
Em sua aparição no segundo fim de semana do festival Coachella, nos Estados Unidos, Charli XCX repetiu o show da semana passada, só que com menos atrações – saíram Lorde, Billie Eilish e Troyan Sivan para a entrada de Addison Rae (que acabou de lançar seu novo single, “Headphones On”) como participação em “Von Dutch”. Mas a principal diferença ficou para o final, quando ela voltou a falar – pelos telões – sobre um fim iminente para seu verão Brat saudando seus pares – tanto da música quanto do cinema (não esqueça que ela está fazendo um filme com o estúdio A24 e teve seu Letterboxd revelado no fim do ano passado) – que estão prestes a lançar novos trabalhos, evocando um verão dedicado a Addison Rae, PinkPantheress, Haim, Pulp, Aidan Zamari, Yung Lean, Ethel Cain, David Cronenberg, Kali Uchis, Perfume Genius, Sean Price Williams, Rosalia, Ari Aster, Kogonada, Caroline Polachek, Paul Thomas Anderson, Joachim Trier, These New Puritans, Hailey Benton Gates, Turnstile, A$AP Rocky, Darren Aronofsky, Blood Orange, Bon Iver e Celine Song. Ela ao mesmo tempo deu uma das chaves da fórmula de seu sucesso do ano passado (dedicando uma estação inteira a um álbum – e podendo esticá-la se desse certo) quanto acenou para possíveis colaborações em projetos futuros. Muito gênia.
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Já está no ar o registro em vídeo do festival Cecília Viva, que aconteceu no Cine Joia em fevereiro deste ano, reunindo shows de artistas como Boogarins, Crizin da Z.O., Kiko Dinucci, Test, DJ Nuts e a primeira apresentação ao vivo das Rakta desde a pandemia para arrecadar grana para ressuscitar a Associação Cecília, clássico ninho de projetos experimentais musicais em São Paulo que sucumbiu à violência paulistana no começo do ano passado. O filme, feito pela dupla Azideia Filmes (formada por Carlos Motta e Priscilla Fernandes), reúne os melhores momentos dessa histórica noite e capta bem o espírito de agradecimento espalhado entre público e artistas (além de várias aparições minhas no canto, sempre filmando tudo). E não é o último evento: a Associação promete novos eventos de diferentes portes ainda esse ano, o próximo deles acontecendo no dia 15 de maio no Porta, com atrações que serão reveladas em breve.
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Eu e Arthur Amaral, o capo da Porta Maldita, estamos criando uma pequena tradição nas edições do Inferninho Trabalho Sujo que realizamos naquele segundo andar da rua em frente ao Cemitério São Paulo, ao reunir bandas de diferentes públicos e sonoridades para trazer gente diferente, legal e interessada nos nomes que estão surgindo nesta década que, apesar de na metade, ainda tem cara de nova devido aos seus primeiros e terríveis anos. A noite desta quinta-feira começou com o trio Polly Noise & The Cracks, banda paralela do núcleo Der Baum, já clássica banda new wave synthpop do ABC paulista, desta vez liderada pela guitarrista Fernanda Gamarano, que deu a cara sem rosto ao grupo, que mergulha nos oceanos da melancolia gótica de Robert Smith. É o primeiro projeto paralelo do Der Baum, que vai preparando seu próximo álbum enquanto os outros integrantes da banda vão soltando seus novos trabalhos, como me disse Ian Veiga, que, como Fernanda, é fundador do Der Baum e que toca bateria como um dos Cracks, e que ainda conta com a videomaker Priscilla Fernandes no baixo gallupiano. Show curto, mas eficaz.
Depois foi a vez de Lauiz subir ao palco com a cozinha do grupo Celacanto num formato banda de rock, longe dos experimentos eletrônicos pop que caracterizam sua discografia – o que pode marcar o início de uma nova fase de seu trabalho, por assim dizer um “Lauiz rock”. Com Matheus Costa no baixo e Giovanni Lenti na bateria, ambos celebrando o lançamento do primeiro disco de sua banda em clima da farra na Porta Maldita, a nova formação do show de Lauiz ganhou inevitáveis peso e força, liberando inclusive seu comparsa Marcos M7i9 para soltar sua faceta guitarrística, chegando ao auge quando, depois de passar versões pesadas das músicas de seu Perigo Imediato e uma inédita, Lauiz – vestido com uma camiseta Pepsi Gangster – convidou o guitarrista Vicente Tassara, compadre tanto na banda Pelados quando no projeto de plunderfonia YouTube Shorts – para três músicas, duas delas versões de clássicos do indie rock com W maiúsculo: “Undone (The Sweater Song)” do Weezer e uma inacreditável versão para “Roses Are Free’, do Ween. E se o Lauiz antecipou a vibe country do Cowboy Carter de Beyoncé em seu último disco, talvez possa antecipar a fase rock da diva no próximo trabalho. A ver.
A noite fechou com um show inacreditável do Tutu Naná, banda de Chapecó baseada em São Paulo, cuja química mistura noise, shoegaze, free jazz, dream pop rock e até bossa nova numa formação precisa, com os vocalistas e guitarristas Akira Fukai e Jivago Del Claro (que reveza-se entre o baixo e a guitarra), a bateria à Keith Moon do impressionante Fernando Paludo e a flauta transversal da esplendorosa vocalista Carou Acaiah, que equilibram-se em linhas instrumentais que vão do esporro ao sussurro hipnotizando todos os presentes. A banda, que mora no mesmo lugar há um ano, é um segredo bem guardado da cena indie brasileira que deve começar a ser conhecido neste ano, quando possivelmente lançam dois (!) discos. Muito foda.
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A próxima edição do Inferninho Trabalho Sujo acontece na véspera da sexta-feira da paixão, quando mais uma vez reúno na Porta Maldita três artistas de sonoridades díspares mas dentro de uma mesma lógica estética e geracional. Lauiz abre os trabalhos começando a despedir-se do disco do ano passado, Perigo Imediato, ao mesmo tempo em que aponta para novos rumos musicais, contando com possíveis participações especiais. A banda sem rosto Polly Noise & The Cracks vem em seguida mostrando sua sonoridade melódica e ruidosa para, no final, recebermos a presença do quarteto Tutu Naná, um dos nomes em ascensão da cena indie brasileira desta década. E entre os shows, toco umas músicas pra mexer com os quadris dos presentes. A Porta Maldita fica no número 400 da rua Luiz Murat, entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena. E comprando ingressos antecipadamente sai mais barato.

Bem bonita a primeira apresentação dos ingleses dos Tindersticks no Brasil, que aconteceu nesta quarta-feira no Auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina. Um evento sutil e quieto, que prendeu a atenção da plateia calada do início ao fim em mais de duas horas de introspecção, o que deu ênfase ao detalhismo delicado do grupo, reforçado pelo ótimo som do auditório. Banda inglesa de folk formada nos anos 90, o grupo só deu chance à nostalgia no bis, quando pinçou “Tiny Tears”, de seu segundo disco homônimo, lançado há 30 anos – e claramente só fez isso por ser a primeira apresentação do grupo no Brasil. Grande parte do show contou com músicas da última década e meia, quando os fundadores Stuart Staples (violão e voz), David Leonard Boulter (teclados) e Neil Fraser (guitarra) fecharam a formação atual ao lado do baixista Dan McKinna e do baterista Earl Harvin, com ênfase maior em seu disco mais recente, Soft Tissue, lançado no ano passado, cujo repertório foi passado à íntegra. E se o clima de concerto folk de câmara já era incomum quando o grupo surgiu, em 2025 ele parece ainda mais alienígena – e que bom saber que eles ainda têm espaço para este pouso.
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A apresentação que Maurício Tagliari fez nesta terça-feira no Centro da Terra partiu de seu trabalho de pós-graduação, quando o violonista e produtor, orientado pelo percussionista Ari Colares, visitou as células rítmicas da música afrobrasileira. A partir disso, Maurício começou a chamar instrumentistas mulheres para compor canções a partir desta pesquisa, o que começou a materializar-se no espetáculo Na Linha Guia, que mostrou no palco do teatro do Sumaré, ao lado das percussionistas Victoria dos Santos e Xeina Barros. Juntos, os três embarcaram em uma viagem pelas claves básicas que deram origem a desdobramentos específicos da música brasileira, mostrando composições ao mesmo tempo em que explicavam conceitos e davam exemplos, transformando a apresentação numa aula – e vice-versa. Por pouco mais de uma hora, o trio conduziu o grupo a reflexões sobre a natureza do que chamamos de música brasileira intercaladas por causos e canções, sempre os pés do ritmo batendo forte no chão.
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Quem assume o palco do Centro da Terra nesta terça-feira é o trio formado por Maurício Tagliari ao lado das percussionistas Victoria dos Santos e Xeina Barros, que passeiam por canções criadas a partir de claves da linhagem musical afrobrasileira que foi a pesquisa de pós-graduação de Maurício. O espetáculo Na Linha Guia é o início de um novo trabalho de Maurício ao lado de instrumentistas mulheres, começa pontualmente às 20h e já está com ingressos à venda no site do Centro da Terra.
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Essa segunda noite da temporada de Paulo Beto no Centro da Terra foi absurda. Reunindo um time sem ressalvas, ele simplesmente deixou o som rolar e a química entre os músicos transformou o palco do teatro num laboratório de improvisos repentinos e composições espontâneas que iam tomando corpo a partir de pequenas doses de ritmo cogitadas por algum dos integrantes da banda Zeroum, sendo seguido ao mesmo tempo pelos outros três numa sintonia finíssima. Na bateria, Edgard Scandurra dava toda a quadratura pós-punk e por vezes kraut que pairava sobre os quatro, temperada pelos synths dessa vez discretos conduzidos por PB, mais presente na guitarra – punk-funk como deveria ser – do que em seu instrumento eletrônico nativo, o baixo de groove cavalar conduzido por Luiz Thunderbird e o vocal caótico e frito de Tatá Aeroplano, tocando seus brinquedos com pedais criando efeitos intuitivamente. Num dado momento, Thunder pegou o microfone e reforçou o caráter instantâneo das composições, reforçando que parte da energia vinha da plateia: “A gente sentiu esse lance Devo vindo de vocês”, reforçou. Uma noite memorável.
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E sábado também teve Clairo no Coachella, que aproveitou a oportunidade para aumentar ainda mais a grandeza de seu ótimo Charmed, passeando por quase todo o repertório do disco do ano passado e chamando não apenas os ex-integrantes de sua banda Shelly para dividir o palco em “Steeeam” como chamando ninguém menos que o principal político de oposição nos EUA, Bernie Sanders, para apresentá-la ao palco. Ela é demais ❤️
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E neste sábado no Coachella, Charli XCX resolveu subir ainda mais o sarrafo de seu 2024 ao ampliar a grandeza de seu Brat para o palco do festival na Califórnia. Em vez de mostrar músicas novas ou novas colaborações, preferiu reunir, num mesmo show, ninguém menos que Lorde e Billie Eilish (e, vá lá, Troye Sivan também) além de passear por todo o repertório de seu disco do ano passado (à exceção de “B2B” e “Rewind”) e encerrar com uma versão para “I Love It”, da dupla Icona Pop, a primeira vez em que ela entrou no imaginário mundial, em 2012. E em vez de aproveitar o show para mostrar um novo passo em sua carreira ou finalizar o capítulo Brat, ela preferiu deixar em aberto, mostrando um vídeo no final da apresentação em que diz que quer que o verão Brat dure pra sempre… O que ela quer dizer com isso? Brat 2025?
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