in Paris”, mostrando que estão só começando a mostrar seus talentos. Um show maravilhoso que valorizou meu trabalho como diretor ao lado da produção da Beta Cardoso e da direção de arte da Olívia Pires, Olívia Albegaria e Bertha Miranda, que nos ajudaram com os vídeos, o figurino e a luz da apresentação, formando uma equipe dos sonhos. E é só o primeiro! Ave Joni!
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Ao vivo, o formato Micro, que Maurício Pereira adotou em seu disco mais recente ao lado do compadre Tonho Penhasco, necessariamente torna sua apresentação uma sessão de terapia musical em que o mestre aponta suas músicas para nós, colocando-nos no meio de suas autorreflexões. Nesta terça-feira, no Centro da Terra, ele aprofundou-se ainda mais ao fugir do roteiro de sempre puxando canções – próprias e alheias – que só toca quando ensaia esse show com Tonho com o título autoexplicativo Micro Desmontado – A Gaveta Secreta do Ensaio. Por isso tome Roberto Carlos, Gilberto Gil, Beatles “Mamãe Coragem” e Marília Mendonça, “Satisfection”, Rafael Castro, composições inéditas com Tonho, duas versões para “Tranquilo” entre discussões sobre “lugar de falha”, luz e gelo seco, autopromoção de seu recém-lançado livro e lembrança da São Paulo dos anos 60, sem esquecer clássicos como “Mulheres de Bengala”, “Um Dia Útil”, “Pan e Leche” e “Trovoa”. Sempre aquela maravilha.
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Encerrando a temporada de outubro no Centro da Terra, temos o imenso prazer de receber o mestre Maurício Pereira, que resolveu dissecar seu disco mais recente, o portátil Micro, abrindo seu próprio caderno de rascunhos. No espetáculo Micro Desmontado – A Gaveta Secreta do Ensaio, ele e o fiel comparsa Tonho Penhasco passeiam pelo próprio repertório mas abrindo margem para improvisos que só fazem quando se encontram sozinhos para passar o repertório que levam nos palcos. Entre músicas autorais e alheias, Pereira sempre adocica as canções com suas histórias, deixando tudo bem à vontade. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Paula Rebellato encerrou sua temporada Ficções Compartilhadas nesta segunda-feira no Centro da Terra com uma apresentação tão maiúscula quanto sua ousadia: reler o clássico Desertshore que Nico gravou nos anos 70 quase meio século depois, com camadas eletroacústicas que transpassavam as diferentes fases musicais da soturna diva alemã. Para isso, chamou os camaradas Mari Crestani, João Lucas Ribeiro e Paulo Beto, este último agindo como maestro da banda a partir de seus sintetizadores, enquanto Mari começou primeiro no sax para depois assumir o baixo, e João Lucas ficou na guitarra, ambos segurando vocais de apoio para o canto tenso de Paula recebendo Nico. A dona da noite, com seu timbre grave e usando poucos efeitos sobre a voz, abria, a cada canção, porteiras infinitas de ruído horizontal, que espalhava-se pela plateia como um enxame invisível de abelhas. Numa apresentação tão ritualesca quanto hipnótica, os quatro integraram diferentes camadas instrumentais que passeavam do noise ao rock clássico, passando pela música eletrônica, o noise, o industrial e o ambient, todos a serviço da ampla e erma paisagem desenhada pelas imagens invocadas por Nico, seja em inglês, francês ou alemão. Foi menos que uma hora de apresentação, mas o estado de suspensão parecia ser para sempre.
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Tudo pronto para o espetáculo Both Sides Now que estamos preparando para a próxima terça-feira no Belas Artes. Luiza Villa e sua banda estão afiadíssimos num repertório escolhido pela própria vocalista, que celebra os 80 anos de Joni Mitchell em uma noite que promete ser mágica, como esta versão para “Hejira”. Sente o drama.
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Lançado ao vivo em noite de gala com o teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros lotado nesta sexta-feira, o novo disco de Rodrigo Ogi é batizado com um título que nos induz à ilusão de que a realidade que descreve é como um jogo de dados, induzida por um acaso que às vezes joga contra, às vezes a favor. Mas Aleatoriamente, lançado há um mês, pertence à mesma estirpe clássica de seus melhores álbuns, Crônicas da Cidade Cinza, de 2011, e Rá!, de 2015, e da mesma forma mistura jornalismo com crônica e cinema, criando climas musicais pesados que funcionam como trilhas sonoras perfeitas para descrever situações extremas em regiões inóspitas da grande cidade, periféricas ou não. Se tudo parece uma colcha de retalhos de acontecimentos díspares, é na música que Ogi cria a tensão necessária para que todas essas histórias pareçam fazer parte de um mesmo universo – mostrando-se atento observador da engrenagem da realidade. E nesta vez seu parceiro musical foi um Kiko Dinucci recém-saído da produção do Delta Estácio Blues de Juçara Marçal, que conduziu a saga a partir de pedaços de músicas sincopados uns sobre os outros, criando grooves tensos e intrincados com texturas ruidosas, entre o pós-punk, o no wave e o hip hop nova-iorquino dos anos 80. Foi bom ver Kiko como um dos DJs da noite, dividindo com as bases com o DJ Nato PK, em vez de tocar guitarra, deixando o rap fluir apenas entre bases e vocais. E se o instrumental já estava pesado de saída, os vocais foram sendo apresentados pouco a pouco: além da natural destreza lírica do dono da noite, sempre acompanhado por seu compadre Tiagão Red na segunda voz, Vovô recebeu ninguém menos que Juçara Marçal e Don L em participações precisas – Juçara por três músicas (incluindo “Crash”, que Ogi fez para ela como primeiro single de seu Delta Estácio Blues) e Don L apenas em uma, deixando passar a oportunidade de juntar-se aos outros dois numa mesma faixa. As vozes também brilharam para além dos convidados, a começar pela voz fabulosa de Paola Ribeiro, que contrapunha tanto bases como vocais com seu canto forte, até pelo próprio Kiko, que em vez de disparar o sample com a participação que Siba fez no disco, preferiu ele mesmo cantar a parte do pernambucano. Uma apresentação e tanto – e em que as luzes de Lígia Chaim ajudaram a aumentar ainda mais o clima épico da noite.
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Bonito ver como um projeto toma forma: acabam de abrir as vendas para o espetáculo Melhor do que o Silêncio, que leva Laura Lavieri e Cacá Machado a um disco central na obra de João Gilberto, o fundamental álbum branco de 1973, batizado apenas com seu nome, que completa meio século neste 2023. Gravado em Nova York apenas com voz e violão e pela revolucionária produtora Wendy Carlos (que havia assinado a trilha sonora de Laranja Mecânica com seu nome de batismo, Walter, e transicionava exatamente naquele momento, assinando o projeto como W. Carlos), o disco é a síntese da excelência musical do maior nome da nossa cultura, reduzido ao minimalismo extremo das cordas vocais e seu instrumento, acompanhado apenas da esposa Miúcha em uma canção e de uma cesta de lixo tocada pelo baterista Sonny Carr. Em Melhor que o Silêncio, reuni Cacá e Laura para recriar essa obra-prima nos palcos e a primeira apresentação acontece na Casa de Francisca, dia 11 de novembro, com a participação do percussionista Igor Caracas. Assino a direção executiva do espetáculo, que ainda a direção de arte de Amanda Dafoe e a produção do Guto Ruocco, da Circus. Os ingressos já podem ser comprados a partir deste link.

A experiência Ava Rocha ao vivo sempre transcende o palco e não foi diferente nesta quinta-feira, quando ela mostrou mais uma vez seu suntuoso Nektar, desta vez no palco da Casa Natura Musical. A interação entre a cantora e compositora carioca com seu público é cada vez mais intensa – e ela desceu duas vezes para cantar no meio do povo, depois de entregar maçãs e bebida para os fãs embevecidos que estavam grudados na beira do palco. E amparada por uma banda (quase) sem guitarras, formada por Chicão Montorfano, Vini Furquim, Gabriel “Bubu” Mayall, Charles Tixier e Yandara Pimentel, ela não apenas passou pelo repertório do novo álbum, como visitou hits dos discos anteriores (incendiando os fãs com “Lilith” e “Joana Dark” ou a seduzindo em “Você Não Vai Passar” e “Transeunte Coração”) e outros sucessos populares que já incorporou ao novo show, como “Conselho” do grupo Revelação e “Todo Mundo Vai Sofrer” de Marília Mendonça. Ava no meio do povo é bom demais.
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Lindo demais o show que Loreta fez nesta quarta-feira para mostrar seu disco de estreia Antes Que Eu Caia no palco do Bona. Acompanhada de uma formação nada ortodoxa (o saxofonista e tecladista Fernando Sagawa e o quarteto de cordas formado por Thiago Faria, Michele Mello, Letícia Andrade e Wanessa Dourado), entre o onirico e o erudito, ela deslizou sua voz encantadora por canções melancólicas e esperançosas (incluindo “Ai, Ai Ai”, da espanhola Silvia Pérez Cruz) num show que ainda teve a presença de suas irmãs vocalistas do grupo Gole Seco – as formidáveis Niwa, Gui de Castro e Nathalie Alvin -, que ainda renderam uma apresentação extra para a noite com duas canções só no gogó. E no bis, Loreta chamou o violonista Luca Frazão, “a pessoa com quem eu mais toquei na vida”, para tocar a sua “A Arte de Me Enganar”.
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