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Jazz na Fábrica: o maior festival de jazz de São Paulo

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Cassandra Wilson, Roscoe Mitchell, Dr. Lonnie Smith, Ibrahim Maalouf, Sun Rooms, Raul de Souza, João Donato e Eliane Elias, Ivo Perlman, Macy Gray, Richard Bona e David Murray são algumas das atrações que passam pelos palcos da choperia do Sesc Pompéia no mês de agosto, quando acontece a terceira edição do Jazz na Fábrica, o maior festival de jazz da cidade que se consolida aos poucos como uma grande vitrine mundial do gênero. O mês de atividades começou nesta quinta-feira passada, quando o grande McCoy Tyner deu início aos trabalhos, e segue até o primeiro dia do mês seguinte. Bati um papo com o Thiago Freire, sobre o festival e sua importância cada vez mais em alta para o gênero e para a cidade.

O que é o Jazz na Fábrica?
O Jazz na Fábrica é um festival de caráter panorâmico. Foi assim nas duas primeiras edições e assim deve permanecer. Desse modo, ele é calcado na ideia de pluralidade: gêneros, origens culturais e geográficas, formações e timbres. A terceira edição aposta ainda na ideia de “contaminações mútuas” – ao longo do século vinte o jazz se esparramou pelo globo, influenciando a produção musical de diversas regiões e carregando, em contrapartida, influências também diversas. Isso fica evidente na programação de artistas brasileiros, extremamente respeitados no cenário internacional como João Donato e Raul de Souza. Procuramos contemplar gostos diversos, as sonoridades mais tradicionais, as sonoridades mais jovens e os experimentalismos.

São Paulo é carente de jazz?
Pergunta difícil. São Paulo está inserida num circuito bastante interessante e recebe anualmente uma programação artística bastante rica em todas as linguagens. Há ainda uma proliferação de jovens grupos e diversos artistas com carreira longa tocando por aí em bares e casas de espetáculo. Desse ponto de vista, eu diria que não, não temos essa carência.
Contudo, acho importante considerarmos as questões da acessibilidade e das condições técnicas em geral. Se considerarmos que existe sim em São Paulo uma razoável oferta de apresentações jazzísticas e festivais, precisamos nos perguntar se, em geral, elas são acessíveis ao público do ponto de vista dos valores dos ingressos. Muitas vezes não são. No caso das casas voltadas ao público mais jovem, as condições de escuta nem sempre são as mais adequadas por diversos fatores, o que de modo algum compromete o seu importante papel. Mas nem sempre, ouvir a música é o foco da oferta, e mesmo, da procura. Desse ponto de vista, talvez não sejamos carentes de jazz, mais sem dúvida alguma quanto mais iniciativas tivermos, quanto melhores forem as condições propostas ao público e quanto mais claras forem as intenções de apresentar ao público um conteúdo relevante, melhor.

Quais as maiores dificuldades para escalar um evento como esse?
Eu diria que, por um lado, há uma abundância de propostas. Por outro, os nossos limites de natureza diversa – financeira, espaços, duração e prazos. Artistas estrangeiros lidam com o calendário de maneira diferente de nós e temos muito a aprender com isso. Mas sobretudo, o desafio reside no conteúdo: compor um todo bem arranjado, que levante questões com relação ao universo do jazz e que dê conta de passar por essas mesmas questões ao propor uma grade de programação.

Quais são seus maiores orgulhos nesta edição?
A programação foi construída a muitas mãos. A equipe de programação do Sesc Pompeia e os colegas da administração central. Isso garantiu a pluralidade e a articulação do festival e do resultado da curadoria. Por conta disso, o todo me deixa orgulhoso. E aos demais, creio, também.

O que deve surpreender o público?
Considerando “supreender” como “ser pego positivamente pelo desconhecido”, o trompetista Ibrahim Maalouf – ainda pouco conhecido no Brasil e que é um acontecimento na Europa – certamente deve surpreender. Eliane Elias, que toca pouco no Brasil, cantora e pianíssima habílissima, também. Todos os artistas brasileiros do recorte Café com Leite – que reúne mineiros e paulistas – certamente surpreenderão e comprovarão que se temos alguma carência quanto ao jazz, não é de talento!

O outro Lee Ranaldo

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Depois de dois shows com o pé na música pop, o sonic youth Lee Ranaldo mostrou seu lado artsy ao se apresentar na semana passada no mesmo Sesc Pompéia em que mostrou seu disco solo mais recente, só que atravessando o lado da rua, no Teatro da unidade, e não mais na Choperia. Sozinho no palco do teatro, ele desbravou o terreno da microfonia e do barulho sem as muletas da melodia, do refrão ou de letras. Dedicou sua apresentação ao puro ruído elétrico, transformando sua guitarra em uma antena reverberadora de sons muito mais do que um instrumento musical. Mexendo nos botões dos pedais e de dois amplificadores espalhados pelo palco, ele usava um arco de violoncelo e baquetas para vibrar a eletricidade sonora pelas cordas da guitarra, além de arrastá-la no chão, pendurá-la numa corda no palco e girá-la sobre a própria cabeça. O teatro só tinha uma das metades abertas pois a apresentação – chamada “Sight Unseen” contava com uma apresentação em vídeo, feito pela esposa Leah Singer, projetada num telão atrás de Lee. O filme intercalava cenas de árvores ao vento a cenas de diferentes platéias em situações distintas, colando as imagens com sons de diálogos, ruídos de multidão e palavras repetidas. Na primeira performance, na terça-feira passada, ele ficou sozinho no palco e não sentou em momento algum. No dia seguinte, empunhou seu instrumento como guitarra por poucas vezes, convidou um grupo de percussionistas brasileiros (Maurício Takara entre eles) para tocar aleatoriamente ampliando o próprio caos elétrico, além de passear pelo público. Dois shows distintos e bem diferentes do que ele fez na semana anterior. Em comum, apenas o entusiasmo em conversar com o público ao final e, claro, paredes de microfonia, marca registrada do sujeito. Fiz uns vídeos aí embaixo, olha só:

 

Lee Ranaldo, o cientista maluco

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O fim do Sonic Youth parece ter liberado seus integrantes do ruído e da microfonia – pelo menos foi isso que deu para entender a partir dos primeiros trabalhos que dois de seus fundadores lançaram. Demolished Thoughts, o segundo disco solo de Thurston Moore, lançado em 2011, era quase todo composto ao violão e a produção do Beck enfatizava o lado bucólico e solitário das canções. O de Lee Ranaldo, Between the Times and the Tides, também segundo disco, lançado no ano passado, também tinha maior foco em canções quase sessentistas de tão perfeitinhas. Mas os shows dos dois guitarristas no Brasil mostrou que o que eles gostam mesmo é de barulho. Thurston, em abril do ano passado, trouxe uma banda de apoio que meses depois se tornaria o Chelsea Light Moving, uma banda elétrica o suficiente para não ter nada a ver com o disco que a reuniu. Agora é a vez de Lee Ranaldo, que se apresenta no Brasil em quatro datas – duas no formato rock e a banda The Dust, e duas no formato arte, ao lado da esposa Leah Singer.

Na tradição do Sonic Youth, Lee Ranaldo era o cientista maluco, o desbravador das fronteiras da eletricidade sonora, enquanto Thurston era o maníaco do punk rock, o autor de “Teen Age Riot”. E por mais que seu disco mais recente soasse domesticado e pop, quando ele o trouxe para o palco da choperia do Sesc Pompéia, abria espaços entre refrões, introduções e letras para espasmos sonoros descontrolados e eufóricos, sendo acompanhado por músicos na mesmíssima sintonia de sua antiga banda – um deles, o mestre baterista Steve Shelley, eterno baterista do SY. O guitarrista Alan Licht ia da microfonia e ao discreto apoio ao líder da banda, enquanto o baixista Tim Luntzel criava contrapontos musicais impensáveis na formação do Sonic Youth, com um dedo no jazz e outro no rock clássico. Mas por mais que brilhassem como músicos, o holofote caía sempre em Lee Ranaldo.

Muito à vontade, ele não apelou para o populismo de tentar falar em português e assumiu que seu público entendia o inglês que falava – e não parava de falar. A cada nova música, conversava com a platéia explicando a origem da música (“Xtina as I Knew Her” era sobre sua colega adolescente mais promissora, uma pessoa que ninguém nunca mais sobre dela; “Shouts” foi composta a partir do movimento Occupy Wall Street, etc.) e todos reagiam como se estivessem assistindo a um velho conhecido contar o que fez da vida o tempo todo que esteve fora. Além das músicas do disco do ano passado, emendou algumas que ainda não existem em disco, como “Lecce”, “Keyhole”, “Fire Island (Phases)” e “Last Night on Earth”.

E matou a vontade do público brasileiro de ouvir suas faixas no Sonic Youth mesmo sem tocar nenhuma música da banda há mais de ano em seus shows. Na sexta-feira foi de “Genetic” e no sábado foi de “Karen Revisited (Karenology)”. No mesmo sábado ainda brincou com o público, anunciando “Teen Age Riot” antes de rir dizendo que era uma piada. E além do Sonic Youth, discorreu por outras versões, ao lembrar que, quando tinha apenas as músicas do primeiro álbum, gostava de tocar músicas que o influenciou – e para não perder a oportunidade, tocou “She Cracked” dos Modern Lovers na sexta-feira e outras três – “Everybody’s Been Burned” dos Byrds, “Thank You for Sending Me an Angel” dos Talking Heads e “Revolution Blues” do Neil Young – no sábado.

Ao final dos dois shows, correu para falar com os fãs. No primeiro dia, estava conversando com um amigo quando Lee Ranaldo, seguido de Steve Shelley, saiu correndo dos bastidores para o público, perguntando “cadê as pessoas?”. Conversou, tirou fotos e autografou discos – demorou tanto tempo que, no sábado, a casa de shows achou melhor organizar o encontro do lado de fora. E, mais uma vez, cruzei com ele quando estava saindo, ele fazendo a mesma pergunta (“cadê as pessoas?”) com os olhos esbugalhados e ar impaciente. Era ainda o mesmo cientista louco que tornou o Sonic Youth uma das bandas mais importantes de sua geração.

Agora é a vez de seus shows performáticos. Vamos ver o que acontece.

Fiz uns vídeos aí embaixo, saca só:

 

Wado recebe Cícero, Momo e Marcelo Camelo

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Wado apresentou seu Vazio Tropical ao vivo esta semana em São Paulo, no Sesc Pompéia, e recebeu Cícero, Camelo e Marcelo Frota, do Momo (e Fafá de Belém!), em canções que foram registradas em vídeo abaixo, pelo Mac:

 

Hoje é dia de Lee Ranaldo

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E já já o mestre Lee Ranaldo se apresenta sozinho pela primeira vez em São Paulo, no Sesc Pompéia. Hoje e amanhã ele toca na choperia com a banda The Dust (que ainda conta com o também sonic youth Steve Shelley na bateria) e apresenta as músicas do ótimo primeiro disco solo após o fim da banda, no ano passado. Terça e quarta, ele se apresenta com sua mulher Leah Singer em uma performance no teatro da mesma unidade do Sesc. Vou nos quatro dias. E ele tem tocado músicas do Neil Young, dos Byrds e do Talking Heads, tão sabendo?


Lee Ranaldo – “Revolution Blues”


Lee Ranaldo – “Thank You For Sending Me An Angel”

A do Byrds (“Everybody’s Been Burned”) eu não achei no YouTube. Mas será que rola alguma do Sonic Youth?

Mostra Prata da Casa: A maturidade do rap paulistano

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E a última noite da Mostra Prata da Casa teve duas novas autoridades do hip hop de São Paulo: o trio Elo da Corrente, que chamou crianças para dividir o palco com eles, e o avassalador Rodrigo Ogi, que fez todo mundo cantar os refrões de suas crônicas, veja nos vídeos abaixo. Os shows foram demais e quem foi a qualquer dia da Mostra sabe como ela foi legal. Semanaça!

 

Mostra Prata da Casa: Ogi e Elo da Corrente

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Hoje é o último dia da Mostra Prata da Casa do Sesc Pompéia reunindo as melhores apresentações do projeto do Sesc Pompéia no ano passado, quando fui o curador do evento. A última noite reúne dois jovens mestres do novo hip hop paulistano: Ogi e Elo da Corrente representam a partir das 19h (mais cedo porque é domingo, afinal), com ingressos a R$ 8,00. Abaixo, o texto que escrevi sobre os dois artistas de hoje para o catálogo da mostra:

A maturidade do rap paulistano

Os shows de hip hop do Prata da Casa em 2012 foram marcados por duas características: a superlotação e as participações especiais. Como é sintomático do rap paulistano, nenhuma apresentação teve menos do que a metade da lotação da casa e as duas principais noites de rap durante o ano no Sesc Pompéia contaram com a presença massiva do público. Ogi foi o primeiro a apresentar-se na edição 2012 do projeto, em fevereiro, mostrando seu festejado CD Crônicas da Cidade Cinza, lançado no fim do ano anterior, e chamou os comparsas Henrick Fuentes, James Ventura e Rodrigo Brandão para ajudar a descrever as diferentes facetas dos coadjuvantes, protagonistas e figurantes da cidade de São Paulo, tema de seu novo disco. Já o trio Elo da Corrente, formado pelos MCs Caio, Pitzan e pelo DJ PG, recebeu o mano Doncezão para ajudá-los a rimar sobre bases e versos criados a partir de pesquisas musicais na história da música popular brasileira, no início de junho do ano passado, numa noite que, mesmo com forte chuva, não foi o suficiente para impedir que o público viesse em peso. Em ambas as noites, longas conversas e bases precisas tornavam o diálogo entre o palco e a platéia quase uníssono e a função dos artistas estava mais para dominar o delírio rítmico imposto à casa do que propriamente liderar ou chamar atenção. Público, DJs e MCs em plena sintonia, as duas apresentações mostraram que o rap paulistano não só já chegou à sua maturidade como só atingiu este nível graças ao amadurecimento também de seu público.